Olhos Verdes na Escuridão

Nunca pensei que diria isso, mas estou com medo de morrer… Desde que ELA apareceu nos meus sonhos há algumas semanas, sinto tremeliques toda vez que sua face cruza pela minha memória: linda, como a ultima vez que eu a vi antes de sua morte, mas nela havia um quê de irreal: seus olhos verdes, antes brilhantes de amor por mim eram vazios e pareciam sugar tudo em volta.

    Olho para a garrafa de Jack Daniels quase vazia sobre minha mesa e as sete bitucas de cigarro no cinzeiro… Passaram-se duas horas em que eu estava remoendo sua presença antes de dormir, talvez era melhor eu relaxar um pouco.

    No banheiro, retiro minha roupa e me olho no espelho, o corpo bem cuidado e vaidoso de antes havia se tornado em um retrato da minha decadência: meus cabelos negros estavam se tornando brancos e minha pele antes perfeita estava repleta de rugas…

    Reparo em um amontoado de cabelos loiros no ralo do banheiro e tenho um arrepio, meu coração se acelera, eu morava sozinho, Madeleine havia se partido há muito tempo, e eu já fui solto e inocentado, alguém estava me pregando uma peça.

    Com a mão, retiro o excesso de cabelo do ralo e ligo o chuveiro, fechando os olhos e tentando me acalmar enquanto começo a tremer e minha mente começa a se lembrar de uma noite fatídica há vinte anos atrás, cacos de vidro quebrados, discussões em voz alta, um excesso de fúria e embriaguez, e o azedo sabor do desespero.

     “Feminicidio” minha mente forma essas palavras com sangue que escorria no banheiro, o mesmo sangue que escorreu pelo ralo há vinte anos atrás.

      Abro os olhos e olho para cima “perdão Madeleine, eu…” não sabia o que dizer, foi, de fato minha culpa…

Olho para minhas mãos nuas e vejo a água escorrendo entre elas, um brilho verde me chama atenção:

       Estava no ralo, algo estava lá, estreito os olhos e tento enxergar o que se mexia na escuridão, um par de olhos verdes sem vida me olham de volta e eu sorrio.

-Você voltou para mim Madeleine…

    Me agacho e me aproximo do ralo, olho no olho de minha amada que estava do outro lado, uma lagrima escorre de meu olho direito e cai no dela.

-Madeleine, por favor…- eu suspiro- faça o que deve ser feito.

    Houve um barulho de estática por alguns segundos quando vi seu rosto pálido, belo e sem vida assentir no meio da escuridão, dois braços esqueléticos me agarraram por trás, mas não olhei para ver o que é.

-Me perdoe Madeleine, eu te amo…

    A visão se foi, juntamente com o abraço apertado, sinto uma dor lancinante no meu peito esquerdo, e finalmente o vazio me enlaça, vou estar junto DELA.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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