Jameson Derryl era jovem, tinha 25 anos, um capanga qualquer da gangue do Maroni. Não tinha expectativa de melhorar na hierarquia, tampouco queria saber de se tornar um rei do crime, ele só queria sustentar seus filhos, e matar era a única coisa que ele sabia fazer.
Mas o trabalho foi diferente hoje, ele estava inspecionando uma carga misteriosa, algo encomendado de fora da cidade. Parecia algo grande e perigoso, os maiorais não estavam confortáveis perto do container verde-musgo que enfeitava o porto.
Eram onze horas da noite, ele percebeu o olhar apreensivo dos outros capangas, até mesmo do esquadrão de elite contratado pelo mafioso. Essa cidade tinha uma lenda, uma história sobrenatural, porém real… O símbolo dele estava em riste no céu, olhando sobre ele como um falcão olha um camundongo.
Não sabia se aquele homem estava por perto, nem mesmo se viria atrás dele. Essa incerteza o deixou morrendo de medo.
Tomou um gole de whisky barato para se esquentar na noite fria de Gotham, e ajeitou o seu fuzil no corpo. Se esse filho da puta aparecesse, iria tomar bala.
Mas ele não apareceu durante duas horas, Jameson já estava mais relaxado, e até um pouco embriagado. O suficiente que demorou para perceber que estava sozinho.
A falta de conversa paralela o havia incomodado, mas mais ainda, havia-o incomodado a falta dos passos no chão de concreto acinzentado. Ninguém se movia…
Tremendo, ele liga a lanterna e aponta para a direção do container: cinco guardas estavam no chão, havia um cheiro suave de sangue saindo deles.
Um vulto passa acima de si, e ele mira o fuzil com a lanterna, agitado.
— Quem está aí?
Viu passar apenas um gato de rua manco, pulando por cima dos apetrechos do porto.
Suspirou, aliviado, em saber que não era o Morcego.
E esse foi seu fim: assim que relaxou a guarda, uma mão o puxou para trás de um container vazio.
O primeiro soco quebrou-lhe os dentes e fraturou seu nariz, já torto pela genética. Tentou pegar o fuzil, mas uma força descomunal havia tirado-o de suas mãos.
Tomou mais um soco, dessa vez na barriga, o que o fez vomitar o pouco que havia comido desde o almoço.
— Por favor…
Antes que pudesse terminar a frase, sentiu seu pulso sendo torcido.
— Diga, onde está Maroni? – uma voz gutural disse, meio abafada – você tem 10 dedos e 10 chances para falar a verdade.
Antes que pudesse falar algo, um de seus dedos foi quebrado. Tentou gritar, mas o estranho colocou algo em sua boca, um pano molhado.
Olhou fixamente para a máscara de morcego que o encarava, lágrimas saíam de seus olhos.
O Morcego de Gotham quebrou mais um dedo, e tirou o pano da boca dele, como aviso.
— Eu não… Arrrg!
Mais um dedo, como iria convencê-lo que não sabia onde estava Maroni?
Tomou mais um soco, e esse foi o erro do Morcego…
Não pôde interrogar mais Jameson, pois o impacto acertou diretamente sua têmpora e o fez revirar os olhos, e então apagou.
Jameson acordou horas depois com a visão alaranjada causada pelo sol do início da manhã. Os trabalhadores do porto não tinham chegado ainda. O suave aroma da praia o deu uma forte energia de viver, mas então notou um cheiro pútrido vindo de trás: cinco corpos jaziam no chão vermelho sangue que emanava um odor metálico. Não os conhecia, e logo os esqueceu completamente apático.
O cinismo durou pouco, pois, tentando se levantar, a dor latente o recordou dos episódios da noite passada: 3 dedos quebrados e cortes no queixo e nas têmporas. Apesar da dor, levantou-se e andou cansadamente, já sem a energia do aroma do litoral. Para onde iria? Não tinha para onde ir. Maroni não permitia falhas nas empreitadas, aqueles que falhassem pagariam um preço alto, e no caso dele, como não tinha uma posse sequer, perderia a própria vida ou a de sua família.
Não poderia, de modo algum, viver sem um dos dois. Com alguns dolorosos passos caminhou até o cais do porto, onde alguns pescadores já trabalhavam para sustentar lenta e honestamente suas famílias.
Porque não fora um homem honesto? Perguntou-se.
Taciturno e levemente resignado, amarrou uma pesada corrente em sua própria perna e com dois passos caiu na água salgada e fria. O mar fazia seus dedos e cortes arderem: uma morte dolorosa pondo fim a uma vida dolorosa, nem na morte havia piedade!
Após alguns segundos submerso, sentiu que uma mão o puxava. Não sabia se ficava alegre ou arrasado por estar sendo salvo. Dependia de quem o salvava, imaginou. Já na superfície, enxugou os olhos antes de abri-los e deparou-se com o homem morcego que lhe atacara noite passada. Preferia a morte!
Não teve chance de reagir porque foi desacordado novamente, dessa vez, em vez de um soco, o morcego usou um sonífero. Não demorou muito para que acordasse deitado em um leito de hospital. Estava recebendo soro, com curativos em todos os cortes e com os dedos quebrados já enfaixados. Mas não estava em um hospital! Tratava-se, na verdade, de um quarto muito requintado. Estaria em uma mansão? Olhou cautelosamente ao redor e se deparou com o seu agressor, agora em uma posição frágil, com a cabeça apoiada entre suas mãos. Os olhos dele estavam fechados como se o seu dono estivesse morbidamente cansado. Mas havia algo estranho! Não nos olhos, abaixo deles: lágrimas, escorriam lentas e desapareciam atrás da máscara preta.
As lágrimas, de um homem tão grande e forte, eram o suficiente para assustar qualquer um: elas não demonstravam fragilidade, muito pelo contrário, mostravam que algo dentro do Morcego havia se quebrado.
O vigilante noturno, a imagem da justiça de Gotham, estava destruída. O choro do homem à frente de Jameson, representava o nojo do morcego por ele mesmo. O morcego, que tinha como lei não matar, obcecado pelos Maroni, matou cinco guardas.
Numa tentativa de recuperar seus princípios, o guardião de Gotham salvou o capanga, mas quem garantiria que Derryl não seria o próximo a morrer, afinal, dificilmente um princípio quebrado pode ser recuperado.
— Me mate, morcego! — O capanga suplicou ao morcego a sua frente. Jameson sabia que não tinha escolha: se sua vida fosse poupada, a de sua família seria tomada no lugar.
— Apenas me diga… onde está Maroni? — respondeu o Morcego, enquanto levantava seu rosto em direção ao capanga, deitado na cama. O jovem sabia que precisava provocar a fúria do morcego, não se preocupava com os princípios do morcego, o mais importante era garantir sua morte.
— Ele… vai explodir essa cidade! — disse Derryl, enquanto o rosto do morcego se fechava — E você, perde tempo comigo enquanto isso… a lei da cidade, o protetor de Gotham, na verdade não passa de um assassino que ao menos é capaz de salvar sua cidade.
O Morcego, com a mão em seu rosto, estava confuso: ele sabia que já havia perdido sua honra, e que precisava fazer o que fosse preciso para encontrar Maroni, ele já havia cruzado a linha, não havia motivo para continuar a hesitar.
— Não me faça repetir, onde está Maroni? Me diga! — gritava o guardião de Gotham, enquanto batia no rosto do jovem Jameson. O capanga sabia que estava criando um monstro, mas ele precisava disso para que sua família ficasse segura.
— Vá a merda! — disse Derryl, enquanto o morcego pressionava o seu pescoço. Enquanto sua visão escurecia, a imagem de sua família surgia em sua visão. O capanga sabia que não era nenhum santo, e este era o preço que pagava para que sua esposa e filho não se responsabilizassem pelos atos de um bandido.
A troca havia sido feita. Jameson escolheu salvar a vida de sua família em troca da sua, mas não percebeu o custo adicional de tal escolha: o guardião de Gotham se tornara um assassino cruel, um justiceiro, ele havia eliminado qualquer chance de redenção do monstro ao fazê-lo tirar sua vida.
Texto feito em colaboração com o autor:
. Omlesna Ziur
