Não é agradável ter paralisia noturna…
Esta era a sétima que eu tive esse ano, sentia mãos me agarrando por toda parte, uma pressão enorme em meu peito.
Embora eu pudesse abrir os olhos, não o faria, tinha medo do que pudesse ver, apenas implorava aos céus que passasse logo meu tormento.
E ele não passava, fiquei por vários minutos me contorcendo em agonia enquanto as mãos sombrias apalpavam todo meu corpo, ouvi passos do lado de fora do meu quarto, aparentemente alguém ia me salvar.
Minha mãe bate a porta três vezes, escuto risadinhas agudas em meu ouvido, junto com um hálito desagradável de enxofre e salitre.
— Jonas, você tá bem? Parece estar resmungando algo, vou abrir a porta.
Escuto os passos dela entrando no meu quarto e ela me balança algumas vezes.
— Jonas, Jonas!!
Ela parece desistir de me acordar por uns instantes, recuando com cautela.
Meus olhos, ainda fechados, percebem as luzes se apagando.
— Bom, vou te deixar dormir, ontem foi bem cansativo.
Ouço os passos se afastando e virando o corredor.
” Volta, por favor, me ajude” tento gritar mas nada sai da minha boca.” Mãe, mãe, me ajude”.
Sinto algo agarrando meu pé, algo gosmento…
No susto, abro os olhos e vejo o que estava causando a pressão em meu peito:
Um homenzinho franzino, pele vermelha e coberta de pelos estava agachado em meu peito, de costas. Sua cabeça era exageradamente desproporcional ao seu corpo,tombando seu frágil pescocinho de lado, como se tivesse-o quebrado.
Deixo escapar um berro abafado e ele se empertiga. Por um momento, acreditei que ele fosse olhar para trás e conferir o que ocorrera, mas não foi o que aconteceu: seu pescoço tombado de lado girou em 120° para mim, fazendo barulho de ossos se quebrando e carne rasgando.
Vi seu rosto: era o rosto deformado, com olhos derretidos e lânguidos chorando lágrimas de crocodilo, sua boca retorcida em um sorriso congelado, dentes pontiagudos amarelos e gengiva inflamada e sangrenta, seu nariz grande o suficiente para preencher 1/3 de sua face.
Sua boca não se abriu quando ele deu aquele berro ensurdecedor, similar a várias hienas em gargalhada. Meus olhos encheram se de lágrimas quando o forte bafo dele passou pelas minhas narinas.
Meu grito não saiu, mas pude sentir a minha pressão caindo, uma das mãos escuras que me agarravam apontou para meu pé.
Com esforço, olhei na direção: uma poça de sangue estava coagulando ao redor das minhas pernas, como se fosse um ser vivo ameboide que me prendia a cama.
Olhei para cima, com o coração apertado, vi que tinha um corpo esmagado no teto, como se uma mão gigante tivesse-o pressionado lentamente até escorrer tudo que tinha dentro.
A esse ponto, não conseguia mais pensar no que estava acontecendo.
E foi esse meu alívio: a minha pressão abaixou tanto que desmaiei.
No dia seguinte, acordei mijado e suado, minha cama encharcada e fedida.
Olhei para o calendario: dia 7 de novembro, eu tinha que me apressar para me aprontar, era o funeral da minha mãe.
