João Pedro girou a figura do Homem de Ferro em suas mãos: o boneco era articulado, a pintura estava levemente desgastada e o vermelho-vivo habitual do herói se desbotava em tons pastéis. Não era pesado, mesmo em suas mãos diminutas, era possível manuseá-lo com facilidade enquanto fazia sons de avião com a boca. A criança sabia que o barulho do herói voando não era igual a um avião, mas não se lembrava do barulho certo. Ele havia assistido ao filme ano passado com Matheus.
O seu irmão mais velho amava filmes de heróis: ele havia colocado-no para assistir todos os filmes da Marvel, e o primeiro deles, que originou a franquia, era o do Homem de Ferro, que ele tinha um carinho especial.
A verdade é que João Pedro não gostava tanto assim de heróis. O garoto gostava porque seu irmão amava aqueles filmes, e ele o amava, logo, era fácil juntar um mais um e amar também aquilo que o irmão amava.
Contudo, se ele fosse escolher um herói que ele mais gostava, de todos os filmes que assistiram juntos, era o Homem-Formiga. Quando ele disse isso para ele, o mais velho caçoou do caçula: “ninguém gosta do Homem-Formiga”, disse, “é um herói que só está lá para fazer volume, não é importante”.
João Pedro não tinha como dizer o motivo dele gostar tanto desse herói. Ele não tinha nem a autocompreensão, nem o vocabulário para responder que gostava dele pois invejava o seu poder. Afinal de contas, quantas vezes não havia desejado ser minúsculo e se esconder quando começavam as longas brigas de seus pais? Ou quando as outras crianças vinham conversar com ele na escolinha?
O brinquedo, que era de Matheus, quase lhe escapou das mãos quando o carro deu um solavanco forte devido a um quebra-molas.
Foi o suficiente para fazê-lo se distrair do brinquedo em mãos e olhar para frente: no banco do motorista, seu pai dirigia com um olhar soturno e centrado, sem expressão facial alguma, catatônico; sua mãe, no banco do lado, chorava em silêncio, deixando as lágrimas cristalinas percorrerem suavemente suas bochechas rosadas e convertidas em uma careta de pranto. Ambos, assim como João Pedro, vestiam roupas pretas para demonstrar o luto.
Ele não era uma criança genial, tampouco um tapado, mas ainda sim, tinha dificuldades de entender o que era a morte.
— Mãe, o que aconteceu com o Matheus? — Havia perguntado ontem, após toda a confusão em casa.
A mãe, ainda desesperada e chorosa, não conseguiu lhe responder uma única palavra. Ajoelhada no chão da sala de estar, como que em penitência. Seu pai não estava lá, estava trabalhando, nem mesmo sabia do ocorrido. Foi sua tia Helena que o guiou para seu quarto, enquanto seu marido, tio Lucas, ajudava os bombeiros a retirarem o corpo de Matheus, que se dependurava numa corda amarrada ao teto.
— Pedrinho… — Era assim que os adultos o chamavam, raramente pelo nome composto. — Seu irmão Matheus… — fez uma pausa e engoliu o choro para manter-se firme na frente da criança — foi morar com papai do céu lá no paraíso. Ele está num lugar melhor agora.
A criança franziu o cenho.
— Então por que tá todo mundo triste? — Não fazia sentido. — Se ele tá melhor? Por que tá todo mundo chorando?
Sua tia fez uma pausa dolorosa, como se tivesse sido atingida por um soco no estômago.
— Porque… porque não vamos mais ver ele.
Era tudo que João Pedro sabia sobre a morte, nada mais, nada menos. Era uma incógnita, um mistério que ele não queria pensar nem resolver, e por fim, um lembrete de que havia perdido quem mais amava.
Morte, para o jovem, era simplesmente “ausência”. Era a falta de alguém que sempre imaginou que faria parte de sua vida eternamente, mas agora era apenas uma lembrança, uma que mais reflete um vazio do que um ser.
Mas, obviamente, nem mesmo ele conhecia as palavras para entender ou expressar seu luto. Sentimento este que ainda estava anestesiado, imerso em pensamentos dúbios, voláteis e fugazes. Em vocabulário comum, ainda não havia “caído a ficha”: para João Pedro, seu irmão havia se ausentado há apenas um dia.
O carro estacionou diante do salão velado por coroas de flores, e o mundo pareceu diminuir de volume quando as portas se abriram. João Pedro desceu entre os pais, cada um segurando uma de suas mãos como se ele pudesse escapar por entre os dedos. O ar ali dentro era pesado, cheirava a flores demais e a algo metálico que ele não soube identificar. Caminhou com passos curtos, sentindo o chão liso sob os sapatos novos, enquanto os murmúrios começavam a rodeá-lo.
Os outros adultos da família não tinham rostos nítidos. Eram manchas desfocadas, figuras que se aproximavam e se afastavam como se alguém tivesse esfregado a memória com o polegar. Vozes sem corpo se inclinavam sobre ele, mãos grandes demais pousavam em seus ombros, cabeças se abaixavam para ficar à sua altura e logo desistiam, como se não soubessem o que dizer a uma criança que acabara de perder o irmão. Diziam “tão novinho”, “coitadinho”, “força pra vocês”, frases repetidas, gastas, que soavam iguais umas às outras.
Alguns falavam baixo demais, como se o silêncio fosse uma regra do lugar; outros falavam demais, talvez para afastar o próprio desconforto. Havia olhares longos, úmidos, cheios de pena, e havia também olhares rápidos, esquivos, que pareciam ter medo de cruzar com os dele. Em meio aos sussurros, escapavam comentários que João Pedro não compreendia por inteiro, mas que o deixavam inquieto: menções à “escolha” de Matheus, à ideia de que “quem quer, dá um jeito”, ou que “Deus sabe o que faz”.
Para João Pedro, tudo aquilo se misturava num zumbido confuso, como uma televisão ligada em outro cômodo. Ele não entendia escolhas, nem decisões, nem motivos. Só sentia falarem do irmão como se ele tivesse feito algo errado, e isso lhe causava um aperto estranho no peito, uma vontade muda de encolher, de ficar pequeno como o Homem-Formiga e desaparecer por entre as pernas dos adultos.
O murmúrio ficou ainda mais alto e indecifrável quando o garoto se aproximou do caixão disposto no meio do saguão. Ele não tinha a altura para observar o que tinha nele, embora soubesse que era seu irmão. As mãos trêmulas de seu pai lhe envolveram em um abraço gentil, tornando-se firmes no momento que tocaram seu corpo.
“Venha ver o seu irmão” disse-lhe, em sussurros, ao seu ouvido. “Ele está dormindo”
Em seguida, levantou-o acima do caixão, que ainda estava aberto, para que a criança pudesse se despedir de seu companheiro. E foi então que a visão de João Pedro perscrutou o corpo que jazia ali, gravando cada detalhe em sua memória.
Ali não havia o semblante comum que via de seu irmão dormindo, ao contrário de que seu pai havia dito. Era uma feição rija, neutra, sem cor, sem vida — não havia o dinamismo do sono, tampouco a maciez do descanso. Pelo contrário, a palidez de seu rosto e a roxidão de seus lábios demonstrava apenas estática, um momento congelado no tempo pela eternidade. Não era acolhedor, como seu irmão foi, nem pacífico, como deram a entender que era, e sim gélido, inerte, angustiante, desolador, inquietante e inexorável. Mas, novamente, João Pedro nada sabia disso.
Ele sabia, neste instante, que seu irmão não somente estava morto, ele é um morto. Para sempre.
Assim os murmúrios da multidão voltaram, com ainda mais veemência, assim que as primeiras lágrimas caíram do rosto da criança, lágrimas nem um pouco silenciosas, e sim ruidosas, desordeiras, desesperadas e vívidas, tão suspensa na vida quanto seu irmão estava suspenso na morte.
Assim, os ruídos de fora, tão numerosos quanto intensos, se silenciaram para o surgimento dos ruídos internos, de uma mente que, para sempre, ficaria sem seu verdadeiro herói.
Contudo, por mais que conhecesse o herói, não sabia quem era o vilão. Vilões matam heróis, mas este havia morrido pelas próprias mãos. Quem era seu verdadeiro irmão? O herói que morreu ou o vilão que o matou?
Em turbulosos pensamentos, estava suspenso no ar, voando como o Homem de Ferro, mas impotente, sem forças para lutar contra o mal. E ficou ali voando sobre o corpo de seu irmão, indefinidamente, embora seu corpo já não mais se encontrasse naquele local ou momento, pois logo foi posto ao chão por seu pai, que o abraçou de maneira firme, para afastar males que nunca sumiriam por completo. Em um instante em que até mesmo o barulho da multidão parecia querer sufocar seu choro.
Este corpo, então, acompanhou o fechamento do caixão, o sepultamento no cemitério, e a lamuriosa volta para casa, em que o boneco do Homem de Ferro jazia esquecido debaixo do banco do carro. Esta carne ambulante ainda perguntou aos seus pais o que Matheus havia feito de errado para todos estarem julgando-no. Contudo, nunca obteve resposta, pois sua mãe e seu pai também ainda não haviam voltado do funeral, pois seus corpos, que dirigiam para casa, estavam desmembrados de suas mentes, que ficaram suspensas ali, naquele saguão, para sempre. Durou até que o próprio tempo, reparador e paciente, fizesse com que seus corpos criassem outra mente, uma outra alma, para continuar vivendo. Mesmo sabendo que parte deles ficou ali com Matheus.
