Vício

A cortina da noite descia sob o céu avermelhado do crepúsculo, o barulho intermitente das ondas ressoava em seus ouvidos, e o chilrear alegre dos pássaros aos poucos se calaram perante a crescente sensação do anoitecer.

Com o olhar fixo no seu oponente, calculou suas chances: a espada dele era uma Nodachi, também conhecida como “vara de pescar”, era uma Katana mais longa, com cerca de 1 metro e meio de comprimento da lâmina, e um cabo adaptado para comportar esse peso extra.

A postura do oponente indicava que ele usaria um golpe certeiro de baixo para cima, aproveitando o peso e o alcance da própria espada para partí-lo em dois.

Sabendo disso, alterou sua postura para aparar o golpe quando chegasse e acertar o oponente pela lateral direita.

Seu adversário percebeu a mudança de postura e se adequou ao estilo de combate escolhido: colocando um pé atrás do outro e virando de posição para atacar lateralmente.

Novamente, haveria de mudar a estratégia, afastou as pernas e embainhou a espada para usar um saque rápido como resposta.

Dizem que uma batalha entre samurais acontece mil vezes em suas mentes antes de ser decidida com um único golpe. E foi isso que aconteceu, durante vários minutos se estudando e mudando suas posições, finalmente chegaram à uma posição que os agradavam.

O samurai de espada menor avançou dois passos na areia da praia, enquanto o da espada maior avançou três.

O primeiro pegou impulso e partiu para cima de seu adversário, deslizando a espada na areia. 

Com um movimento ascendente, antes de chegar ao alcance da espada, jogou areia nos olhos do oponente, que atacou com um corte diagonal preciso. Ambas as espadas se chocaram no ar e deslizaram cada uma em direção oposta.

Perdeu a postura por milésimos de segundo, mas seu treinamento o fez se aprumar e dar o segundo golpe, que foi aparado pelo outro homem. Em mais um embate, a espada dele deslizou para baixo, e a enorme Nodachi subiu com força invejável, acertando sua jugular.

Foi tão rápido que mal percebeu o sangue jorrar de seu ferimento, enquanto via o mundo literalmente girar do ponto de vista de uma cabeça decepada.

A última coisa que viu antes da escuridão final, foi seu oponente limpando seu sangue da espada e guardando-a com delicadeza antes de virar as costas.

E tudo se apagou…

Quando abriu os olhos, estava em uma casa de chá, um homem alto e androgino vestindo um yukata (vestimenta tradicional do verão) estava olhando para ele com um sorriso no rosto.

Esfregou os olhos, confuso, e levou a mão à garganta, percebendo que não havia nenhuma cicatriz ou ferimento.

— Estou morto? – o samurai perguntou à figura misteriosa.

— Sim, está. Você perdeu o duelo, o único que perdeu – a voz feminina do homem disse como se estivesse debochando dele.

De repente, entra uma criança de feições comuns na sala e serve chá para ambos.

— Quem é você? – o samurai pergunta para a figura andrógina que o acompanhava na sala.

— Sou o porteiro, eu guio as almas para o outro lado.

— E como é o outro lado?

— Não sei, nunca fui lá – ele ri um pouco e se delicia um pouco com o chá – beba, é muito bom.

O samurai hesita um pouco, mas bebe o chá, de fato era uma delícia.

— O que estamos esperando aqui? – o samurai se impacienta – não era para você me conduzir para o Outro Mundo?

— Era sim, mas gostaria de entender algo primeiro.

— O que?

— Você gostou do chá?

— Gostei sim, mas não é isso que quer saber, ou é?

— Ainda não, não seja impaciente – a figura andrógina sorriu.

— Tudo bem, pode perguntar.

— Está nervoso por ter perdido o duelo? Ou algo a mais lhe incomoda?

Nesse momento, a mesma criança chega na sala e entrega a ambos um recipiente quadrado com saquê de ótima qualidade.

— Estou frustrado, não queria morrer assim, imaginava que poderia ganhar de meu oponente – confessou o samurai.

— Imagino – sorriu e se serviu do saquê – beba, está uma delícia.

O samurai, receoso, tomou um gole do saquê, era o melhor que havia tomado em toda sua vida.

— Está realmente bom… – disse, impressionado.

— Porque acha que perdeu?

— A espada dele era mais longa e mais pesada, eu deveria ter terminado a luta no primeiro golpe, após uma pequena troca de ataques, logo se provou que a minha espada não iria aguentar, e eu acabei morrendo.

— Foi uma análise fria do acontecimento.

A criança retorna levando uma linda mulher nua para a sala.

— Experimente-a – disse a figura andrógina – será a melhor que teve em toda sua vida.

O samurai pensou, hesitou, e refletiu. Para no final ser seduzido pela beleza da mulher. Tomou-a em posse ali mesmo, sem se preocupar com o olhar da outra figura.

— Voltando ao assunto, como realmente perdeu a sua luta?

— Fui impaciente – respondeu de supetão – queria terminar logo com ele e não consegui prever seus passos finais.

— Ótimo, estamos chegando mais perto da verdade. 

— Verdade?

— Porque você luta? – ignorou a pergunta do samurai.

— Por glória, fama, e para conseguir um futuro digno para minha linhagem.

A criança chegou com tabaco.

— Fume um pouco, vai te aliviar. 

O samurai, ainda mais hesitante, deu um trago no tabaco e realmente se sentiu bem relaxado.

— Porque você luta? – repetiu a pergunta.

— Por prazer, gosto de ver o inimigo morto aos meus pés.

O ser androgino confirmou com a cabeça, satisfeito com a resposta.

— Como acredita que vai ser o Outro Mundo?

A criança volta carregando ópio.

O samurai se insulta:

— Isso não usarei!

— Não se preocupe, não há como lhe fazer mal, você já está morto – diz isso e começa a fumar um pouco, relaxando sua fronte.

O samurai ainda recusa, mas a curiosidade fala mais alto, e ele se serve de um pouco de ópio, abrindo sua mente e o deixando completamente relaxado.

— O outro mundo? – continua o samurai – nunca pensei nisso, não me importo para dizer a verdade.

O samurai contempla a fumaça do ópio se dissipando enquanto reflete sobre a indiferença em relação ao Outro Mundo. A figura andrógina não parece satisfeita com a resposta, sinalizando para a criança levar o ópio embora.

— Como vê o outro mundo? – repete a pergunta.

— Tenho medo – confessa o samurai.

— Medo de que?

— Do desconhecido.

— Você conhecia tudo que vivenciou até então?

— Não…

— Está com medo do que vem vivenciando?

— Também não.

— Então não terá medo do outro mundo.

— Por que me oferece tantos vícios? – finalmente questiona o samurai.

— Não tenho motivo nenhum, apenas meu divertimento.

— Por que me ofereceu tantos vícios? – refaz a pergunta.

A figura andrógina sorri, e responde:

— Porque você precisa perder os seus vícios a partir de agora. Estava viciado em lutar, e perdeu, e estava viciado em viver, e morreu. Agora é hora de aprender que deve deixar tudo para trás. Mas antes, deve experimentar de tudo.

— O que mais falta experimentar?

— O vício da morte – a figura andrógina se levanta e estende a mão para o samurai – vamos para o outro mundo?

O samurai se levanta e pega na mão da figura estranha. E parte em direção ao final da sala, onde teria a experiência derradeira.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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