Acordei com os olhos remelados e o nariz bem seco: o clima de Porteirinha–MG era definitivamente ruim para minha rinite, e o hotel empoeirado e mal cuidado estava detonando minhas mucosas. Ao meu lado na cama, Lúcia roncava levemente, grunhindo coisas ininteligíveis em seu sono.
Dei dois tapinhas nas costas dela, fazendo com que ela se voltasse para mim ainda em meio-despertar. Suas costas nuas dando lugar à visão de seus seios redondos, bem torneados e com mamilos duros, que mal apareciam por debaixo de seus cabelos lisos, sedosos e negros. Sua pele branca parecia brilhar quando era tocada pela fresta de luz solar que escapulia pelas janelas fechadas. Ela era muito linda e sedutora… quase me distraí em seus lábios vermelhos antes que pudesse dizer:
— Já são nove horas, temos que levantar para não perder o café da manhã do hotel.
— Bom dia, Rafael… — Ela não sorriu, nunca sorria. Mas se espreguiçou e abriu a boca levemente, deixando sair um leve bafo.
Suspirei, até o bafo dela me atraia perdidamente. Levantei-me com um pulo e comecei a me vestir, enquanto ela ainda enrolava preguiçosamente na cama.
Quando terminei de me vestir e aprontar, cutuquei-a novamente para despertar de seu sono:
— Vamos, Lúcia, acorda… o café deixa de ser servido às nove e meia.
Ela resmungou e levantou ainda de maneira desajeitada, indo diretamente para o banheiro. Enquanto andava de costas, parei para admirar sua bunda grande e geometricamente impecável… queria que tivéssemos mais tempo antes do café, queria possuí-la novamente quanto antes fosse possível, mas além do café, havia trabalho a ser feito.
Depois do café que não merece mais que uma nota de rodapé (pão duro, café ralo, e um ovo mexido com gosto de margarina velha), seguimos para a praça principal de Porteirinha, onde a rotina da cidade já fervilhava. Vendedores ambulantes gritavam suas ofertas, velhos observavam da sombra dos bancos e as crianças chutavam uma bola murcha que parecia ter sobrevivido à ditadura.
Lúcia ajeitava a câmera com um profissionalismo frio. Já eu, com meu sorriso cuidadosamente treinado e falsamente carismático de youtuber, abri a gravação:
— E aí, pessoal! Bem-vindos a mais um vídeo do canal Visagens do Brasil! Hoje estamos em Porteirinha, interior de Minas Gerais, uma cidade cheia de histórias macabras. Dizem que, nas madrugadas, quem anda sozinho por essas ruas ouve o som de cascos… e perde a razão! A famosa Mula Sem Cabeça!
Apontei a câmera para Lúcia. Ela, bela como sempre, olhou com uma expressão quase neutra. Contudo, essa neutralidade tinha algo de magnético, de sensual. O público, nos comentários, sempre dizia que ela era “fria”, “distante”… mas ao vivo, essa frieza era pura tentação.
Ela começou:
— Nós vamos conversar com os moradores para entender como essa lenda ainda vive hoje. E quem sabe, à noite, a gente não sai em busca dessa aparição?
Um grupo de senhoras nos observava de longe, cochichando. Uma delas, de vestido florido e terço na mão, aceitou falar. Gravamos sua fala:
— Essa mula aparece é por castigo, uai. Mulher que mexe com padre, que não respeita homem casado, vira monstro. Não tem corpo, não tem cabeça, só fogo e pecado correndo solto pela noite.
As palavras atravessaram Lúcia como se fossem lâminas invisíveis. Sua mão trêmula ajustava a lente da câmera, mas o olhar estava perdido, quase vacilante. Eu percebi, mas, sinceramente, parte de mim adorava. Porque era ali, naquela tensão entre o sagrado e o profano, que ela ficava ainda mais irresistível.
Seguimos gravando outros relatos: um comerciante que jurava ter visto uma sombra flamejante na estrada de terra; um velho bêbado que dizia ter perdido a sanidade após ouvir os cascos por três noites seguidas. A cada testemunho, Lúcia parecia se encolher mais, como se fosse ela mesma o alvo das acusações veladas que ecoavam na boca de cada morador.
E eu, no fundo, sabia por quê. Não era só medo. Era culpa. O pecado dela tinha nome e cheiro. Tinha corpo quente e lençóis suados. E não foi comigo que começara essa história. Mas, embora eu a tenha perdoado, parte de mim gostava de remoer essa história, sabendo que agora ela pertencia a mim.
Lúcia filmava, séria, mas eu podia sentir aquela chama incômoda nela: um fogo que nem sempre era paixão, às vezes era condenação. Naquela noite, quando revi as filmagens, percebi o olhar dela nos enquadramentos. Em cada cena, Lúcia parecia estar se vendo através daquelas histórias, como se a lenda falasse dela.
E eu… eu não sabia se sentia pena ou atração por aquilo. Talvez ambos… O que me deixava um pouco mal por desejar que essa culpa nunca passasse.
— Você podia ter enquadrado melhor a senhora do terço. Parecia amadora. — Disse, de repente, ao ver algumas falhas na filmagem.
Lúcia baixou os olhos.
— Desculpa…
— Sempre desculpa. — Suspirei, puxando-a pela cintura. — Sorte que você compensa de outros jeitos, né?
Ela sorriu, bem levemente, e me afastou. Não era hora, eu mesmo sabia, mas não poderia deixar de provocar…
A noite em Porteirinha parecia engolir o mundo. O ar parado, o silêncio das ruas e o breu que mal era quebrado pelos postes piscando davam à cidade um aspecto de coisa morta. O vento arranhava as janelas do hotel, como se tentasse chamar alguém lá dentro.
— Pronta? — perguntei, ajustando a câmera no tripé.
Lúcia assentiu, vestindo a jaqueta jeans surrada e prendendo o cabelo num coque rápido. Ela segurava o microfone com uma mão e a lanterna com a outra, e o feixe de luz tremia no chão. O brilho amarelado subia pelas paredes mofadas, revelando as rachaduras do corredor, como veias pulsando sob a pele da velha construção.
— Esse vídeo vai dar view, amor — murmurei, tentando animá-la. — “A Maldição da Mula de Porteirinha”. Só o título já chama atenção.
Ela não respondeu. Desde o fim da tarde, estava diferente. O olhar mais fixo, a respiração curta, os olhos semicerrados como se vissem algo que eu não via.
— Você ouviu? — perguntou de repente.
O som veio do lado de fora. Um trote seco, ritmado, metálico, ecoando pelas ruas vazias. Não parecia um cavalo. Era mais… pesado. E o som vinha acompanhado de algo mais: um sussurro abafado, como se alguém chorasse no meio da mata.
— É o trote da mula — disse, surpreso e animado.
Seguimos o som. A câmera ligada, o microfone captando tudo. As luzes das casas foram sumindo até restar apenas a estrada de terra e as cigarras. À distância, uma silhueta escura: um celeiro antigo, de madeira apodrecida e teto caindo. O vento batia nas portas frouxas, fazendo-as gemer.
— Deve ser lá — falei.
Entramos. O cheiro era de mofo, ferrugem e merda de animal. Pedaços de couro pendiam do teto, como restos de algo que tinha sido arrancado à força. Lúcia apontou a lanterna para o chão e vimos marcas profundas, cascos queimados no barro, como se o solo tivesse derretido.
— Você está pálida, amor. Não vai me dizer que acredita nessas histórias de velha beata, né? — Eu sorri, sabendo exatamente o que aquelas palavras fariam com ela.
Ela não respondeu, apenas continuou iluminando o caminho e filmando. O som ia e vinha, como se algo estivesse rondando o local. Nunca esperei realmente encontrar algo, mas começava a ficar cada vez menos cético. Olhei para Lúcia, que estava com a câmera nas mãos, tremendo.
— Se você perder essa filmagem, Lúcia, juro que…
Ela me olhou assustada.
— Que o quê?
Sorri.
— Nada. Você não vai perder. Você nunca me decepciona de verdade, não é?
Novamente, sem resposta, seguimos por muito tempo os sons, até que o silêncio voltasse a imperar pelo local. A criatura havia sumido, nos deixando sozinhos, apenas com a gravação para provar o que realmente havia acontecido.
Voltamos para o hotel exaustos, com a adrenalina ainda latejando nas veias. A câmera, suja de poeira e com a bateria quase no fim, descansava sobre a mesa. Lúcia a ligou, ansiosa. Eu me sentei ao lado dela, um sorriso satisfeito no rosto.
— Se a gente pegou o som dos cascos, acabou. Esse vídeo vai explodir. — Disse, já imaginando os comentários, os novos inscritos, o patrocínio que finalmente viria.
Ela assentiu, meio trêmula, e apertou o play.
O vídeo começou: a praça, as entrevistas, a estrada, o celeiro, a sombra. As imagens estavam perfeitas: tremidas o suficiente para parecerem reais, mas nítidas o bastante para convencer o público.
Mas havia algo errado.
Silêncio.
Eu franzi o cenho.
— Cadê o som?
Ela aumentou o volume. Nada. Nem o vento, nem os cascos, nem nossas vozes.
— Deve estar no fone… — murmurou, desconectando-o e tentando novamente.
Silêncio.
Meu estômago gelou.
— Lúcia… o microfone estava ligado, certo?
Ela parou. A mão ainda segurava o cabo. Os olhos, marejados, se fixaram em mim.
— Eu… acho que… esqueci de apertar o botão.
O mundo pareceu se contrair dentro do quarto.
— Você acha? — minha voz subiu, ríspida. — Você tinha UM trabalho, Lúcia! UM!
Ela tentou se justificar, mas as palavras vinham quebradas, abafadas.
— Eu estava nervosa, o som, o…
— Nervosa? — Ri, um riso seco e venenoso. — Nervosa é quando você derruba café na mesa. Isso aqui é INCOMPETÊNCIA. A gente veio até o inferno dessa cidade, correu risco, gravou tudo, e você ESQUECEU o microfone?!
Ela baixou o olhar.
— Eu posso tentar refazer a edição… colocar trilha…
— TRILHA?! — berrei, levantando da cadeira. — Vai pôr música de terror por cima do NADA? Quer enganar o público? Você é uma piada, Lúcia. Uma inútil completa.
Ela se encolheu, respirando fundo, mas as lágrimas já brilhavam sob a luz amarelada do quarto.
— Rafael… por favor, não fala assim…
— Não fala assim? — Repeti, aproximando-me, cuspindo as palavras. — Eu falo até paciente demais para uma puta que nem você!
Aquilo finalmente saiu, guardado por tempo demais para ser saudável, sentia finalmente o alívio de confrontá-la depois do que havia descoberto. Há dois anos, na hora que ela me contou… como ela estava chorando pela primeira vez em minha presença, só podia fazer meu papel de confortá-la, mas agora, eu poderia falar tudo que sempre quis.
Ela arregalou os olhos.
— Para, Rafael… — murmurou, a voz falhando.
Mas eu continuei.
— Todo mundo na cidade sabia. E agora você quer posar de jornalista, de cineasta, de “pesquisadora de lendas”? Você sempre foi boa só pra uma coisa, e nem isso faz direito. Você mal tinha 15 anos quando servia de marmita para o Roberto. Você nem mesmo pensou na esposa ou nas filhas dele, que tinham quase sua idade!
O som do ventilador foi o único que ousou preencher o silêncio que seguiu. Lúcia ficou imóvel, respirando devagar, os olhos presos no chão. A câmera ainda gravava, o LED vermelho piscando como um olho cúmplice.
Eu sentei na beira da cama, o peito arfando. Por um momento, me arrependi do que dissera. Mas apenas por um momento. Porque, olhando para ela, o rosto devastado, a boca trêmula… eu percebi o quanto ainda me excitava vê-la quebrada.
Lúcia levantou sem me encarar. Caminhou até a janela, abriu a cortina. Lá fora, a rua estava vazia, mas o som… ele voltou. Um trote metálico, abafado, incomodando nossos ouvidos.
Mas dessa vez, algo estava errado…
O som estava vindo de dentro do nosso quarto.
— Você está ouvindo isso? Liga o microfone agora! — Ordenei, mas ela não respondia, apenas chorava na janela.
Olhei para a câmera e me aproximei dela, pegando-a em minhas mãos e procurando o botão que ligava o microfone.
— Certo, sei que tenho que fazer tudo sozinho mesmo.
Ela continuou sem resposta, chorando copiosamente, mais alto.
— Certo, Lúcia, vamos gravar. A gente discute isso depois…
Ela se virou para mim, o rosto retorcido em tristeza e ódio. Mas continuava sem dizer nada. Lagrimas ainda escorrendo sem parar.
O som começou a ficar mais alto ali dentro.
— Olha… me desculpa. — Comecei. — Eu vacilei, não deveria ter falado isso, mas tipo…
Inquieto, virei a câmera para ela, com o microfone já ligado, e esperando que ela finalmente “despertasse” e passasse a me ajudar.
Olhando pela tela da câmera finalmente vi:
As lágrimas de Lúcia evaporavam antes de tocar o chão. Seus olhos já não eram humanos, eram brasas vivas, queimando toda aquela culpa que eu havia alimentado por tanto tempo. Senti o cheiro de fumaça, de enxofre.
— Lúcia?
Ela não respondeu. Não com palavras. O som que saiu dela era um relincho gutural, um grito de parto às avessas: algo nascendo não da vida, mas da morte de quem ela foi.
Seu corpo começou a se contorcer de um jeito antinatural, como se os ossos se movessem sozinhos, buscando novas formas sob a pele. O som era horrendo: estalos secos, músculos rasgando, algo se quebrando e se refazendo ao mesmo tempo. A câmera tremia nas minhas mãos, mas eu não conseguia parar de filmar.
A pele do pescoço dela começou a se rachar, abrindo fendas vermelhas que brilhavam como ferro em brasa. A carne fervia, escorrendo vapor. O cheiro de sangue quente e enxofre tomou o quarto.
— Meu Deus… Lúcia, para com isso! — gritei, mas era inútil.
O cabelo negro dela se eriçava, flutuando como se estivesse submerso em água fervente. Suas mãos crispadas arranhavam o ar, tentando agarrar algo invisível, até que os dedos começaram a endurecer, a se fundir. As unhas se tornaram cascos.
Ela caiu de joelhos, arfando. O som que saiu de sua garganta era uma mistura grotesca de choro e relincho. A voz humana se perdeu em meio a um grito sufocado, enquanto o pescoço começava a se alongar, a carne sendo rasgada em fios incandescentes. O rosto desaparecia, a cabeça se deformando em pura luz, fogo líquido cuspindo pelas bordas da pele.
— Lúcia, eu sinto muito! Eu não quis dizer, eu te amo, por favor…
Mas minhas palavras se perderam no relincho que consumia o que restava da mulher que destruí. Assim, o corpo dela, nu e brilhante de suor e fuligem, arqueou-se, e do pescoço surgiu uma chama espessa, laranja e azulada, que dançava como um estandarte do inferno. O cheiro de cabelo queimado e carne derretida enchia o ar, me fazendo tossir.
Ela tentou se erguer, mas o corpo já não obedecia. O peito explodiu num clarão, e eu ouvi algo, uma voz, ou um eco, murmurando entre os relinchos:
“Meu pecado… nossos pecados… não se apagam”
O quarto se incendiava com o fogo que jorrava do corpo dela, mas não queimava as paredes, apenas a minha pele. Eu tentava apagar as chamas com as mãos, mas elas me atravessavam, quentes e frias ao mesmo tempo, deixando um rastro de dor que subia até os ossos.
Gritei, desesperado, sabendo de alguma maneira que, mesmo que o hotel tivesse outros hóspedes, ninguém nunca mais iria me escutar.
A Mula, a minha Lúcia, se erguia agora sobre quatro patas retorcidas, o corpo agora coberto de brasas vivas e rachaduras que deixavam o interior incandescente à mostra. Onde deveria estar o rosto, havia apenas fogo, pulsando como um coração exposto.
Ela relinchou novamente, e o som atravessou os confins de minha alma. E eu, ainda filmando, não conseguia desviar o olhar. O fogo tomou o tripé, a cama, o chão, mas o LED da câmera continuava piscando, registrando tudo, até o último instante. E então toda a dor lentamente sumiu, quando suas chamas consumiram por completo minha carne e meus ossos.
Quem viu a filmagem depois descreveu como a criatura que já fora Lúcia permaneceu imóvel sobre os restos fumegantes. Não havia culpa. Não havia pecado. Havia apenas fogo, e liberdade, e o som de cascos se afastando pela cidade.
