O Mago do Deserto

A areia incomodava seus olhos, arranhava sua íris azulada e grudava em sua pele suada. O poço de água estava a apenas cinco quilômetros do monastério, mas sair em meio ao deserto era cansativo para a criança. Mas seu mestre estava com sede, não havia muito o que fazer se não ir buscar a água ele mesmo.


Voltou para os limites do monastério cansado, mas com um balde de água fresca em mãos. Quando adentrou as paredes de mármore branco sagradas, percebeu que Holt estava esperando por ele, abanando o rabo e com a língua para fora. Não era fácil domesticar um chacal, eram animais astutos, mas tímidos e retraídos, não confiavam em humanos, mas Perl tinha certeza que Holt havia se aproximado deles por causa da aura que exalava de seu mestre: era uma aura gentil e acolhedora, comum a poucos magos, visto que em sua maioria eram pessoas despreziveis.


Acariciou as orelhas de Holt, que retribuiu com um latido, e voltou a caminhar por dentre os corredores de mármore do monastério, até que chegou no escritório de seu mestre, o Grande Mago Ja’fal. Ele era um homem alto, com a cabeça completamente lisa, evidenciando a sua falta de cabelo, sua pele cor de oliva já estava desgastada pelo sol e velhice, e ele exibia em sua fronte um cavanhaque branco de respeito, além de um sorriso fácil no olhar.


— Pegou minha água, jovem Perl? – perguntou, já sabendo a resposta.


— Peguei sim – com um arfar de esforço, colocou o balde em cima de uma mesinha lateral, e passou à outra mesa para pegar um copo e servir seu mestre.
Assim que o velho sorveu as últimas gotas de seu copo, ele se levantou em um ímpeto jovial, pouco característico de sua idade.


— Estava ansioso para mostrar algo para você – disse o velho mago, se apressando pelo corredor – venha! Não fique parado aí!


Após hesitar, surpreso, por alguns segundos, Perl seguiu o mago pelos corredores, imaginando o que havia acontecido com seu mentor para ele agir assim. Holt os seguia abanando o rabo, sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo.


Pararam em frente à biblioteca do monastério, a porta dupla de madeira de mogno era pesada, mas mecanismos internos faziam-na abrir quando alguem se aproximava, e isso que ela fez: quando a dupla (e o animal) surgiram na frente dela, ela se abriu mostrando a infinidade de livros que havia lá dentro. Eram várias torres de madeira circulares, com livros das mais diversas áreas, acompanhadas de estantes e mais estantes, um golem de mais de dois metros de altura era o bibliotecário, foi feito por Ja’fal há anos atrás para servir como guardião e facilitador de seu trabalho na biblioteca.


O golem estava arrumando livros na estante quando o mago passou por ele quase correndo.


— Venha Perl, estamos chegando!


Confusa, a criança acompanhou o mago, fazendo um breve aceno para o golem, que estava sem se incomodar com a situação.


O mago parou em frente à uma das torres de livros, e deslizou o dedo pela madeira da estrutura por um breve momento, achou o que estava procurando quando um barulho de clique pôde ser ouvido e mecanismos começaram a serem ouvidos.

Enquanto o barulho de engrenagens e polias ressoava em seus ouvidos, uma parede se abria no fundo da biblioteca, revelando uma escadaria que descia em um corredor pouco iluminado por lamparinas azuis.


— Há quanto tempo isso existe? – perguntou Perl, impressionado.


— Desde antes de você aparecer aqui no monastério – ele fez uma pausa enquanto descia a escadaria – eu estou trabalhando nessa magia há um tempão, mas só ontem consegui realizá-la.


— Que magia?


O mago olhou para trás e sorriu.


— Você vai ver…


Enquanto desciam pela grande escadaria que Perl nem sequer imaginava que existia, o velho mago lhe perguntou:


— Você leu o livro que eu lhe dei? “A Breve História da Magia”?


Perl hesitou.


— Li o começo…


— Então não deve ter chegado na parte importante… – resmungou – depois abra no capítulo 17, “O Paradoxo da Mana” e terá mais conhecimento sobre o assunto.


— Do que está falando?


— Estou falando que a Mana neste mundo pode vir a acabar um dia – esperou as palavras pesarem no ombro do rapaz – magia, Perl, é realizada com a energia que conhecemos como Mana, quando utilizamos magia, um pouco da Mana se acaba, pois quando construímos algo com magia, parte da mana fica cristalizada no constructo mágico.


Perl quase sentiu a cabeça girar com tanta informação.


— Em resumo, significa que a magia um dia deixará de existir.


— Mas isso seria um desastre! – retrucou Perl.
O velho mago sorriu.


— E é por isso… – fez uma pausa dramática e abriu os braços, ao mesmo tempo que chegavam ao final da escadaria – que eu vou revolucionar esse mundo!


Assim como uma criança com um brinquedo novo, talvez até ainda mais animado que isso, ele saltitou no chão firme e um pouco úmido do subterrâneo e passou a ativar umas alavancas que se destacavam no escuro. Quando ele as ativou, o teto abobadado do subterrâneo pareceu se iluminar em uma explosão de cores, e diversos pontos luminosos foram surgindo no firmamento como se fossem…


— São estrelas – Perl murmurou – que lindo!


O velho mago assentiu, satisfeito, e passou a girar um mecanismo parecido com uma manivela que estava em uma das paredes. Quando ele fez isso, as estrelas começaram a girar também e se organizaram em forma de espiral, com seus brilhos inconstantes fazendo um show de luzes na sala subterrânea.


— É com esse equipamento que irei revolucionar o mundo da magia – disse o velho mago – Usei de várias áreas da magia para fazer isso: Abjuração, conjuração, astrologia e até necromancia.


— Como funciona? E o que faz?


—  Quando eu era bem mais jovem, eu descobri que representações de algo podem conter parte da mana da coisa original. Como exemplo, um quadro de um mago poderoso pode conter parte da mana do mago – continuou tagarelando – mas isso me levou à uma dúvida: se alguém me pintar várias vezes, vou perder parte da minha mana?


— Acho que não, não faz sentido.


— Exato, foi ai que descobri que a arte cria mana, é como se quando algo fosse criado, a mana fosse criada junta! Mas nunca era o suficiente. A mana criada com uma peça de arte era ínfima se comparada à mana do objeto original. E então a solução que arrumei para isso foi retratar em arte uma coisa que possuísse muita mana: um sistema solar inteiro!


— E foi assim que conseguiu mais mana?


— Não… – sorriu.


— Não deu certo?


— O quadro de um sistema solar não foi o suficiente nem para angariar mana o suficiente para fazer uma magia de primeiro círculo! – resmungou – nesse momento eu quase desisti, mas aí vieram meus conhecimentos de necromancia.


Aproximou-se do jovem.


— Necromancia consiste em conectar sua mana com a mana do mundo dos mortos, porque eu não faria isso com o cosmos? Eu só precisaria conectar minha mana com algo no espaço. Mas a pergunta se mantém… como eu faria isso?


Antes que Perl pudesse responder, ele continuou:


— Magia de conjuração, eu poderia conjurar um aspecto das estrelas aqui no meu escritório, só precisaria estar em contato visual com elas. Daí veio minha ideia de conectar tudo com arte, fiz esse observatório de estrelas, memorizei a posição de cada uma e repliquei aqui no interior do monastério. Depois, conjurei a essência do cosmos usando minha própria mana e cortei o acesso à mana exterior com uma magia de Abjuração, para testar o resultado.


— E qual foi o resultado?


— A mana produzida é o suficiente para sustentar a academia aérea de magia no ar por um ano, e consegui isso em um dia – seus olhos brilhavam – é um torrencial de mana!


Perl estava impressionado, não tanto quanto o seu mestre esperava, mas estava bem impressionado. Mas ainda restava uma dúvida:


— E o que vamos fazer com toda essa mana?


— Distribuir pelo mundo, mas não sei como ainda. Se deixarmos o curso natural tomar conta, a mana acaba se espalhando pelo mundo em algumas centenas de anos, mas não temos todo esse tempo para colher os louros de nosso processo.


— Entendo, e isso fica ativado para sempre? Não vai ter um problema de excesso de mana?


— Ainda não está ativado, a alta densidade da mana no ambiente faria a gente sufocar, ou pior: nos transformaria em quimeras.


— Então quando vamos ligar?


— Vou ligar agora somente para demonstrar o efeito para você, mas temo que vai ficar desligado por um bom tempo, até eu descobrir uma maneira de dissipar toda essa mana.


Ja’fal deu um sorriso enigmático enquanto olhava para Perl, que estava agora mais envolvido pela ideia do que uma torrente de mana poderia representar. O velho mago, com sua energia jovem e olhar cintilante, se preparava para o momento que ele julgava ser o auge de sua longa jornada de experimentos e descobertas.


Com um gesto teatral, ele puxou uma alavanca no painel à sua frente. Instantaneamente, a sala subterrânea foi preenchida com uma luz intensa. As estrelas no céu artificial começaram a brilhar com mais força, formando uma espiral complexa que parecia girar sobre eles como um redemoinho cósmico. Perl ficou momentaneamente cego pela intensidade, mas logo seus olhos se ajustaram e ele pôde ver, surpreso, como as estrelas começaram a dançar, cada uma emitindo raios cintilantes que pareciam tocar a própria essência do universo.
A mana no ambiente crescia, e Perl podia sentir uma leve pressão no ar, como se a própria atmosfera estivesse carregada com algo poderoso, algo que ele ainda não conseguia compreender completamente.


— Eu sei que parece maravilhoso, mas observe com cautela — disse Ja’fal, observando a reação do jovem. — Esta não é a mana de qualquer pessoa. Eu extraí a energia diretamente do tecido cósmico. Aqui não há apenas magia… há um pedaço do próprio universo. Se essa energia não for controlada, pode transformar tudo ao seu redor.
Perl, maravilhado e um pouco temeroso, olhou para as estrelas flutuantes, que agora pareciam estar se aproximando perigosamente. Ele sabia que estava diante de algo imenso, algo que poderia mudar o destino do mundo, mas sentia também que o velho mago estava caminhando em uma linha tênue entre a genialidade e o risco absoluto.


— Mas como você vai controlar algo tão grande, mestre?


Ja’fal sorriu, um sorriso cheio de segredos e promessas.


— Eu não posso controlar o cosmos, Perl, mas posso conectá-lo ao meu próprio corpo. Com isso, a mana passará a fluir através de mim de uma maneira que nunca se dispersará. Vou me tornar uma espécie de ânfora mágica, um recipiente para o poder. Essa energia será contida até eu encontrar a maneira de usá-la em sua totalidade.


De repente, o som de uma estranha vibração cortou o ambiente, e Perl sentiu um arrepio na espinha. As estrelas começaram a brilhar mais intensamente, como se quisessem se libertar da sala subterrânea e invadir o mundo exterior. O ar ficou mais denso, e Perl podia sentir a presença da magia ameaçando sair do controle.


Ja’fal franziu a testa e correu para o painel, tentando puxar de volta a energia. Mas as engrenagens pareciam ter se desgarrado, como se a própria força da mana estivesse fora do alcance do mago.


— Está fugindo do controle… — murmurou Ja’fal.
Perl olhou ao redor, tentando entender o que estava acontecendo. Holt estava inquieto, rosnando e pulando em círculos, aparentemente sentindo a intensidade da mana no ar. A criança sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, e uma vontade de fugir tomou conta dele.


Ja’fal olhou para Perl com uma intensidade quase mística, como se tivesse alcançado um nível de compreensão que o jovem não podia ainda captar.


— Estamos fazendo história, Perl. Estamos desafiando os limites da magia e da própria existência. O que acontece daqui pra frente pode mudar tudo.


Neste momento, algo estranho aconteceu. As estrelas começaram a desmoronar, não como uma queda, mas como se estivessem se distorcendo, retorcendo o espaço ao seu redor. O céu artificial começou a rachar, e com isso, uma onda de mana pura começou a se derramar pela sala, iluminando cada canto com uma luz cegante.


— Mestre! — Perl gritou, olhando para Ja’fal, que ainda estava em transe, totalmente imerso na experiência de controlar o caos mágico.
De repente, uma voz tenebrosa surgiu de onde menos esperava:


— Canalize a magia, garoto – era uma voz desconhecida, mas estava saindo da boca canina de Holt.


— Holt?


— Me apossei do corpo mais próximo que pude encontrar, meu verdadeiro nome é – seguiu a dizer vários fonemas incompreensíveis – mas preciso que me escute: se não canalizar a magia agora, um desastre sem precedentes vai acontecer.


Perl entrou em pânico, canalizar a magia? Como? Ainda não era um mago experiente, podia fazer pouca coisa. Sem saber para onde ir e o que fazer, tentou concentrar seu “olho interior” para observar a mana, assim como seu mestre havia lhe ensinado.
Viu uma torrente tão grande quanto o próprio deserto, uma energia intensa que quase lhe cegava o olhar, sentiu as ondas de mana tocarem sua pele e algo dentro dele mudar, mas não o suficiente para se desesperar. Concentrou seus órgãos mágicos para se tornar, assim como seu mestre, uma ânfora da magia, e começou a absorver a quantidade enorme de mana que descia das estrelas.


Não demorou muito para que percebesse que foi uma tentativa fútil, seu corpo estava repleto de mana até o limite, e nem um pouco do torrencial havia sido diminuido. Mas a voz que saia de Holt lhe encorajou:


— Isso garoto, agora solte a seguinte magia – instruiu o garoto para repetir as palavras que dizia.
Ao fim do encantamento, o ar parecia ter mudado, e o torrencial de mana parecia estar diminuindo. Em poucos minutos, a mana parecia estar se dissipando e penetrando as areias do deserto.


Perl se inquietou, tudo parecia ter dado muito certo, mas no pânico, havia soltado uma magia cujo efeito ele desconhecia.


— O que foi que eu fiz? – perguntou para Holt, que fitava-o com um olhar vazio.


Seja quem for a criatura cósmica que havia se apossado de Holt, já tinha ido embora. Preocupado, olhou para o seu mestre, e ficou desconcertado quando não o viu lá, somente suas roupas estavam largadas no chão, como se ele tivesse evaporado.
Com um calafrio na espinha, percebeu que estava sozinho de novo, e a imensidão do cosmos o fitava, como se esperasse por algo dele. Olhou para cima, as estrelas ainda estavam lá, e finalmente percebeu, com seus sentidos mágicos, o que havia acontecido: seu mestre havia se fundido com o deserto, e a mana havia se espalhado em toda sua extensão, diminuindo a pressão mágica da atmosfera.
Saindo para o lado de fora do monastério, viu que o ar estava mais pesado, e a areia estava brilhando em um tom róseo, e as estrelas… elas formavam um rosto demoníaco.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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