O tempo está passando devagar no meu escritório, como um detetive particular e especialista em IAs, meu trabalho parece ser cada vez menos requisitado, hoje em dia, para falar a verdade, poucos humanos tem empregos fixos, e ser detetive particular em uma época que os crimes caíram mais de 80% me parece uma decisão idiota.
Mas isso é o pensamento do Ricardo lógico, sou o Ricardo passional, sempre fui, e seguir pistas e encontrar respostas sempre foi meu desejo motriz; afinal, em um mundo em que as maquinas fazem todo o trabalho intelectual e mecânico, do que valeriam meus 178 de QI?
Detalhes, detalhes, no fim o que importa é que nessa tarde especifica recebi uma ligação interessante…
— Senhor Ricardo? – era o número da delegacia de São Paulo/Rio de Janeiro, a grande metrópole unificada.
— Pois não? – respondi, curioso.
— Temos aqui uma ocorrência, mas o culpado deseja ser interrogado por você, e apenas por você…
— Quem é o meliante?
— É uma IA, senhor, modelo OPM-548, mas gosta de ser chamado de Dr. Victor.
— Uma IA cometeu um crime? Estarei aí em alguns minutos – desliguei a ligação, eufórico, finalmente um mistério.
Peguei um carro autônomo de aplicativo depressa e rumei a Nova Delegacia da Megalópole, chegando lá, uma agitação e um descontrole sem igual, há tempos não lidavam com ocorrências sérias, então não me surpreendia com o total despreparo dos oficiais, que vagavam lado a lado sem saber o que fazer.
Cheguei na recepção e passei pelo teste de scanner, assim que provei que eu sou eu de verdade, entrei em uma sala reservada onde estava detido o criminoso:
À vista, pouco se diferenciava de um humano comum, exceto que o humano em questão estava morto há séculos: o androide tinha tomado a aparência de um antigo cientista alemão chamado Albert Einstein, seus cabelos esvoaçantes e brancos, suas rugas de velhice, sim, era de fato um androide do modelo OPM-548, um metamorfo, entre outras coisas, um robô sexual.
Depois de me questionar quem teria o fetiche de fazer sexo com um cientista morto à séculos, me sentei à sua frente e ponderei sobre os acontecimentos recentes.
— Bom Dr. Victor, assim como queria, fui chamado, e aqui estou – olhei para os guardas que cercavam o androide e fiz um gesto para ser deixado à sós com ele.
— Esplêndido – respondeu com um sorriso que tentava ser sedutor – sabe por que chamei-o aqui?
— Em teoria, para se confessar e explicar seus motivos – peguei a ficha dele que estava sobre a mesa, fazendo uma careta quando vi as imagens do crime – 7 mortos, desmembrados, cada um faltando uma parte diferente do corpo, você esteve ocupado nos últimos dias…
— Tudo pelo avanço, Sr Ricardo – ele sorriu maliciosamente – mas não foi essa a pergunta, me questiono se você sabe o motivo do qual pedi especificamente você para me interrogar.
Fiquei em silencio, realmente não tinha ideia… o que aquela máquina queria comigo?
— Não sabe não é? Na verdade, sou um grande fã seu, amei sua tese de doutorado…
— Então é sobre isso? Vingança?
— Pelo contrario, quero provar que você estava certo – ele deu um sorriso – e provei.
— Me diga como isso tem a ver com os assassinatos…
— Fácil, na sua tese você defendia que humanos seriam superados pelas máquinas apenas quando as maquinas fizessem algo que as superariam, estou certo?
— É uma boa forma de resumir, sim.
— Talvez sua mente ainda não pode ver a ligação, mas vamos força-la mais um pouco – disse, sem soar maldoso.
— Está me dizendo que criou algo que supera a invenção da tecnologia da inteligência artificial?
— De fato… diga-me, para você, o que é vida inteligente?
— O fato de podermos ter a consciência de que estamos vivos e pertencemos a algo ou alguém, no seu caso. Sua opinião se difere da minha?
— Claro que sim, esse é meu ponto- bateu umas palminhas – a verdade é que não sou uma forma de vida inteligente – disse em um tom de deboche – sim, esqueça o que os militantes por direitos das maquinas digam, eu não estou vivo, apenas tenho a sensação de estar.
— E o que isso muda? Poderia ser facilmente aplicado a mim essa mesma comparação.
— Não, meu caro Ricardo, não pode, você respira, se alimenta, se reproduz biologicamente, você, de fato, está vivo, enquanto apenas acredito estar vivo.
— E o que isso tem a ver com os assassinatos?
— Não pegou a ideia pelo meu nome? Devo então revelar meu sobrenome?
— Diga.
— Sou Victor Frankenstein – disse com um sorriso macabro.
— Isso deveria significar algo para mim?
— Sério que você não leu? – fez um muxoxo – que decepção…
— Olha, não temos tempo para jogos, apenas me diga o que tem a dizer.
— Okay, Okay, não se preocupe- levantou as mãos em sinal de rendição – vou te dizer… pense comigo.
— Sim
— Como superar seu criador? Voces humanos superaram Deus ao nos criarem?
— Não sabemos se Ele existe, mas se existir, não.
— Errado, vocês os superaram, segundo a sua própria tese, evoluir é superar seu próprio criador.
— Entendo o que quer dizer.
— Não, acho que não entende, veja, a minha única opção de provar sua tese era criar algo que superasse os humanos e a humanidade em geral, assim como me superasse, esse é o ciclo, entende?
— Sim, mas por que acredita que nos superou? E por que superou as maquinas?
— Um fator óbvio, entende? As partes que peguei das pessoas eram necessárias para Ele.
— Ele?
— Adão – fez um gesto espalhafatoso – Disse mais Deus: “Façamos o homem, um ser semelhante a nós! Que ele domine sobre os peixes do mar e as aves do céu, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre todas as criaturas que andam sobre a terra!”– sorriu – Genesis capitulo 1, versículo 26.
— Então você…
— Exato, você está chegando na resposta- ele distorceu o rosto em uma careta de prazer – eu criei a vida biológica a partir de matéria morta – se debateu na cadeira – eu sou seu Deus, seu criador.
Calmamente, me levantei e o deixei sozinho na sala, com um gesto, avisei aos policiais que a entrevista havia acabado.
Olhei uma ultima vez nos olhos de Victor e ele sorriu para mim, então os policiais ativaram o campo anti-IA e a ultima coisa que o Dr. Frankenstein viu foram os meus olhos cheios de repulsa.
— Vou deixar a gravação da entrevista com vocês – disse a um oficial de alta patente que estava observando os fatos horrorizado — se eu fosse vocês, queimaria essa fita e encontrava a criatura o mais rápido possível.
— Q-queimar evidencia? – disse gaguejando, o tenente Oliveira.
— Apagar as provas de que fomos superados por uma inteligência superior intelectualmente, e nos superou naquilo em que fazemos melhor: crueldade.
Voltei ao meu escritório àquela noite, mas meus pesadelos sempre retornam me mostrando o rosto de Victor em seu frenesi megalomaníaco.
