Ganância, paixão, amor… as pessoas se prendem a coisas tão subjetivas quanto se pode imaginar, suas motivações e anseios as transformam em heróis ou monstros de suas próprias histórias.
Me pergunto se há uma razão maior por detrás desses acontecimentos… se meu mote foi fiel aos meus princípios enraizados, ou se me desviei de meu caminho…
A história começa em agosto de 1996, eu conheci o amor de minha vida naquele mês, não me lembro exatamente do dia, mas talvez fosse o dia 15.
O nome dela era Clarice… oh, uma bela moça de grossos lábios marrons, enamoramo-nos assim que nos conhecemos.
Em abril de 2003, tivemos nossa primeira filha, Raquel, uma garota doce e gentil que foi por muito tempo a razão maior de minha existência.
Em 2009, mais um filho, Maurício, um rapaz enérgico e bem agitado, era o motor da casa, nos fazia sair de nossas letargicas sinfonias e bagunçava a casa como um toque de rock em uma música clássica.
Vivíamos bem até o ano de 2012, em que descobri uma condição rara na minha esposa: uma doença genética que passaria para nossos filhos, eles dificilmente chegariam aos 40 anos…
O medo de perder tudo que construí até aqui bateu em mim, me sentia sufocado pelo próprio destino, que tipo de Deus era aquele? Dá com uma mão e tira com a outra? Implorei para que minha saúde se esvaisse, pois queria ir junto com eles.
Mas no fundo sabia que não iria acontecer, já se passaram 375 anos desde que nasci, mas minha juventude não se esvaia, me mantive longe de relacionamentos por toda minha vida, pois sabia que sofreria no fim…
Acabou que me rendi ao inevitável, me apaixonei, tive filhos, mas as malditas areias do tempo estavam levando-os embora, mal mal se passara duas décadas, e eu já iria perdê-los.
Isso era inaceitável, tentei me matar de diversas formas, mas meu corpo sempre se regenerava, sempre voltava ao status original.
Ó sofrimento, ó isolamento, ó terror, ó frustração, estaria eu condenado a viver um mundo em que não poderia amar ninguém?
Não… ainda tinha um jeito…
Fevereiro de 2026, os últimos batimentos de minha esposa foram registrados no equipamento, então levei seu corpo para casa, para o velório.
Juntei Maurício e Raquel na mesa de almoço, como esperado, a droga do sono os fizeram dormir assim que ingeriram da comida.
Amarrei-os no porão enquanto desmembrava o corpo de Clarice, já sem vida, ela agora fazia parte de mim, estamos unidos, pois costurei-a em meu corpo, sua cabeça presa por fios em meu pescoço, suas pernas eu as coloquei na barriga, e seus braços nas minhas costas.
Maurício e Raquel se assustaram quando me viram, mas pouco podiam fazer, estavam amordaçados…
Desculpe meus filhos, mas é para seu próprio bem… vocês agora viverão para sempre…
Enquanto escrevo essa carta, posso ouvir os seus choros, a cabeça de cada um costurada aos meus ombros, um dia eles se acostumam, vão viver comigo, seu amado papai…
