Golpe na Estrada

Fannách voava acima da floresta de Lornwood, embora ele não saiba que floresta era essa. Como tinha recém saído do Mundo das Fadas, não sabia nada da geografia ou cartografia do Mundo Terreno, e na sua bolsa de couro de Üllok das Estepes, trazia suprimentos e alguns artefatos mágicos, mas nenhum mapa.O lar dos Homens não era de todo estranho para ele, afinal, ele nascera alí. 

Decidiu parar um pouco para descansar, suas asas estavam doloridas e sua barriga roncava, era hora de, no mínimo, fazer um lanche.

Sentou-se em uma clareira pequena na floresta e com um encantamento rápido, botou fogo em uma pilha de galhos secos, a única fonte de luz que iluminava o denso ambiente florestal, cuja copa das árvores praticamente impedia a penetração da luz da lua e das estrelas.

Suspirou, estava feliz, sentia o cheiro da natureza, o fluxo de mana estava agradável aquela noite, como se fosse a visão de um mar sem ondas: límpido e translúcido. 

Ouvia o farfalhar das plantas, a respiração dos animais noturnos, e, acima de tudo, sentia-os como parte de si.

A habilidade de ver e redirecionar fluxos de mana era incomum até mesmo para as fadas, mas para um humano? Mais ainda, não existem registros que sustentem que uma pessoa dessas realmente existiu no passado.

Mas Fannách é um humano, ou ao menos era… Para resumir, ele era uma criança verde: fora raptado ainda recém nascido por fadas e foi criado lá, em Avalon.

Ele realmente não ligava para isso, não é como se estivesse destinado a uma vida incrível, as fadas lhe fizeram um favor de deixá-lo determinar seu próprio destino: ele agora decidia o rumo de sua vida. 

Enquanto comia um pãozinho feito de fibra de salgueiro, trigo e mel (chamado Gëllen), ele sentiu um arrepio correr pela sua espinha.

A mana do local, antes sublime e pacífica, agora estava agitada, como se uma tempestade estivesse vindo

Ele olhou para o “mar” translúcido de mana e viu algo borbulhando nele, bolhas da mais profunda escuridão empesteavam o ambiente, e a temperatura do local parecia ter caído o bastante para causar choque térmico em alguns animais.

Ele sabia o que era isso: a Procissão do Rei Esquecido, um lendário grupo de guerreiros liderados por um Rei de um passado distante, cujo nome a história já se perdeu.

Se tornaram folclore no mundo das Fadas, o Rei e sua comitiva eram temidos até pelos lendários heróis e pelos guerreiros mais valentes.

É dito que quando eles aparecem, nada pode impedí-los de conquistar seu objetivo, nem mesmo um deus.

Mas Fannách não era um dos caras mais sensatos no mundo das fadas, assim que se recuperou do 

susto, mostrou um enorme sorriso.

— Vou aloprar eles – uma risadinha passou pelos seus lábios.

Engoliu o resto de seu lanche e levantou voo, procurando a tão famosa comitiva.

Não precisou se esforçar, só seguiu o fluxo de mana corrompido, e lá estava: 12 espectros translúcidos em seus cavalos negros, mais um espectro que cavalgava à frente, com uma coroa de cobre repleta de joias em sua cabeça. 

“Aposto que nem me perceberam”  pensou Fannách com um tom sarcástico “são tão confiantes e cheios de si que não acham que terão conflitos em sua jornada” voou um pouco mais longe, ao céu “sorte que o bom companheiro Fannách está aqui para ajudá-los”.

Fez um pequeno encantamento ilusório, imperceptível a eles, que nem se preocupariam em tentar perceber algo além, e então pousou na frente da comitiva com graça de um nobre estendendo a 

mão para os transeuntes espectrais:

— Alto lá!!! – fez a cara mais séria que pôde e firmou os pés, bloqueando passagem.

O Rei Esquecido levantou a mão para seus oficiais pararem, ele parecia mais intrigado que intimidado “mordeu a isca” pensou Fannách. 

— Quem sóis vós? – a voz do espectro, fria e arrastada ecoou em sua mente.

— Sou o guardião desta floresta – disse, batendo uma continência exagerada – Você tem as credenciais?

Os cavaleiros entreolharam-se por alguns instantes e caíram na gargalhada, mas o Rei continuou com um olhar sério.

— Afaste-se garoto, não ouse interromper meu caminho.

— Sem problemas, só peço que me entregue as credenciais – disse com uma voz mais firme.

O espectro na frente decidiu que não estava mais afim de perder o tempo, e seguiu com seu cavalo na direção de Fannách. 

Mas o cavalo, curiosamente, relincha e se recusa a passar.

— Mas que? – ele olha para o cavalo forjado nas chamas do inferno e percebe que ele está com medo.

Olha novamente para Fannách ( que sorria internamente ao realizar que enfeitiçar os cavalos com uma magia de grau menor havia dado certo).

O antigo rei não sabia, mas na visão de seu cavalo, eles estavam à beira de um precipício.

— Você… como fez isso? – olhou enfurecidamente curioso para Fannách.

— Apenas peço suas credenciais. 

O Rei Esquecido suspira e decide jogar o jogo de Fannách:

— Que seria isso?

— A prova que você existe, tem que ter um documento provando que você existe.

— Ousa dizer que não existo? – o Rei sibila. 

— Sem documento, não tenho como saber.

O rei pensou em simplesmente matar Fannách e continuar caminho, mas algo em suas palavras o fizeram pensar: “preciso provar que existo”.

— Por acaso – disse, contendo sua fúria – como posso achar esse documento.

Fannách quase ri alto quando o Rei disse isso.

— Posso fazer um para você – ele pisca – só preciso de seu nome e uma declaração de alguém que te conheça e testemunhe por você.

Enquanto dizia essas palavras, fez mais um encantamento bem sutil no ar, um de confusão espacial.

O Rei Esquecido ficou em silêncio por alguns instantes enquanto Fannách puxava um papel em branco e entregava a ele.

O espectro olhou por um tempo para o papel, sem saber exatamente o que fazer.

— Pode escrever seu nome – Fannách disse, gentilmente – assine aqui – apontou para um risco no papel – aqui e aqui também.

— Eu… – a voz do espectro ressoou nos seus ouvidos.

— Que foi? Precisa de uma pena para escrever?

— Não lembro meu nome.

Silêncio sepulcral tomou conta da floresta, os próprios cavaleiros espectrais ficaram tensos.

— Então você não existe – suspirou Fannách – tudo que existe tem um nome.

Os cavaleiros se mexeram desconfortáveis, enquanto o Rei se mantinha calado.

— Mas não se preocupe, tenho uma solução para você: precisa achar 50 pessoas que te testemunharam e viram você fazer qualquer coisa, e reunir a assinatura delas.

— Ou eu posso simplesmente matá-lo e fingir que nada aconteceu – Disse o espectro, fazendo os cavaleiros atrás concordarem.

— Claro que pode, mas não vai provar que você existe – disse sem pestanejar – mas tenho uma solução para você, se quiser recorrer, só ir no nosso setor de reclamações à 500 metros a leste – puxou mais um objeto da mochila enquanto fazia um encantamento rápido – só usar essa identificação.

— Se eu fizer isso, você me deixa em paz?

— Obviamente 

O rei olha para o “identificador”: era um simples 

chapéu com uma marcação escrita.

Ele lentamente retira a coroa e entrega para um de seus cavaleiros, vestindo o chapéu.

Vira seu cavalo para leste e segue sem dizer nada.

Ao ver todos eles afastando, rapidamente faz um feitiço para disfarçar sua aparência e levanta voo, parando exatamente no lugar onde disse que o setor estaria.

Antes que chegassem, cria um pequeno balcão feito de vinhas e uma cadeira no meio da floresta, se sentando e colocando um cachimbo na boca.

Alguns minutos depois, a comitiva chega ao local, o Rei com o estúpido chapéu escrito “otário” em linguagem faérica e seus 12 seguidores igualmente idiotas.

— Não precissar dizer nada dotô, meu irmãzinho já me passou o bilete – não sabia por que forçou um sotaque, mas isso não tornava a história menos engraçada.

Deu um trago no cachimbo e pediu para o Rei se aproximar, usando mais um encantamento de confusão, fez o cavaleiro que estava com a coroa entregá-la para seu suserano.

Já estava exausto, usou muitos encantamentos no dia, mas valeria a pena, falta só mais um e ele conseguiria derrotar a Procissão do Rei.

— Toma aqui seu permissón e pode me entregar esta chapé para eu aqui. 

O rei assim o fez, pegou o documento e retirou o que estava na sua cabeça para entregar à Fannách. 

— Prontinha, agorra está provado que o dotô existe. Pode passar.

Sem dizer nada, o rei coloca na cabeça a coroa e segue caminho.

Fannách ri sozinho por um tempo e observa o que roubara do rei. Mas era hora de escapar, uma hora ele vai perceber a troca, e vai vir atrás dele.

Mais a frente, na estrada, muitas testemunhas viram o Rei Esquecido passar com um chapéu escrito em faérico: “otario”.

E mil anos depois, sua coroa de bronze foi encontrada em um barranco, enterrada com uma nota: “favor entregar ao dotô”.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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