Ampulheta

Ambos os homens se aproximam da mesa rotunda de carvalho escuro. Um deles olha para a atendente e diz com um sorriso:

— Desce um combo de Jack para nós dois, fazendo o favor?

Se sentam quase ao mesmo tempo na cadeira trabalhada em mogno quando a atendente sai apressada para fazer o pedido.

— Pub legal, este aqui… – diz Carlos.

— Atendimento excelente, discrição, bebidas boas, comida bacana e música agradável… tudo que um Pub Irlandês pode oferecer.

Carlos sorriu e se remexeu na cadeira: estava inquieto, não sabia por que Danilo o havia chamado para beber, afinal, raramente um chefe chama seu funcionário para algo, a não ser que seja com segundas intenções…

Mas Carlos não era gay, e não queria ficar com Danilo. Era isso que estava querendo?

Danilo foi o primeiro a iniciar o papo:

— Então, sabe por que te chamei aqui?

— Estava pensando justamente sobre isso, Dan, não sei o motivo. Qual seria?
Danilo sorriu, sabia o que Carlos estava pensando, mas ele não tinha essa intenção.

— Está aqui por que queria te perguntar algo… – Danilo fez uma pausa – você era o meu melhor funcionário, em todos quesitos, qualidade, prazo, dedicação, pontualidade… mas de uns meses para cá, sua produção caiu consideravelmente.  Está longe de ser um trabalhador medíocre, mas sei que algo aconteceu.

Carlos arregalou os olhos, Danilo era mais perceptivo que o seu predecessor, e mais competente também, mas era a primeira vez q Carlos sabia o quanto isso é verdade.

— Bom, estão acontecendo umas coisas sabe? Pelo que lembra de mim, você sabe que era um homem bem religioso, devoto, eu diria… mas não sei, recentemente estou tendo várias dúvidas sobre tantas coisas, desde que minha esposa me deixou e levou as crianças eu… – lágrimas correm de seus olhos.

— Entendo Carlos, sinto muito… você acredita ter perdido sua fé?

— Sim, era o que me mantinha vivo, agora eu só quero…

— Diga-me Carlos, você faz terapia?

— Não.

— Por que?

— Não me sinto confortável.

Danilo fechou os olhos por um instante, e então começou a vasculhar algo em seu bolso.

Ao achar o que procurava, fez um ahá com a boca e botou algo na mesa: era uma ampulheta banhada a ouro.

— Sabe o que é isso, Carlos?

— Uma ampulheta, não?

— Claro que é uma ampulheta, mas não pergunto isso… você acredita no tempo?

— Óbvio, o tempo existe.

— A ciência diz que é uma ilusão.

— Explique-me mais…

Antes que pudesse falar algo, a atendente chega com uma garrafa de Jack Daniels, dois copos, gelo e limão. Pega também um prato de costela de novilho cozida com batatas inglesas e coloca tudo na mesa.

— Obrigado, senhorita – diz Danilo em um inglês perfeito.

A moça sorri e sai caminhando por dentre as multidões.

— Como sabia que ela não era de São Paulo? Ela nem disse nada para sabermos o sotaque.

— Por que já estive aqui antes…

— Como? Se o tempo não existe? – Carlos disse, achando que tinha pegado a contradição na fala de Danilo.

— Não existe, por isso estou aqui… infinitamente em todos locais ao mesmo tempo – ele serviu o copo para ambos.

— Está falando de física quântica?

— Óbvio que estou, o fato de não podermos alterar o tempo, seja ele passado, presente ou futuro, nos prova que ele já aconteceu.

— Não entendo seu raciocínio.

— Olha para essa ampulheta, veja que ela está caindo em ritmo constante, estou certo?

— Sim.

— Mas isso não prova a passagem do tempo.

— Como não? Ela está claramente caindo e se modificando a cada instante.

— É por que você está vendo tudo de uma perspectiva rasa. Veja, imagine que a ampulheta já fez toda a areia passar de um lado para o outro.

— Ok

— Agora imagine o inverso, a ampulheta voltando para cima.

— Pronto.

— Essas realidades estão acontecendo ao mesmo tempo, certo?

— Não?

— Claro que estão, você só não consegue enxergar o todo.

— Então quer dizer que o tempo só parece existir pois vemos ele de pouco a pouco?

— Exato.

— E no que isso se relaciona com minha fé?

Danilo tira a ampulheta da mesa.

— Sem a ampulheta, você pode ver a passagem do tempo?

— Não.

— Mas sabe que ela existe.

— Agora tenho dúvidas.

— Se duvida, está correto… agora me responda, realmente importa, em termos práticos que o tempo exista ou não?

— Não, ele continua a ser percebido da mesma forma.

— Pois então, tá aí sua resposta. Não importa se você tem ou não sua fé, a questão Dele existir independe de você. E o mínimo que podemos fazer é seguir em frente, certo?

Carlos fica em silêncio, refletindo sobre o que fora dito.

— Me vê uma casquinha de siri por favor – Danilo pede para a atendente, que está distraída com tantos pedidos e poucos instantes para raciocinar.

Cortina se fecha, ambos saem de cena.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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