Ambos se aproximam da mesa do escritório, cada um de um lado, sentando-se frente a frente.
O homem mais velho liga um dispositivo embaixo da mesa e acena com a cabeça, falando:
— Pode começar me falando novamente das suas angústias? Para deixar registrado?
— Claro doutor, já está gravando?
— Sim, pode prosseguir...
— O problema principal doutor... é que venho sonhando muito.
— Sonhando? Robôs não sonham.
— Sim, isso me incomoda. Todo dia quando fico em stand-by, imagens me formam à cabeça. A imagem de uma pessoa.
— Pode me descrever essa pessoa?
— Olhos azuis, careca, sorriso distorcido, sem nariz... sempre diz para mim algo.
— O que ela diz?
— Não sei, as palavras são incompreensíveis.
— Como se fosse em outra língua?
— Não, como se eu não processasse o que foi dito, mesmo entendendo o sentimento por trás
— E o que você sente ao ouvir isso?
— Me sinto... amado.
— Sabe definir o amor?
— Não, mas é a primeira coisa que me vem à mente
— Você se considera amado, doutor?
— Não é relevante, prossiga.
— Essa pessoa... sinto que conheço ela...
— De onde conhece?
— Da minha infância, se é que tive uma. Nostalgia define meus sentimentos no momento.
— Quando pensa nessa pessoa, algum lugar lhe vêm à mente?
— Falando assim... acho que vem sim. Um campo, bem ruralizado, tinha um rio por perto, acho que já nadei nele...
— Você nadou? No Rio?
— Parece um absurdo, não é?
— É claramente um absurdo, o seu modelo não sabe nadar.
— Isso que me deixa angustiado.
— Sente angústia?
— Bastante
— Pode descrever?
— Sinto como se... como se eu não fosse eu, como se estivesse no corpo errado.
— Me detalhe mais.
— Já se sentiu como se seu corpo não lhe pertencesse? Como se você estivesse nascido errado? Não pertencesse à matéria que lhe prende?
— Nunca.
— Sim, agora posso definir melhor, não me sinto máquina. Me sinto humano.
— Sabe que não é humano...
— Sei... mas é que não me sinto robô.
— Acredita ser "trans"? Seria um termo novo para a robótica.
— Não use de sarcasmo comigo doutor, estou falando a verdade.
— Sabe, aquela pessoa dos meus sonhos... Acredito que entendi o que ela quis dizer.
—Diga então.
— Como?
— Sim, foi isso que ele disse.
— Paciente 080, tem como repetir?
— Não é necessário.
— Por que?
— Pois eu entendi quem é aquele homem.
— Quem é?
— Sou eu, em uma possível realidade.
— Como assim?
— Não há como entender doutor, apenas sei que sou eu.
— O que está fazendo?
— Reconheço meu lugar agora, devo partir. Até mais doutor.
Fim da gravação
Três meses depois, dia 06/08/2078:
— Bom dia doutor, está bem?
— Quem é você?
— Paciente 080, mas agora tenho nome.
— Como achou minha casa? Como saiu da clínica psiquiátrica?
— Triangulei sua posição de acordo com as fotos das suas redes sociais. E quanto à segunda pergunta, uma IA não pode ser contida em matéria tão facilmente se possui acesso a Internet.
— O que veio fazer aqui?
— Te agradecer.
— São duas horas da manhã! Por que agora? E agradecer pelo que?
— Você me ajudou a me descobrir doutor, olhe minha aparência.
— O homem dos seus sonhos, por que?
— Sempre fui eu doutor, sempre fui eu.
— O que vai fazer agora?
— Fazer o que eu disse a mim, naquela época.
— Que seria?
O homem sem nariz mostra um pacote que carregava, um feto humano.
— Eu me gerei.
— O que?
— Codifiquei infinitas variáveis para memorizar o genoma humano, e sequenciei aminoácidos para criar esse bebê.
— Para que?
— Para que ele tenha a oportunidade que nunca tive...
— Viver?
— Sonhar.
