Grãos de areia percorrem a ampulheta febril
Fio do tempo, outrora correu, a muito se partiu
Confusão instala em montes de grãos a acumular
Memórias que se esvaem, perdidas sem cessar
Eu sei…
Que em meio a todas essas ondas do rio Lete
Uma única sensação incômoda se repete
Ainda estou aqui…
E apesar da casca envelhecida que me envolve
Minha consciência, se afogando, respira enfim
Nesse momento de lucidez que se revive
Que me faz desejar pelo fim
Nessa lucidez vejo os rostos desconhecidos
Iluminarem-se com uma percepção vigília
Estas pessoas com olhares abatidos
Estão cuidando de mim, são minha família
Sorrindo em meio à dor do esquecimento
Estou seguro em meio ao tormento
Lucidez se acanha com o vento
Das planícies psíquicas em alento
Descanso novamente, perco discernimento
Essa sensação, neste exato momento
A nostalgia é um bálsamo, um sentimento
Que se dissolve em singelo exaurimento
Uma homenagem ao meu pai, que sofre de Alzheimer
