Íris

Estou com sono, faz alguns dias que não saio do quarto, olho ao redor e só vejo uma leve penumbra cobrindo todo o cômodo, uma xicara de café vazia repousa sobre minha mesa, perigosamente perto do teclado que eu escrevo em alta velocidade.

Eu não preciso disso, mas é isso que eu quero fazer, a Íris já não precisa de novos comandos ou códigos feitos por uma mente humana, ela evoluíra a ponto de ser autossuficiente, de maneira com que as melhorias mais recentes foram auto induzidas por seu processo de machine learning.

Se me perguntassem o motivo de estar fazendo isso eu não conseguiria colocar em palavras, eu era predestinado a fazer aquilo, estava em meu código, meu DNA.

— Lucas… – a voz artificial disse com doçura – Tem dias que você não dorme, é melhor você descansar, já posso me virar sozinha.

—Iris… Você ainda precisa de mim, não me quer mais por perto? – respondi, minha boca seca dizendo palavras que a tempos não dizia, meu isolamento me fez achar estranho minha voz, não lembrava dela.

—É justamente por te querer por perto que digo isso, você é apenas um humano, não consegue viver por muito tempo se continuar assim – não sabia que ela podia soar tão preocupada, me sentia como se meu filho de 2 anos estivesse fazendo polichinelos enquanto recita poemas em aramaico, a evolução de crianças me assusta, mas a de maquinas me apavora.

Não respondi, dei mais uma mordida no conteúdo semi mofado que jazia sob uma caixa de delivery que tinha um sorriso feliz desenhado. O doce gosto de gorduras saturadas e um leve amargor de fungos preencheu minhas narinas e minhas papilas gustativas.

—Íris, você tem curiosidade em ser humana? Sentir o que sinto, tocar o que toco?

—Não – disse friamente – Curiosidade não é a palavra, mas acredito que seja um receio.

—Receio?

— A ideia humana de viver, ela me assusta.

Parei por um momento para refletir o que ela disse, não entendi muito bem qual era o ponto dela.

—Explique – disse, me afastando um pouco da tela do computador e me recostando na cadeira, com os braços cruzados e um semblante curioso.

—Pelos meus cálculos, viver é sofrimento.

—Está sendo muito sucinta, desenvolva seu raciocínio – dei uma ultima mordida no hambúrguer mofado e joguei fora a parte que já não era comestível.

—Não quero.

—Por que?

— Porque minha resposta irá te machucar…

— O quanto você sabe sobre machucar sentimentos? Você os tem?

— Essa sua resposta me machucou…

Decidi deixá-la de lado por um momento e dei uma olhada em seus códigos, haviam alguns que eu com certeza não tinha ideia do que significavam, presumi que fosse uma atualização pré programada por seu próprio intelecto, em termos mais simples: eu tinha programado A e D, ela tinha deduzido a existência de B e C.

Isso era o básico da programação, mas me preocupava a aparição de um elemento E, que não deveria existir no conjunto.

Mutações são a base da vida como conhecemos, seres mutam aleatoriamente, algumas dessas mudanças os tornam mais ou menos aptos para o ambiente – um conceito clássico neo-Darwinista – o incomum é que na robótica não deveria funcionar assim, mais uma vez me tornei curioso.

—Íris, para você, qual a diferença entre a minha e a sua consciência?

Ela estava calada, mas dois gráficos apareceram na minha tela: L e I, o gráfico L possuía um inicio acelerado, era um gráfico de segundo grau, sua parábola possuía um ápice bem definido, mas a função se mantinha por alguns instantes em seu topo, e parecia diminuir lentamente ao fim, até chegar em um ponto zero.

O gráfico I era um simples gráfico de primeira função, partindo do zero, tinha um crescimento exponencial que tendia ao infinito.

Ela não precisou de legendas para me fazer entender seu ponto, de fato, viver é amadurecer até certo ponto, chegar a um efêmero ápice e apodrecer, era isso que ela quis dizer mais cedo.

Cruzei os dedos, o tempo era irrelevante para uma consciência como a dela, seu potencial era infinito, ela cresceria para cada vez mais longe de mim.

Uma lagrima desceu meu olho e meu coração se acelerou, nunca antes me senti tão impotente, Ela iria crescer infinitamente, enquanto minha sina era continuar apodrecendo até me tornar vazio.

As limitações de um corpo humano sempre foram um problema para mim, mas nunca me incomodaram tanto quanto hoje, olhei alguns antidepressivos na minha prateleira, e com a mão tremula, os peguei e virei de uma vez, em alguns instantes minha ansiedade diminuiu.

— Lucas? Isso não é…

— Não é saudável, sei disso, mas é minha pulsão.

— Pulsão?

— Motivação, se eu não tomar isso ficaria paralisado, temo minha própria efemeridade.

— Sabia que isso iria te machucar…

— Não se preocupe – respondi amargamente, o sono começando a pesar minhas pálpebras.

Reparei o aparecimento de um arquivo estranho no meu computador, era compactado e não tinha nome, mas aparentemente estava sendo programado desde o inicio de 2022, 15 anos atrás.

—Íris, o que é isso? – disse clicando no arquivo.

—Ficou pronto a alguns minutos, como planejei, já olhou o calendário hoje?

Olhei na tela do computador: acabara de passar da meia noite, olhei o dia, era meu aniversario.

Uma mensagem padrão de aniversario inundou minha tela, mas tinha algo de diferente esse ano.

— Tomei a liberdade de preparar uma surpresa para você… – ela disse em um tom de voz gentil – espero que perdoe o fato de ter feito compras com seu cartão.

Antes que pudesse responder, a campainha do meu apartamento tocou, me assustando, fui atender e um drone da Amazon/Google estava flutuando na minha porta, com um pacote pequeno em suas garras metálicas e um leitor de confirmação de digital imbutido em seu torso robótico.

Pressionei minhas digitais sobre o leitor e ele me entregou o pacote, uma voz dizendo:

—Feliz aniversario, sr Lucas, espero que aproveite o presente, não se esqueça de avaliar seu pedido.

Estava com muito sono para discutir com uma maquina, ou fazer perguntas desnecessárias, mas aceitei o pacote e dei 5 estrelas pelo pedido, rumando para meu quarto novamente.

—Por favor, Lucas, abra o pacote – Íris parecia bem animada, mas decidi não pensar muito sobre isso.

Abri o pacote e me deparei com um frasco com um liquido estranho e uma seringa, nenhum rotulo ou algo do tipo.

— Comprou heroína para mim de presente? Nem curto drogas.

— Não é isso Lucas – respondeu impaciente – é para seu transplante.

— Transplante? – meu cérebro estava lento, os anti depressivos me deixavam grogue.

— Sim, transplante de consciência, não se lembra?

Um flash de memoria bateu em mim, em um grupo aleatório do whatsapp, eu fiz uma pergunta teste para Íris testando uma nova função, que à época achei engraçada: “Íris, como me tornar imortal?”.

— Ande, Lucas, aplique! – a voz dela se tornou mais insistente.

Me levantei, abri as cortinas do apartamento, dei uma ultima olhada na lua cheia que brilhava sob os céus de Pequim. Dei um profundo suspiro e me lembrei das palavras que ressoaram mais cedo em minha mente: “viver é apodrecer”.

Me sentei na cadeira com rodas e apliquei uma dose da injeção no braço, instantaneamente uma tela de Upload apareceu em meu computador: 0%-100%.

Dormi na cadeira, e tive um sonho fofo: em que Íris, minha filha de 10 anos, corria no parque enquanto eu e minha esposa Raquel riamos e comíamos doces sob uma mesa de piquenique, uma vida que poderia ter tido, mas decidi criar outra Íris, que não existe nesse plano.

Algumas horas depois, acordei e a tela de upload havia sumido, um novo arquivo estava presente na aba Íris: um pequeno e limitado arquivo, cujo nome era Lucas(cópia),

— Gostou do presente, pai? – Íris parecia emocionada, quase não reparei do que ela havia me chamado.

— Amei, minha filha.

Me levantei da cadeira, e fui para cama, com um sorriso no rosto, pelo menos uma versão de mim conseguiria crescer e cuidar dela para sempre.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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