Cacofonia

Onomatopeias enfeitam meu quarto
Ambiente sonoro repleto com o medo
De vários homens escondidos em suas casas
Líder em negação aponta seu dedo
Enquanto preenche seu bolso farto

Assim como o miasma espectral do vírus mortal
Próprio Tânatos caminha nas ruas da cidade
Vejo-o da janela, tão belo e temível
Assim como Eros, seu irmão em propriedade
De mãos dadas em vista da tragédia sepulcral

Volto minha atenção para o som da minha mente
Criaturas temíveis às rastejam, afinal
Há o pavor de sair e de ficar
A máscara como coleira primordial
Jogo de poder que associa à impávida frente

Enfermeiros, médicos… especialistas em geral
Falam no rádio conectado ao meu ouvido
Gritando entre os demônios da minha ansiedade
A Peste nasceu em Wuhan, em breve estampido
Mas o Medo, esse parceiro é primordial

Não consigo ficar em foco, perco meu esmero
Na cacofonia de informações temerárias
Estou há dois anos em casa, temendo
Não minha morte, mas a morte de várias
Fogo em meu peito se apaga com o desespero

O cachorro está latindo sem parar
Deve estar vendo os espíritos a bailar
De diversos cidadãos que se partem pelo mal
Em uma dança dantesca infernal

Ouço um barulho do mundo exterior
Motoqueiro, aparentemente, entregador
Chocou-se com o carro de um governador
Ossos se quebram com torpor

Mais uma morte…
Tânatos sorriu com a notícia
Eros também
Amor e Morte são iguais
E essa época é promissora…

A vacina foi desviada
Desacreditada
E, de certa forma, humilhada

Presidente se alimenta de mentiras em hiato
Assim como o sistema se alimenta do sofrimento
Vejo o poder aumentar em desalento
Enquanto a piada se conta sozinha no planalto

Escuto tudo isso do meu quarto
Desligo o podcast que contava quantas pessoas
Se partiram em prol de um plano maior
Que plano?
Divino?

Se você percebeu atentamente
Não estamos bem
Há uma doença por aí
Não apenas a pandemia

Estamos infectados com a Morte
E com aqueles que a amam

Meu ouvido que estava concentrado
Volta a perceber a cacofonia
Antes acreditei que era som mundano
Mas ledo engano
Era uma conexão imediata com o inferno

Enquanto mais um pobre morria em seu leito
Um rico subia em seu pleito

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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