Negro Como o Sol (Versão Melhorada)

Há muito tempo, entre os astecas, acreditava-se que existiam dois deuses que brigaram pela supremacia do cosmos: eles eram Quetzalcoatl e Tezcatlipoca, respectivamente o dia e a noite. Mas eles disputavam sozinhos na imensidão do cosmos, sem propósito ou adoração. 

Em uma decisão súbita e impensada, na época do primeiro mundo antes do nosso, Tezcatlipoca se tornou o sol, com o objetivo de guiar e sustentar as outras criaturas. Contudo, como ele era de obsidiana e escuro, não emitia luz o suficiente para iluminar a terra, e então as criaturas da noite, os grandes jaguares, vieram e devoraram tudo, inclusive toda a criação.

Mas nem tudo estava perdido, visto que a esperança nunca deixou essas terras, então Quetzalcoatl veio e assumiu seu lugar, como um sol brilhante que afastava as criaturas noturnas, e Tezcatlipoca soube seu lugar: como o deus que vigiaria sobre a criação, mas sem o papel de protagonista, apenas como um espectador distante, sem intervir naquilo que falhara.

Isso era o que seu povo acreditava, e os mais estudiosos e experientes astrólogos e sacerdotes  do observatório de Tenochtitlán estavam em polvorosa para descobrir, afinal, por que o sol havia se tornado negro?

Em seu trono imponente, o rei Ollin se inquietava: seu nome fora lhe dado em homenagem ao sol, pois seu movimento cíclico e constante na natureza era uma das poucas certezas que alguém poderia ter. O sol sempre havia de fazer o mesmo trajeto, e haveria de nascer um dia seguinte. Ao menos, por tantos anos, por tantos séculos acumulados de tradições e observações, era isso que viam sempre.

Mas o cenário que observava agora, de sua posição privilegiada nas alturas do templo, era de profundo desespero.

Um aro escuro brilhoso, cuja própria luz parecia trazer a morte e o miasma maligno. Podia ver coisas rastejando sobre a superfície do sol, coisas colossais e inimagináveis; aquilo fez seus pelos eriçarem e seu coração tremer: Ollin já havia matado muitos guerreiros em batalha, sobrevivido a diversos ferimentos que deixariam o mais bravo dos homens em prantos e suportado tanta dor que os deuses duvidariam de sua resiliência, havia sido capturado e torturado por inimigos, a pele de seu braço esquerdo havia sido arrancada lentamente e consumida por aquele que antigamente chamou de irmão, mas em nenhum desses momentos seu coração se encheu de medo.

Ele sempre deu a volta por cima, e depois de demonstrar paciência e bravura, ganhou todas suas batalhas e desafios.

Mas aquilo… a visão de um sol sem luz, com sombras bruxuleantes que lhe enganavam as vistas, aquilo deixava toda sua alma repleta do mais puro terror. Mas não podia demonstrar isso.

Ahuacatlán, um de seus astrólogos, veio lhe reportar:

— Rei Ollin, temo ter más notícias para o senhor.

— Pois então diga-as, meu fiel sacerdote e irmão, qual foi a inspiração que os deuses lhe deram sobre o que está acontecendo com nosso amado sol?

Ahuacatlán suou frio, e engoliu em seco antes de dizer:

— Huitzilopochtli, nosso deus padroeiro, nosso guia e mentor, e entidade de nossa amada cidade nos deixou. Em vista de nos proteger, foi investigar o sol negro e consumido por suas chamas escuras.

Silêncio na sala, o coração de Ollin pesou-se ainda mais. A própria guerra e vontade de lutar de seu povo tinha morrido com a chegada do sol negro.

—  A busca de nosso deus… – Ollin quase fraquejou quando pensou que perderam sua proteção mais amada – foi frutífera? O que ele descobriu?

— Descobriu o corpo da serpente emplumada, que foi violada e consumida pelo sol negro, e por isso que o sol habitual não nasceu essa manhã. Pois assim como a serpente emplumada, o Quetzalcoatl, o próprio corpo solar foi devorado pelo novo sol.

— Então nossos deuses perderam para esse deus estrangeiro? – sua voz estava calma porque ele se esforçou muito para isso, mas sua alma estava prestes a quebrar em desespero – ele fez alguma exigência?

— Nenhuma, ele aparentemente apenas deseja consumir toda a criação e continuar vagando.

— Isso já não aconteceu antes? Qual foi a medida que os deuses tomaram?

— Aconteceu, o próprio Tezcatlipoca já foi um sol negro uma vez, mas não era ele que nos consumia, e sim as criaturas da noite. Quando percebeu que não podia nos proteger, cedeu lugar a Quetzalcoatl se tornar o novo sol.

— Então não temos essa opção?

— Não temos mais um sol brilhante.

— Qual a sugestão dos sacerdotes? O que podemos fazer?

— Não sabemos. É uma situação sem precedentes. Mas… Talvez se sacrificarmos pessoas o suficiente, a ira do sol negro seja apaziguada, e ele nos deixe em paz.

— Acredita nisso?

— Não tenho certeza, se o corpo de deuses não foi o suficiente para apaziguá-lo… quantos humanos seriam necessários? Temos tanto assim? E ainda tem mais um problema.

— Qual problema? – perguntou.

— Sacrificamos cinco escravos como experimento, mas aparentemente a alma dos mortos não está mais sendo enviada para nosso submundo, o Xibalba, está sendo diretamente absorvida pelo sol.

— Isso é terrível – finalmente o rei deixou as emoções tomarem conta de seu diálogo.

— Sim, mas no final de tudo, ainda há esperança…

— Qual seria? – após tantas notícias ruins, o rei precisava de uma boa para decidir o que fazer.

— Testamos consumir a alma de um dos escravos, e ela não foi para o sol negro, após seu filho Yolotzin comer o coração do pobre homem, foi constatado que uma parte de sua alma foi para o Xibalba, e outra ficou presente em seu filho. 

— Isso foi ideia dele? – tinha orgulho de seu filho, apesar da pouca idade, ainda aos 13 anos, sempre tinha uma solução engenhosa para se livrar de problemas, e amava o seu povo incondicionalmente.

— Sim, isso foi.

— O que acontece se ele morrer?

— Provavelmente será consumido pelo Sol negro, assim como sua alma, e parte da alma do escravo… mas a parte da alma do escravo que ficou no Xibalba não se corromperá, e continuará no submundo após o sol negro nos deixar.

— Os videntes disseram quanto tempo temos?

— Cerca de três meses. Até lá, o sol negro terá consumido tudo. Mas antes disso, provavelmente morreremos de fome, nada cresce com o sol negro, nossas plantações não estão mais sustentando nosso povo. Então duraremos no máximo um mês, e nossa alma será levada com o sol.

O rei Ollin não lamentou seu destino, não era de seu feitio. Se havia um problema, era sua responsabilidade resolvê-lo, ele era privilegiado por ser o rei, mas o peso do dever ainda era dele, ele era responsável por seu povo. E foi com isso que chegou a uma resposta:

— Quantos cidadãos livres temos atualmente?

— Cerca de cem mil.

— E escravos?

— Quase sete mil.

— Sacrifiquem todos os escravos e estrangeiros, e reúna todo o resto do povo para um discurso. E traga meu filho até aqui.

Quando os astrólogos e sacerdotes saíram, ele ficou sozinho por 15 minutos antes de seu filho chegar.

Esse tempo ele usou para se despedir de suas emoções humanas e de sua tristeza, chorando tudo que tinha para chorar pelos próximos meses em 5 minutos, e passou os outros 10 orando e se preparando para ficar apresentável para seu povo.

O palco que escolheu para seu discurso foi justamente o altar de sacrifícios da cidade-estado, o local que possuía mais visibilidade.

E se posicionando na mesa cerimonial, o maior de todos Astecas ergueu a voz para as milhares de pessoas que viviam em Tenochtitlan:

— Povo do sol! Escutem seu rei!

Assim que sua voz se ergueu, todos burburinhos, cochichos, assobios e pedidos de ajuda se calaram: confiavam em seu rei, ele era digno e capaz. Muitos presentes juraram inclusive que os próprios animais da floresta pararam de fazer barulho para escutar o que Ollin dizia:

— Estão vendo esse sol negro que corrompe nossas terras? – a tensão no ar subiu repentinamente – muitos tiveram a ideia de cultuá-lo ou de acreditar que era um de nossos deuses nos provando. Mas isso é mentira! Quem ainda acredita nisso, peço que se retire imediatamente de minha cidade e vá buscar abrigo com seu deus estrangeiro. Pois aqui é a terra de nossos deuses, a terra de Huitzilopochtli! O deus patrono da guerra! Que foi covardemente assassinado por esse estrangeiro – os burburinhos começaram novamente, mas um gesto de mão do rei Ollin os cessou – por que então defender a honra de um deus derrotado? Por que adorar aquele que perdeu? A resposta é óbvia: gratidão, esse deus nos protegeu durante centenas de séculos, sem nunca nos abandonar, e nos protegendo, foi covardemente assassinado. O que podemos fazer por ele é vingança! – todos pareciam concordar em uma emoção contida, balançando a cabeça e murmurando, até que o rei os silenciou – mas não posso pedir para que lutem comigo, afinal, o inimigo está roubando a alma dos mortos para se fortalecer. Quem morrer nessa batalha será consumido pela chama negra do sol e nunca mais viverá, não retornará para o ciclo da vida – esse era o sentimento que esperava: via pavor nos olhos de seu povo, e se lamentou por não ser forte o bastante para protegê-los, não ainda – Mas nem tudo está perdido, quero que testemunhem a bravura de meu maior orgulho: meu filho Yolotzin. 

Assim que disse isso, os cidadãos, em choque, viram a criança de 13 anos, mais parecendo um adulto orgulhoso e poderoso, surgir de trás de seu pai com vestes cerimoniais e uma adaga de obsidiana na mão. 

O jovem entregou a adaga de obsidiana para seu pai e ajoelhou na sua frente, dizendo:

— Ofereço-me a ti, meu senhor, meu pai, meu rei.

A multidão não sabia o que esperar a partir de agora, mas assistiu, impávida, o filho do seu rei, o seu príncipe se deitar na mesa cerimonial.

O jovem, de apenas 13 anos, estava pálido, temia por muitas coisas, principalmente por sua cidade, mas seu senso de dever era imenso, e ele tinha certeza de que ele estava fazendo a coisa certa para salvar a todos, e a si mesmo.

Dois guardas se aproximaram e fizeram menção de amarrá-lo na mesa cerimonial, mas ele disse:

— Não será necessário, não irei fugir nem me mexer.

Os guardas então se entreolharam e olharam para o Rei, que acenou positivamente com a cabeça. Então eles se afastaram e continuaram a assistir o macabro espetáculo.

O Rei Ollin, dotado de destreza impecável, pegou uma faca cerimonial e uma luva de garras de ferro. Com a faca, fez três cortes superficiais na altura do osso externo de seu filho, que fechou os olhos e suportou a dor.

Os três cortes foram necessários para delimitar onde seu coração estava, e seu golpe ser mais preciso.

Com um movimento rápido usando a luva de garras, atravessou o peito de seu filho, com pesar, e retirou-lhe o coração. Ao que o rapaz gemeu baixinho de dor, e desfaleceu.

O corpo sem coração de seu filho estava na mesa, e, mal contendo a emoção e o orgulho que sentia, mostrou o coração ainda pulsante dele para a multidão, que assistia atônita.

— ESSA é minha resposta ao sol negro.

Em duas ou três mordidas, já havia devorado o coração de seu filho.

— Yolotzin era conhecido como coraçãozinho, o nome que dei a ele, pois era pequeno e frágil. Mas se demonstrou mais forte e poderoso que qualquer outro guerreiro que já vi. E agora eu consumi seu coração e o mandei para o Xibalba.

Alguns pareciam entender o que o rei queria dizer, outros ainda processavam lentamente as informações. Com o rosto e corpo repleto do sangue de seu próprio filho, o rei se vira novamente para a multidão e estende sua mão direita como se pedisse algo:

— Povo de Tenochtitlan, me entreguem seus corações, irei consumí-los todos de bom grado e serei seu último refúgio antes que o sol negro nos engula. Prometo com minha vida, e minha posição como rei, que lutarei com ele e expulsarei sua tirania dessas terras. Enquanto isso, desejo que voltem ao Xibalba para se refugiarem, não há necessidade de lutar! Pois seu rei fará isso por vocês!

Uma parte da multidão se comoveu e começou a gritar de excitação e bradar gritos de guerra:

— Saúdem Ollin, o rei dos reis, o último bastião de nosso povo!

Mas outra parte, guerreiros orgulhosos, não aceitavam que seu rei lutasse por eles, e pediram para lutar também. Ao que seu rei disse:

— Vocês irão lutar. Preciso de cada coração e alma para me fortalecer, seus corações lutarão dentro de mim, mas não posso deixar que vocês sejam consumidos por ele. Então peço, para que de bom grado me deixem lutar por vocês e me deem forças para que eu possa enfrentar tal abominação.

Com essas palavras, eles entenderam, que agora o rei não era o rei, ele era todos. Ollin era Tenochtitlán, e eles lutariam com seu rei, junto de sua alma.

Pouco a pouco, Ollin consumia o coração de todos Astecas presentes, seu corpo se metamorfoseou em uma criatura medonha, de olhos vermelhos, asas cinzentas e grandiosas e rosto de morcego, suas vestes cerimoniais se fundiram ao seu corpo, e ele sustentava uma massa enorme de almas e corações com duas patas traseiras grossas e curvas, além de duas patas dianteiras curtas e atarracadas, com garras mais afiadas que qualquer metal.

No final da cerimônia, todos eram Ollin, e Ollin era todos. Cada mulher, criança, soldado, fazendeiro, clérigo, velho ou astrólogo era essa criatura que rondava pela floresta.

Essa ronda durou dias, e esses dias se tornaram anos, e esses anos se tornaram séculos, e esses séculos se tornaram milênios. Mas a vigília de Ollin não cessava, dia ou noite. E o Sol negro teimava em consumir tudo que ali havia, até que a terra havia se tornado um liso e sem graça tecido branco.

Nesse tecido branco, Ollin vagava, com sua mente perturbada pelos pensamentos de todos que se fundiram à ele. Mas tinha força para resistir ao temeroso sol negro, que não conseguia de jeito nenhum consumí-lo. 

A espera foi tanta, que o próprio sol negro, imponente e eterno, desistiu de consumí-lo, e passou a vagar novamente pelo espaço, procurando mais planetas e sistemas para destruir.

Assim, o céu só era iluminado pela luz das estrelas, visto que a lua não mais refletia o sol, e o sol não mais existia.

E foi com a saída do deus estrangeiro, que encontrou um antigo amigo, que nunca esperava encontrar em uma situação dessas:

O deus Tezcatlipoca, o grande Jaguar, estava lá, soturno como a noite, esperando por ele.

— Ollin, óh, Ollin, último dos reis astecas, como você demorou a me encontrar – apesar de não parecer debilitado, a voz do deus estava fraca como o sussurro de um velho prestes a partir.

A resposta de Ollin foi pouco mais de um rosnado selvagem, de uma criatura que há muito havia deixado de ser humana.

— Estou morrendo, Ollin, embora você não saiba o que é isso, seu corpo imortal será a única coisa que sobrará no plano dos vivos. Eu partirei, e comigo a noite também irá embora, assim como o submundo e a própria morte. Então tu vagarás para sempre nesse tecido branco que um dia foi seu lar.

Ollin estava inconformado, tudo isso para nada? Era a única coisa que sua mente perturbada conseguia pensar: nem o primeiro e último dos deuses havia conseguido fugir para sempre, e até o Xibalba iria embora, junto com a alma de todos que tentara proteger.

O único que sobraria seria ele, junto com parte dos habitantes, mas ainda sim, era intrinsecamente ele.

— Mas há uma solução, Ollin, uma que cheguei há muito tempo, quando refleti bem sobre as atitudes que você fez.

A criatura rosnou, confusa. Ainda havia um jeito? Depois de tentarem tudo sobre a terra e mais um pouco, haviam perdido, mas aquele deus lhe dizia que havia esperança.

— Tudo que preciso, é que confie em mim – Tezcatlipoca, o deus da morte, da noite, e de tudo que havia de ruim, sorriu.

Tezcatlipoca então lhe disse seu plano:

— A sua alma, e a de todos que consumiu, se perderá para sempre, mas será necessário para que haja vida na terra e no mar novamente. Você será a base para a criação de um novo mundo, você aceita?

Não precisou pensar muito para isso, e pela primeira vez em muito tempo, todas as vozes de Ollin concordaram em fazer algo.

— Aceito – sua voz gutural era fria, porém resoluta. Não sabia o que ocorreria dele, mas se fosse para reviver sua terra, nada mais importava, tinha que ser feito.

Ollin instantaneamente se prostrou e abriu os braços, impotente, ao que o grande jaguar atacou-lhe o coração e o retirou, brilhante e pulsante, contemplado com a alma de todos os Astecas.

Então o grande jaguar lançou o coração brilhante de Ollin ao céu, que se tornou um novo sol. Pegou sua pele e estendeu sobre o tecido branco, e seu pêlo se tornou a grama, seu sangue se tornou os oceanos. E suas asas, cortadas e espalhadas por toda parte, se tornaram montanhas.

E com seu último suspiro, Tezcatlipoca partiu e liberou as almas de todo mundo que estava em Xibalba pela terra. As almas que estavam pela metade foram incorporadas em pessoas e animais, e por estarem incompletas, até hoje procuram sua outra metade.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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