Um Reflexo

Eu me deparo com o espelho límpido da sala de estar: vejo um ser levemente conhecido do outro lado. Quem é esse?

De fato, não estou lhes contando uma história sobrenatural, ao invés, eu sei o quão real tudo isso é…, esse sentimento, essa angústia; por que a pessoa que vejo no espelho é sempre diferente? Como diria Heráclito, o ser humano é um Devir, não uma coisa una, mas algo que se tornou, naquele instante, algo que pode ser capturado em imagem e pensamento.

Não vou lhes trazer o dilema do Navio de Teseu, não é meu objetivo neste momento, apenas olho para meu rosto coberto de cansaço e estresse e reflito o que se passou para chegarmos aqui.

Ó, espelho, saiba que nem mesmo tu me mostra o presente, há uma fração ínfima de tempo que separa a imagem que vejo da imagem real. De certa forma, não se pode viver o presente, por isso sempre olho para o futuro enquanto guardo rancores do passado.

Não sei qual a conclusão, introdução ou desenvolvimento de meu devaneio, mas apenas deixe-me seguir falando…, é como uma terapia para mim.

Muitos enlouqueceriam ao pensar de mais, mas as vezes penso se o estado mental mais comum de todos não é, de fato, uma loucura: “Como se pode ignorar tudo o que nos é dado e ofertado? Como se pode ignorar as incontáveis variáveis que nos deixaram neste exato momento? Nesta exata ação?”

Em verdade, afirmo que nosso Devir maior se consiste em escolhas: nos escolhemos a realidade que estamos, somos atraídos por ela. Imagine uma infinitude de linhas sobrepostas em um plano cartesiano, siga-a com seus olhos e de repente uma delas acaba abruptamente. Essa é nossa vida: várias realidades sobrepostas, e o objetivo é criar a linha mais satisfatória possível.

Penso nisso enquanto olho para a barba ridícula que desponta no meu queixo, a teoria do caos parece muito absurda à primeira vista, mas em vista deste referido plano, o plano das possibilidades…, não sei o que pensar, de fato, o que nos governa é o Caos, a entropia, a falta de ordem. Ou será que não?

Talvez sejamos muito pequenos para enxergar, mas a Ordem existe em meio ao Caos, efeitos aparentemente randômicos podem ser a sincronia perfeita para se formar uma pintura bem maior, assim como a queda do primeiro dominó em uma escala micro, pode derrubar um prédio em escala macro.

Os gregos, em seu mito de criação, acreditavam que tudo provinha do Caos, e rumava a ele. Era o deus primordial e inexorável. Dele, os outros deuses nasciam, viviam e morriam em sua imortalidade humana.

Penso nisso enquanto me deito, o reflexo de um homem ainda em formação inunda minha cabeça e mais duvidas surgem…, penso se minha condição de nascença, meus defeitos, minhas qualidades, foram premeditadas por algo maior.

Como se adquire fé? Penso nisso quase todo dia, parece que não nasci com a oportunidade de tê-la, ao mesmo tempo que não temo nem um pouco minha vindoura morte, o que mais me assusta é o vazio que talvez venha depois dela. É somente isso? Uma fraca e efêmera fagulha de consciência que simplesmente existe por acaso? Em meio ao Caos? Não é justo, pensar assim… mas existe realmente justiça? Tremo em pensar no desperdício de potencial de várias fagulhas apagadas, temo ainda mais a visão de meu corpo carcomido por insetos, fungos e vermes, não por que a morte física me dá medo, mas sim por que sei que minha consciência é algo tão belo e único, que deve ser preservado em algum lugar.

Vendo um documentário sobre experiências de quase morte, percebo um padrão: as pessoas sempre dizem ter a percepção de estarem “voltando” para algo maior, algo que podem compreender como uma existência Una, coberta pelo Todo.

Vejo isso como o RUKH, um fluxo infinito de várias almas, uma consciência coletiva talvez? Um refúgio onde nos unimos com as outras consciências pelo universo de maneira metafísica. Uma provável ALAYA? Divago bastante sobre esse tema e uma pesquisa simples no Google, me faz lembrar de algo: em EQMs (experiências de quase morte), o cérebro ao sentir a vida se esvaindo, libera uma substância popularmente conhecida como “medo da morte”, similar à algumas bad trips de drogas como a Ayuhasca. Os sintomas de ambas experiências são bem parecidos e seguem esse padrão:

  • calma, ausência de dor;
  • saída do corpo (a experiência fora do corpo – EFC);
  • viajar por um túnel em direção à luz;
  • encontrar “seres” espirituais;
  • encontrar parentes falecidos;
  • paisagem bucólica;
  • visão retrospectiva da vida;
  • reconhecimento de uma barreira ou limite para além do qual não se pode ir;
  • volta abrupta ao corpo.

Obviamente, não são todos ao mesmo tempo, nem acontece nessa mesma ordem, mas são relatos que se coincidem frequentemente.

O que me faz pensar… O que seria um pulsar de vida/morte previsto por Freud? Não é novidade que todos seres vivos desejam desesperadamente continuar vivendo, é uma maneira de preservar seu Legado, sua Existência. Mas o que causa isso? Por que todos, sem exceção, rumam à linha mais longa? Evitam as linhas que não lhes favorecem em longevidade?

Existe a exceção à regra: o pulsar de morte, pessoas que desejam desesperadamente morrer, ou pessoas que preferem morrer em prol de algo ou alguém. O primeiro caso é anti intuitivo: não importa o quão depressivo a pessoa esteja, é mais deseje a morte, isso é algo relativo à consciência, seu subconsciente sempre encontra maneiras de se defender, e a primeira reação em vista da morte, ou perigo, é a retração e fuga. No segundo caso…, é mais complexo, as pessoas simplesmente e intuitivamente decidem que há algo mais importante que sua vida para ser protegida. E assim o fazem.

Percebo que se eu continuar a divagar, ficarei para sempre questionando coisas que poderiam soar óbvias a outrem, então vou parar por aqui.

Não sei se mais alguém vai ler isso, e peço perdão pela falta de coesão e ritmo nesta “história”, mas é algo que escrevi para mim mesmo, para me lembrar de que: não importa o que aconteça, nunca saberemos nada com exatidão.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora