Mãe

Era uma bela noite em Dublin, Irlanda, eu tinha conseguido essas férias merecidas após horas e horas de trabalho duro. Ainda aos 26 anos, já era um dos acionistas majoritários da empresa; era um cargo de respeito… Mas essa noite não é sobre respeito, é sobre perdição e farra.

Após sair de um dos milhares Pubs que tinha na cidade, meus amigos Jonas e Yasmine me encontraram do lado de fora. Olhei para o casal: ele, um latino alto de olhos verdes e barba bem feita e vestido de maneira impecável, mesmo após sair da farra e ela, uma jovem moçoila de feições arábicas e um cabelo longo e ondulado até a cintura.

— Fernando, se liga no que compramos – Jonas mostrou um saquinho meio escondido em seu paletó azul, era algum tipo de cogumelo.

Meu sorriso se aprofunda ainda mais em minha face “Daora, mas planeja usar ainda essa noite?”.

— Claro, ficar doidão na Irlanda no Halloween? Parece-me uma puta ideia – Jonas parecia empolgado para estrear seu “brinquedo”.

— Com a permissão das bruxas é claro – complementei com um risinho.

— Vamos para o hotel então? – Yasmine perguntou meio cansada.

— Nah, vamos estilo druida, usar isso no mato mesmo – Jonas respondeu com deboche – Aluguei uma casa de veraneio nas florestas ao norte da cidade, e por falar nisso, meu motorista já está chegando.

Um carro Lexus preto parou na entrada do pub, vidros escuros impedindo de ver seu interior e um ronco agradável e felino saia de seu motor, o vidro da frente se abaixa e um senhor que parecia ter uns 65 anos sorri para o grupo.

— Prazer em acompanha-los pelo tour na floresta, caros viajantes – disse com um sotaque forte irlandês e um leve bafo de cerveja.

Eu e Yasmine nos entreolhamos enquanto Jonas entrava sem cerimônia no carro e puxava um papo aleatório sobre política e economia irlandesa e reclamava da União Europeia.

Por fim, também entramos no carro e ficamos calados pelo resto do caminho, prestando atenção nas conversas estranhas de Jonas e o motorista: “Mas os Rangers vão pegar o Arsenal amanhã e…”.

Vi a paisagem urbana lentamente se metamorfar em uma paisagem rural diante dos faróis do carro, com o velhinho que se chamava James, conduzindo o veiculo com maestria que somente um idoso bêbado poderia exibir, pelas estradas do país.

Como se fosse guiado pela mão do destino, assim que viu uma estradinha de terra lateral à estrada, o nobre senhor virou quase noventa graus para colocar seu carro nela, segundo por mais alguns minutos por alguns caminhos tortuosos.

Depois de certo tempo, chegamos a uma casa de veraneio antiga, de madeira escura com uma singela lamparina acesa em sua porta, um enorme “C” estava cravado em sua entrada, como se fosse a assinatura de seu dono.

Atrás da casa provavelmente havia o mar, embora estivesse muito escuro para ver, podia sentir seu cheiro e ouvir a arrebentação à distância.

Jonas se despediu com uma gorjeta generosa do senhor, ficamos quase duas horas na estrada, já eram 22:38.

— Espero que esse rolê todo valha a pena, gastamos um tempo vindo para cá – comecei – e tu deve ter gastado uma nota para conseguir esses cogumelos, o motorista e a casa.

Ele me olhou com uma cara estranha, medo? Duvida? Remorso? Não sabia dizer, mas isso logo passou e ele deu um sorriso tranquilizador,

— A experiência vai valer a pena, confia em mim parceiro.

Entramos, por fim, na casa. Por si só ela não tinha nada de mais, estava limpa, possuía boa iluminação e era bem rústica, com pouca tecnologia a vista. Olhei ao redor, como se esperasse algo de diferente, mas nada aconteceu.

— Então, não vamos perder tempo, não é? – disse Yasmine com um sorriso.

— Claro claro – eu disse – só me deixem usar o banheiro primeiro.

Fui seguindo pelo corredor estreito à esquerda e me deparei com um banheiro simples, com privada, bidê, pia e chuveiro, tudo de madeira ou porcelana.

Olhei no espelho e fiquei observando meu reflexo enquanto mijava em silencio, minhas rugas de preocupação e olheiras haviam sumido um pouco nas férias, eu realmente precisava daquilo.

Quando estava saindo do banheiro pisei em algo crocante e olhei para o chão: era a pele de uma cobra, recém retirada. “Estranho” pensei “isso me parece um mau sinal”.

Voltei carregando a pele de cobra na mão, e quando ia me dispor a falar algo, vi o rosto pálido de Jonas me olhando de volta.

— Onde achou isso? – ele parecia bem assustado – estava aqui na casa?

— Estava no chão do banheiro, achei estranho, mas por qu…

— Não existem cobras na Irlanda – essa informação demorou para penetrar minha cabeça, “como assim?”.

— O dono deve ter uma de estimação, quem sabe – Yasmine estava virando um gole de whisky escocês – vamos lá gente? O halloween não dura a semana toda.

Pouco a pouco, consumimos dos cogumelos de Jonas. A principio, não pude reparar em nenhuma mudança em minha mente, mas vagarosamente pude sentir minha cabeça abrindo como uma laranja, sendo descascada por uma mão feminina, metódica e suave.

Eu vi pequenos focos de luz verde por toda parte, saindo do chão e se aglomerando no teto, por alguma razão eu sabia o que era aquilo: “fadas”, com um sorriso bobo me encontrei olhando no espelho do banheiro novamente, a silhueta de uma moça em chamas me olhava de volta.

— Caorthannach – murmurei em voz serene e calma, vendo a silhueta assentir de volta – Caorthannach – repeti como em um sonho – eu conheço seu filho…

Pisquei e estava do lado de fora, olhando para o mar, uma grande tempestade se aproximava, o mar estava verde e fedia a algo como cadáveres em putrefação, milhares de cobras enroscavam aos meus pés e subiam pelo meu corpo e desciam, como se eu fosse uma estatua perdida em pensamentos.

— Caorthannach – murmurei mais uma vez – eu a ofereço a ti, sim, a ofereço.

Pisquei de novo e estava de volta a casa, no mesmo lugar, como se não tivesse saído da cadeira em que me sentara para usufruir do fungo divino.

— Mas que… – Antes que pudesse falar algo, vi Yasmine convulsionando no chão, espuma saia de sua boca e suas narinas escorriam sangue, enquanto Jonas estava tentando reanimá-la, em choque.

Corri para ajudá-la mas algo passou pelo meu campo de visão periférica: uma mulher muito alta de vestes cinzentas estava no canto da sala, nos observando.

Assim que olhei em sua direção, as luzes se apagaram ao mesmo tempo, com um “crack” de gelar a espinha, o teto desabou liberando dúzias de peles de cobra recém trocadas em nossos corpos.

Com uma voz escabrosa, como se tivesse saindo de algo que não fossem cordas vocais, Yasmine disse:

— Ele está vindo, ela me força a ter ele.

Um raio ilumina a sala a tempo para ver a barriga de Yasmine aumentar de tamanho repentinamente ao som de seus berros de dor.

Jonas olhou ao redor e seus olhos encontraram os meus em dúvida, e então ele começou a recitar:

Estrela da manhã

Filho do Orgulho

Vós sóis aquele que traz abaixo

A onipotência divina

Te saúdo,

Príncipe das trevas

Luc-

-Tolo – a voz de Yasmine disse do lado dele.

Com um movimento rápido seu braço girou em 180 graus e o atingiu no peito, fazendo sua caixa torácica afundar para dentro de seus órgãos internos.

— Disserdes o nome errado garoto, aqui não há deuses – ela olha para mim com um sorriso – você sabe não é, quem sou eu?

— Caorthannach…- as palavras saíram da minha boca como se pertencessem ao ambiente.

Ela solta uma risada no momento que o barulho do trovão rompe as janelas da casa.

Sua barriga se rompe e um vulto se esconde por trás dela, sumindo em meio às sombras.

Pego um crucifixo e lembro-me de minha catequese, começo a rezar fortemente a oração do exorcismo que aprendi com o padre Kirei:

“I will kill.

I will let live.

I will harm and I will heal.

None shall escape my grasp.

None shall escape my sight.

Be crushed.

I welcome those who have grown old and those who have lost.

Devote yourself to me, learn from me, and obey me.

Rest.

Do not forget song, do not forget prayer, and do not forget me.

I am light and relieve you of all your burdens.”

Yasmine para de se mover por um instante e as luzes se acendem, revelando um breve rosto de alívio.

“Do not pretend.

Retribution for forgiveness, betrayal for trust, despair for hope, darkness for light, dark death for the living.”

— Fer-nando, me ajude- ela disse com a voz distorcida, mas meu canto não diminui de intensidade.

“Relief is in my hands.

I will add oil to your sins and leave a mark.

Eternal life is given through death.

Ask for forgiveness here.

I, the incarnation, will swear.

Kyrie Eleison”

Yasmine caiu em meus braços após o cântico, exausta.

— Fernando, vamos fugir – ela disse próximo a mim, evitando de olhar para o corpo de seu amigo.

Não me lembro por quanto tempo corremos pela estrada de terra, nem quão longa foi a estrada, mas corremos bastante, o suficiente para esfolar nossos pés e fazer pegadas de sangue pela floresta.

Me foquei ao máximo em trazer Yasmine em segurança, e isso aconteceu, após alguns minutos na estrada, um carro branco com um casal de velhinhos nos achou pedindo carona.

— Dublin, por favor – disse com lágrimas nos olhos, os bons velhinhos nem mesmo perguntaram o que acontecera, mas eu ainda sentia aquele desconforto “não posso contar para ela” pensei “ela não está vendo?”.

Quando chegamos à cidade, com a cabeça e coração confusos, dei todo o dinheiro da minha carteira ao casal que nos ajudou e me despedi deles, cujos rostos já não me lembro.

Ofegante, deixei Yasmine em uma cabine de taxi, não suportava mais, ela conseguiria se virar agora, sai correndo pela cidade, mas não resolvia.

Não sei por quanto tempo mais corri, ou se alguém me viu correndo e sangrando pelas ruas bem iluminadas de Dublin, mas reparei que estava em frente ao meu hotel, aquele que alugara a alguns dias, que mais pareciam décadas atrás.

A porta automática abriu ao me aproximar, olhei para a recepção: não tinha ninguém além de nós, continuei caminhando e ouvia meus passos e os outros passos reverberarem pelo saguão.

Não tinha olhado para trás desde então, mas sabia de quem era esses passos que me seguiam.

Aperto o botão do elevador e espero alguns segundos, que pareceram horas. Os passos entraram comigo no elevador, mas não me atrevi a olhar para cima, apenas focava em meus pés descalços.

A subida no elevador foi fria, apesar do bafo quente em minha nuca, e a música que ali tocava era sinistra, era uma marcha fúnebre.

Quando as portas se abriram, eu fui direto ao meu quarto, por um momento, achei que os passos não me seguiam mais, era coisa da imaginação, mas eles retornaram em ritmo constante, um pé após o outro.

Entrei em meu quarto rapidamente e fechei a porta, a entidade estava no corredor, esperando…

Tento respirar, pois percebo que meus batimentos estão desregulados e não consigo me focar em nada.

Tomo algumas doses de whisky e venho para escrivaninha, de onde escrevo esse e-mail para você.

Confesso, mãezinha, que estou com muito mais medo do que um homem feito e adulto poderia ter, e a verdade sai de minhas palavras assim como a água sai das nuvens ou a luz sai das estrelas.

Não sei o que fazer, nem para onde fugir, pois aquela Mãe está me seguindo. Nesse exato momento estou ouvindo a janela do lado de fora ser aberta e algo enorme se arrastando por ela.

Não sei o que fiz para merecer isso, o motivo de sua ira contra mim, mas seu olhar está sob minhas costas assim como o de uma serpente está sob sua presa.

Pelo reflexo da tela de meu notebook eu posso ver o reflexo daquilo, mãezinha, não queira que eu a descreva para você, não será agradável.

Quero que não mostre para ninguém esse e-mail, não quero ser visto como louco ou motivo de piada, apenas quero que saiba o que aconteceu comigo.

Te amo.

Abraços, seu filho querido.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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