Correntes de Ódio

O sol sumia preguiçosamente no horizonte do canavial, enquanto Antônio e os outros escravos eram conduzidos para a senzala por Seu João. Sentia o suor pregado ao corpo fazê-lo estremecer levemente com o vento úmido que vinha do litoral. O calor que sentia durante o dia era insuportável, ainda mais trabalhando intensamente desde que o sol raiava, mas mesmo que a noite não fosse exatamente fria, a brisa marítima resfriava seu corpo o suficiente para que ele conseguisse relaxar antes de dormir.

Quando Seu João se aproximou da estrutura de paredes de barro rachado, fez um gesto para que os outros parassem de andar. Com a mudança brusca de movimento para a inércia, o tilintar de correntes pôde ser ouvido na paisagem da fazenda, ecoando de maneira rítmica nos ouvidos de cada um presente. Assim, o feitor pegou a chave de cobre que guardava no bolso traseiro de sua calça ajustada para servir em seu grande corpanzil, e abriu a porta de madeira da senzala com dificuldade, fazendo o silêncio ser quebrado novamente pelo rangido quase espectral da abertura emperrada.

Antônio suspirou fundo ao sentir o cheiro de suor velho, palha úmida e sangue seco que saiu do local que funcionava como sua residência. Se tinha algo que ele odiava mais que as punições físicas, homens brancos e trabalho intenso era o cheiro da escravidão. Esse cheiro que inundava suas narinas era uma prova não só da injustiça e da opressão de sua posição: era uma prova principalmente da podridão que significava o que era ser um escravo.

Quando todos já tinham entrado e se acomodado em seus respectivos locais, Seu João olhou para todos com um sorriso que tentava ser simpático:

— Hoje foi um dia de trabalho produtivo, rapazes, continuem assim! — Enquanto fechava a porta da senzala, complementou — durmam bem, que Deus os abençoe e o Espírito Santo guie seus sonhos!

Enquanto ouvia o feitor colocar as correntes pelo lado de fora da porta, instintivamente seu olhar foi atraído pela figura do deus crucificado pregado na parte superior da parede da senzala: o sofrimento dele ressoou com o próprio, e ele sorriu com a ironia. Não sabia ainda o que pensar do Cristo, não tinha muitas lembranças de sua terra natal, mas sabia que não era o mesmo deus que eles cultuavam lá: os muitos orixás e espíritos que adoravam pareciam não ter mais poder nessa terra distante em que fora trazido. E enquanto os seguidores deste deus pregavam amor, humildade e subserviência, eles também foram responsáveis por renomeá-lo e escravizá-lo. Não gostava de lembrar de seu nome original, pois ele lhe trazia um sentimento desconfortável de nostalgia.

Ele era um dos únicos naquela fazenda que não foram nascidos no Brasil, a maioria dos outros escravos já foram criados com a ideia de que o único deus é o Cristo, e não conhecem a vida fora da escravidão. Talvez fosse por isso que, até entre os outros escravos, ele se isolava: “simplesmente não consigo aceitar que esses outros negros sejam tão conformados com essa situação. Enquanto luto todos os dias para esconder o ódio profundo que consome meu coração, eles parecem ser feitos somente de medo, tristeza e resiliência contida”. 

Estava muito escuro, mas Antônio sabia exatamente qual negro estava rezando em voz baixa, qual estava se lamentando e qual estava gemendo de dor após uma surra de Seu João. O local onde estava deitado permitia que um pouco da luz da lua passasse por uma ínfima fresta na parede, e iluminava curiosamente uma marcação no chão feita por uma corrente, próxima a uma mancha de sangue seco.

Mesmo com os cães dos Figueiredo latindo incessantemente ao cair da noite, conseguiu dormir um sono leve. Sono este que só foi perturbado por um resquício de sonho distante, em que ele sentia que algo estava de errado, como um pressentimento, um augúrio de um pesadelo. Abriu os olhos e seu olhar foi novamente atraído pela figura do Cristo, que, apesar da escuridão, estava iluminado pela luz da lua saída de uma fresta do teto. Sob essa luz fraca vinda do astro celestial, a expressão de sofrimento do Cordeiro Divino parecia ter se metamorfoseado em uma expressão de profundo pavor. Até que os latidos cessaram abruptamente no meio da noite com um ganido alto.

Um murmúrio indecifrável começou a se formar enquanto diversos negros acordavam se perguntando e perguntando aos outros o que estava acontecendo. Após alguns minutos, ouviram o barulho de um tiro sendo disparado, um grito agudo e lamurioso trazido pelo vento, e novamente o silêncio… Somente perturbado pelo choro de medo dos presentes e pelo barulho incessante das correntes.

O silêncio do lado de fora começa a contrastar com a cacofonia do lado de dentro. Sebastião, o velho cego negro, começou a rezar em voz alta: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja teu nome…”

Alguém gritou de dor dentro da senzala, fazendo com que todos presentes se silenciassem momentaneamente para acudi-lo.

— O que foi Matheus? Por que está gritando? — Alguém inquiriu na escuridão.

— Alguém me queimou com um ferro quente — gemeu — está doendo para caralho.

— Não tem nenhum ferro quente aqui! Tá maluco?

Os gemidos de Matheus gradualmente cessaram, e ele suspirou aliviado, rindo baixo do próprio desespero.  Mas o que nenhum dos presentes queria admitir era que um cheiro de pele e carne queimada podia ser sentida no recinto. 

— O que será que está acontecendo lá fora? — Alguém perguntou.

— Deixem os Figueiredo resolver isso, não é da nossa conta — Antônio respondeu rispidamente, antes que pudesse se conter — vou voltar a dormir, tenho que acordar cedo amanhã.

— Tinha que ser o esquisito do Antônio para falar isso — alguém respondeu, sarcástico — e se for algo perigoso?

Antes que Antônio pudesse responder, a porta de madeira bate violentamente com uma rajada de vento, assustando os escravos.

—  Esse vento… Não é coisa de Deus — Sebastião murmurou antes de voltar a rezar mais um pai nosso.

Um silêncio pesado caiu sobre todos, quebrado apenas pelo rangido das correntes que parecia vir do lado de fora. Antônio sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se a própria escuridão estivesse observando cada gesto, cada respiração contida. O cheiro de terra úmida misturado com fumaça distante tornou-se mais intenso, e ele jurou ouvir, entre os sussurros dos outros, uma voz que murmurava seu nome.

Enquanto Matheus se encolhia num canto, cobrindo o rosto, um leve toque frio roçou o ombro de Sebastião, fazendo-o estremecer e sussurrar uma prece ainda mais baixa. O ar dentro da senzala parecia mais denso, pesado, como se cada respiração custasse esforço. Um leve estalo percorreu o chão de barro, seguido de um sussurro quase inaudível que parecia vir das paredes mesmas, repetindo os gritos e gemidos do dia. Antônio fechou os olhos, tentando ignorar, mas a sensação de que algo se movia entre eles, invisível e impaciente, era difícil de negar.

Foi então que ouviram o claro barulho de passos do lado de fora da senzala, passos inconstantes, pesados, inumanos… Ao mesmo tempo que o calor abafado da construção começa a ser dispersado por um vento congelante que entrava pelas frestas da casa de barro. 

Juntaram seus corpos, tremendo de frio enquanto essa brisa misteriosa entrava pelas rachaduras da residência. O silêncio voltou a imperar, e até mesmo a respiração parecia suspensa; ninguém tinha coragem de se mover, e até o tilintar das correntes cessou, como se o próprio tempo tivesse parado.

Antônio sentiu um arrepio percorrer cada músculo do corpo, como se o vento gelado tivesse se tornado uma presença física. Pela fresta estreita da senzala, ele percebeu algo se movendo lá fora, mas não conseguia distinguir forma ou tamanho. Ainda assim, algo estava ali, algo que não respirava como um homem, nem tinha passos comuns, mas exalava uma sensação tão intensa de ódio que parecia tocar diretamente a sua mente. Era como se cada lembrança de dor, cada chicotada, cada grito sufocado de sua vida inteira estivesse sendo refletida de volta para ele, multiplicada. Antônio engoliu em seco, sentindo o coração bater descompassado, enquanto a criatura invisível parecia observá-lo, alimentando-se de seu medo, aguardando que ele cometesse qualquer movimento em falso. O ar tornou-se pesado, quase sólido, e ele percebeu que o ódio não vinha somente dele: era um peso tangível, irradiando do lado de fora, pronto para esmagar quem ousasse respirar.

O murmúrio coletivo dentro da senzala começou a mudar, tornando-se quase incompreensível. Vozes antes baixas se elevaram em um tom quase histérico, enquanto alguns se encolhiam nos cantos, segurando os braços como se o simples toque do ar pudesse queimá-los, apesar do frio. Antônio sentiu uma pressão no peito, como se algo invisível estivesse comprimindo o espaço ao redor, e percebeu que os outros também começavam a se contorcer, tremendo sem motivo aparente. O ódio que emanava do lado de fora parecia se infiltrar nos corpos, transformando medo em uma dor física, lenta e cruel.

Sebastião, o velho cego, murmurava preces com uma voz cada vez mais trêmula, mas mesmo suas palavras não pareciam suficientes para afastar a presença. Matheus começou a chorar, sem lágrimas aparentes, apenas soluçando e apertando o peito, como se o próprio ar tivesse se tornado venenoso. Alguns se abraçaram em silêncio, buscando conforto, mas o toque humano parecia apenas refletir o terror, multiplicando-o. 

E então, algo mudou. Um estalo seco, quase como o ranger de ossos distantes, atravessou a senzala. O odor de ferro queimado voltou, mais intenso do que antes, e a luz da lua que entrava pela fresta parecia tremer, projetando sombras que se retorciam nas paredes. Cada escravizado congelou, com os olhos arregalados, sentindo como se a criatura pudesse penetrar suas mentes a qualquer instante. Antônio engoliu em seco, sabendo, com uma clareza aterradora, que o ódio não buscava amedrontá-los: era algo sem intenção, causa ou sentido, era o ódio em sua forma mais primordial possível, cujo único propósito era destruir.

Foi então que sentiu algo que há tempos não sentia mais: empatia e nostalgia. Não sabia ainda porque esse ódio lhe era tão querido, mas definitivamente sabia porque ele estava ali: o próprio Antônio havia-o evocado. 

Essa revelação o atingiu como um chicote. Antônio fechou os olhos, tentando resistir, mas o peso do ar era irresistível. O ódio que pulsava lá fora já não era apenas uma presença alheia, era um espelho de sua própria alma. Cada lembrança de humilhação, cada noite sem esperança, cada ferida aberta e cicatrizada à força se erguiam diante dele, nuas, sem o véu da resignação.
Ele se viu menino outra vez, com o corpo frágil sendo arrastado pela corrente de ferro, a mãe implorando aos gritos, o pai sendo abatido como gado diante de seus olhos. Sentiu de novo a ardência das chibatadas, o gosto de sangue que escorria pela boca, a vergonha de não poder erguer a cabeça. Por anos havia enterrado essas memórias, forçado a aceitá-las como parte de um destino do qual não se podia fugir. Mas agora elas queimavam em sua mente, vivas, abrasadoras, clamando por resposta.

Seu corpo tremia, mas já não era apenas de medo. Antônio percebeu que aquele ódio não lhe era estranho: ele o conhecia, o havia cultivado em silêncio, mesmo sem se dar conta. Era o ódio de todas as vezes que sonhara em escapar, de todas as vezes que quisera agarrar o chicote do feitor e devolvê-lo contra sua carne. Era a revolta que, por sobrevivência, havia aprendido a sufocar. Mas ali, na escuridão opressora da senzala, essa chama acesa em segredo encontrou seu reflexo monstruoso.

As correntes tilintaram baixinho quando ele ergueu a cabeça, respirando fundo. O vento gelado que atravessava a fresta já não lhe parecia uma ameaça, mas um chamado. A criatura não era inimiga. Era testemunha, era extensão, era a materialização daquilo que fora negado por tanto tempo: o direito de odiar.

As lágrimas lhe vieram sem perceber… Não de fraqueza, mas de uma raiva que finalmente tinha espaço para existir. A injustiça que o moldara, que lhe roubara família, terra, e até mesmo o próprio nome, estava gravada em cada osso, em cada cicatriz. E agora, pela primeira vez, ele não a repudiava. Abraçava-a.

Antônio abriu os olhos e a escuridão lhe pareceu mais clara. O estalo seco ecoou de novo, mas não o assustou. Pelo contrário, o som lhe soou como uma resposta íntima, um pacto silencioso. A criatura não mais observava à distância: ela estava nele, e ele nela. Não havia barreiras. O ódio fluía como sangue compartilhado, unindo-os.

Dentro de si, Antônio sentiu a revolta transmutar-se em força. O coração, antes descompassado, agora pulsava firme, em sincronia com aquele passo irregular que rondava lá fora. A senzala inteira tremia, mas ele, pela primeira vez, se sentia erguido.

A criatura era ele, e ele era a criatura. Mas não apenas isso, ele era o ódio. Sorrindo, em êxtase, ele roga para a criatura, para si e para sua própria fora, encontrando finalmente a fé que muito antes lhe fora negada e renegada. Ele roga para que sua ira seja despejada nessa terra impura de muitos feitores, e a criatura, agora ele próprio, aceita de bom grado.

As correntes cederam com um estalo metálico, caindo ao chão como serpentes mortas. Antônio ergueu-se. Seus olhos não eram mais apenas dele; um brilho úmido, profundo, queimava nas pupilas.

Do canto mais escuro da senzala, a criatura avançou, dissolvendo-se na carne do homem como fumaça que encontra fogo. O ar se partiu em um rugido abafado, e o corpo de Antônio pulsou como se respirasse com muitas bocas ao mesmo tempo. Lá fora, os cães começaram a latir, depois a gemer, e logo o silêncio caiu pesado. A noite foi rasgada pelo primeiro grito humano, alto, desesperado, e logo vieram outros, tantos que se confundiram com o vento.

Quando o dia seguinte nasceu, não havia mais canavial, nem senzala, nem fazenda. Apenas cinzas, sangue seco e o eco distante de correntes arrastadas no pó. E os escravos que ali viviam nunca mais foram encontrados.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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