A Aposta:
O Deus de um olho só repousava em seu trono imponente no castelo de Valaskjálf. Hugin e Munin estavam repousando em seus ombros largos cobertos por um manto escuro. Por toda a parte, valquírias estavam caminhando e cuidando de afazeres domésticos, preparando o banquete dos guerreiros do Valhalla.
Foi então que viu entrar pela porta seu irmão de consideração: o meio-jotün Loki, que trajava uma máscara de simpatia em seu rosto.
Apesar das travessuras e profecias, ainda amava seu irmão, sabia que sua natureza era brincar, assim como a sua era de conhecer. Afinal, havia ele próprio sacrificado um olho em troca do saber.
— Odin, meu senhor, não cansas de se repousar sobre seu trono dia após dia? – como sempre, foi direto ao ponto sem dizer aonde quer chegar – és tão diferente de teu filho.
— Não é tão desagradável o ócio, além do mais, posso observar todos os nove reinos daqui, há mais algo que desejaria fazer? – respondeu o senhor dos deuses, tentando decifrar qual seria a pegadinha que cairia dessa vez.
Era raro que seu meio-irmão tentasse lhe pregar uma peça, geralmente ia atrás de seu filho, Thor, ou de algum outro Deus. Loki o respeitava o suficiente, raramente tentava enganá-lo… então, por curiosidade, decidiu se deixar levar e seguir pela brincadeira.
— Ao invés de observar, poderia viver… – Loki disse com um sorriso encantador – quer fazer uma aposta comigo?
“Aí está” Pensou Odin, e seus corvos se agitaram em seus ombros, como se pressentissem algo de errado.
— Que tipo de aposta?
— Uma bem simples para falar a verdade – Loki balançou os braços – você passará um dia em Midgard como um humano. Obviamente ainda terá sua imortalidade por questões de segurança.
— E qual seria a aposta em si?
— Bom, essa é a parte interessante, preparei essa exclusivamente para você. Você irá para Midgard como taxista, e fará uma viagem com um passageiro. O destino dele é morrer neste dia, se você impedir sua morte, você ganha, se ele morrer, eu ganho.
— Isso parece interessante – coçou a longa barba – iremos apostar o que?
— Já sei o que desejo de você… quero que todas as quartas feiras (wednesday – Odin ‘s day) passem a ser conhecidas como dias da mentira. E você, o que deseja de mim?
— Ousado… tem tanta confiança que irá ganhar? – Odin semicerrou o olho que faltava. Com certeza não era boa ideia aceitar a aposta, mas ele nunca foi um deus cauteloso – então já sei o que quero de você: se eu ganhar, irá viver por um ano entre os mortais sob o juramento de não mentir.
Em vista dessas palavras, Loki hesitou e empalideceu por uns instantes, mas voltou à compostura e estendeu a mão, de forma firme.
— Trato feito.
A Viagem
Edgar era seu nome agora, era um nome apropriado para ele. Segundo Loki, significava, na língua nativa, “o que protege suas riquezas com a lança”. E nessas horas, sentiu saudades de empunhar novamente Gungnir em batalha, mas sua luta agora era outra.
Ele estava em Midgard, em um território conhecido como Belo Horizonte, era de fato, um horizonte belo, dependendo de onde estivesse observando.
Olhou para a carruagem humana, era chamada de carro, aprendera a dirigir havia alguns minutos após sorver mais um pouco da sopa do conhecimento.
Estava recostado nele, de frente ao ponto de encontro, próximo à lagoa da pampulha, fumando um cachimbo com ervas aromáticas retiradas das folhas de Yggdrasil, quando seu cliente chegou: trajava um terno simples sem o blazer devido ao calor da região tropical e tinha um sorriso educado no rosto. Em sua mão esquerda, um tablet em uma capa grossa antiquada e em sua mão direita, carregava uma mala pequena com seus pertences. Loki havia descrito apenas a aparência e o nome do mortal para ele (Carlos Pereira), o resto das informações, ele teria que descobrir sozinho.
Ele parecia ansioso e tinha traços de alguém que não dormia bem, como percebeu pelas olheiras em seus olhos fundos e pelas manchas secas de café em seu paletó. Ainda agitado, cumprimentou vagamente Edgar e se sentou no banco traseiro, enquanto o motorista colocava suas malas no bagageiro do carro.
Os primeiros minutos da viagem discorreram sem nenhuma palavra ser dita, o homem de trás parecia estar distraído com algo e digitava preguiçosamente em seu tablet.
Edgar então iniciou o assunto:
— Alguma rota preferida para Betim, senhor?
— Não… – levantou os olhos levemente – apenas siga o GPS.
— Entendo… – o mortal não parecia interessado em conversar, ele tinha que descobrir mais informações de alguma maneira. Ele iria morrer hoje, mas como? Quando? Por que?
Observou com cautela o olhar do humano e pôs-se a dirigir calmamente. Ainda tinha tempo.
Certo momento, o homem desligou o tablet que e recostou-se na cadeira traseira do carro, com o olhar perdido a olhar pelas ruas movimentadas da capital mineira.
Percebeu o olhar do taxista em si, e tentou disfarçar a lágrima que se formava em seu rosto, sem sucesso. Enquanto tentava evitar o olhar do motorista, chorou copiosamente com ambas as mãos cobrindo seu rosto, soluçando sob a roupa formal.
— Patético né? – disse meio aos soluços – um homem demonstrando fraqueza frente outro homem.
— Não acho… é normal demonstrar fraqueza, afinal, humanos são criaturas frágeis.
— Frágeis? Sim… talvez… – assoou o nariz em um lenço – não pensava assim antes.
— Curioso, como pensava?
— Que eu poderia conseguir qualquer coisa que tentasse, e que o mundo estava a palma da minha mão. Nunca me imaginei frágil.
— O orgulho é o motivo da queda de muitos, por que não pensa mais assim?
Fizeram silêncio por alguns instantes, até que o passageiro inquiriu:
— Já teve algo que desejava muito? Mais do que poderia imaginar que conseguiria?
— Já…
— Conseguiu?
— Consegui sim, com alguns custos, mas consegui.
— Como se sentiu após isso?
— Feliz, por um momento, depois disso, a felicidade foi se abrasando, e o fogo da minha alegria se tornou cinzas em minha boca.
— E o que fez após isso?
— Procurei outra coisa?
— E conseguiu?
— Sim.
— Isso tem fim?
— Quando você morrer, terá.
— Exatamente, não quero mais ficar procurando nada, a troco de uma felicidade temporária.
Mais alguns instantes de silêncio, olhou para os olhos do homem, apesar da imensa tristeza, havia resignação e aceitação.
— Planeja morrer?
— Planeja me impedir?
— Não. Acredito que não – mentiu, se dissesse que sim, o homem finalizaria a conversa.
— Ótimo.
— Por que vai até Betim para morrer?
— Tenho um balcão lá, posso me enforcar sem interrupções de minha ex mulher, e não quero que meu filho veja… – uma lágrima surgiu em seu rosto.
— Não vai sentir falta dele?
— Óbvio que vou! Mas não tenho nada para buscar aqui… além do mais, ele vai estar melhor sem uma presença negativa como pai.
Continuaram a viagem por mais alguns minutos em silêncio.
— Chegaremos em Betim daqui uns 20 minutos, o trânsito está complicado – disse Edgar, com um tom sóbrio.
— Tudo bem, não estou com pressa. Serão os últimos 20 minutos da minha vida mesmo.
— Não será… o pós vida costuma ser bem entediante para suicidas.
— Acredita em um pós vida?
— Sim.
— Eu não, para mim, assim que eu morrer, morri. Acabou! Não tem mais nada.
— Um pensamento bem limitado, não acha? Não acredita ter mais planos de existência além do seu?
— Não acredito em nada que não possa ver.
Foi então que a viagem seguiu sem mais conversas ou interrupções. Carlos fez Edgar parar em uma propriedade rural que não era exatamente em Betim, mas nos arredores da cidade.
Quando o moço ia oferecer o dinheiro, o motorista o interrompeu:
— Não será necessário, mas queria pedir um favor antes.
— Um favor?
— Quero que me deixe suicidar antes de você.
O pedido súbito do motorista surpreendeu Carlos, que não imaginava que ouviria algo assim do homem.
— Mas por que? Não imaginei que…
— Não quero contar meu motivo, apenas quero fazê-lo. E você não tem nenhuma razão ou moral para me impedir.
Edgar então se aproximou de um grande salgueiro que tinha na propriedade de Carlos e analisou sua altura.
“Não é uma Yggdrasil, mas serve, é um bom salgueiro, vai ser suficiente para passar a mensagem”
Chamou então Hugin e Munin, que, como portadores do presságio, circundaram a árvore em círculos enquanto amarrava a corda em um de seus galhos, enquanto os olhos chocados de Carlos o observavam.
— Não será uma visão agradável, mas gostaria que visse meus momentos finais… afinal, serão o mesmo que o seus – Edgar disse para Carlos dando o último nó na corda.
Enquanto se preparava para colocar o nó no pescoço, entoou:
— Presencie a morte de Edgar.
Quando disse isso, seu olho esquerdo saltou de seu crânio, revelando uma órbita vazia, e o disfarce mortal foi lentamente se desfazendo.
As rugas de expressão cansada davam lugar a rugas diferentes, de um guerreiro velho, seu cabelo, antes tingido de preto, crescia e ficava grisalho, suas roupas de taxista clássico davam lugar a um manto cinzento coberto por uma armadura de placas de couro e metal, a chave de seu carro que estava em sua mão se tornou uma enorme lança de ouro e madeira escura; e por último, os corvos que ali rodeavam se sentaram em seus ombros já caídos, um de cada lado, e dois lobos brancos enormes saíram da mata, se deitando à sua esquerda e direita.
Do bosque, uma voz estrondosa se pôde ser ouvida:
— Contemple, mortal, o sacrifício de Wotan, Grímmir, Odin, Bolverk, Hanga e chefe dos Aesir. Que sob seus olhos perdidos e repletos de desencanto trazidos pela ganância do Homem Mortal, brilhem mais uma vez a magia e o encanto das crianças e dos Vanir. O ato de caridade do Deus das Trapaças que lhe salvou da desesperança e autoextermínio, olhe para as raízes dessa árvore e me diga: o que vê?
Carlos, com os olhos arregalados, olhou para as raízes do salgueiro e viu um reflexo da via láctea: cada vez que aproximava a visão de um dos muitos mundos que ali haviam, via sociedades, pessoas vivendo, via felicidades e tragédias, alegrias e tristezas, guerra e paz.
E enquanto Edgar dava seu último suspiro naquela árvore, ambos os lobos, cada um do tamanho de um cavalo, uivou em alto e bom som.
E todas as imagens lhe mostraram um único rosto: o rosto de Júlio, seu filho, esperando em uma porta por seu pai que nunca voltaria.
Essa foi a imagem que lhe quebrou a resiliência.
Toda a amargura em seu peito foi despedaçada e todo o desencanto superado, e ele se ajoelhou no gramado sujo de lama e desandou a chorar e pedir perdão pelo seu Egoísmo, prometendo aos céus que iria voltar para casa e pediria perdão ao seu filho e que jamais o abandonaria novamente.
Motivo
Já de volta no Valaskjálf, Odin chama Loki para uma audiência em sua sala do trono.
— Isso não foi uma pegadinha usual – começou – por que quis salvar aquele homem? Mesmo sabendo que poderia ser prejudicado?
Loki piscou os olhos, surpreso.
— Pegadinha? Não sei do que fala, meu irmão, só gostaria de testar seu…
— Loki…
— Ahh… tudo bem. Mesmo as vezes, eu me sinto entediado, e vou perturbar humanos. Digamos que nesse caso, eu acabei por encontrar esse rapaz em uma certa noite e ele foi gentil comigo. Me apiedei e passei a encontrá-lo de vez em quando, e fui percebendo seu lento declínio. Mas como bem sabes, meu bom irmão, sou melhor em quebrar coisas que consertá-las, então decidi pedir sua ajuda.
— Isso me surpreende
— Eu, demonstrar empatia?
— Você, ser sincero sobre seus sentimentos.
— As vezes vale a pena – riu com desgosto – enfim, estou de partida.
— Não tão cedo. Uma aposta ainda é uma aposta.
Loki gelou.
— Ah, sobre isso… ainda está valendo?
— Óbvio, você não vai mentir por um ano, te vejo em Midgard.
— Eu aceito o desafio.
Foi então que Odin fez algo surpreendente: desatou a rir.
— Dessa vez foi você que caiu na minha pegadinha. Vou deixar passar dessa vez, pois você tentou me enganar com um bom propósito, mas não repita isso.
Loki, com os olhos brilhando, assentiu e saiu do saguão. Havia sido um dia peculiar.
