Num bosque muito distante da civilização, vivia uma andorinha pomposa e sorridente. Seu nome era Júlia, e ela amava cantar e dançar.
Mas apesar de parecer feliz por fora, por dentro ela era muito insegura e tristonha: ela não tinha habilidades especiais como os outros animais, não conseguia se proteger dos predadores e vivia se mudando, nunca tendo um lugar para chamar de seu.
Então por mais que ela cantasse a plenos pulmões na floresta, suas melodias tinham um tom melancólico audível, e foi isso que chamou a atenção de um grande cipreste que vivia por ali.
— Por que cantas tão triste, pequena andorinha? É uma música linda, mas percebo a desesperança em sua voz – a árvore disse de forma lenta e ritmada, como se o tempo não importasse para ela.
— Ah, grande cipreste, não sabia que estava ouvindo meu lamento – a andorinha parecia envergonhada – meu nome é Julia, e eu estou triste porque não tenho casa.
— Eu estava ouvindo sim. E porque quer uma casa? – a grande árvore parecia curiosa.
— Muitos animais têm: os esquilos moram dentro de você, formigas têm o formigueiro, castores moram perto de represas, e até os grandes leões possuem um território para chamar de seu. E eu sempre vivo me mudando e viajando – Júlia faz uma pausa e olha para a árvore, e chega mais perto, em um de seus galhos, para continuar conversando – todos parecem tão felizes em seus lares, queria eu ter um.
— De fato, é muito bom ter uma casa. Veja bem, minhas raízes são fortes, tenho tudo que preciso aqui: água, nutrientes e luz do sol. Você realmente é uma coitada, alguém sem casa não pode ter o conforto que eu tenho, você deveria de ficar vagando por aí e se aprumar em um local, ou então não vai ter sentido sua vida.
— Porque não faria sentido? Minha vida não faz sentido?
— Claro que não. Você pode viver várias aventuras, mas não tem um local para voltar depois delas. Eu mesmo nunca saio daqui, mas já vivi diversas aventuras: animais vêm e vão, me contam suas histórias, tempestades aparecem e ameaçam minhas raízes, mas eu me mantenho orgulhoso e altivo até tudo passar.
— Não tem vontade de conhecer outros lugares? Ver outras paisagens? Conhecer o mundo?
— Não preciso, tenho tudo que quero aqui.
— E não quer nada mais? Não consigo viver uma vida assim, preciso sempre conhecer novos lugares, viajar e me movimentar – Júlia se surpreendeu – acho que não sirvo para ter uma vida de valor como você, não vou construir nada, quero continuar viajando, um lar seria bom, mas a experiência de viajar é melhor ainda.
— Então é uma tola. Para que conhecer mais coisas se tudo que precisa já está aqui? Para que quer conhecer o mundo, se tudo ao seu redor já é tão bom? É perda de tempo. Isso na verdade se chama cobiça, é algo errado, não se deve desejar mais do que se já tem!
— Porque cobiçar é errado?
— É um desrespeito ao que você já tem,querer mais é duvidar da mãe natureza, e dizer para ela que o que ela lhe ofertou não é o suficiente. É isso que quer dizer à sua criadora? – esbravejou o cipreste.
— Não… eu devo ficar aqui então?
— Sim, você deve, é o lugar que você merece.
Pensativa, Júlia saiu do galho do cipreste e pôs-se a voar para uma árvore mais próxima, que estava dormindo, cantando para si própria, se questionando o que seria correto de se fazer.
— Que decisão difícil. Porque tudo que quero é errado? Não quero mais um lar, queria conhecer os lares de várias pessoas. Porque a mãe natureza não entende que não sou ingrata? Só quero aproveitar tudo que ela me oferece?
— Sabe… – uma voz grave misteriosa se interpôs – não deveria acreditar em tudo que o cipreste diz, ele não entende a mãe Natureza mais do que a gente.
Com um pulo, a andorinha se virou na direção da voz. Era uma joaninha.
— Olá joaninha, obrigado pelo conselho, mas o cipreste é o mais velho da floresta, ele conhece mais da mãe natureza que a gente. Todo mundo acredita nele, escolhemos ele como representante dela nessa floresta.
— Primeiro… não me chame de joaninha, meu nome é Tobias. Segundo, ele pode ser velho, mas ele não estava lá quando a mãe natureza criou tudo. Ele não pode dizer por ela.
— Isso é verdade, mas ainda sim, todo mundo respeita ele.
— Ser velho não te torna certo. Siga seus instintos, eles te conhecem mais que ele.
— Vou pensar sobre isso, obrigado Tobias.
Passa-se alguns dias, e Júlia acorda de seu sono com um barulho alto. Com um sobressalto, ela sai de seu ninho dentro de uma árvore jovem e olha para o lado de fora: uma grande montanha perto da floresta havia explodido, e saia fogo e cinzas para todo lado. A montanha próxima ao bosque era um vulcão!
Desesperada, a andorinha começa a voar para escapar da nuvem de cinzas e chamas. E vê Tobias, a joaninha voando como um raio para o lado oposto das chamas. Ele iria fugir.
— Corram, fujam por suas vidas! – gritava Tobias.
Julia fez o mesmo, mas passou por um local conhecido e parou.
— Cipreste, você não consegue fugir. Vai ficar bem? – ela pergunta desesperada para a árvore.
— É o que a mãe natureza decidiu para mim. Nem se eu pudesse, eu iria sair daqui, é meu lugar. Você deveria ficar também.
— Mas vamos todos morrer! – Júlia se desesperou.
— Que seja! Mas não vou me rebelar.
Júlia travou por um instante, mas tomou sua decisão: fugiu o mais rápido que podia.
Já longe do local, pôde ver a lava engolindo a floresta, e o grande cipreste em agonia morrendo sufocado pelas cinzas. Em seus últimos pensamentos, ele perguntou: “será se não tinha um lugar melhor para eu ir antes de partir?”.
