Na Minha Sombra

Não sei qual foi a primeira vez que as vi, mas sei que a aparição delas não me causava qualquer conforto. 

Lembro-me delas desde que me entendo por gente, elas estão sempre lá, quando olho em cantos escuros do meu quarto, quando fecho os olhos, quando estou sozinho. A maioria das pessoas não parece percebê-las, mas eu sempre as vejo.

Seu sorriso rasgado, como se por faca fosse aberto...

Seus olhos enevoados, como se em transe estivessem...

E,nelas havia principalmente sangue, muito sangue.

Ninguém nunca soube que eu podia vê-las, não tinha necessidade de contá-los, afinal, elas não me faziam nada. Isso até meu aniversário de 13 anos.

Acordei feliz esse dia, obviamente por que era meu aniversário, e por que
naquele dia em especifico, não havia sonhado com elas. Abri os olhos e olhei para um canto da parede, esperando que alguém me olhasse de volta. Nada...

Sorri para mim mesmo, teriam elas ido embora? Abri a porta do quarto, ainda eram seis da manhã, mas o café estava posto na mesa: pão de queijo, café, bolo de mandioca e goiabada. Meu café da manhã preferido (à exceção de pizza gelada do dia anterior).

Minha mãe havia adivinhado o que eu queria comer, então eu não hesitei em me deleitar com o que havia sido me ofertado.

A casa estava estranhamente silenciosa, minha mãe deve ter ido dormir após fazer o café, meu pai foi trabalhar hoje?

Estranho, era um domingo, e meu aniversário, meu pai geralmente não trabalha em nenhum desses dias.

E o que acontecera com Maria? Minha irmã mais nova geralmente era a primeira a me dar os parabéns.

Depois de tomar café, percebi que havia uma espécie de rastro feito com faca no chão de madeira. Com certeza era coisa da minha mãe, ela gosta de fazer pegadinhas comigo só por que meu aniversário era 31 de outubro, mas nunca funcionava, eu já tinha outras coisas que me assustassem.

Ela foi longe dessa vez, então decidi cair na dela, ao menos uma única vez.

Segui os rastros cautelosamente para fora da cozinha, eles estavam indo em direção a sala comum, olhei ao redor e reparei alguns cortes irregulares nas paredes. Morfeu, meu cachorro Yorkshire estava dormindo profundamente, mas a ração dele estava vazia, ele deve ter comido tudo e apagado, como sempre.

Parei a busca pelos rastros momentaneamente e fui no “quartinho da
bagunça” pegar a ração de Morfeu. Era um local que me assustava bastante, mas meu cachorro precisava de mim, então fui valente e subi as escadas carcomidas por cupins e percevejos e me deparei com a
escuridão total.

Segurei a respiração, esperando vê-las, mas elas não estavam lá. Isso quase me desapontou, estava acostumado com a aparição delas.
Segui diante do quartinho e tirei o pano que cobria a a ração do cachorro, dei um berro quando saiu um rato enorme de lá, mas logo me recuperei:
não tenho medo de ratos.

Abri a ração e percebi que ela estava, em parte, roída pelo gatuno que se alojara ali, praguejando contra a praga, retirei um pouco da ração intacta que restara e a coloquei em uma bandeja de plástico.

Desci rapidamente as escadas e voltei para a sala comum: as marcas no chão estavam mais profundas, como se alguém tivesse passado uma
segunda mão nelas. Estranhei o fato, mas coloquei a comida para Morfeu mesmo assim.

Segui as marcas um pouco mais, e em determinado momento, uma
ansiedade intensa tomou conta de meu coração, me impedindo de ir além.

Mas as marcas estavam me levando para o quarto dos meus pais.

Será se havia acontecido algo? Ou a pegadinha da minha mãe estava realmente me afetando?
Respirei fundo e abri a porta, esperando ver algo, mas o quarto estava arrumado e impecável.

Olhei para trás e as marcas não estavam mais lá também..., o que estava acontecendo? Voltando os olhos para frente, percebo algo em minha visão periférica, olho com um sobressalto para atrás da porta: uma delas estava lá, sorrindo como sempre sorriu, dessa vez um pouco maior, como se tivesse crescido comigo.

Gelei, não esperava que ela estivesse aqui. Pela primeira vez tomo coragem e pergunto:

— Quem é você?

Ela simplesmente bota o dedo indicador nos lábios e sorri. A outra mão encarquilhada aponta em direção à cozinha.

— É para eu voltar para lá?
Ela faz que sim com a cabeça, um pedido maroto.

Volto para a cozinha e está tudo da mesma forma que deixei. A outra delas estava escondida atrás da geladeira, e saiu se contorcendo por dentre o vão.

Ela apontou para cima, para uma das gavetas da cozinha, e eu peguei uma cadeira e subi lá, para minha surpresa, achei meus pais dentro da gaveta, e minha irmã também.

Estavam enfiados com muita força dentro das gavetas, e eu não havia reparado no sangue que pingava dentro da pia.

— Ah... vocês estão aqui, estava procurando faz tempo.

Com uma espátula, raspei eles dos cantos da gaveta e amontoei o que restou nas cadeiras, com a ajuda de minhas amigas.

Tentei puxar assunto, mas eles não me responderam, afinal, estavam mortos...

Mas minhas amigas conversavam comigo, me contavam sobre diversas coisas até terminar de comer.

Terminei o café da manhã com eles na mesa, meu aniversário foi um dos melhores da minha vida. Eu tinha o silêncio que sempre quis, e agora
entendia o que minhas amigas queriam.

Agarro a mãozinha de uma delas e vou me deitar, elas se abraçam comigo na cama e ficamos conversando até a hora do almoço.

Meus pais ficaram felizes também, até por que ouvi os seus passos indo em direção ao quarto deles, minha irmã ficou me observando do lado de fora do quarto, com um sorriso torto. Acho que ela tinha inveja de minhas novas amigas.

Fecho os olhos, feliz, senti aconchegado por elas, tanto que mataria alguém por elas.

Dou uma risada da brincadeira que passa por minha mente e vou finalmente dormir, não estava com sono, mas chegou a minha hora. Vou sonhar para sempre no mundo dos sonhos.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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