O Segredo do Vovô

Estavam os cinco reunidos ao redor do caixão do falecido: Tamires, a filha; Josualdo, o genro; Lúcia, a neta; Fonseca, o melhor amigo e, por último, Peixoto, o coveiro.
Jeremias Pinto Lindoso foi um homem de muitas posses, mas era mais conhecido na cidade como um mão-de-vaca incorrigível, e um raparigueiro.
Lúcia estava no auge da juventude, tendo recém completado seus vinte anos. Era uma moça bonita, que tinha o avô em alta estima. Ele era um senhor gentil que lhe dava conselhos sábios — às vezes sem que ela pedisse —, mesmo que o velho fizesse questão de nunca seguir suas próprias advertências.
Portanto, era a única que genuinamente chorava pelo morto. Os outros presentes cochichavam entre si, murmurando palavras que, por mais que a moça tentasse ouvir, não eram claras o suficiente para serem compreendidas.
“Nunca imaginava que…” ouviu sua mãe sussurrar ao seu pai.
Como sempre, ninguém havia lhe contado nada. Desde que havia saído de casa para fazer o Ensino Médio na cidade vizinha, a contragosto de seus pais, nunca mais havia conversado com eles.
Seu avô havia pagado por todos os custos de sua moradia e educação. “Se minha neta quer ser doutora, então doutora será”, havia dito há alguns anos. Contudo, no dia anterior, seu pai havia apenas lhe encaminhado o convite do funeral no WhatsApp, sem dizer mais nada.
Não havia nem dado o tempo de chorar no táxi a caminho de sua cidade natal, pois demorou para ver a mensagem de seu pai (que estava nos contatos arquivados), e só chegou ao local do velório quando estavam levando o corpo ao cemitério. A última vez que vira seu avô, ele ainda estava vivo. O caixão já estava fechado e descendo quando Lúcia chegou.
“…Rebeca sabia, e acobertava tudo” ouviu seu pai dizer. Rebeca era a segunda esposa de seu avô, quase trinta anos mais nova que ele. O resto da família nunca havia aceitado o segundo casamento, ainda mais depois de saber que eles já estavam juntos enquanto Marinalva, a primeira esposa — e mãe de Tamires — ainda estava viva.
Com um olhar inquisitivo, ainda retirando as lágrimas do rosto, Lúcia encarou sua mãe, que franziu o cenho em desaprovação e virou o rosto. Seu pai lhe deu um olhar tímido e desconfortável, e se virou de costas para abraçar a esposa.
A garota se inquietava: o que havia acontecido com seu avô? Por que Rebeca não estava lá?
Não tinha nada em específico contra a segunda esposa do avô, embora tivesse a opinião que — ao contrário do que a família acreditava, — ela não estava com Jeremias por causa do dinheiro.
Dois anos antes, vira Rebeca na cozinha, tarde da noite, devolvendo discretamente ao avô um envelope pardo cheio de dinheiro que ele insistira em lhe dar “para emergências”. Rebeca dissera, quase ofendida, que não precisava de mesada, que já tinha vendido o próprio carro para abrir a pequena biblioteca comunitária do bairro, registrada apenas no nome dela, sem um centavo do marido. Jeremias resmungara, chamando-a de orgulhosa, mas guardara o envelope no cofre. Lúcia imaginava que gente interesseira não recusa dinheiro fácil, muito menos quando ninguém está olhando.
Observou Fonseca: o homem era o melhor amigo de seu avô. Alto demais para a própria coluna, magro como um guarda-chuva fechado, usava um terno preto que parecia ter atravessado mais funerais do que aniversários. O bigode ralo, cuidadosamente aparado, contrastava com as sobrancelhas espessas que quase se tocavam quando ele franzia a testa. Tinha as mãos grandes, marcadas por pequenas cicatrizes circulares, como queimaduras antigas de cigarro.
O homem conhecera Jeremias não em bar ou negócio, como se poderia supor, mas quarenta anos antes, numa rua mal iluminada, quando Jeremias o atropelou.
Fonseca voltava bêbado para casa após perder metade do salário num jogo de cartas, quando atravessou a rua fora da faixa, cantando alto demais para notar os faróis. O impacto não foi fatal, só humilhante: perna engessada, orgulho esmigalhado e uma cidade inteira comentando. Jeremias, apavorado com a possibilidade de processo, passou a visitá-lo diariamente no hospital levando frutas que Fonseca não queria comer.
O homem segurava o choro, era visível, mas havia nele também uma expressão que a garota não pôde identificar. Raiva? Culpa? Alegria? Divertimento?
Se aproximou lentamente, seus sapatos esportivos fazendo barulhos molhados na terra úmida do cemitério. O velho alto olhou para a menina com o canto do olho, cobrindo a boca que se metamorfoseava numa careta de choro.
— Foi muito de repente, — disse a menina —, o que houve?
— Não te contaram? — Fonseca perguntou com a voz embargada.
— Não, não tô sabendo de nada.
O homem pigarreou, limpando a voz.
— Também não sei de nada, — admitiu, — seus pais não disseram nada, mas não consegui perguntar diretamente.
Lúcia arregalou os olhos.
— Ninguém tá sabendo o que houve?
— Não, só a família, — se inclinou, sussurrando, — achei estranho, imaginei que você saberia, vocês eram bem próximos.
Seu coração pesou, o que havia acontecido?
— Mas…
— Soube que teve algo a ver com dinheiro, uma briga, não tenho como ter certeza, mas a Terezinha — disse Fonseca, mencionando a vizinha de seu avô, — disse isso.
Olhou de novo para seus pais. Sua mãe olhou de volta brevemente, balançou a cabeça em negação, e voltou a olhar para o caixão.
— Rebeca? — Perguntou Lúcia.
— Acho que não, ela está em Recife, com a família.
— Então… — era muito confuso.
— Terezinha mencionou que alguém gritou para “botar tudo na poupança”, tarde da noite, e que “tudo ia cair no fundo”. Parecia uma discussão, dois homens. — Deu de ombros.
— Meu avô não guardava dinheiro na poupança, ele gostava de fazer day trade e comprava bitcoin. — Lúcia franziu o cenho. Algo estranho havia acontecido.
Bitcoin ele comprava escondido da própria família. Poupança era coisa de gente medrosa, dizia ele, gente que aceita juros como esmola. “Cair no fundo” não combinava com seus ativos nem parecia ter a ver com seu aplicativo de banco.
Lúcia tentou organizar as peças na cabeça. Dois homens discutindo. Dinheiro. Fundo. Grito tarde da noite. Se fosse assalto, Terezinha teria ouvido barulho de porta arrombada. Se fosse mal súbito, não haveria briga. Se fosse Rebeca, haveria plateia. A cidade inteira adorava um escândalo.
E se não fosse dinheiro guardado, mas dinheiro escondido? Fundo de quê? Fundo falso? Fundo de investimento? Fundo do quintal?
Pensou nas mãos de Fonseca, nas pequenas marcas circulares. Queimaduras antigas. Ele fumava demais quando estava nervoso. E parecia nervoso agora. Talvez o avô tivesse descoberto algo. Ou alguém tivesse descoberto algo sobre ele.
O caixão já estava quase coberto por terra. Lúcia sentiu que Peixoto estava enterrando não só o corpo, mas a explicação. Era inaceitável.
Saiu de perto de Fonseca, o deixando sozinho com seu luto. Se aproximou da borda da cova, e passou a observar mais de perto.
O coveiro percebeu o olhar sobre ele, e abaixou o chapéu em respeito, sem olhar em seus olhos. Lúcia soube na hora que ele estava escondendo algo.
Decidiu esperar. Quando o caixão estava totalmente coberto por terra, se aproximou do coveiro. Peixoto era figura carimbada nos bares da cidade, e um companheiro próximo de seu avô.
— O que aconteceu, Peixoto? — Pulou as solenidades e a conversa fiada. Tinha que saber.
O homem desviou o olhar.
— É papel de sua família dar os detalhes, não sei o que aconteceu, de fato.
— Mas sabe de algo — insistiu.
— Sei, — hesitou, olhando para Tamires e Josualdo, que o encaravam de longe —, acho melhor você conversar com seus pais.
— Eles não vão conversar comigo, — antes que percebesse, lágrimas caíram de seu rosto —, por favor, Peixoto.
O coração do coveiro se amoleceu.
— Não tenho os detalhes… — balançou a cabeça — mas sei que seu avô tinha uma mancha roxa no pescoço.
— Enforcamento? — Perguntou, em choque.
Peixoto assentiu.
— Quem foi? — Segurou as lágrimas.
— A polícia já liberou, foi considerado um “acidente”, não sei o nome do rapaz, ele não é daqui.
— Acidente? Como isso pode ser um acidente?
Peixoto suspirou, não tinha como contar aquilo para uma garota tão inocente.
— Converse com seus pais, será melhor…
— Não! — Insistiu.
Antes que pudesse falar mais algo, Peixoto se desculpou e saiu.
— Tem mais trabalho, desculpe.
Olhou ao redor. Fonseca estava entrando no carro. Só estavam ela, seus pais, e o corpo de seu avô naquele cemitério. Engoliu o orgulho.
Se aproximou de Tamires, que a olhava com desprezo. Josualdo tentava assumir uma postura conciliadora, mas não conseguia encarar a filha.
— Nem vem, Lúcia, — começou sua mãe —, já não teve tragédia o suficiente para que eu lide, e você vem…
— Mãe… — interrompeu, em súplica. — Eu preciso saber, de verdade.
Seu pai abriu a boca para responder, mas Tamires o interrompeu.
— Nem vem Josualdo, não seja frouxo!
Josualdo desviou o olhar.
— Mãe, por favor…
Tamires hesitou, frente à súplica da filha, quase fraquejou, mas lhe olhou com os olhos marejados.
— Não, você não merece saber! Você já causou vergonha demais para essa família, e seu avô foi igualzinho. — Zombou. — Pior que vocês sempre foram parecidos mesmo… dois degenerados!
Virou-se de costas, escondendo as lágrimas, e caminhou até o carro antes que Lúcia pudesse responder. Josualdo, passivo como sempre, nada disse, e seguiu sua esposa como um cão seguiria o lobo-alfa.
Suas pernas tremeram. O que havia acontecido? Quis ajoelhar-se e chorar, mas a terra estava muito úmida e sua calça jeans era branca e nova. “Vocês são parecidos” sua mãe dissera. O que isso tinha a ver?
Derrotada, pegou o celular. Três ligações perdidas de Maria Paula. Retornou a ligação.
— Alô, amor? — Maria Paula atendeu de imediato. — Como foi o funeral? O que aconteceu com seu avô? Me desculpe, não consegui sair do serviço a tempo, não consegui ir contigo.
— Oi, baby — sorriu, a voz dela lhe acalmava — está com tempo? É uma longa história.
— Claro, já estou em casa — o telefone chiou — vai me contando tudo enquanto termino de fazer a janta, você chega aqui amanhã?
— Isso, cedo estarei em casa.
Contou tudo para a namorada.
— Sua mãe disse degenerado?
— Sim, tem ideia do que pode ser?
— Não consigo pensar em nada assim.
— Acho que vou para a polícia, perguntar tudo, mereço saber. Ou então vou entrar em contato com a Rebeca. Ela deve saber algo!
— Lúcia…
— Diga, baby.
— Sei que isso é importante para você, mas tem certeza?
— Como assim?
— Como quer se lembrar de seu avô? Como o degenerado que sua mãe falou? Ou como o homem gentil que te apoiou quando “saiu do armário”?
Maria Paula tinha um ponto. Sim, seu avô era muito mais que seu segredo, mas seria justo consigo mesmo ficar sem saber? Qual era mais importante? A memória do avô ou a verdade? Se decidiu:
— Acho que você tem razão, não vou procurar nada. As memórias me bastam.
— Você fez o certo, amor.
Se despediu e desligou. No dia seguinte, iria continuar orgulhosa do avô, que foi o homem que mais a apoiou em sua vida.
Assim, o que quer que tenha acontecido com Jeremias Pinto Lindoso, foi enterrado com ele, a sete palmos debaixo da terra.

Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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