Não Pode Sobrar Nenhum


Eu li os arquivos do caso Epstein disponibilizados pelo governo americano no dia 30/01/2026. Não é uma leitura agradável, obviamente, mas não é algo que podemos, como sociedade ou indivíduo, ignorar. As coisas ali descritas são capazes de perturbar e traumatizar qualquer indivíduo minimamente são e empático.
Sempre fui um grande crítico do gênero “true crime”, em que pessoas possuem uma curiosidade mórbida para saber de cada detalhe das coisas horríveis que humanos conseguiram fazer ao longo dos anos. Nunca foi uma narrativa que me atraísse, e sempre considerei isso como um prazer quase sádico, ou talvez masoquístico, que as pessoas têm ao se alimentar da dor de pessoas reais.
Dito isso, embora esse caso seja considerado “true crime”, não acho que seja a mesma coisa. Não são crimes cometidos por uma pessoa, um grupo ou até uma seita. São a prova da violência sistêmica que funciona como base da nossa sociedade. Não são indivíduos cometendo crimes, são uma consequência óbvia de toda a nossa organização social. Tudo que construímos, como comunidade humana, teve vários resultados terríveis ao longo dos anos, esse é só mais um desses.
Embora eu acredite que, quem quer que esteja lendo esse texto, saiba, pelo menos vagamente, do que estou falando, acho justo que eu dê um pouco de contexto sobre a gravidade da situação.
Jeffrey Epstein foi um “financista” americano, nascido no Brooklin, Nova York, influente politicamente, que foi preso, juntamente com sua parceira, Ghislaine Maxwell, em 2019 quando foi revelado um esquema de tráfico sexual de crianças para políticos e empresários influentes em sua ilha particular. Entre seus clientes estavam até mesmo ex-presidentes americanos, como Donald Trump, Bill Clinton, Bush, príncipe Andrew, pensadores influentes como Stephen Hawking e Noam Chomsky, e também vários milionários, como Bill Gates e o atual homem mais rico do mundo, Elon Musk (que é um caso patético à parte). Além disso, foram citados inúmeros artistas, músicos, atletas, atores e atrizes, juízes… entre outras pessoas influentes que aparecem sempre na mídia, mas que não vale a pena ficar citando.
Em outras palavras, a “elite global”, como pessoas que tinham poder e dinheiro infinitos, contratavam esse serviço para abusar sexualmente de mulheres jovens e crianças (principalmente crianças) em uma ilha isolada sem a vigilância do Estado. Epstein fazia registros, anotações, fotos e vídeos, para chantagear os poderosos e conseguir vantagens. Ao menos era isso que era de conhecimento público até antes da revelação de mais detalhes do caso.
Como algumas vítimas da exploração, as crianças que sobreviveram ao caso, já haviam alertado publicamente, existem coisas muito piores que pedofilia e estupro que esses poderosos faziam, tanto na ilha quanto fora dela.
Como alguém materialista, nunca fui de acreditar em teorias das conspirações, sei que quase todas elas são psyops, ou seja, técnicas estratégicas, militares ou diplomáticas, utilizadas para influenciar emoções, comportamentos, atitudes e percepções de indivíduos, grupos ou nações. E que boa parte delas são plantadas para influenciar pessoas frustradas com a atual condição individual e social para aceitarem com mais facilidade as atrocidades reais que governos cometem. Coisas como reptilianos, elite global judia, alienígenas do passado, adenocromo, vampirismo, satanismo, QAnon e outras coisas, geralmente servem para desviar o foco das pessoas dos problemas reais do mundo.
Isso é fato irrefutável. Contudo, o pouco liberado dos arquivos no dia 30 de janeiro já mostra que algumas das coisas que esses lunáticos dizem eram verdade: já sabíamos da pedofilia e da mercantilização de crianças pobres para o consumo de milionários, mas não sabíamos de que isso era só a ponta do iceberg.
Assassinato de testemunhas e jornalistas, acordos políticos baseados em chantagem, coprofagia (comer fezes como fetiche, manipulação de eleições, criação de movimentos políticos de ultra direita, criação de figuras públicas influentes, crimes virtuais, tortura de crianças, filmes snuff (filmes onde se grava pessoas sendo torturadas, violentadas e mortas), “fábrica de bebês” para tráfico humano, canibalismo, desmembramento de bebês e outras coisas.
Tudo isso não é ficção, não é sensacionalismo. Foram crimes reais, catalogados, institucionalizados e cometidos — não por pessoas marginalizadas ou loucas — mas por pessoas que são idolatradas, admiradas, poderosas e totalmente sãs. Para exemplificar, sem ser gráfico demais, algumas acusações, o Príncipe Andrew, da família real inglesa, “encomendou” uma garota russa de 26 anos para Epstein, e gravou um vídeo a estuprando, torturando e matando, e o enviou para o pedófilo, que respondeu simplesmente: “amei o vídeo da tortura”.
Não há eufemismos, códigos secretos ou qualquer outra coisa do tipo. Ele simplesmente enviou isso por Gmail, o e-mail do Google, sem criptografia, sem nem mesmo se preocupar que fossem interceptados, pois ele sabe que nada nunca ocorrerá contra eles. O sistema não iria puni-los, eles eram, e ainda são, o sistema.
Outro relato mostra uma garota de 12 anos, estuprada pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (que é um dos mais citados nos documentos), relatando como o pedófilo criminoso a forçou, juntamente de outras crianças, a fazer sexo oral nele, e agrediu fisicamente ela e outras meninas. Outra testemunha disse que um dos chefes da segurança de Trump ameaçou ela a não dizer nada para ninguém, pois se não, seria enterrada no campo de golfe “juntamente com as outras vadias”.
Outra testemunha afirmou que vários homens abusaram dela e outras garotas em um iate, e que presenciou um bebê ser desmembrado em uma espécie de ritual religioso, e que comeram as fezes do intestino desse bebê.
Há imagens de Jeffrey Epstein, juntamente de uma mulher loira e outro homem (censurados), calmamente assistindo algo em uma chamada de vídeo pelo Skype. O título da chamada é simplesmente “Torture”, e uma das mensagens de Epstein diz que eles estão assistindo “Driping Cheese Piza”, ou seja, Pizza de Queijo Derretendo. O que isso significa? Bom, em outros e-mails, foi revelado que “Cheese Pizza” é um código para “Child Porn”, pornô infantil. Por associação lógica, alguns internautas supuseram que eles estavam assistindo uma criança sendo sangrada até a morte, visto que “driping”, ou derretendo, pode ser usada no contexto de “sangrando”, e há outros relatos de que eles sangravam crianças para consumir, de alguma maneira, seu sangue (supostamente envolendo adenocromos).
Mas o relato que mais marcou foi um trecho do diário de uma das vítimas, em que ela, aparentemente sob efeito de entorpecentes, relatava como, aos 13 anos, ia ter um bebê, resultado dos abusos constantes que sofria desses homens. Depois, ela narra o momento em que deu à luz, mas escutou por pouco tempo o choro de seu filho, pois, assim como os outros que tivera, o choro acabou rápido, sem ela ver nada, e levaram o bebê para outro local, onde ela nunca mais o viu.
Novamente, não é uma leitura fácil, nem mesmo consigo dizer com certeza de que tudo ali relatado é real, pois são, supostamente, apenas relatos de testemunhas, e o governo americano não revelou ainda nem 10% de todos os arquivos, e o pouco relatado ainda possui censura em nomes (de algumas vítimas e até mesmo de culpados).
Mas somente pelo fato de que várias pessoas que denunciaram isso desapareceram, foram mortas ou simplesmente descredibilizadas, dá para afirmar, sem um pingo de dúvida, de que todo o governo americano, e até outros governos ocidentais do primeiro mundo, estão por trás disso.
Se estão se perguntando se há menções ao Brasil ou governo brasileiro nos arquivos, há algumas (e possivelmente muitas outras não foram reveladas). Uma delas cita o Lula como o “prisioneiro político mais importante do mundo”, na época em que ele foi preso, e menciona que Noam Chomsky, um linguista influente, aliado e cliente de Epstein, foi visitá-lo na prisão e ligou para o próprio Epstein com o Lula. Não é revelado o conteúdo da ligação, nem mesmo se Lula estava envolvido em algum esquema.
Também mencionam o Bolsonaro de maneira ainda mais comprometedora. Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca, conselheiro de Trump e aliado da família Bolsonaro no Brasil, comenta com Epstein que eles iriam ter que apoiar o Bolsonaro na campanha de 2018 para presidência. Eles chegam a comentar que a eleição do Bolsonaro seria “vantajosa para o negócio deles”, e que “Bolsonaro era o cara”.
Não há provas de nada ainda, mas isso pode significar que, independente de qual líder o Brasil tivesse, não impediriam os negócios deles no país, visto que Jean-Luc Brunel, grande agenciador de modelos francês, já estava no Brasil recrutando “modelos” para traficar para Epstein. Contudo, também fica claro que a política entreguista e pró estadunidense de Jair Bolsonaro, seja intencionalmente ou não, ia facilitar ainda mais o tráfico de mulheres para fora do país. E que parte da campanha dele, provavelmente, foi financiada por tráfico de crianças.
Ou seja, isso sugere que Epstein tinha acordos tanto com o presidente quanto a oposição para garantir lucro no Brasil, mesmo que tivesse um “competidor preferido”.
Uma coisa curiosa nos arquivos era que destruíram uma concepção que eu tinha de que Israel era um Estado controlado pelos Estados Unidos para causar desequilíbrio no Oriente Médio ao atacar países islâmicos e promover o genocídio palestino. Curiosamente foi o oposto.
Para explicar, darei mais uma informação relevante: Jeffrey Epstein é judeu sionista declarado, e em um de seus e-mails, disse sobre a superioridade racial dos judeus e que não traficaria garotas judias, apenas as “goyims” (termo que judeus usam para pessoas não-judias). Até então, isso não diz nada, pois existem pessoas ruins em todas as etnias, Estados e religiões. Dizer que Epstein, por ser judeu, é mais condenável ou que todos judeus são perversos e tem mais propensão a fazer coisas do tipo não seria apenas crime, mas como também uma óbvia mentira. Devo ressaltar que não concordo com esse tipo de pensamento.
O ponto é que Epstein, em outro e-mail trocado com Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, pede que não seja revelado que ele (Jeffrey Epstein) é agente do Mossad (serviço secreto israelense). É chocante, mas ainda não é a pior parte. Ele também mandou e-mails para criadores influentes do Reddit e 4-Chan sobre a questão das páginas que tinham criado com a intenção de manipular a opinião pública. Uma delas, e a mais relevante, era a /pol, considerada o berço ideológico da “nova direita mundial”. Revelando que boa parte das ideias defendidas por grupos masculinistas, “red-pills” e machistas são de criação dessa pequena seita que ele mantém entre as elites mundiais. E que muitos movimentos de direita, incluindo o neo-nazismo e a supremacia branca, que tiveram uma retomada potente nos últimos anos na internet, foram fabricados por eles.
Se tudo isso não fosse chocante o bastante, acredite, ainda há muito mais. Por exemplo, porque vocês acham que o governo americano publicou esses arquivos que expõem pessoas influentes, inclusive o próprio presidente, no site oficial do governo, e retirou algumas horas depois? Mesmo com o chefe do FBI colocado por Trump dizendo que não há nenhuma prova do caso Epstein (mesmo que existam várias)? Quem foi que deixou essa informação (incompleta) à vista do público, e por quê?
A explicação oficial é que alguém dentro do governo americano, insatisfeito com o governo Trump, teria publicado várias coisas que o incriminasse, no intuito de difamá-lo. Contudo, embora não tenhamos prova de nada, temos indícios de que outra coisa estava acontecendo por debaixo dos panos.
Jeffrey Epstein oficialmente se suicidou em sua cela, um mês após ser preso, em 2019. Contudo, no local que ele estava preso, as filmagens das câmeras de segurança, supostamente, sumiram e não gravaram o momento que ele se matou. É quase consenso na internet de que alguém importante (muito provavelmente o próprio Trump) mandou matar ele.
Contudo, também sabemos que o irmão de Jeffrey, Mark Epstein, também envolvido nos crimes, foi ameaçado por alguém a não abrir a boca, para que não “fosse morto como o irmão dele”. Isso parece ser regra também para Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein e a mulher que cuidava da “prospecção e transporte” das “modelos” (ou seja, a traficante sexual infantil), quase não deu nenhum depoimento público desde que foi presa (em prisão domiciliar inclusive), provavelmente porque matarão ela assim que abrir a boca.
Também sabemos que Epstein tinha uma espécie de “chefes” ou “superiores”, que ele mencionava pouco nos e-mails que foram vazados. Supomos, por informação cruzada, que um deles era Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro de Israel, e como Epstein supostamente era do Mossad, serviço-secreto israelense, é uma presunção lógica de que o Estado de Israel está chantageando vários poderosos americanos a fazerem o que querem.
E onde quero chegar com isso? Bom, é principalmente suposição de internautas, mas com embasamento nas informações que foram reveladas e na geopolítica.
Donald Trump, desde que o escândalo de Epstein tem ficado mais na mídia, vem se tornando mais agressivo em seu governo, endurecendo leis internas de controle e deportação de imigrantes. Invadiu a Venezuela e sequestrando o Maduro, ameaçando a China, OTAN e a União Europeia, declarando que a América Latina é o quintal dos Estados Unidos, e fortalecendo o imperialismo americano, até mesmo ameaçando invadir a Groenlândia e causando intriga com a Europa e bombardeando o Irã.
Tudo isso, supostamente, seria uma estratégia não só para fortalecer os Estados Unidos e provando que não há nenhum país que tem interesse em entrar em conflito com eles, não importa o que façam, como também uma tentativa de distrair as pessoas e retirar o foco de seus escândalos pessoais envolvidos com a ilha de Epstein.
Também não é novidade de que Israel vem pressionando os Estados Unidos a tomar medidas bélicas maiores contra o Irã, que é o país do Oriente Médio que mais tem força para combatê-los. E, sabendo que o caso Esptein é principalmente um modo de manter as elites de “rabo preso”, com medo de que sejam expostas suas atrocidades, supostamente coordenada pelo Estado de Israel, personificada pelo agente do Mossad, Jeffrey Epstein. Também é bem claro que é possível que Israel pressionou Trump para que ele tomasse uma ação bélica potente contra o Irã. Contudo, ele se recusou, com medo de retaliação, e esses documentos foram vazados para chantagear o laranja. Isso explicaria porque há tantos nomes censurados que foram vazados (pessoas que são as próximas, caso Trump não tome essa iniciativa) e que nem 10% do total dos documentos foi exposto, deixando muita gente de fora, mas incriminando especialmente Trump e aliados.
Ou seja, provavelmente a Terceira Guerra Mundial pode ser desencadeada por essas chantagens. Não no sentido alarmista, pois ainda duvido dessa hipótese, mas ainda sim é uma possibilidade.
Contudo, deixando de lado toda a contextualização quase jornalística que dei, é importante lembrar que muito do que escrevi é especulativo, no sentido de não ter provas tão contundentes que comprovem minhas hipóteses, embora existam várias evidências. Mesmo que eu não seja, atualmente, um jornalista, eu já estudei sobre, e sei que seria tanto incompetência quanto levianidade da minha parte de afirmar tantas coisas com certeza. Assim, faço o convite para que leiam os arquivos (embora eu não saiba mais onde os encontrar oficialmente, visto que foram retirados do ar) e tomem suas próprias conclusões, também evitando os resumos e opiniões dos grandes jornais. Não sou contrário aos grandes jornais, tampouco digo que eles não têm credibilidade, ou que tem menos credibilidade do que eu. Contudo, nesse assunto em específico, não vi nada que indique que a mídia está tratando esse caso com o devido respeito e alarde, pois suspeito que eles simplesmente não possam dar detalhes das coisas que têm nos arquivos. Isso se deve a alguns fatores: é um conteúdo sigiloso e perturbador, que pode expor vítimas; é algo altamente político; as principais evidências são relatos, principalmente de pessoas não identificadas; e o principal motivo: são financiados pelas mesmas pessoas que estão envolvidas no caso.
É só ver como essas pessoas tratam o caso: a assessoria de Trump acusa todos nomeados no arquivo, menos o próprio Trump, sendo dito em sites oficiais do governo (diferentes do que foram expostos os arquivos) que todos os nomes envolvidos foram comprovados, menos o Trump.
Outro exemplo é a manchete tendenciosa da BBC Brasil acusando o Lula de envolvimento com Epstein, mas sem mencionar o Bolsonaro ou dizer muitos detalhes sobre o caso. E isso acontece nas redes sociais: quem é petista vai acusar o Bolsonaro de envolvimento, o bolsonarista vai ignorar ou relativizar o envolvimento do Bolsonaro e acusar Lula, por aí vai.
Isso mostra como a guerra cultural que vivemos hoje é puramente fabricada pelos detentores dos meios de produção e da mídia. E, se me permitirem ser menos “jornalístico” e mais “panfletário”, toda a ilusão de esquerda e direita também é uma construção dos grandes capitalistas.
Mas devo voltar ao motivo pelo que escrevo isso. Desde que li os arquivos, não consigo pensar em outra coisa. Isso me consumiu, escrevi ontem um poema metafórico sobre o assunto, mas não tirou meus pensamentos. O ódio me consome, o ressentimento me consome, e eu fico chocado o quanto isso parece não ter consumido quase ninguém. Ninguém se choca, ninguém fala sobre isso, ninguém reflete sobre seus ídolos, ninguém se levanta nem mesmo ameaça se levantar contra quem domina a sociedade. Eles são deuses, intocáveis, e não há levante popular contra eles, pelo contrário, se você dizer que temos que fazer algo contra esse pessoal, você é o violento, você é o errado, você é o insurgente. Todos estão tão alienados nesse projeto de dominação que nem mesmo temos o direito de nos indignarmos contra aqueles que nos mantém cativos.
Por isso, mesmo que eu não tenha mais esperança de que podemos fazer algo, sei que existe uma solução muito fácil e óbvia para isso: devemos matá-los. Não pode sobrar nenhum vivo, nada de suas posses deve se manter, devemos matar esses deuses, desapropriar e redistribuir suas posses e pertences. Embora eu saiba que esse pensamento me faça ser visto como o violento e o rebelde, não consigo viver em um mundo onde o que eles fazem é justiça e o que nós sofremos é violência.
Ao mesmo tempo que desejo a justiça verdadeira, sei que a justiça real que nos deixou assim.
Ao mesmo tempo que desejo a justiça verdadeira, sei que a justiça real que nos deixou assim nunca foi justiça. Foi gestão da barbárie. E isso não começou agora, nem com Epstein, nem com a internet, nem com a tal “decadência moral do Ocidente” que gente preguiçosa adora repetir. Atrocidades desse tipo atravessam a história como um fio contínuo, apenas mudando de roupa, idioma e justificativa moral. O que muda não é o horror, é o marketing.
O Império Romano se sustentou por séculos com escravidão em escala industrial, espetacularizando a morte como entretenimento público. A Igreja medieval acumulou poder político e econômico enquanto abençoava massacres, fogueiras e estupros em nome da salvação. As grandes navegações europeias não foram aventuras heroicas, mas projetos empresariais de saque, genocídio e escravização nas Américas, com o aval explícito do Estado, da Coroa e de Deus. Milhões morreram para que um punhado de famílias acumulasse riquezas que até hoje sustentam bancos, museus e “tradições” europeias. Nada disso foi um desvio do sistema. Era o sistema funcionando perfeitamente.
O imperialismo europeu nas Américas foi só o primeiro ato. O segundo veio quando os Estados Unidos assumiram o bastão, trocaram cruzes por contratos, espadas por sanções e canhões por “intervenções pela democracia”. O Brasil conhece bem esse roteiro. Da dependência econômica construída desde o período colonial até a interferência direta na política interna, golpes apoiados, ditaduras financiadas, privatizações impostas, elites locais recompensadas por manter o país eternamente exportador de matéria-prima e gente barata. Não é coincidência que continuemos desiguais, violentos e instáveis. É um projeto consciente.
E o mais perverso é que tudo isso só foi possível porque nunca conseguimos nos unir de verdade. Sempre fomos divididos por língua, raça, religião, bandeira, ideologia, time político, guerra cultural fabricada. Enquanto brigamos por símbolos, nos tiram o que produzimos. Enquanto discutimos qual político é menos pior, o sistema segue intacto, blindado, herdado, transmitido. A riqueza social nunca deixou de existir. Ela só foi apropriada, concentrada e protegida por leis escritas pelos próprios beneficiários.
Nada do que foi descrito nos arquivos, nada do que aconteceu em colônias, ditaduras, guerras ou ilhas privadas seria sustentável sem nossa passividade coletiva. Não porque sejamos naturalmente covardes ou maus, mas porque fomos treinados para a fragmentação. Sozinhos, indignados individualmente, somos inofensivos. Unidos, conscientes e organizados, sempre fomos uma ameaça real. E é exatamente isso que o sistema faz de tudo para impedir.
Talvez o ponto mais insuportável de aceitar seja esse: essas atrocidades não persistem porque são secretas demais, mas porque são normalizadas demais. Elas existem porque aprendemos a viver com elas, a racionalizá-las, a terceirizar a culpa, a esperar que alguma instituição resolva por nós. Nunca resolveu. Nunca vai resolver. O que foi tomado só pode ser retomado coletivamente.
A história mostra que os deuses sempre caem. Não por iluminação moral das elites, mas quando a base que os sustenta deixa de acreditar neles. O problema é que, até agora, sempre chegamos atrasados demais, divididos demais, cansados demais. E enquanto isso, o ciclo se repete, com novos nomes, novos impérios e a mesma velha certeza incômoda de que nada disso é inevitável. Só é permitido.

O poema mencionado no artigo

Caso não consigam ler na imagem, uma versão em texto:

Aqui de Baixo

Caem sobre mim os restos dessa janta.
Olho para cima, vejo-o se alimentar,
É um deus cujo prazer é violar.
Sendo glutão de insaciedade na garganta.

Enojado, desvio o olhar
Mas essa é a intenção secular.
Devo, corajosamente, observar,
Sem nunca deixar de odiar.

O ressentimento é meu cortejo.
Ao redor, vários sorriem, alienados,
Ignorando a dor dos bastardos
Consumidos por tão torpe desejo.

Mas não há solução
O mundo já foi dominado pela danação
Pois nem mesmo a justiça
Deseja ofender esse avatar da cobiça

Ignorantes seres de maldade,
Não tenham cautela em alimentar,
Vossa habitual violência que pode proporcionar,
Ao deus que come os de tenra idade.

Desesperadamente rogo àqueles aqui embaixo:
Por favor, Observem, Odeiem, Matem!
Olham para mim com nojo, como se fosse bicho
Com olhar preocupado, inferem:

“És pecador violento”
“Deus disse que matar é errado”
“Por favor, controle seu lamento”
“Não peque contra um deus, nem culpado”

Grito, sem ninguém escutar,
Ninguém ouvir,
Ninguém se levantar,
Todos os corpos irão submergir.

Tal deus, lá em cima, não vê meu ódio temeroso.
Mas juro que o cultivarei eternamente,
Mesmo que me sejam consumidos corpo e mente.
Pois, não há violência equivalente
Ao abuso de um ser poderoso.

Mas, no fundo, sei não haver esperança…
Meus braços fracos nunca puderam erguer,
Uma tão poderosa e profana lança,
Que seria capaz de fazer,
Com que tal cruel deus
Seja atingido em seu trono dourado,
E sangre! Tão vermelho e desonrado
Quanto os comuns plebeus.

Sei, então, que deuses não são como plebeus.
Mas que plebeus são como os deuses.
Pois a diferença entre esses,
É que o poder está na mão de quem é deus.

Tal deus, autoproclamado,
Zomba dos mortais violentamente abusados.
Sabendo que seu desejo vingativo,
Não se levantará de seus lugares cativos.

Fecho os olhos, derrotado,
Sabendo que as vítimas consumidas,
Serão friamente esquecidas.
Enquanto isso, observo abismado…

É a chegada de mais um prato…
O banquete não acabou.
Há mais carne humana no contrato!
Horrorizado, vejo pilha que descartou:

Diversos séculos de restos olham em retorno,
Rogo por uma reação do entorno
Mas sinto angústia profunda.
Pois nessa divina mesa rotunda,
O banquete é eterno
Pois vivemos em infinito inferno.
Pois aqui, no fundo do poço,
Todos já estão com a corda no pescoço.

Somos cordeiros obedientes desde o princípio,
Listados como a próxima carne do cardápio.

Em meus olhos, lágrima manifesta
Sei que não há mais a quem rezar
Pois o deus que lá em cima resta
Existe apenas para nos predar

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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