Tonitro nunca tinha visto fadas tão belas antes: suas asas brilhavam em arco íris em meio às ruas e prédios prateados de Avalon, seus olhos eram semelhantes às mais belas pedras preciosas, e o sorriso de cada uma era tão resplandecente quanto as estrelas do céu.
Era uma procissão da rainha das fadas, Aurora, a fada que sucedeu Titania. Todas elas estavam passeando pelas ruas em carruagens flutuantes com diversas criaturas aladas que as acompanhavam. Elas estavam ali com apenas um motivo: divulgar para o reino das fadas o Baile da Aurora, um evento onde as mais belas fadas iriam dançar junto com a rainha.
Era o símbolo maior do glamour das fadas: as cores, as vestimentas… tudo gritava a magia. E foi por isso que novamente o coração de Tonitro se encheu de inveja.
Porque essas fadas viviam na esbórnia e na luxúria quando ele próprio era fruto da iniquidade e da malícia? Da miséria e da fome? Tonitro era uma fada como Aurora, mas ele nunca conhecera fartura, e os dias que teve as melhores refeições da vida foram os dias após a morte de sua irmã, Seidh, que morreu de desnutrição. Com menos uma boca para alimentar, ele conseguiu quase um banquete constituído por duas fatias de pão faerico.
Era comum que outros seres, inclusive humanos, achassem que fadas não se alimentavam, e que eram todos iguais. Mas não era verdade, nem todas as fadas podiam viver de mana pura, como as Tuatha de Danann, a maioria retirava a energia primordial de alimentos.
E quanto à igualdade… digamos que todas as fadas eram iguais, mas algumas fadas eram mais fadas que as outras.
Pixies, brownies, leprechauns, gnomos… todos eles eram considerados fadas de nível médio. Os elfos e as dríades de grau alto, mas Tonitro era um boggart, e boggarts não eram fadas de verdade, ao menos não segundo os demais… boggarts eram feios, e na sociedade das fadas, beleza é poder.
Diziam várias coisas de sua raça: que eram agressivos, que traziam azar, que eram teimosos e desobedientes, mas como mais poderia ser a reação de um oprimido contra um opressor? Depois de tantos anos sendo escravos de seus supostos semelhantes, como não serem agressivos? E por que sua presença causava azar? Por culpa reprimida daqueles que os maltratavam?
Talvez seja, mas foi por isso que Tonitro decidiu estragar de vez o baile da Aurora. Iria mostrar a todos sua hipocrisia e sujar os belos salões de Avalon com seu ódio.
Ele esperou as semanas passarem para que o dia do baile chegasse. E foi assim que seu ódio se acumulou em seu coração sombrio.
Nesse ínterim, fez uma fantasia espetacular com suas mãos habilidosas: com glitter artificial e papel feito de trigo feérico, fez um par de asas enormes que poderiam ser colocados em suas costas, que não só refletiam a luz do sol, mas criava a própria luz, com baterias feitas de mana pura. Também fez uma máscara de corvo com onix puro, e maravilhosamente lapidada, que havia roubado das minas em que trabalhava. Ele estava planejando aquilo há anos, e todo dia pegava um pouco das pedras e levava para sua casa.
Também confeccionou sua roupa de gala utilizando pêlo de unicórnio banhado em sangue de uma ninfa, fazendo uma magia tão poderosa de charme, que qualquer um que olhasse para ele se apaixonaria. E é claro, escondeu o que restou dos corpos do unicórnio e da ninfa bem longe de sua casa.
Vestindo sua fantasia e máscara, rumou para o castelo de Avalon, que era nomeado com o nome do reino.
Olhando a fila de fadas belíssimas e encantadoras na porta, admirou mais uma vez e invejou novamente o privilégio das demais. Sua raiva podia ser mesquinha, egoísta, mas era justificada: no reino das fadas, seu nascimento era tudo, ele nunca teria o status de uma fada superior, não importa quanto tentasse ou merecesse.
Ainda na fila da festa, ouviu o discurso de Aurora, a máscara de corvo disfarçando sua repulsa pelas palavras fúteis da rainha das fadas:
— Que o glorioso dia seja inesquecível, minhas belas fadas – Aurora começou com uma saudação típica – que seja lembrado a todos que aqui, em meu castelo, a elite das fadas está reunida, os seres mais belos de todos os planos estão neste mesmo salão para que seja enfim definido quem será escolhido como meu noivo e próximo rei das fadas.
Um barulho de aplausos cortou o discurso da rainha.
“Espero que aproveitem: bebam de minha bebida e comam da minha comida. Sejam felizes em meus aposentos e dancem à vontade, logo mais irei dizer os critérios de julgamento para o concurso. Que os olhos de Dunedin estejam sobre todos vocês!”.
Quando finalmente se pôs às vistas de todos, entrando no salão de danças com confiança, sentiu até a música parar um pouco para que todos o admirassem. Um terno de gala branco e dourado com detalhes em vermelho-sangue, asas que não só refletiam as luzes, mas produziam uma luz púrpura própria, que alternava para cores mais quentes dependendo do ângulo, um corpo esbelto e aparentemente musculoso por detrás das roupas, e uma máscara escura cintilante que parecia ser feita da própria noite. Todos estavam olhando para ele, e todos estavam apaixonados.
Quando a multidão se dispersou, os outros entraram no salão de danças. Era implícito que dançar bem era um requisito para ser o rei das fadas, fadas amavam festas e dançar. E os outros competidores, que estavam intimidados por sua presença, sabiam que a melhor coisa que podiam fazer era serem os melhores dançarinos. E torcer para que ele dançasse mal.
Enquanto as fadas de companhia chegavam para serem os pares de cada competidor, reparou que a maioria formava fila para dançar com ele. Se deleitou de prazer ao imaginar o rosto que fariam quando descobrissem quem ele é por trás da máscara.
Impecavelmente, dançou com todas as fadas que dispunham a dançar com ele, sejam machos ou fêmeas. Seus pés suaves deslizaram pelo salão sem fazer barulho, e sua cintura parecia ter vida própria. Até as fadas que não sabiam dançar dançavam maravilhosamente bem com ele. Era o poder de suas sapatilhas feitas de fibra de vidro de igreja e do chifre e do couro do unicórnio: ela fazia com que os movimentos de seu corpo pudessem ser controlados com mais facilidade, quase que um estímulo às suas sinapses.
E foi assim que novamente chamou a atenção de todas as fadas.
Continuou na festa, dançou, comeu, mas não bebeu. O álcool iria enebriar seus pensamentos e atrapalhar seus planos.
Quando chegou a hora da competição de canto, também surpreendeu a todos com sua bela voz e timbre afinado. Mais uma vez um truque: havia gravado o canto de um pássaro Rocca com um dispositivo, e ativado ele em seu terno, fazendo apenas a atuação de como estivesse cantando por conta própria.
E foi assim que passou a noite, até que chegou à hora da decisão: três da madrugada.
Os pretendentes se alinharam em forma de “U” na frente de Aurora, que detinha um sorriso satisfeito.
— Muito bom, minhas fadas, vocês foram excelentes. A beleza de seus talentos ficará para sempre incrustada na memória de todos que estão aqui. Mas agora só um de vocês será escolhido por mim como digno de ser meu marido.
Havia tensão no ar… todos, exceto Tonitro, estavam apreensivos com o resultado. E então Aurora continuou:
— E então anuncio a vocês meu escolhido: aquele que se destacou em todas competições, chegue mais perto, fada da máscara negra, e conte-nos seu nome.
Tonitro se empertigou, já esperava por isso. Pomposamente, desfilou em meio aos aplausos e burburinhos de inveja que ecoavam no salão.
Agradecendo os aplausos, fez uma reverência à multidão, e se ajoelhou perante a rainha, beijando-lhe uma das mãos levemente.
Ouviu algumas fadas suspirarem perante ao seu gesto, e sorriu.
— Minha digníssima e bela Aurora, minha rainha e pretendente, tenho o prazer de me apresentar oficialmente: meu nome é tonitro.
— Tonitro? Um nome incomum para uma fada, de onde é, Tonitro? – a rainha ergueu uma das sobrancelhas, em surpresa.
— Antes que diga, poderia dizer algumas palavras?
— À vontade, dê seu discurso.
— Antes de mais nada – disse, voltando-se para a multidão – gostaria de relembrar o quanto a sociedade das fadas é uma sociedade que valoriza a beleza e o status, e deixar minha solidariedade à quem nasceu feio.
Todos riram.
— Mas não posso fazer nada, alguns nasceram para a grandeza, outros não. Certo?
Murmúrios de aprovação em todos os cantos.
— Dito isso, acredito ser mais bonito que todos aqui.
Dessa vez teve um silêncio constrangedor, todos olharam nervosamente para a rainha, que estava impassível.
— Não pela aparência, talvez, mas me julgo muito mais belo internamente que vocês, suas criaturas podres e mesquinhas! – as últimas palavras foram ditas em alto tom, vociferando. O que assustou os mais próximos.
Estava todo mundo em silêncio, tenso com o que estava acontecendo.
— Me escolheram como o mais digno. É bem curioso isso, afinal, nunca olharam para mim antes… mas agora vão gravar minha imagem em suas mentes podres! – retirou a máscara e a arremessou ao chão, que espatifou em pedaços. As suas asas também se descolaram de suas vestes.
Olhou para o rosto surpreso de todos presentes, que processavam o acontecido. Orgulhosamente se deleitou de sua surpresa, até que um barulho inesperado o tirou de seu torpor megalomaníaco:
Era o barulho de risadas.
O primeiro a rir foi um nobre fada que estava servindo as bebidas. As outras se contagiaram e começaram a rir também, apontando para a rainha e para Tonitro e caindo na gargalhada.
— A rainha vai casar com a aberração! – diziam, rindo e segurando o abdômen.
A rainha, em choque, olhava ao redor desesperada.
— Parem, parem.
Eles se aproximavam e riam, para o horror de Tonitro, não era a reação que esperava.
— Olha lá o monstro, vai fazer filhinhos monstros com a Aurora – riam e apontavam o dedo – vamos vê-los procriar.
Uma fada mais ousada chegou perto da rainha e rasgou-lhe parte do vestido, outra jogou um pedaço de fruta mordida em tonitro. Elas foram se aproximando cada vez mais.
— Parem! Socorro! – Aurora gritava – eu sou sua rainha! Guardas!
Os guardas não socorreram, estavam ocupados rindo.
Um Elfo chegou perto de Tonitro e deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair no chão, atônito.
Uma ninfa fez o mesmo com a rainha, e o resto circundava ambos rindo e lançando comidas.
Sentiu dor quando uma fruta acertou seu cocuruto, mas sentiu ainda mais dor quando uma fada lançou fezes em seu rosto.
Eles estavam descontrolados em sua euforia. A rainha ainda gritava:
— Parem, não sou feia, ele que é! A culpa é dele!
Eles não se importavam, continuavam a despi-la e agredi-la com socos e pontapés. Uma fada próxima arrancou uma parte de seu couro cabeludo com as próprias mãos e saiu rindo.
Tonitro estava no chão, encolhido, enquanto elfos chutavam seu corpo inerte.
“É isso que mereço? Eu só queria… só queria ser admirado” ergueu os olhos sangrentos para a multidão e sentiu muito medo, tanto medo quanto sentiu em toda sua vida pregressa. “É verdade… como poderia imaginar uma reação diferente? Durante toda a minha vida, nunca fui da mesma espécie que eles.”
Mais tarde, nos arredores do castelo, os corpos desmembrados de duas fadas estavam sendo carcomidos por ratos. Ambas extremamente iguais em sua grotesca imagem, e nenhuma exalava qualquer sinal de beleza e encanto.
Ao fundo, seres muito belos se divertiam em volta de uma fogueira, dançando e prendendo em estacas duas cabeças: uma feia e uma bela.
