Finalmente o motivo que criei esse site será revelado:
Meu livro finalmente está em pré venda, então vou divulgar ele aqui… muahahahahahah


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Versão física
https://www.editoraviseu.com.br/a-jornada-do-legista-prod.html
Um local onde posso mostrar minhas maluquices e pensamentos. Meu antro de escrita criativa
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Eu li os arquivos do caso Epstein disponibilizados pelo governo americano no dia 30/01/2026. Não é uma leitura agradável, obviamente, mas não é algo que podemos, como sociedade ou indivíduo, ignorar. As coisas ali descritas são capazes de perturbar e traumatizar qualquer indivíduo minimamente são e empático.
Sempre fui um grande crítico do gênero “true crime”, em que pessoas possuem uma curiosidade mórbida para saber de cada detalhe das coisas horríveis que humanos conseguiram fazer ao longo dos anos. Nunca foi uma narrativa que me atraísse, e sempre considerei isso como um prazer quase sádico, ou talvez masoquístico, que as pessoas têm ao se alimentar da dor de pessoas reais.
Dito isso, embora esse caso seja considerado “true crime”, não acho que seja a mesma coisa. Não são crimes cometidos por uma pessoa, um grupo ou até uma seita. São a prova da violência sistêmica que funciona como base da nossa sociedade. Não são indivíduos cometendo crimes, são uma consequência óbvia de toda a nossa organização social. Tudo que construímos, como comunidade humana, teve vários resultados terríveis ao longo dos anos, esse é só mais um desses.
Embora eu acredite que, quem quer que esteja lendo esse texto, saiba, pelo menos vagamente, do que estou falando, acho justo que eu dê um pouco de contexto sobre a gravidade da situação.
Jeffrey Epstein foi um “financista” americano, nascido no Brooklin, Nova York, influente politicamente, que foi preso, juntamente com sua parceira, Ghislaine Maxwell, em 2019 quando foi revelado um esquema de tráfico sexual de crianças para políticos e empresários influentes em sua ilha particular. Entre seus clientes estavam até mesmo ex-presidentes americanos, como Donald Trump, Bill Clinton, Bush, príncipe Andrew, pensadores influentes como Stephen Hawking e Noam Chomsky, e também vários milionários, como Bill Gates e o atual homem mais rico do mundo, Elon Musk (que é um caso patético à parte). Além disso, foram citados inúmeros artistas, músicos, atletas, atores e atrizes, juízes… entre outras pessoas influentes que aparecem sempre na mídia, mas que não vale a pena ficar citando.
Em outras palavras, a “elite global”, como pessoas que tinham poder e dinheiro infinitos, contratavam esse serviço para abusar sexualmente de mulheres jovens e crianças (principalmente crianças) em uma ilha isolada sem a vigilância do Estado. Epstein fazia registros, anotações, fotos e vídeos, para chantagear os poderosos e conseguir vantagens. Ao menos era isso que era de conhecimento público até antes da revelação de mais detalhes do caso.
Como algumas vítimas da exploração, as crianças que sobreviveram ao caso, já haviam alertado publicamente, existem coisas muito piores que pedofilia e estupro que esses poderosos faziam, tanto na ilha quanto fora dela.
Como alguém materialista, nunca fui de acreditar em teorias das conspirações, sei que quase todas elas são psyops, ou seja, técnicas estratégicas, militares ou diplomáticas, utilizadas para influenciar emoções, comportamentos, atitudes e percepções de indivíduos, grupos ou nações. E que boa parte delas são plantadas para influenciar pessoas frustradas com a atual condição individual e social para aceitarem com mais facilidade as atrocidades reais que governos cometem. Coisas como reptilianos, elite global judia, alienígenas do passado, adenocromo, vampirismo, satanismo, QAnon e outras coisas, geralmente servem para desviar o foco das pessoas dos problemas reais do mundo.
Isso é fato irrefutável. Contudo, o pouco liberado dos arquivos no dia 30 de janeiro já mostra que algumas das coisas que esses lunáticos dizem eram verdade: já sabíamos da pedofilia e da mercantilização de crianças pobres para o consumo de milionários, mas não sabíamos de que isso era só a ponta do iceberg.
Assassinato de testemunhas e jornalistas, acordos políticos baseados em chantagem, coprofagia (comer fezes como fetiche, manipulação de eleições, criação de movimentos políticos de ultra direita, criação de figuras públicas influentes, crimes virtuais, tortura de crianças, filmes snuff (filmes onde se grava pessoas sendo torturadas, violentadas e mortas), “fábrica de bebês” para tráfico humano, canibalismo, desmembramento de bebês e outras coisas.
Tudo isso não é ficção, não é sensacionalismo. Foram crimes reais, catalogados, institucionalizados e cometidos — não por pessoas marginalizadas ou loucas — mas por pessoas que são idolatradas, admiradas, poderosas e totalmente sãs. Para exemplificar, sem ser gráfico demais, algumas acusações, o Príncipe Andrew, da família real inglesa, “encomendou” uma garota russa de 26 anos para Epstein, e gravou um vídeo a estuprando, torturando e matando, e o enviou para o pedófilo, que respondeu simplesmente: “amei o vídeo da tortura”.
Não há eufemismos, códigos secretos ou qualquer outra coisa do tipo. Ele simplesmente enviou isso por Gmail, o e-mail do Google, sem criptografia, sem nem mesmo se preocupar que fossem interceptados, pois ele sabe que nada nunca ocorrerá contra eles. O sistema não iria puni-los, eles eram, e ainda são, o sistema.
Outro relato mostra uma garota de 12 anos, estuprada pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (que é um dos mais citados nos documentos), relatando como o pedófilo criminoso a forçou, juntamente de outras crianças, a fazer sexo oral nele, e agrediu fisicamente ela e outras meninas. Outra testemunha disse que um dos chefes da segurança de Trump ameaçou ela a não dizer nada para ninguém, pois se não, seria enterrada no campo de golfe “juntamente com as outras vadias”.
Outra testemunha afirmou que vários homens abusaram dela e outras garotas em um iate, e que presenciou um bebê ser desmembrado em uma espécie de ritual religioso, e que comeram as fezes do intestino desse bebê.
Há imagens de Jeffrey Epstein, juntamente de uma mulher loira e outro homem (censurados), calmamente assistindo algo em uma chamada de vídeo pelo Skype. O título da chamada é simplesmente “Torture”, e uma das mensagens de Epstein diz que eles estão assistindo “Driping Cheese Piza”, ou seja, Pizza de Queijo Derretendo. O que isso significa? Bom, em outros e-mails, foi revelado que “Cheese Pizza” é um código para “Child Porn”, pornô infantil. Por associação lógica, alguns internautas supuseram que eles estavam assistindo uma criança sendo sangrada até a morte, visto que “driping”, ou derretendo, pode ser usada no contexto de “sangrando”, e há outros relatos de que eles sangravam crianças para consumir, de alguma maneira, seu sangue (supostamente envolendo adenocromos).
Mas o relato que mais marcou foi um trecho do diário de uma das vítimas, em que ela, aparentemente sob efeito de entorpecentes, relatava como, aos 13 anos, ia ter um bebê, resultado dos abusos constantes que sofria desses homens. Depois, ela narra o momento em que deu à luz, mas escutou por pouco tempo o choro de seu filho, pois, assim como os outros que tivera, o choro acabou rápido, sem ela ver nada, e levaram o bebê para outro local, onde ela nunca mais o viu.
Novamente, não é uma leitura fácil, nem mesmo consigo dizer com certeza de que tudo ali relatado é real, pois são, supostamente, apenas relatos de testemunhas, e o governo americano não revelou ainda nem 10% de todos os arquivos, e o pouco relatado ainda possui censura em nomes (de algumas vítimas e até mesmo de culpados).
Mas somente pelo fato de que várias pessoas que denunciaram isso desapareceram, foram mortas ou simplesmente descredibilizadas, dá para afirmar, sem um pingo de dúvida, de que todo o governo americano, e até outros governos ocidentais do primeiro mundo, estão por trás disso.
Se estão se perguntando se há menções ao Brasil ou governo brasileiro nos arquivos, há algumas (e possivelmente muitas outras não foram reveladas). Uma delas cita o Lula como o “prisioneiro político mais importante do mundo”, na época em que ele foi preso, e menciona que Noam Chomsky, um linguista influente, aliado e cliente de Epstein, foi visitá-lo na prisão e ligou para o próprio Epstein com o Lula. Não é revelado o conteúdo da ligação, nem mesmo se Lula estava envolvido em algum esquema.
Também mencionam o Bolsonaro de maneira ainda mais comprometedora. Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca, conselheiro de Trump e aliado da família Bolsonaro no Brasil, comenta com Epstein que eles iriam ter que apoiar o Bolsonaro na campanha de 2018 para presidência. Eles chegam a comentar que a eleição do Bolsonaro seria “vantajosa para o negócio deles”, e que “Bolsonaro era o cara”.
Não há provas de nada ainda, mas isso pode significar que, independente de qual líder o Brasil tivesse, não impediriam os negócios deles no país, visto que Jean-Luc Brunel, grande agenciador de modelos francês, já estava no Brasil recrutando “modelos” para traficar para Epstein. Contudo, também fica claro que a política entreguista e pró estadunidense de Jair Bolsonaro, seja intencionalmente ou não, ia facilitar ainda mais o tráfico de mulheres para fora do país. E que parte da campanha dele, provavelmente, foi financiada por tráfico de crianças.
Ou seja, isso sugere que Epstein tinha acordos tanto com o presidente quanto a oposição para garantir lucro no Brasil, mesmo que tivesse um “competidor preferido”.
Uma coisa curiosa nos arquivos era que destruíram uma concepção que eu tinha de que Israel era um Estado controlado pelos Estados Unidos para causar desequilíbrio no Oriente Médio ao atacar países islâmicos e promover o genocídio palestino. Curiosamente foi o oposto.
Para explicar, darei mais uma informação relevante: Jeffrey Epstein é judeu sionista declarado, e em um de seus e-mails, disse sobre a superioridade racial dos judeus e que não traficaria garotas judias, apenas as “goyims” (termo que judeus usam para pessoas não-judias). Até então, isso não diz nada, pois existem pessoas ruins em todas as etnias, Estados e religiões. Dizer que Epstein, por ser judeu, é mais condenável ou que todos judeus são perversos e tem mais propensão a fazer coisas do tipo não seria apenas crime, mas como também uma óbvia mentira. Devo ressaltar que não concordo com esse tipo de pensamento.
O ponto é que Epstein, em outro e-mail trocado com Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, pede que não seja revelado que ele (Jeffrey Epstein) é agente do Mossad (serviço secreto israelense). É chocante, mas ainda não é a pior parte. Ele também mandou e-mails para criadores influentes do Reddit e 4-Chan sobre a questão das páginas que tinham criado com a intenção de manipular a opinião pública. Uma delas, e a mais relevante, era a /pol, considerada o berço ideológico da “nova direita mundial”. Revelando que boa parte das ideias defendidas por grupos masculinistas, “red-pills” e machistas são de criação dessa pequena seita que ele mantém entre as elites mundiais. E que muitos movimentos de direita, incluindo o neo-nazismo e a supremacia branca, que tiveram uma retomada potente nos últimos anos na internet, foram fabricados por eles.
Se tudo isso não fosse chocante o bastante, acredite, ainda há muito mais. Por exemplo, porque vocês acham que o governo americano publicou esses arquivos que expõem pessoas influentes, inclusive o próprio presidente, no site oficial do governo, e retirou algumas horas depois? Mesmo com o chefe do FBI colocado por Trump dizendo que não há nenhuma prova do caso Epstein (mesmo que existam várias)? Quem foi que deixou essa informação (incompleta) à vista do público, e por quê?
A explicação oficial é que alguém dentro do governo americano, insatisfeito com o governo Trump, teria publicado várias coisas que o incriminasse, no intuito de difamá-lo. Contudo, embora não tenhamos prova de nada, temos indícios de que outra coisa estava acontecendo por debaixo dos panos.
Jeffrey Epstein oficialmente se suicidou em sua cela, um mês após ser preso, em 2019. Contudo, no local que ele estava preso, as filmagens das câmeras de segurança, supostamente, sumiram e não gravaram o momento que ele se matou. É quase consenso na internet de que alguém importante (muito provavelmente o próprio Trump) mandou matar ele.
Contudo, também sabemos que o irmão de Jeffrey, Mark Epstein, também envolvido nos crimes, foi ameaçado por alguém a não abrir a boca, para que não “fosse morto como o irmão dele”. Isso parece ser regra também para Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein e a mulher que cuidava da “prospecção e transporte” das “modelos” (ou seja, a traficante sexual infantil), quase não deu nenhum depoimento público desde que foi presa (em prisão domiciliar inclusive), provavelmente porque matarão ela assim que abrir a boca.
Também sabemos que Epstein tinha uma espécie de “chefes” ou “superiores”, que ele mencionava pouco nos e-mails que foram vazados. Supomos, por informação cruzada, que um deles era Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro de Israel, e como Epstein supostamente era do Mossad, serviço-secreto israelense, é uma presunção lógica de que o Estado de Israel está chantageando vários poderosos americanos a fazerem o que querem.
E onde quero chegar com isso? Bom, é principalmente suposição de internautas, mas com embasamento nas informações que foram reveladas e na geopolítica.
Donald Trump, desde que o escândalo de Epstein tem ficado mais na mídia, vem se tornando mais agressivo em seu governo, endurecendo leis internas de controle e deportação de imigrantes. Invadiu a Venezuela e sequestrando o Maduro, ameaçando a China, OTAN e a União Europeia, declarando que a América Latina é o quintal dos Estados Unidos, e fortalecendo o imperialismo americano, até mesmo ameaçando invadir a Groenlândia e causando intriga com a Europa e bombardeando o Irã.
Tudo isso, supostamente, seria uma estratégia não só para fortalecer os Estados Unidos e provando que não há nenhum país que tem interesse em entrar em conflito com eles, não importa o que façam, como também uma tentativa de distrair as pessoas e retirar o foco de seus escândalos pessoais envolvidos com a ilha de Epstein.
Também não é novidade de que Israel vem pressionando os Estados Unidos a tomar medidas bélicas maiores contra o Irã, que é o país do Oriente Médio que mais tem força para combatê-los. E, sabendo que o caso Esptein é principalmente um modo de manter as elites de “rabo preso”, com medo de que sejam expostas suas atrocidades, supostamente coordenada pelo Estado de Israel, personificada pelo agente do Mossad, Jeffrey Epstein. Também é bem claro que é possível que Israel pressionou Trump para que ele tomasse uma ação bélica potente contra o Irã. Contudo, ele se recusou, com medo de retaliação, e esses documentos foram vazados para chantagear o laranja. Isso explicaria porque há tantos nomes censurados que foram vazados (pessoas que são as próximas, caso Trump não tome essa iniciativa) e que nem 10% do total dos documentos foi exposto, deixando muita gente de fora, mas incriminando especialmente Trump e aliados.
Ou seja, provavelmente a Terceira Guerra Mundial pode ser desencadeada por essas chantagens. Não no sentido alarmista, pois ainda duvido dessa hipótese, mas ainda sim é uma possibilidade.
Contudo, deixando de lado toda a contextualização quase jornalística que dei, é importante lembrar que muito do que escrevi é especulativo, no sentido de não ter provas tão contundentes que comprovem minhas hipóteses, embora existam várias evidências. Mesmo que eu não seja, atualmente, um jornalista, eu já estudei sobre, e sei que seria tanto incompetência quanto levianidade da minha parte de afirmar tantas coisas com certeza. Assim, faço o convite para que leiam os arquivos (embora eu não saiba mais onde os encontrar oficialmente, visto que foram retirados do ar) e tomem suas próprias conclusões, também evitando os resumos e opiniões dos grandes jornais. Não sou contrário aos grandes jornais, tampouco digo que eles não têm credibilidade, ou que tem menos credibilidade do que eu. Contudo, nesse assunto em específico, não vi nada que indique que a mídia está tratando esse caso com o devido respeito e alarde, pois suspeito que eles simplesmente não possam dar detalhes das coisas que têm nos arquivos. Isso se deve a alguns fatores: é um conteúdo sigiloso e perturbador, que pode expor vítimas; é algo altamente político; as principais evidências são relatos, principalmente de pessoas não identificadas; e o principal motivo: são financiados pelas mesmas pessoas que estão envolvidas no caso.
É só ver como essas pessoas tratam o caso: a assessoria de Trump acusa todos nomeados no arquivo, menos o próprio Trump, sendo dito em sites oficiais do governo (diferentes do que foram expostos os arquivos) que todos os nomes envolvidos foram comprovados, menos o Trump.
Outro exemplo é a manchete tendenciosa da BBC Brasil acusando o Lula de envolvimento com Epstein, mas sem mencionar o Bolsonaro ou dizer muitos detalhes sobre o caso. E isso acontece nas redes sociais: quem é petista vai acusar o Bolsonaro de envolvimento, o bolsonarista vai ignorar ou relativizar o envolvimento do Bolsonaro e acusar Lula, por aí vai.
Isso mostra como a guerra cultural que vivemos hoje é puramente fabricada pelos detentores dos meios de produção e da mídia. E, se me permitirem ser menos “jornalístico” e mais “panfletário”, toda a ilusão de esquerda e direita também é uma construção dos grandes capitalistas.
Mas devo voltar ao motivo pelo que escrevo isso. Desde que li os arquivos, não consigo pensar em outra coisa. Isso me consumiu, escrevi ontem um poema metafórico sobre o assunto, mas não tirou meus pensamentos. O ódio me consome, o ressentimento me consome, e eu fico chocado o quanto isso parece não ter consumido quase ninguém. Ninguém se choca, ninguém fala sobre isso, ninguém reflete sobre seus ídolos, ninguém se levanta nem mesmo ameaça se levantar contra quem domina a sociedade. Eles são deuses, intocáveis, e não há levante popular contra eles, pelo contrário, se você dizer que temos que fazer algo contra esse pessoal, você é o violento, você é o errado, você é o insurgente. Todos estão tão alienados nesse projeto de dominação que nem mesmo temos o direito de nos indignarmos contra aqueles que nos mantém cativos.
Por isso, mesmo que eu não tenha mais esperança de que podemos fazer algo, sei que existe uma solução muito fácil e óbvia para isso: devemos matá-los. Não pode sobrar nenhum vivo, nada de suas posses deve se manter, devemos matar esses deuses, desapropriar e redistribuir suas posses e pertences. Embora eu saiba que esse pensamento me faça ser visto como o violento e o rebelde, não consigo viver em um mundo onde o que eles fazem é justiça e o que nós sofremos é violência.
Ao mesmo tempo que desejo a justiça verdadeira, sei que a justiça real que nos deixou assim.
Ao mesmo tempo que desejo a justiça verdadeira, sei que a justiça real que nos deixou assim nunca foi justiça. Foi gestão da barbárie. E isso não começou agora, nem com Epstein, nem com a internet, nem com a tal “decadência moral do Ocidente” que gente preguiçosa adora repetir. Atrocidades desse tipo atravessam a história como um fio contínuo, apenas mudando de roupa, idioma e justificativa moral. O que muda não é o horror, é o marketing.
O Império Romano se sustentou por séculos com escravidão em escala industrial, espetacularizando a morte como entretenimento público. A Igreja medieval acumulou poder político e econômico enquanto abençoava massacres, fogueiras e estupros em nome da salvação. As grandes navegações europeias não foram aventuras heroicas, mas projetos empresariais de saque, genocídio e escravização nas Américas, com o aval explícito do Estado, da Coroa e de Deus. Milhões morreram para que um punhado de famílias acumulasse riquezas que até hoje sustentam bancos, museus e “tradições” europeias. Nada disso foi um desvio do sistema. Era o sistema funcionando perfeitamente.
O imperialismo europeu nas Américas foi só o primeiro ato. O segundo veio quando os Estados Unidos assumiram o bastão, trocaram cruzes por contratos, espadas por sanções e canhões por “intervenções pela democracia”. O Brasil conhece bem esse roteiro. Da dependência econômica construída desde o período colonial até a interferência direta na política interna, golpes apoiados, ditaduras financiadas, privatizações impostas, elites locais recompensadas por manter o país eternamente exportador de matéria-prima e gente barata. Não é coincidência que continuemos desiguais, violentos e instáveis. É um projeto consciente.
E o mais perverso é que tudo isso só foi possível porque nunca conseguimos nos unir de verdade. Sempre fomos divididos por língua, raça, religião, bandeira, ideologia, time político, guerra cultural fabricada. Enquanto brigamos por símbolos, nos tiram o que produzimos. Enquanto discutimos qual político é menos pior, o sistema segue intacto, blindado, herdado, transmitido. A riqueza social nunca deixou de existir. Ela só foi apropriada, concentrada e protegida por leis escritas pelos próprios beneficiários.
Nada do que foi descrito nos arquivos, nada do que aconteceu em colônias, ditaduras, guerras ou ilhas privadas seria sustentável sem nossa passividade coletiva. Não porque sejamos naturalmente covardes ou maus, mas porque fomos treinados para a fragmentação. Sozinhos, indignados individualmente, somos inofensivos. Unidos, conscientes e organizados, sempre fomos uma ameaça real. E é exatamente isso que o sistema faz de tudo para impedir.
Talvez o ponto mais insuportável de aceitar seja esse: essas atrocidades não persistem porque são secretas demais, mas porque são normalizadas demais. Elas existem porque aprendemos a viver com elas, a racionalizá-las, a terceirizar a culpa, a esperar que alguma instituição resolva por nós. Nunca resolveu. Nunca vai resolver. O que foi tomado só pode ser retomado coletivamente.
A história mostra que os deuses sempre caem. Não por iluminação moral das elites, mas quando a base que os sustenta deixa de acreditar neles. O problema é que, até agora, sempre chegamos atrasados demais, divididos demais, cansados demais. E enquanto isso, o ciclo se repete, com novos nomes, novos impérios e a mesma velha certeza incômoda de que nada disso é inevitável. Só é permitido.

Caso não consigam ler na imagem, uma versão em texto:
Aqui de Baixo
Caem sobre mim os restos dessa janta.
Olho para cima, vejo-o se alimentar,
É um deus cujo prazer é violar.
Sendo glutão de insaciedade na garganta.
Enojado, desvio o olhar
Mas essa é a intenção secular.
Devo, corajosamente, observar,
Sem nunca deixar de odiar.
O ressentimento é meu cortejo.
Ao redor, vários sorriem, alienados,
Ignorando a dor dos bastardos
Consumidos por tão torpe desejo.
Mas não há solução
O mundo já foi dominado pela danação
Pois nem mesmo a justiça
Deseja ofender esse avatar da cobiça
Ignorantes seres de maldade,
Não tenham cautela em alimentar,
Vossa habitual violência que pode proporcionar,
Ao deus que come os de tenra idade.
Desesperadamente rogo àqueles aqui embaixo:
Por favor, Observem, Odeiem, Matem!
Olham para mim com nojo, como se fosse bicho
Com olhar preocupado, inferem:
“És pecador violento”
“Deus disse que matar é errado”
“Por favor, controle seu lamento”
“Não peque contra um deus, nem culpado”
Grito, sem ninguém escutar,
Ninguém ouvir,
Ninguém se levantar,
Todos os corpos irão submergir.
Tal deus, lá em cima, não vê meu ódio temeroso.
Mas juro que o cultivarei eternamente,
Mesmo que me sejam consumidos corpo e mente.
Pois, não há violência equivalente
Ao abuso de um ser poderoso.
Mas, no fundo, sei não haver esperança…
Meus braços fracos nunca puderam erguer,
Uma tão poderosa e profana lança,
Que seria capaz de fazer,
Com que tal cruel deus
Seja atingido em seu trono dourado,
E sangre! Tão vermelho e desonrado
Quanto os comuns plebeus.
Sei, então, que deuses não são como plebeus.
Mas que plebeus são como os deuses.
Pois a diferença entre esses,
É que o poder está na mão de quem é deus.
Tal deus, autoproclamado,
Zomba dos mortais violentamente abusados.
Sabendo que seu desejo vingativo,
Não se levantará de seus lugares cativos.
Fecho os olhos, derrotado,
Sabendo que as vítimas consumidas,
Serão friamente esquecidas.
Enquanto isso, observo abismado…
É a chegada de mais um prato…
O banquete não acabou.
Há mais carne humana no contrato!
Horrorizado, vejo pilha que descartou:
Diversos séculos de restos olham em retorno,
Rogo por uma reação do entorno
Mas sinto angústia profunda.
Pois nessa divina mesa rotunda,
O banquete é eterno
Pois vivemos em infinito inferno.
Pois aqui, no fundo do poço,
Todos já estão com a corda no pescoço.
Somos cordeiros obedientes desde o princípio,
Listados como a próxima carne do cardápio.
Em meus olhos, lágrima manifesta
Sei que não há mais a quem rezar
Pois o deus que lá em cima resta
Existe apenas para nos predar
João Pedro girou a figura do Homem de Ferro em suas mãos: o boneco era articulado, a pintura estava levemente desgastada e o vermelho-vivo habitual do herói se desbotava em tons pastéis. Não era pesado, mesmo em suas mãos diminutas, era possível manuseá-lo com facilidade enquanto fazia sons de avião com a boca. A criança sabia que o barulho do herói voando não era igual a um avião, mas não se lembrava do barulho certo. Ele havia assistido ao filme ano passado com Matheus.
O seu irmão mais velho amava filmes de heróis: ele havia colocado-no para assistir todos os filmes da Marvel, e o primeiro deles, que originou a franquia, era o do Homem de Ferro, que ele tinha um carinho especial.
A verdade é que João Pedro não gostava tanto assim de heróis. O garoto gostava porque seu irmão amava aqueles filmes, e ele o amava, logo, era fácil juntar um mais um e amar também aquilo que o irmão amava.
Contudo, se ele fosse escolher um herói que ele mais gostava, de todos os filmes que assistiram juntos, era o Homem-Formiga. Quando ele disse isso para ele, o mais velho caçoou do caçula: “ninguém gosta do Homem-Formiga”, disse, “é um herói que só está lá para fazer volume, não é importante”.
João Pedro não tinha como dizer o motivo dele gostar tanto desse herói. Ele não tinha nem a autocompreensão, nem o vocabulário para responder que gostava dele pois invejava o seu poder. Afinal de contas, quantas vezes não havia desejado ser minúsculo e se esconder quando começavam as longas brigas de seus pais? Ou quando as outras crianças vinham conversar com ele na escolinha?
O brinquedo, que era de Matheus, quase lhe escapou das mãos quando o carro deu um solavanco forte devido a um quebra-molas.
Foi o suficiente para fazê-lo se distrair do brinquedo em mãos e olhar para frente: no banco do motorista, seu pai dirigia com um olhar soturno e centrado, sem expressão facial alguma, catatônico; sua mãe, no banco do lado, chorava em silêncio, deixando as lágrimas cristalinas percorrerem suavemente suas bochechas rosadas e convertidas em uma careta de pranto. Ambos, assim como João Pedro, vestiam roupas pretas para demonstrar o luto.
Ele não era uma criança genial, tampouco um tapado, mas ainda sim, tinha dificuldades de entender o que era a morte.
— Mãe, o que aconteceu com o Matheus? — Havia perguntado ontem, após toda a confusão em casa.
A mãe, ainda desesperada e chorosa, não conseguiu lhe responder uma única palavra. Ajoelhada no chão da sala de estar, como que em penitência. Seu pai não estava lá, estava trabalhando, nem mesmo sabia do ocorrido. Foi sua tia Helena que o guiou para seu quarto, enquanto seu marido, tio Lucas, ajudava os bombeiros a retirarem o corpo de Matheus, que se dependurava numa corda amarrada ao teto.
— Pedrinho… — Era assim que os adultos o chamavam, raramente pelo nome composto. — Seu irmão Matheus… — fez uma pausa e engoliu o choro para manter-se firme na frente da criança — foi morar com papai do céu lá no paraíso. Ele está num lugar melhor agora.
A criança franziu o cenho.
— Então por que tá todo mundo triste? — Não fazia sentido. — Se ele tá melhor? Por que tá todo mundo chorando?
Sua tia fez uma pausa dolorosa, como se tivesse sido atingida por um soco no estômago.
— Porque… porque não vamos mais ver ele.
Era tudo que João Pedro sabia sobre a morte, nada mais, nada menos. Era uma incógnita, um mistério que ele não queria pensar nem resolver, e por fim, um lembrete de que havia perdido quem mais amava.
Morte, para o jovem, era simplesmente “ausência”. Era a falta de alguém que sempre imaginou que faria parte de sua vida eternamente, mas agora era apenas uma lembrança, uma que mais reflete um vazio do que um ser.
Mas, obviamente, nem mesmo ele conhecia as palavras para entender ou expressar seu luto. Sentimento este que ainda estava anestesiado, imerso em pensamentos dúbios, voláteis e fugazes. Em vocabulário comum, ainda não havia “caído a ficha”: para João Pedro, seu irmão havia se ausentado há apenas um dia.
O carro estacionou diante do salão velado por coroas de flores, e o mundo pareceu diminuir de volume quando as portas se abriram. João Pedro desceu entre os pais, cada um segurando uma de suas mãos como se ele pudesse escapar por entre os dedos. O ar ali dentro era pesado, cheirava a flores demais e a algo metálico que ele não soube identificar. Caminhou com passos curtos, sentindo o chão liso sob os sapatos novos, enquanto os murmúrios começavam a rodeá-lo.
Os outros adultos da família não tinham rostos nítidos. Eram manchas desfocadas, figuras que se aproximavam e se afastavam como se alguém tivesse esfregado a memória com o polegar. Vozes sem corpo se inclinavam sobre ele, mãos grandes demais pousavam em seus ombros, cabeças se abaixavam para ficar à sua altura e logo desistiam, como se não soubessem o que dizer a uma criança que acabara de perder o irmão. Diziam “tão novinho”, “coitadinho”, “força pra vocês”, frases repetidas, gastas, que soavam iguais umas às outras.
Alguns falavam baixo demais, como se o silêncio fosse uma regra do lugar; outros falavam demais, talvez para afastar o próprio desconforto. Havia olhares longos, úmidos, cheios de pena, e havia também olhares rápidos, esquivos, que pareciam ter medo de cruzar com os dele. Em meio aos sussurros, escapavam comentários que João Pedro não compreendia por inteiro, mas que o deixavam inquieto: menções à “escolha” de Matheus, à ideia de que “quem quer, dá um jeito”, ou que “Deus sabe o que faz”.
Para João Pedro, tudo aquilo se misturava num zumbido confuso, como uma televisão ligada em outro cômodo. Ele não entendia escolhas, nem decisões, nem motivos. Só sentia falarem do irmão como se ele tivesse feito algo errado, e isso lhe causava um aperto estranho no peito, uma vontade muda de encolher, de ficar pequeno como o Homem-Formiga e desaparecer por entre as pernas dos adultos.
O murmúrio ficou ainda mais alto e indecifrável quando o garoto se aproximou do caixão disposto no meio do saguão. Ele não tinha a altura para observar o que tinha nele, embora soubesse que era seu irmão. As mãos trêmulas de seu pai lhe envolveram em um abraço gentil, tornando-se firmes no momento que tocaram seu corpo.
“Venha ver o seu irmão” disse-lhe, em sussurros, ao seu ouvido. “Ele está dormindo”
Em seguida, levantou-o acima do caixão, que ainda estava aberto, para que a criança pudesse se despedir de seu companheiro. E foi então que a visão de João Pedro perscrutou o corpo que jazia ali, gravando cada detalhe em sua memória.
Ali não havia o semblante comum que via de seu irmão dormindo, ao contrário de que seu pai havia dito. Era uma feição rija, neutra, sem cor, sem vida — não havia o dinamismo do sono, tampouco a maciez do descanso. Pelo contrário, a palidez de seu rosto e a roxidão de seus lábios demonstrava apenas estática, um momento congelado no tempo pela eternidade. Não era acolhedor, como seu irmão foi, nem pacífico, como deram a entender que era, e sim gélido, inerte, angustiante, desolador, inquietante e inexorável. Mas, novamente, João Pedro nada sabia disso.
Ele sabia, neste instante, que seu irmão não somente estava morto, ele é um morto. Para sempre.
Assim os murmúrios da multidão voltaram, com ainda mais veemência, assim que as primeiras lágrimas caíram do rosto da criança, lágrimas nem um pouco silenciosas, e sim ruidosas, desordeiras, desesperadas e vívidas, tão suspensa na vida quanto seu irmão estava suspenso na morte.
Assim, os ruídos de fora, tão numerosos quanto intensos, se silenciaram para o surgimento dos ruídos internos, de uma mente que, para sempre, ficaria sem seu verdadeiro herói.
Contudo, por mais que conhecesse o herói, não sabia quem era o vilão. Vilões matam heróis, mas este havia morrido pelas próprias mãos. Quem era seu verdadeiro irmão? O herói que morreu ou o vilão que o matou?
Em turbulosos pensamentos, estava suspenso no ar, voando como o Homem de Ferro, mas impotente, sem forças para lutar contra o mal. E ficou ali voando sobre o corpo de seu irmão, indefinidamente, embora seu corpo já não mais se encontrasse naquele local ou momento, pois logo foi posto ao chão por seu pai, que o abraçou de maneira firme, para afastar males que nunca sumiriam por completo. Em um instante em que até mesmo o barulho da multidão parecia querer sufocar seu choro.
Este corpo, então, acompanhou o fechamento do caixão, o sepultamento no cemitério, e a lamuriosa volta para casa, em que o boneco do Homem de Ferro jazia esquecido debaixo do banco do carro. Esta carne ambulante ainda perguntou aos seus pais o que Matheus havia feito de errado para todos estarem julgando-no. Contudo, nunca obteve resposta, pois sua mãe e seu pai também ainda não haviam voltado do funeral, pois seus corpos, que dirigiam para casa, estavam desmembrados de suas mentes, que ficaram suspensas ali, naquele saguão, para sempre. Durou até que o próprio tempo, reparador e paciente, fizesse com que seus corpos criassem outra mente, uma outra alma, para continuar vivendo. Mesmo sabendo que parte deles ficou ali com Matheus.
Tic, Tac
Tic, Tac
Está passando mais um dia em vácuo
Despido de sentido, razão ou objetivo
Enquanto cicatriz mancha destino inócuo
De sujo corpo ausente de motivo
Visto-me de negra máscara repleta de persona
E me agacho cobrindo as brasas da vital pulsão
Enquanto a chama da vontade me abandona
Assim, desesperadamente crio, com paixão
As palavras que uso já não tem mais som
Tampouco hão de serem pronunciadas em louvor
Mas, se for para pensar em como vou agir…
Não há nem mesmo em mim forças para rimar
Portanto, seguirei sem rumo e organização
Para destilar tamanho desespero interno
E registrar no exterior
Aquilo que consome meu âmago
Pois pensando em todos “eus” que matei,
Devo ser condenado por suicídio culposo
Tantas possibilidades, tantas escolhas
Tantas rotas e jornadas
E não escolhi nenhuma…
Apenas estático, lamurioso e impertinente
Sinto a dor, nem tão de repente
Que sempre volta à minha torpe mente
Me fazendo voltar a rimar, mesmo que inconsistente
Pois essa rima que guia meus dedos
Esse fogo que me faz tão potente
Nada mais é que carbono desprendido
Do funeral de um ser potente
Potencial…
Pude ser tantas coisas
Hoje sou apenas uma
Amanhã ainda posso ser vários
Para no final ser apenas eu
Tanto medo de escolher
Tantas opções para viver
Para, no final, arrepender
Ah, como me arrependo de não ter tentado…
Quem sabe um dia eu possa
Decidir até mesmo
Se irei rimar, fazer troça
Ou despejar tudo à esmo
Fim do espetáculo, e infinitas pessoas jazem mortas
Pois escolhi o caminho que mata
Cada possibilidade que não sou
Alexandre sentia saudades da ceia que teve na infância, a ceia do Natal de 1997, para ser mais exato. Foi quando seu pai, cortador de cana no interior de Pernambuco, conseguiu um dinheiro extra no jogo do bicho. Talvez não fosse uma excelente ideia usar o dinheiro conseguido com a benção da Fortuna para proporcionar um momento breve de prazer para sua esposa e seus oito filhos. Talvez, se o seu velho tivesse investido de maneira consciente esse dinheiro, poderiam ter tido um futuro melhor pela frente, e não precisaria separar os filhos naquele fatídico verão de 2001.
Mas até quando as pessoas podem recusar felicidade imediata em prol de um conforto maior no futuro? Ainda mais as pessoas que foram lapidadas e instruídas a buscarem o consumo acima da estabilidade. Eles queriam uma ceia naquela época, e podiam tê-la, por que não?
Alexandre não se ressentia, era uma das melhores lembranças de sua infância: ele deveria ter seus doze anos naquela época, e foi a primeira vez que comera até se empanturrar. Leitão assado, tutu à mineira, farofa de bacon, arroz à grega, vinagrete e muito refrigerante (guaraná Jesus, para honrar suas origens Maranhenses).
Duvidava que seus irmãos haviam conseguido subir tanto na escada social quanto ele, embora não pudesse saber como. Nunca mais os vira desde que seu pai morreu, assassinado pelos cobradores de dívida. Sua mãe teve que decidir com quais filhos ficaria, e quais daria para os demais membros da família.
Era um pensamento mórbido para uma mãe… mas sabia que mães eram feitas de um material mais resistente que os demais, então ela conseguiu dar conta. Depois de tudo isso, ele havia conseguido se virar morando com um primo distante, o rapaz, de nome Cláudio, acabou por se casar com uma moça de posses que lhe custeou a educação, e Alexandre pôde ser algo que os irmãos nunca sonhariam em ser: um doutor. Não um doutor médico, mas um doutor da sapiência, um homem feito que possuía doutorado e PHD, após sair de um local onde os demais não tinham sequer completado o ensino fundamental.
E pensando nisso que ele se dirigiu aquela loja em especial em Aspen, Colorado. Havia se casado nos Estados Unidos, possuía duas filhas, ambas tinham nomes latinos-brasileiros, pois ele tinha orgulho de sua cultura, e principalmente da cultura aguerrida e incansável do nativo nordestino. Elas eram Francisca e Maria Alice, de 10 e 7 anos, respectivamente.
Ainda não havia decidido que compraria para elas, crianças hoje em dia não eram tão fáceis de agradar quanto as de antigamente, em que ele se contentaria com qualquer garrafa pet com rodas improvisadas e usaria a imaginação para terminar o carro de fórmula 1.
Com essa indecisão, estava na frente da vitrine da loja “Decore”, especializada em brinquedos e decorações natalinas. De relance, pode ver os funcionários lá dentro vestidos todos de duendes, correndo para um canto e outro e atendendo a multidão de pessoas.
Era raro visitar uma loja física, sempre comprava tudo online, após pesquisar intensamente sobre os preços dos produtos em todos os locais disponíveis. Mas a loja havia chamado sua atenção, qualquer coisa, iria ver algo legal nela e procurar pelo preço do mesmo produto online, mais barato.
Era curioso que havia tantas pessoas em uma loja tão pequena, mas a decoração era impressionante, tinha um clima natalino agradável e uma música jazz bem suave percorria os corredores, deixando seu coração quentinho. Além do mais, o cheiro de cookies recém assados estavam abrindo seu apetite.
Olhou a vitrine com curiosidade: havia alguns brinquedos confeccionados à mão, não possuíam indicativos de marcas, nem nada do tipo, pareciam bem feitos e bem pintados, um pouco delicados, talvez, mas seriam itens de colecionador.
— Gostou dos nossos produtos, senhor? – Uma voz aguda perguntou próxima a si.
Olhou para seu interlocutor: era um dos funcionários da loja, vestidos de gnomo. Era mais baixo que parecia dentro da loja, deveria ter entre 1,55 a 1,60, no máximo. Isso configurava nanismo? Não sabia dizer.
— São muito bem feitos, vocês mesmo que confeccionam? – Alexandre perguntou, impressionado.
— Sim, nosso gerente, o Nicholas – apontou para o homem vestido de Papai Noel no centro da loja – monta todos projetos e constrói os protótipos. Nós pegamos os diagramas que ele faz e montamos as réplicas para vender. Falando nisso, meu nome é Chik.
Alexandre olhou para ele, claramente ainda estava interpretando um papel, não iria perguntar mais que isso. Quem diabos se chama Chik?
— Prazer, Alexandre, mas pode me chamar de Alexander, caso ache a pronúncia difícil.
— Não é daqui também, senhor Alexandre? – repetiu o nome Alexandre perfeitamente, sem nenhum sotaque.
— Não – riu Alexandre – bela pronúncia, por sinal. Sou do Brasil.
— Ahhh, Brasil, belo país…
— Já foi lá?
— Algumas vezes, aqui e ali… deseja conhecer mais da loja?
— Claro – Alexandre já estava curioso o suficiente para saber qual era daquela loja.
— Vou te acompanhar enquanto Nicholas atente os outros clientes, depois disso, ele te atende, tudo bem?
— Ah, não será necessário, acho que ele já está ocupado demais, não seria trabalho demais para o gerente?
— Ahhh, mas vir na “Decore” e não ser atendido pelo Nicholas é como ir na Disney e não ver o Mickey, não teria graça nenhuma. Você vai entender depois – riu Chik – Enquanto esperamos, você aceita cookies?
— Claro, um dos motivos que entrei na loja foi o cheiro de cookies – brincou Alexander.
— Claro que foi, todo mundo gosta de cookies – Chik era um cara bem feliz, aparentemente.
Experimentou um cookie que o funcionário ofereceu, era bem gostoso, tomou também chocolate quente, que estava muito bom.
— Superou minhas expectativas – disse Alexandre, limpando a boca.
— Fico feliz com isso, se estivesse ruim, teríamos que despedir o cozinheiro, e ele é meu irmão – ele riu de sua própria piada.
— Por favor não faça isso, ele foi muito bem.
— Então, procura o que especificamente aqui na loja? Vamos facilitar o trabalho do Nicholas.
— Na verdade, não tenho muita ideia… não sei o que minhas filhas iriam gostar de receber de presente. Elas só ficam no celular, ou tablet. Pensei em comprar algo relacionado, mas não quero alimentar esse vício.
— Difícil… qual a idade delas?
— A mais nova tem 7, a mais velha 10.
— Dê uma olhada nas bonecas feitas à mão, vê se alguma lhe agrada – disse, apontando para uma prateleira próxima – por sinal, o Nicholas está vindo, olha ele ali!
De fato, o homem rechonchudo de bochechas rosadas e roupa de Papai Noel estava vindo com um sorriso no rosto.
— Boas Vindas, querido cliente, espero que esteja aproveitando nossa loja – disse o homem de vermelho – acredito que já tenham me apresentado para você, mas vou repetir! Meu nome é Nicholas, sou gerente da loja! Prazer em conhecê-lo.
— O prazer é todo meu, senhor Nicholas, me chamo Alexandre – estendeu a mão para cumprimentar o gerente.
O gerente retribuiu o gesto e acompanhou-o em direção à prateleira, mostrando algumas bonecas muito bem feitas de madeira e tecido. O correto era dizer que tinha bonecos e bonecas, eram feitas de porcelana e muito bonitas, mas não parecia ser algo que crianças gostassem.
— Bom, não sei se minhas filhas iriam gostar de bonecas tão frágeis – começou, com um tom apologético – sabe como são crianças, né?
Nicholas sorriu, mas seu olhar ficou mais pensativo, como se estivesse ponderando a resposta cuidadosamente.
— Eu entendo perfeitamente, Alexandre. Hoje em dia, as crianças têm outro tipo de interesse, mais voltado para a tecnologia. Mas essas bonecas têm algo especial: elas são mais do que apenas brinquedos, são verdadeiras obras de arte. Cada uma delas tem sua história, seu propósito, e são feitas para durar gerações, como um legado. Talvez, se você achar que suas filhas têm uma conexão com a cultura e a tradição, elas possam se encantar.
Alexandre olhou as bonecas com mais atenção. Algumas eram representações de personagens típicos do Natal, como o próprio Papai Noel, o duende, e até figuras mais folclóricas, como a Yule Goat, da tradição escandinava. Havia também versões de personagens mitológicos e animais, todos incrivelmente detalhados, com roupas feitas à mão, rostos pintados com uma delicadeza impressionante.
— São realmente lindas — disse Alexandre, com um sorriso desconcertado. — Mas, como você mesmo mencionou, minhas filhas são bem modernas, elas gostam de coisas mais… tecnológicas.
— Bem, isso é um desafio, mas também uma oportunidade — disse Nicholas, enquanto o conduzia para outra prateleira, onde estavam expostos itens mais interativos. — Olha essas figuras, por exemplo. Elas são mais voltadas para a imaginação, mas têm um toque moderno. São brinquedos educativos, mas que se conectam com a tecnologia de uma maneira que você talvez aprove. Elas interagem com tablets, têm aplicativos e jogos que desenvolvem habilidades. Não estou dizendo que deve substituir o digital, mas talvez combinar os dois universos, o antigo e o novo.
Alexandre olhou com mais interesse. Havia figuras de animais de madeira, que, ao serem colocadas sobre uma superfície de madeira especial, interagiam com o aplicativo no celular, mostrando informações sobre os animais, sons e histórias interativas. Embora fosse um brinquedo que misturava o antigo e o novo, ele ainda se sentiu um pouco desconfortável com a ideia de incentivar ainda mais o uso de telas. Mas, por outro lado, as peças eram encantadoras.
— Isso me lembra de uma coisa — Alexandre disse, com uma leve nostalgia na voz. — Quando eu era criança, a diversão era simples. Eu não tinha um tablet, nem celular, e ficava feliz com qualquer coisa que minha mãe me desse. Eu lembro da ceia de 1997, e o quanto aquilo foi importante para mim, não pelo que comemos, mas pela sensação de união, de felicidade simples. E, agora, vejo minhas filhas imersas nesse mundo virtual e fico pensando se elas têm alguma ideia do que é uma felicidade mais genuína, mais simples.
Nicholas, que até aquele momento se manteve quieto, como se estivesse apenas mostrando os produtos, olhou para Alexandre com um olhar compreensivo.
— Eu sei exatamente o que você quer dizer, Alexandre. É uma luta constante, a de equilibrar o antigo e o moderno. A vida moderna tem suas vantagens, claro, mas a sensação de conexão verdadeira, de momentos simples e genuínos, muitas vezes se perde. Eu, por exemplo, fui criado em uma pequena vila onde as coisas eram mais lentas, mais calorosas. O Natal para mim era uma festa de comunidade, onde todos se ajudavam e compartilhavam. Mas, com o tempo, eu também fui absorvendo essa cultura do consumo, da pressa, da aparência… e o que me restou foi uma sensação de vazio, uma falta de algo mais profundo.
Alexandre olhou para o homem, surpreso com a sinceridade na resposta, e uma conexão não planejada pareceu surgir entre os dois.
— Eu entendo… — disse ele, mais suave. — Mas, ao mesmo tempo, a vida não para. Minhas filhas nasceram nesse mundo digital, e não posso apenas desligá-las dele. O que posso fazer é tentar balancear, trazer um pouco do que vivi na minha infância para elas, de alguma forma.
Nicholas sorriu, talvez entendendo mais do que Alexandre queria dizer.
— Às vezes, não são os brinquedos ou os objetos que realmente importam. São as experiências que criamos com nossos filhos, as histórias que contamos, as memórias que compartilhamos. A loja “Decore” é só um reflexo disso: procuramos oferecer algo mais do que apenas um presente material. Oferecemos a chance de criar momentos, de relembrar tradições, de passar adiante uma parte do que somos. Então, talvez o que você esteja buscando, Alexandre, não seja um brinquedo, mas uma maneira de compartilhar esse espírito natalino com suas filhas.
Alexandre se sentiu tocado pelas palavras de Nicholas. Por um momento, foi como se ele tivesse encontrado alguém que entendia suas angústias e, ao mesmo tempo, lhe oferecesse uma solução simples, mas profunda.
— Você tem razão — disse, com um suspiro profundo. — Talvez não precise me preocupar tanto com o que elas vão ganhar, mas com o que elas vão viver durante esse Natal. Eu acho que vou levar algo daqui, mas o principal será o tempo que passarei com elas, criando as memórias que um dia elas lembrarão com saudade.
Nicholas sorriu, satisfeito com a conclusão.
— Fico feliz por ouvir isso, Alexandre. Às vezes, as respostas estão dentro de nós, esperando para serem encontradas.
Alexandre pegou uma das figuras interativas de madeira, pensando no que poderia ser o presente certo, mas mais importante ainda, nas memórias que ele construiria naquele Natal. Ele finalmente sorriu, de um jeito que há muito não fazia, como se o espírito de Natal, aquele mesmo que ele sentira quando criança, tivesse voltado para ele, um pouco mais maduro, mas igualmente real.
— Acho que vou levar essa. E, quem sabe, vou também fazer algo para elas, algo simples. Como uma boa ceia de Natal.
Se despediu de Nicholas e dos gnomos (ou duendes?) e partiu para casa, com a certeza de que havia feito a escolha certa, de que o amor que sentia por suas filhas fosse guiá-lo por essa data especial, e, mais do que presentes, faria daquelas vidas uma memória, em que perduraria para sempre o verdadeiro significado do Natal.
Acordei com os olhos remelados e o nariz bem seco: o clima de Porteirinha–MG era definitivamente ruim para minha rinite, e o hotel empoeirado e mal cuidado estava detonando minhas mucosas. Ao meu lado na cama, Lúcia roncava levemente, grunhindo coisas ininteligíveis em seu sono.
Dei dois tapinhas nas costas dela, fazendo com que ela se voltasse para mim ainda em meio-despertar. Suas costas nuas dando lugar à visão de seus seios redondos, bem torneados e com mamilos duros, que mal apareciam por debaixo de seus cabelos lisos, sedosos e negros. Sua pele branca parecia brilhar quando era tocada pela fresta de luz solar que escapulia pelas janelas fechadas. Ela era muito linda e sedutora… quase me distraí em seus lábios vermelhos antes que pudesse dizer:
— Já são nove horas, temos que levantar para não perder o café da manhã do hotel.
— Bom dia, Rafael… — Ela não sorriu, nunca sorria. Mas se espreguiçou e abriu a boca levemente, deixando sair um leve bafo.
Suspirei, até o bafo dela me atraia perdidamente. Levantei-me com um pulo e comecei a me vestir, enquanto ela ainda enrolava preguiçosamente na cama.
Quando terminei de me vestir e aprontar, cutuquei-a novamente para despertar de seu sono:
— Vamos, Lúcia, acorda… o café deixa de ser servido às nove e meia.
Ela resmungou e levantou ainda de maneira desajeitada, indo diretamente para o banheiro. Enquanto andava de costas, parei para admirar sua bunda grande e geometricamente impecável… queria que tivéssemos mais tempo antes do café, queria possuí-la novamente quanto antes fosse possível, mas além do café, havia trabalho a ser feito.
Depois do café que não merece mais que uma nota de rodapé (pão duro, café ralo, e um ovo mexido com gosto de margarina velha), seguimos para a praça principal de Porteirinha, onde a rotina da cidade já fervilhava. Vendedores ambulantes gritavam suas ofertas, velhos observavam da sombra dos bancos e as crianças chutavam uma bola murcha que parecia ter sobrevivido à ditadura.
Lúcia ajeitava a câmera com um profissionalismo frio. Já eu, com meu sorriso cuidadosamente treinado e falsamente carismático de youtuber, abri a gravação:
— E aí, pessoal! Bem-vindos a mais um vídeo do canal Visagens do Brasil! Hoje estamos em Porteirinha, interior de Minas Gerais, uma cidade cheia de histórias macabras. Dizem que, nas madrugadas, quem anda sozinho por essas ruas ouve o som de cascos… e perde a razão! A famosa Mula Sem Cabeça!
Apontei a câmera para Lúcia. Ela, bela como sempre, olhou com uma expressão quase neutra. Contudo, essa neutralidade tinha algo de magnético, de sensual. O público, nos comentários, sempre dizia que ela era “fria”, “distante”… mas ao vivo, essa frieza era pura tentação.
Ela começou:
— Nós vamos conversar com os moradores para entender como essa lenda ainda vive hoje. E quem sabe, à noite, a gente não sai em busca dessa aparição?
Um grupo de senhoras nos observava de longe, cochichando. Uma delas, de vestido florido e terço na mão, aceitou falar. Gravamos sua fala:
— Essa mula aparece é por castigo, uai. Mulher que mexe com padre, que não respeita homem casado, vira monstro. Não tem corpo, não tem cabeça, só fogo e pecado correndo solto pela noite.
As palavras atravessaram Lúcia como se fossem lâminas invisíveis. Sua mão trêmula ajustava a lente da câmera, mas o olhar estava perdido, quase vacilante. Eu percebi, mas, sinceramente, parte de mim adorava. Porque era ali, naquela tensão entre o sagrado e o profano, que ela ficava ainda mais irresistível.
Seguimos gravando outros relatos: um comerciante que jurava ter visto uma sombra flamejante na estrada de terra; um velho bêbado que dizia ter perdido a sanidade após ouvir os cascos por três noites seguidas. A cada testemunho, Lúcia parecia se encolher mais, como se fosse ela mesma o alvo das acusações veladas que ecoavam na boca de cada morador.
E eu, no fundo, sabia por quê. Não era só medo. Era culpa. O pecado dela tinha nome e cheiro. Tinha corpo quente e lençóis suados. E não foi comigo que começara essa história. Mas, embora eu a tenha perdoado, parte de mim gostava de remoer essa história, sabendo que agora ela pertencia a mim.
Lúcia filmava, séria, mas eu podia sentir aquela chama incômoda nela: um fogo que nem sempre era paixão, às vezes era condenação. Naquela noite, quando revi as filmagens, percebi o olhar dela nos enquadramentos. Em cada cena, Lúcia parecia estar se vendo através daquelas histórias, como se a lenda falasse dela.
E eu… eu não sabia se sentia pena ou atração por aquilo. Talvez ambos… O que me deixava um pouco mal por desejar que essa culpa nunca passasse.
— Você podia ter enquadrado melhor a senhora do terço. Parecia amadora. — Disse, de repente, ao ver algumas falhas na filmagem.
Lúcia baixou os olhos.
— Desculpa…
— Sempre desculpa. — Suspirei, puxando-a pela cintura. — Sorte que você compensa de outros jeitos, né?
Ela sorriu, bem levemente, e me afastou. Não era hora, eu mesmo sabia, mas não poderia deixar de provocar…
A noite em Porteirinha parecia engolir o mundo. O ar parado, o silêncio das ruas e o breu que mal era quebrado pelos postes piscando davam à cidade um aspecto de coisa morta. O vento arranhava as janelas do hotel, como se tentasse chamar alguém lá dentro.
— Pronta? — perguntei, ajustando a câmera no tripé.
Lúcia assentiu, vestindo a jaqueta jeans surrada e prendendo o cabelo num coque rápido. Ela segurava o microfone com uma mão e a lanterna com a outra, e o feixe de luz tremia no chão. O brilho amarelado subia pelas paredes mofadas, revelando as rachaduras do corredor, como veias pulsando sob a pele da velha construção.
— Esse vídeo vai dar view, amor — murmurei, tentando animá-la. — “A Maldição da Mula de Porteirinha”. Só o título já chama atenção.
Ela não respondeu. Desde o fim da tarde, estava diferente. O olhar mais fixo, a respiração curta, os olhos semicerrados como se vissem algo que eu não via.
— Você ouviu? — perguntou de repente.
O som veio do lado de fora. Um trote seco, ritmado, metálico, ecoando pelas ruas vazias. Não parecia um cavalo. Era mais… pesado. E o som vinha acompanhado de algo mais: um sussurro abafado, como se alguém chorasse no meio da mata.
— É o trote da mula — disse, surpreso e animado.
Seguimos o som. A câmera ligada, o microfone captando tudo. As luzes das casas foram sumindo até restar apenas a estrada de terra e as cigarras. À distância, uma silhueta escura: um celeiro antigo, de madeira apodrecida e teto caindo. O vento batia nas portas frouxas, fazendo-as gemer.
— Deve ser lá — falei.
Entramos. O cheiro era de mofo, ferrugem e merda de animal. Pedaços de couro pendiam do teto, como restos de algo que tinha sido arrancado à força. Lúcia apontou a lanterna para o chão e vimos marcas profundas, cascos queimados no barro, como se o solo tivesse derretido.
— Você está pálida, amor. Não vai me dizer que acredita nessas histórias de velha beata, né? — Eu sorri, sabendo exatamente o que aquelas palavras fariam com ela.
Ela não respondeu, apenas continuou iluminando o caminho e filmando. O som ia e vinha, como se algo estivesse rondando o local. Nunca esperei realmente encontrar algo, mas começava a ficar cada vez menos cético. Olhei para Lúcia, que estava com a câmera nas mãos, tremendo.
— Se você perder essa filmagem, Lúcia, juro que…
Ela me olhou assustada.
— Que o quê?
Sorri.
— Nada. Você não vai perder. Você nunca me decepciona de verdade, não é?
Novamente, sem resposta, seguimos por muito tempo os sons, até que o silêncio voltasse a imperar pelo local. A criatura havia sumido, nos deixando sozinhos, apenas com a gravação para provar o que realmente havia acontecido.
Voltamos para o hotel exaustos, com a adrenalina ainda latejando nas veias. A câmera, suja de poeira e com a bateria quase no fim, descansava sobre a mesa. Lúcia a ligou, ansiosa. Eu me sentei ao lado dela, um sorriso satisfeito no rosto.
— Se a gente pegou o som dos cascos, acabou. Esse vídeo vai explodir. — Disse, já imaginando os comentários, os novos inscritos, o patrocínio que finalmente viria.
Ela assentiu, meio trêmula, e apertou o play.
O vídeo começou: a praça, as entrevistas, a estrada, o celeiro, a sombra. As imagens estavam perfeitas: tremidas o suficiente para parecerem reais, mas nítidas o bastante para convencer o público.
Mas havia algo errado.
Silêncio.
Eu franzi o cenho.
— Cadê o som?
Ela aumentou o volume. Nada. Nem o vento, nem os cascos, nem nossas vozes.
— Deve estar no fone… — murmurou, desconectando-o e tentando novamente.
Silêncio.
Meu estômago gelou.
— Lúcia… o microfone estava ligado, certo?
Ela parou. A mão ainda segurava o cabo. Os olhos, marejados, se fixaram em mim.
— Eu… acho que… esqueci de apertar o botão.
O mundo pareceu se contrair dentro do quarto.
— Você acha? — minha voz subiu, ríspida. — Você tinha UM trabalho, Lúcia! UM!
Ela tentou se justificar, mas as palavras vinham quebradas, abafadas.
— Eu estava nervosa, o som, o…
— Nervosa? — Ri, um riso seco e venenoso. — Nervosa é quando você derruba café na mesa. Isso aqui é INCOMPETÊNCIA. A gente veio até o inferno dessa cidade, correu risco, gravou tudo, e você ESQUECEU o microfone?!
Ela baixou o olhar.
— Eu posso tentar refazer a edição… colocar trilha…
— TRILHA?! — berrei, levantando da cadeira. — Vai pôr música de terror por cima do NADA? Quer enganar o público? Você é uma piada, Lúcia. Uma inútil completa.
Ela se encolheu, respirando fundo, mas as lágrimas já brilhavam sob a luz amarelada do quarto.
— Rafael… por favor, não fala assim…
— Não fala assim? — Repeti, aproximando-me, cuspindo as palavras. — Eu falo até paciente demais para uma puta que nem você!
Aquilo finalmente saiu, guardado por tempo demais para ser saudável, sentia finalmente o alívio de confrontá-la depois do que havia descoberto. Há dois anos, na hora que ela me contou… como ela estava chorando pela primeira vez em minha presença, só podia fazer meu papel de confortá-la, mas agora, eu poderia falar tudo que sempre quis.
Ela arregalou os olhos.
— Para, Rafael… — murmurou, a voz falhando.
Mas eu continuei.
— Todo mundo na cidade sabia. E agora você quer posar de jornalista, de cineasta, de “pesquisadora de lendas”? Você sempre foi boa só pra uma coisa, e nem isso faz direito. Você mal tinha 15 anos quando servia de marmita para o Roberto. Você nem mesmo pensou na esposa ou nas filhas dele, que tinham quase sua idade!
O som do ventilador foi o único que ousou preencher o silêncio que seguiu. Lúcia ficou imóvel, respirando devagar, os olhos presos no chão. A câmera ainda gravava, o LED vermelho piscando como um olho cúmplice.
Eu sentei na beira da cama, o peito arfando. Por um momento, me arrependi do que dissera. Mas apenas por um momento. Porque, olhando para ela, o rosto devastado, a boca trêmula… eu percebi o quanto ainda me excitava vê-la quebrada.
Lúcia levantou sem me encarar. Caminhou até a janela, abriu a cortina. Lá fora, a rua estava vazia, mas o som… ele voltou. Um trote metálico, abafado, incomodando nossos ouvidos.
Mas dessa vez, algo estava errado…
O som estava vindo de dentro do nosso quarto.
— Você está ouvindo isso? Liga o microfone agora! — Ordenei, mas ela não respondia, apenas chorava na janela.
Olhei para a câmera e me aproximei dela, pegando-a em minhas mãos e procurando o botão que ligava o microfone.
— Certo, sei que tenho que fazer tudo sozinho mesmo.
Ela continuou sem resposta, chorando copiosamente, mais alto.
— Certo, Lúcia, vamos gravar. A gente discute isso depois…
Ela se virou para mim, o rosto retorcido em tristeza e ódio. Mas continuava sem dizer nada. Lagrimas ainda escorrendo sem parar.
O som começou a ficar mais alto ali dentro.
— Olha… me desculpa. — Comecei. — Eu vacilei, não deveria ter falado isso, mas tipo…
Inquieto, virei a câmera para ela, com o microfone já ligado, e esperando que ela finalmente “despertasse” e passasse a me ajudar.
Olhando pela tela da câmera finalmente vi:
As lágrimas de Lúcia evaporavam antes de tocar o chão. Seus olhos já não eram humanos, eram brasas vivas, queimando toda aquela culpa que eu havia alimentado por tanto tempo. Senti o cheiro de fumaça, de enxofre.
— Lúcia?
Ela não respondeu. Não com palavras. O som que saiu dela era um relincho gutural, um grito de parto às avessas: algo nascendo não da vida, mas da morte de quem ela foi.
Seu corpo começou a se contorcer de um jeito antinatural, como se os ossos se movessem sozinhos, buscando novas formas sob a pele. O som era horrendo: estalos secos, músculos rasgando, algo se quebrando e se refazendo ao mesmo tempo. A câmera tremia nas minhas mãos, mas eu não conseguia parar de filmar.
A pele do pescoço dela começou a se rachar, abrindo fendas vermelhas que brilhavam como ferro em brasa. A carne fervia, escorrendo vapor. O cheiro de sangue quente e enxofre tomou o quarto.
— Meu Deus… Lúcia, para com isso! — gritei, mas era inútil.
O cabelo negro dela se eriçava, flutuando como se estivesse submerso em água fervente. Suas mãos crispadas arranhavam o ar, tentando agarrar algo invisível, até que os dedos começaram a endurecer, a se fundir. As unhas se tornaram cascos.
Ela caiu de joelhos, arfando. O som que saiu de sua garganta era uma mistura grotesca de choro e relincho. A voz humana se perdeu em meio a um grito sufocado, enquanto o pescoço começava a se alongar, a carne sendo rasgada em fios incandescentes. O rosto desaparecia, a cabeça se deformando em pura luz, fogo líquido cuspindo pelas bordas da pele.
— Lúcia, eu sinto muito! Eu não quis dizer, eu te amo, por favor…
Mas minhas palavras se perderam no relincho que consumia o que restava da mulher que destruí. Assim, o corpo dela, nu e brilhante de suor e fuligem, arqueou-se, e do pescoço surgiu uma chama espessa, laranja e azulada, que dançava como um estandarte do inferno. O cheiro de cabelo queimado e carne derretida enchia o ar, me fazendo tossir.
Ela tentou se erguer, mas o corpo já não obedecia. O peito explodiu num clarão, e eu ouvi algo, uma voz, ou um eco, murmurando entre os relinchos:
“Meu pecado… nossos pecados… não se apagam”
O quarto se incendiava com o fogo que jorrava do corpo dela, mas não queimava as paredes, apenas a minha pele. Eu tentava apagar as chamas com as mãos, mas elas me atravessavam, quentes e frias ao mesmo tempo, deixando um rastro de dor que subia até os ossos.
Gritei, desesperado, sabendo de alguma maneira que, mesmo que o hotel tivesse outros hóspedes, ninguém nunca mais iria me escutar.
A Mula, a minha Lúcia, se erguia agora sobre quatro patas retorcidas, o corpo agora coberto de brasas vivas e rachaduras que deixavam o interior incandescente à mostra. Onde deveria estar o rosto, havia apenas fogo, pulsando como um coração exposto.
Ela relinchou novamente, e o som atravessou os confins de minha alma. E eu, ainda filmando, não conseguia desviar o olhar. O fogo tomou o tripé, a cama, o chão, mas o LED da câmera continuava piscando, registrando tudo, até o último instante. E então toda a dor lentamente sumiu, quando suas chamas consumiram por completo minha carne e meus ossos.
Quem viu a filmagem depois descreveu como a criatura que já fora Lúcia permaneceu imóvel sobre os restos fumegantes. Não havia culpa. Não havia pecado. Havia apenas fogo, e liberdade, e o som de cascos se afastando pela cidade.
Jaci que guia a prata
Jaci que clareia a mata
Jaci que impõe saudade a i-pê
Jaci nhanderu em seus louvores
Jaci que lava nossas dores
Jaci î, Jaci mbó
Jaci nos mostra o caminho só
Jaci guarda o segredo da floresta
Jaci em nossos corações resta
Jaci, move planta
Jaci, crie espaço
Jaci, sede grata
Jaci, me dê um abraço
Sob o reflexo desta noite
Reflito um aspecto do céu
Cujos monstros descem sobre nós açoite
Enquanto ajoelham sob senhora pura de véu
Jaci î, Jaci mbó
Jaci nos mostra o caminho só
Jaci guarda o segredo da floresta
Jaci em nossos corações resta
Invasores d’além-mar violam
Sob vigia de deuses mortos
Pois aquele que ressuscitou os guiam
Para dominar índios corpos
Oh, Jaci, mãezinha querida
Feche teus olhos brilhantes
Para não ver teus filhos e semelhantes
Brutalizados por tamanha ferida
Jaci î, Jaci mbó
Jaci mostrava o caminho só
Jaci guardava o segredo da floresta
Jaci, em nossos corações, não resta
Sob jugo de violenta bandeira verde e amarela
A opressão, livre, impera
Enquanto os grilhões de nosso povo carregam carga
Do coração de uma derrota amarga
A areia incomodava seus olhos, arranhava sua íris azulada e grudava em sua pele suada. O poço de água estava a apenas cinco quilômetros do monastério, mas sair em meio ao deserto era cansativo para a criança. Mas seu mestre estava com sede, não havia muito o que fazer se não ir buscar a água ele mesmo.
Voltou para os limites do monastério cansado, mas com um balde de água fresca em mãos. Quando adentrou as paredes de mármore branco sagradas, percebeu que Holt estava esperando por ele, abanando o rabo e com a língua para fora. Não era fácil domesticar um chacal, eram animais astutos, mas tímidos e retraídos, não confiavam em humanos, mas Perl tinha certeza que Holt havia se aproximado deles por causa da aura que exalava de seu mestre: era uma aura gentil e acolhedora, comum a poucos magos, visto que em sua maioria eram pessoas despreziveis.
Acariciou as orelhas de Holt, que retribuiu com um latido, e voltou a caminhar por dentre os corredores de mármore do monastério, até que chegou no escritório de seu mestre, o Grande Mago Ja’fal. Ele era um homem alto, com a cabeça completamente lisa, evidenciando a sua falta de cabelo, sua pele cor de oliva já estava desgastada pelo sol e velhice, e ele exibia em sua fronte um cavanhaque branco de respeito, além de um sorriso fácil no olhar.
— Pegou minha água, jovem Perl? – perguntou, já sabendo a resposta.
— Peguei sim – com um arfar de esforço, colocou o balde em cima de uma mesinha lateral, e passou à outra mesa para pegar um copo e servir seu mestre.
Assim que o velho sorveu as últimas gotas de seu copo, ele se levantou em um ímpeto jovial, pouco característico de sua idade.
— Estava ansioso para mostrar algo para você – disse o velho mago, se apressando pelo corredor – venha! Não fique parado aí!
Após hesitar, surpreso, por alguns segundos, Perl seguiu o mago pelos corredores, imaginando o que havia acontecido com seu mentor para ele agir assim. Holt os seguia abanando o rabo, sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo.
Pararam em frente à biblioteca do monastério, a porta dupla de madeira de mogno era pesada, mas mecanismos internos faziam-na abrir quando alguem se aproximava, e isso que ela fez: quando a dupla (e o animal) surgiram na frente dela, ela se abriu mostrando a infinidade de livros que havia lá dentro. Eram várias torres de madeira circulares, com livros das mais diversas áreas, acompanhadas de estantes e mais estantes, um golem de mais de dois metros de altura era o bibliotecário, foi feito por Ja’fal há anos atrás para servir como guardião e facilitador de seu trabalho na biblioteca.
O golem estava arrumando livros na estante quando o mago passou por ele quase correndo.
— Venha Perl, estamos chegando!
Confusa, a criança acompanhou o mago, fazendo um breve aceno para o golem, que estava sem se incomodar com a situação.
O mago parou em frente à uma das torres de livros, e deslizou o dedo pela madeira da estrutura por um breve momento, achou o que estava procurando quando um barulho de clique pôde ser ouvido e mecanismos começaram a serem ouvidos.
Enquanto o barulho de engrenagens e polias ressoava em seus ouvidos, uma parede se abria no fundo da biblioteca, revelando uma escadaria que descia em um corredor pouco iluminado por lamparinas azuis.
— Há quanto tempo isso existe? – perguntou Perl, impressionado.
— Desde antes de você aparecer aqui no monastério – ele fez uma pausa enquanto descia a escadaria – eu estou trabalhando nessa magia há um tempão, mas só ontem consegui realizá-la.
— Que magia?
O mago olhou para trás e sorriu.
— Você vai ver…
Enquanto desciam pela grande escadaria que Perl nem sequer imaginava que existia, o velho mago lhe perguntou:
— Você leu o livro que eu lhe dei? “A Breve História da Magia”?
Perl hesitou.
— Li o começo…
— Então não deve ter chegado na parte importante… – resmungou – depois abra no capítulo 17, “O Paradoxo da Mana” e terá mais conhecimento sobre o assunto.
— Do que está falando?
— Estou falando que a Mana neste mundo pode vir a acabar um dia – esperou as palavras pesarem no ombro do rapaz – magia, Perl, é realizada com a energia que conhecemos como Mana, quando utilizamos magia, um pouco da Mana se acaba, pois quando construímos algo com magia, parte da mana fica cristalizada no constructo mágico.
Perl quase sentiu a cabeça girar com tanta informação.
— Em resumo, significa que a magia um dia deixará de existir.
— Mas isso seria um desastre! – retrucou Perl.
O velho mago sorriu.
— E é por isso… – fez uma pausa dramática e abriu os braços, ao mesmo tempo que chegavam ao final da escadaria – que eu vou revolucionar esse mundo!
Assim como uma criança com um brinquedo novo, talvez até ainda mais animado que isso, ele saltitou no chão firme e um pouco úmido do subterrâneo e passou a ativar umas alavancas que se destacavam no escuro. Quando ele as ativou, o teto abobadado do subterrâneo pareceu se iluminar em uma explosão de cores, e diversos pontos luminosos foram surgindo no firmamento como se fossem…
— São estrelas – Perl murmurou – que lindo!
O velho mago assentiu, satisfeito, e passou a girar um mecanismo parecido com uma manivela que estava em uma das paredes. Quando ele fez isso, as estrelas começaram a girar também e se organizaram em forma de espiral, com seus brilhos inconstantes fazendo um show de luzes na sala subterrânea.
— É com esse equipamento que irei revolucionar o mundo da magia – disse o velho mago – Usei de várias áreas da magia para fazer isso: Abjuração, conjuração, astrologia e até necromancia.
— Como funciona? E o que faz?
— Quando eu era bem mais jovem, eu descobri que representações de algo podem conter parte da mana da coisa original. Como exemplo, um quadro de um mago poderoso pode conter parte da mana do mago – continuou tagarelando – mas isso me levou à uma dúvida: se alguém me pintar várias vezes, vou perder parte da minha mana?
— Acho que não, não faz sentido.
— Exato, foi ai que descobri que a arte cria mana, é como se quando algo fosse criado, a mana fosse criada junta! Mas nunca era o suficiente. A mana criada com uma peça de arte era ínfima se comparada à mana do objeto original. E então a solução que arrumei para isso foi retratar em arte uma coisa que possuísse muita mana: um sistema solar inteiro!
— E foi assim que conseguiu mais mana?
— Não… – sorriu.
— Não deu certo?
— O quadro de um sistema solar não foi o suficiente nem para angariar mana o suficiente para fazer uma magia de primeiro círculo! – resmungou – nesse momento eu quase desisti, mas aí vieram meus conhecimentos de necromancia.
Aproximou-se do jovem.
— Necromancia consiste em conectar sua mana com a mana do mundo dos mortos, porque eu não faria isso com o cosmos? Eu só precisaria conectar minha mana com algo no espaço. Mas a pergunta se mantém… como eu faria isso?
Antes que Perl pudesse responder, ele continuou:
— Magia de conjuração, eu poderia conjurar um aspecto das estrelas aqui no meu escritório, só precisaria estar em contato visual com elas. Daí veio minha ideia de conectar tudo com arte, fiz esse observatório de estrelas, memorizei a posição de cada uma e repliquei aqui no interior do monastério. Depois, conjurei a essência do cosmos usando minha própria mana e cortei o acesso à mana exterior com uma magia de Abjuração, para testar o resultado.
— E qual foi o resultado?
— A mana produzida é o suficiente para sustentar a academia aérea de magia no ar por um ano, e consegui isso em um dia – seus olhos brilhavam – é um torrencial de mana!
Perl estava impressionado, não tanto quanto o seu mestre esperava, mas estava bem impressionado. Mas ainda restava uma dúvida:
— E o que vamos fazer com toda essa mana?
— Distribuir pelo mundo, mas não sei como ainda. Se deixarmos o curso natural tomar conta, a mana acaba se espalhando pelo mundo em algumas centenas de anos, mas não temos todo esse tempo para colher os louros de nosso processo.
— Entendo, e isso fica ativado para sempre? Não vai ter um problema de excesso de mana?
— Ainda não está ativado, a alta densidade da mana no ambiente faria a gente sufocar, ou pior: nos transformaria em quimeras.
— Então quando vamos ligar?
— Vou ligar agora somente para demonstrar o efeito para você, mas temo que vai ficar desligado por um bom tempo, até eu descobrir uma maneira de dissipar toda essa mana.
Ja’fal deu um sorriso enigmático enquanto olhava para Perl, que estava agora mais envolvido pela ideia do que uma torrente de mana poderia representar. O velho mago, com sua energia jovem e olhar cintilante, se preparava para o momento que ele julgava ser o auge de sua longa jornada de experimentos e descobertas.
Com um gesto teatral, ele puxou uma alavanca no painel à sua frente. Instantaneamente, a sala subterrânea foi preenchida com uma luz intensa. As estrelas no céu artificial começaram a brilhar com mais força, formando uma espiral complexa que parecia girar sobre eles como um redemoinho cósmico. Perl ficou momentaneamente cego pela intensidade, mas logo seus olhos se ajustaram e ele pôde ver, surpreso, como as estrelas começaram a dançar, cada uma emitindo raios cintilantes que pareciam tocar a própria essência do universo.
A mana no ambiente crescia, e Perl podia sentir uma leve pressão no ar, como se a própria atmosfera estivesse carregada com algo poderoso, algo que ele ainda não conseguia compreender completamente.
— Eu sei que parece maravilhoso, mas observe com cautela — disse Ja’fal, observando a reação do jovem. — Esta não é a mana de qualquer pessoa. Eu extraí a energia diretamente do tecido cósmico. Aqui não há apenas magia… há um pedaço do próprio universo. Se essa energia não for controlada, pode transformar tudo ao seu redor.
Perl, maravilhado e um pouco temeroso, olhou para as estrelas flutuantes, que agora pareciam estar se aproximando perigosamente. Ele sabia que estava diante de algo imenso, algo que poderia mudar o destino do mundo, mas sentia também que o velho mago estava caminhando em uma linha tênue entre a genialidade e o risco absoluto.
— Mas como você vai controlar algo tão grande, mestre?
Ja’fal sorriu, um sorriso cheio de segredos e promessas.
— Eu não posso controlar o cosmos, Perl, mas posso conectá-lo ao meu próprio corpo. Com isso, a mana passará a fluir através de mim de uma maneira que nunca se dispersará. Vou me tornar uma espécie de ânfora mágica, um recipiente para o poder. Essa energia será contida até eu encontrar a maneira de usá-la em sua totalidade.
De repente, o som de uma estranha vibração cortou o ambiente, e Perl sentiu um arrepio na espinha. As estrelas começaram a brilhar mais intensamente, como se quisessem se libertar da sala subterrânea e invadir o mundo exterior. O ar ficou mais denso, e Perl podia sentir a presença da magia ameaçando sair do controle.
Ja’fal franziu a testa e correu para o painel, tentando puxar de volta a energia. Mas as engrenagens pareciam ter se desgarrado, como se a própria força da mana estivesse fora do alcance do mago.
— Está fugindo do controle… — murmurou Ja’fal.
Perl olhou ao redor, tentando entender o que estava acontecendo. Holt estava inquieto, rosnando e pulando em círculos, aparentemente sentindo a intensidade da mana no ar. A criança sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, e uma vontade de fugir tomou conta dele.
Ja’fal olhou para Perl com uma intensidade quase mística, como se tivesse alcançado um nível de compreensão que o jovem não podia ainda captar.
— Estamos fazendo história, Perl. Estamos desafiando os limites da magia e da própria existência. O que acontece daqui pra frente pode mudar tudo.
Neste momento, algo estranho aconteceu. As estrelas começaram a desmoronar, não como uma queda, mas como se estivessem se distorcendo, retorcendo o espaço ao seu redor. O céu artificial começou a rachar, e com isso, uma onda de mana pura começou a se derramar pela sala, iluminando cada canto com uma luz cegante.
— Mestre! — Perl gritou, olhando para Ja’fal, que ainda estava em transe, totalmente imerso na experiência de controlar o caos mágico.
De repente, uma voz tenebrosa surgiu de onde menos esperava:
— Canalize a magia, garoto – era uma voz desconhecida, mas estava saindo da boca canina de Holt.
— Holt?
— Me apossei do corpo mais próximo que pude encontrar, meu verdadeiro nome é – seguiu a dizer vários fonemas incompreensíveis – mas preciso que me escute: se não canalizar a magia agora, um desastre sem precedentes vai acontecer.
Perl entrou em pânico, canalizar a magia? Como? Ainda não era um mago experiente, podia fazer pouca coisa. Sem saber para onde ir e o que fazer, tentou concentrar seu “olho interior” para observar a mana, assim como seu mestre havia lhe ensinado.
Viu uma torrente tão grande quanto o próprio deserto, uma energia intensa que quase lhe cegava o olhar, sentiu as ondas de mana tocarem sua pele e algo dentro dele mudar, mas não o suficiente para se desesperar. Concentrou seus órgãos mágicos para se tornar, assim como seu mestre, uma ânfora da magia, e começou a absorver a quantidade enorme de mana que descia das estrelas.
Não demorou muito para que percebesse que foi uma tentativa fútil, seu corpo estava repleto de mana até o limite, e nem um pouco do torrencial havia sido diminuido. Mas a voz que saia de Holt lhe encorajou:
— Isso garoto, agora solte a seguinte magia – instruiu o garoto para repetir as palavras que dizia.
Ao fim do encantamento, o ar parecia ter mudado, e o torrencial de mana parecia estar diminuindo. Em poucos minutos, a mana parecia estar se dissipando e penetrando as areias do deserto.
Perl se inquietou, tudo parecia ter dado muito certo, mas no pânico, havia soltado uma magia cujo efeito ele desconhecia.
— O que foi que eu fiz? – perguntou para Holt, que fitava-o com um olhar vazio.
Seja quem for a criatura cósmica que havia se apossado de Holt, já tinha ido embora. Preocupado, olhou para o seu mestre, e ficou desconcertado quando não o viu lá, somente suas roupas estavam largadas no chão, como se ele tivesse evaporado.
Com um calafrio na espinha, percebeu que estava sozinho de novo, e a imensidão do cosmos o fitava, como se esperasse por algo dele. Olhou para cima, as estrelas ainda estavam lá, e finalmente percebeu, com seus sentidos mágicos, o que havia acontecido: seu mestre havia se fundido com o deserto, e a mana havia se espalhado em toda sua extensão, diminuindo a pressão mágica da atmosfera.
Saindo para o lado de fora do monastério, viu que o ar estava mais pesado, e a areia estava brilhando em um tom róseo, e as estrelas… elas formavam um rosto demoníaco.
O sol sumia preguiçosamente no horizonte do canavial, enquanto Antônio e os outros escravos eram conduzidos para a senzala por Seu João. Sentia o suor pregado ao corpo fazê-lo estremecer levemente com o vento úmido que vinha do litoral. O calor que sentia durante o dia era insuportável, ainda mais trabalhando intensamente desde que o sol raiava, mas mesmo que a noite não fosse exatamente fria, a brisa marítima resfriava seu corpo o suficiente para que ele conseguisse relaxar antes de dormir.
Quando Seu João se aproximou da estrutura de paredes de barro rachado, fez um gesto para que os outros parassem de andar. Com a mudança brusca de movimento para a inércia, o tilintar de correntes pôde ser ouvido na paisagem da fazenda, ecoando de maneira rítmica nos ouvidos de cada um presente. Assim, o feitor pegou a chave de cobre que guardava no bolso traseiro de sua calça ajustada para servir em seu grande corpanzil, e abriu a porta de madeira da senzala com dificuldade, fazendo o silêncio ser quebrado novamente pelo rangido quase espectral da abertura emperrada.
Antônio suspirou fundo ao sentir o cheiro de suor velho, palha úmida e sangue seco que saiu do local que funcionava como sua residência. Se tinha algo que ele odiava mais que as punições físicas, homens brancos e trabalho intenso era o cheiro da escravidão. Esse cheiro que inundava suas narinas era uma prova não só da injustiça e da opressão de sua posição: era uma prova principalmente da podridão que significava o que era ser um escravo.
Quando todos já tinham entrado e se acomodado em seus respectivos locais, Seu João olhou para todos com um sorriso que tentava ser simpático:
— Hoje foi um dia de trabalho produtivo, rapazes, continuem assim! — Enquanto fechava a porta da senzala, complementou — durmam bem, que Deus os abençoe e o Espírito Santo guie seus sonhos!
Enquanto ouvia o feitor colocar as correntes pelo lado de fora da porta, instintivamente seu olhar foi atraído pela figura do deus crucificado pregado na parte superior da parede da senzala: o sofrimento dele ressoou com o próprio, e ele sorriu com a ironia. Não sabia ainda o que pensar do Cristo, não tinha muitas lembranças de sua terra natal, mas sabia que não era o mesmo deus que eles cultuavam lá: os muitos orixás e espíritos que adoravam pareciam não ter mais poder nessa terra distante em que fora trazido. E enquanto os seguidores deste deus pregavam amor, humildade e subserviência, eles também foram responsáveis por renomeá-lo e escravizá-lo. Não gostava de lembrar de seu nome original, pois ele lhe trazia um sentimento desconfortável de nostalgia.
Ele era um dos únicos naquela fazenda que não foram nascidos no Brasil, a maioria dos outros escravos já foram criados com a ideia de que o único deus é o Cristo, e não conhecem a vida fora da escravidão. Talvez fosse por isso que, até entre os outros escravos, ele se isolava: “simplesmente não consigo aceitar que esses outros negros sejam tão conformados com essa situação. Enquanto luto todos os dias para esconder o ódio profundo que consome meu coração, eles parecem ser feitos somente de medo, tristeza e resiliência contida”.
Estava muito escuro, mas Antônio sabia exatamente qual negro estava rezando em voz baixa, qual estava se lamentando e qual estava gemendo de dor após uma surra de Seu João. O local onde estava deitado permitia que um pouco da luz da lua passasse por uma ínfima fresta na parede, e iluminava curiosamente uma marcação no chão feita por uma corrente, próxima a uma mancha de sangue seco.
Mesmo com os cães dos Figueiredo latindo incessantemente ao cair da noite, conseguiu dormir um sono leve. Sono este que só foi perturbado por um resquício de sonho distante, em que ele sentia que algo estava de errado, como um pressentimento, um augúrio de um pesadelo. Abriu os olhos e seu olhar foi novamente atraído pela figura do Cristo, que, apesar da escuridão, estava iluminado pela luz da lua saída de uma fresta do teto. Sob essa luz fraca vinda do astro celestial, a expressão de sofrimento do Cordeiro Divino parecia ter se metamorfoseado em uma expressão de profundo pavor. Até que os latidos cessaram abruptamente no meio da noite com um ganido alto.
Um murmúrio indecifrável começou a se formar enquanto diversos negros acordavam se perguntando e perguntando aos outros o que estava acontecendo. Após alguns minutos, ouviram o barulho de um tiro sendo disparado, um grito agudo e lamurioso trazido pelo vento, e novamente o silêncio… Somente perturbado pelo choro de medo dos presentes e pelo barulho incessante das correntes.
O silêncio do lado de fora começa a contrastar com a cacofonia do lado de dentro. Sebastião, o velho cego negro, começou a rezar em voz alta: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja teu nome…”
Alguém gritou de dor dentro da senzala, fazendo com que todos presentes se silenciassem momentaneamente para acudi-lo.
— O que foi Matheus? Por que está gritando? — Alguém inquiriu na escuridão.
— Alguém me queimou com um ferro quente — gemeu — está doendo para caralho.
— Não tem nenhum ferro quente aqui! Tá maluco?
Os gemidos de Matheus gradualmente cessaram, e ele suspirou aliviado, rindo baixo do próprio desespero. Mas o que nenhum dos presentes queria admitir era que um cheiro de pele e carne queimada podia ser sentida no recinto.
— O que será que está acontecendo lá fora? — Alguém perguntou.
— Deixem os Figueiredo resolver isso, não é da nossa conta — Antônio respondeu rispidamente, antes que pudesse se conter — vou voltar a dormir, tenho que acordar cedo amanhã.
— Tinha que ser o esquisito do Antônio para falar isso — alguém respondeu, sarcástico — e se for algo perigoso?
Antes que Antônio pudesse responder, a porta de madeira bate violentamente com uma rajada de vento, assustando os escravos.
— Esse vento… Não é coisa de Deus — Sebastião murmurou antes de voltar a rezar mais um pai nosso.
Um silêncio pesado caiu sobre todos, quebrado apenas pelo rangido das correntes que parecia vir do lado de fora. Antônio sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se a própria escuridão estivesse observando cada gesto, cada respiração contida. O cheiro de terra úmida misturado com fumaça distante tornou-se mais intenso, e ele jurou ouvir, entre os sussurros dos outros, uma voz que murmurava seu nome.
Enquanto Matheus se encolhia num canto, cobrindo o rosto, um leve toque frio roçou o ombro de Sebastião, fazendo-o estremecer e sussurrar uma prece ainda mais baixa. O ar dentro da senzala parecia mais denso, pesado, como se cada respiração custasse esforço. Um leve estalo percorreu o chão de barro, seguido de um sussurro quase inaudível que parecia vir das paredes mesmas, repetindo os gritos e gemidos do dia. Antônio fechou os olhos, tentando ignorar, mas a sensação de que algo se movia entre eles, invisível e impaciente, era difícil de negar.
Foi então que ouviram o claro barulho de passos do lado de fora da senzala, passos inconstantes, pesados, inumanos… Ao mesmo tempo que o calor abafado da construção começa a ser dispersado por um vento congelante que entrava pelas frestas da casa de barro.
Juntaram seus corpos, tremendo de frio enquanto essa brisa misteriosa entrava pelas rachaduras da residência. O silêncio voltou a imperar, e até mesmo a respiração parecia suspensa; ninguém tinha coragem de se mover, e até o tilintar das correntes cessou, como se o próprio tempo tivesse parado.
Antônio sentiu um arrepio percorrer cada músculo do corpo, como se o vento gelado tivesse se tornado uma presença física. Pela fresta estreita da senzala, ele percebeu algo se movendo lá fora, mas não conseguia distinguir forma ou tamanho. Ainda assim, algo estava ali, algo que não respirava como um homem, nem tinha passos comuns, mas exalava uma sensação tão intensa de ódio que parecia tocar diretamente a sua mente. Era como se cada lembrança de dor, cada chicotada, cada grito sufocado de sua vida inteira estivesse sendo refletida de volta para ele, multiplicada. Antônio engoliu em seco, sentindo o coração bater descompassado, enquanto a criatura invisível parecia observá-lo, alimentando-se de seu medo, aguardando que ele cometesse qualquer movimento em falso. O ar tornou-se pesado, quase sólido, e ele percebeu que o ódio não vinha somente dele: era um peso tangível, irradiando do lado de fora, pronto para esmagar quem ousasse respirar.
O murmúrio coletivo dentro da senzala começou a mudar, tornando-se quase incompreensível. Vozes antes baixas se elevaram em um tom quase histérico, enquanto alguns se encolhiam nos cantos, segurando os braços como se o simples toque do ar pudesse queimá-los, apesar do frio. Antônio sentiu uma pressão no peito, como se algo invisível estivesse comprimindo o espaço ao redor, e percebeu que os outros também começavam a se contorcer, tremendo sem motivo aparente. O ódio que emanava do lado de fora parecia se infiltrar nos corpos, transformando medo em uma dor física, lenta e cruel.
Sebastião, o velho cego, murmurava preces com uma voz cada vez mais trêmula, mas mesmo suas palavras não pareciam suficientes para afastar a presença. Matheus começou a chorar, sem lágrimas aparentes, apenas soluçando e apertando o peito, como se o próprio ar tivesse se tornado venenoso. Alguns se abraçaram em silêncio, buscando conforto, mas o toque humano parecia apenas refletir o terror, multiplicando-o.
E então, algo mudou. Um estalo seco, quase como o ranger de ossos distantes, atravessou a senzala. O odor de ferro queimado voltou, mais intenso do que antes, e a luz da lua que entrava pela fresta parecia tremer, projetando sombras que se retorciam nas paredes. Cada escravizado congelou, com os olhos arregalados, sentindo como se a criatura pudesse penetrar suas mentes a qualquer instante. Antônio engoliu em seco, sabendo, com uma clareza aterradora, que o ódio não buscava amedrontá-los: era algo sem intenção, causa ou sentido, era o ódio em sua forma mais primordial possível, cujo único propósito era destruir.
Foi então que sentiu algo que há tempos não sentia mais: empatia e nostalgia. Não sabia ainda porque esse ódio lhe era tão querido, mas definitivamente sabia porque ele estava ali: o próprio Antônio havia-o evocado.
Essa revelação o atingiu como um chicote. Antônio fechou os olhos, tentando resistir, mas o peso do ar era irresistível. O ódio que pulsava lá fora já não era apenas uma presença alheia, era um espelho de sua própria alma. Cada lembrança de humilhação, cada noite sem esperança, cada ferida aberta e cicatrizada à força se erguiam diante dele, nuas, sem o véu da resignação.
Ele se viu menino outra vez, com o corpo frágil sendo arrastado pela corrente de ferro, a mãe implorando aos gritos, o pai sendo abatido como gado diante de seus olhos. Sentiu de novo a ardência das chibatadas, o gosto de sangue que escorria pela boca, a vergonha de não poder erguer a cabeça. Por anos havia enterrado essas memórias, forçado a aceitá-las como parte de um destino do qual não se podia fugir. Mas agora elas queimavam em sua mente, vivas, abrasadoras, clamando por resposta.
Seu corpo tremia, mas já não era apenas de medo. Antônio percebeu que aquele ódio não lhe era estranho: ele o conhecia, o havia cultivado em silêncio, mesmo sem se dar conta. Era o ódio de todas as vezes que sonhara em escapar, de todas as vezes que quisera agarrar o chicote do feitor e devolvê-lo contra sua carne. Era a revolta que, por sobrevivência, havia aprendido a sufocar. Mas ali, na escuridão opressora da senzala, essa chama acesa em segredo encontrou seu reflexo monstruoso.
As correntes tilintaram baixinho quando ele ergueu a cabeça, respirando fundo. O vento gelado que atravessava a fresta já não lhe parecia uma ameaça, mas um chamado. A criatura não era inimiga. Era testemunha, era extensão, era a materialização daquilo que fora negado por tanto tempo: o direito de odiar.
As lágrimas lhe vieram sem perceber… Não de fraqueza, mas de uma raiva que finalmente tinha espaço para existir. A injustiça que o moldara, que lhe roubara família, terra, e até mesmo o próprio nome, estava gravada em cada osso, em cada cicatriz. E agora, pela primeira vez, ele não a repudiava. Abraçava-a.
Antônio abriu os olhos e a escuridão lhe pareceu mais clara. O estalo seco ecoou de novo, mas não o assustou. Pelo contrário, o som lhe soou como uma resposta íntima, um pacto silencioso. A criatura não mais observava à distância: ela estava nele, e ele nela. Não havia barreiras. O ódio fluía como sangue compartilhado, unindo-os.
Dentro de si, Antônio sentiu a revolta transmutar-se em força. O coração, antes descompassado, agora pulsava firme, em sincronia com aquele passo irregular que rondava lá fora. A senzala inteira tremia, mas ele, pela primeira vez, se sentia erguido.
A criatura era ele, e ele era a criatura. Mas não apenas isso, ele era o ódio. Sorrindo, em êxtase, ele roga para a criatura, para si e para sua própria fora, encontrando finalmente a fé que muito antes lhe fora negada e renegada. Ele roga para que sua ira seja despejada nessa terra impura de muitos feitores, e a criatura, agora ele próprio, aceita de bom grado.
As correntes cederam com um estalo metálico, caindo ao chão como serpentes mortas. Antônio ergueu-se. Seus olhos não eram mais apenas dele; um brilho úmido, profundo, queimava nas pupilas.
Do canto mais escuro da senzala, a criatura avançou, dissolvendo-se na carne do homem como fumaça que encontra fogo. O ar se partiu em um rugido abafado, e o corpo de Antônio pulsou como se respirasse com muitas bocas ao mesmo tempo. Lá fora, os cães começaram a latir, depois a gemer, e logo o silêncio caiu pesado. A noite foi rasgada pelo primeiro grito humano, alto, desesperado, e logo vieram outros, tantos que se confundiram com o vento.
Quando o dia seguinte nasceu, não havia mais canavial, nem senzala, nem fazenda. Apenas cinzas, sangue seco e o eco distante de correntes arrastadas no pó. E os escravos que ali viviam nunca mais foram encontrados.
Fannách voava acima da floresta de Lornwood, embora ele não saiba que floresta era essa. Como tinha recém saído do Mundo das Fadas, não sabia nada da geografia ou cartografia do Mundo Terreno, e na sua bolsa de couro de Üllok das Estepes, trazia suprimentos e alguns artefatos mágicos, mas nenhum mapa.O lar dos Homens não era de todo estranho para ele, afinal, ele nascera alí.
Decidiu parar um pouco para descansar, suas asas estavam doloridas e sua barriga roncava, era hora de, no mínimo, fazer um lanche.
Sentou-se em uma clareira pequena na floresta e com um encantamento rápido, botou fogo em uma pilha de galhos secos, a única fonte de luz que iluminava o denso ambiente florestal, cuja copa das árvores praticamente impedia a penetração da luz da lua e das estrelas.
Suspirou, estava feliz, sentia o cheiro da natureza, o fluxo de mana estava agradável aquela noite, como se fosse a visão de um mar sem ondas: límpido e translúcido.
Ouvia o farfalhar das plantas, a respiração dos animais noturnos, e, acima de tudo, sentia-os como parte de si.
A habilidade de ver e redirecionar fluxos de mana era incomum até mesmo para as fadas, mas para um humano? Mais ainda, não existem registros que sustentem que uma pessoa dessas realmente existiu no passado.
Mas Fannách é um humano, ou ao menos era… Para resumir, ele era uma criança verde: fora raptado ainda recém nascido por fadas e foi criado lá, em Avalon.
Ele realmente não ligava para isso, não é como se estivesse destinado a uma vida incrível, as fadas lhe fizeram um favor de deixá-lo determinar seu próprio destino: ele agora decidia o rumo de sua vida.
Enquanto comia um pãozinho feito de fibra de salgueiro, trigo e mel (chamado Gëllen), ele sentiu um arrepio correr pela sua espinha.
A mana do local, antes sublime e pacífica, agora estava agitada, como se uma tempestade estivesse vindo
Ele olhou para o “mar” translúcido de mana e viu algo borbulhando nele, bolhas da mais profunda escuridão empesteavam o ambiente, e a temperatura do local parecia ter caído o bastante para causar choque térmico em alguns animais.
Ele sabia o que era isso: a Procissão do Rei Esquecido, um lendário grupo de guerreiros liderados por um Rei de um passado distante, cujo nome a história já se perdeu.
Se tornaram folclore no mundo das Fadas, o Rei e sua comitiva eram temidos até pelos lendários heróis e pelos guerreiros mais valentes.
É dito que quando eles aparecem, nada pode impedí-los de conquistar seu objetivo, nem mesmo um deus.
Mas Fannách não era um dos caras mais sensatos no mundo das fadas, assim que se recuperou do susto, mostrou um enorme sorriso.
— Vou aloprar eles – uma risadinha passou pelos seus lábios.
Engoliu o resto de seu lanche e levantou voo, procurando a tão famosa comitiva.
Não precisou se esforçar, só seguiu o fluxo de mana corrompido, e lá estava: 12 espectros translúcidos em seus cavalos negros, mais um espectro que cavalgava à frente, com uma coroa de cobre repleta de joias em sua cabeça.
“Aposto que nem me perceberam” pensou Fannách com um tom sarcástico “são tão confiantes e cheios de si que não acham que terão conflitos em sua jornada” voou um pouco mais longe, ao céu “sorte que o bom companheiro Fannách está aqui para ajudá-los”.
Fez um pequeno encantamento ilusório, imperceptível a eles, que nem se preocupariam em tentar perceber algo além, e então pousou na frente da comitiva com graça de um nobre estendendo a mão para os transeuntes espectrais:
— Alto lá!!! – fez a cara mais séria que pôde e firmou os pés, bloqueando passagem.
O Rei Esquecido levantou a mão para seus oficiais pararem, ele parecia mais intrigado que intimidado. “Mordeu a isca” pensou Fannách.
— Quem sóis vós? – a voz do espectro, fria e arrastada ecoou em sua mente.
— Sou o guardião desta floresta – disse, batendo uma continência exagerada – Você tem as credenciais?
Os cavaleiros entreolharam-se por alguns instantes e caíram na gargalhada, mas o Rei continuou com um olhar sério.
— Afaste-se garoto, não ouse interromper meu caminho.
— Sem problemas, só peço que me entregue as credenciais – disse com uma voz mais firme.
O espectro na frente decidiu que não estava mais afim de perder o tempo, e seguiu com seu cavalo na direção de Fannách.
Mas o cavalo, curiosamente, relincha e se recusa a passar.
— Mas que? – ele olha para o cavalo forjado nas chamas do inferno e percebe que ele está com medo.
Olha novamente para Fannách ( que sorria internamente ao realizar que enfeitiçar os cavalos com uma magia de grau menor havia dado certo).
O antigo rei não sabia, mas na visão de seu cavalo, eles estavam à beira de um precipício.
— Você… como fez isso? – olhou enfurecidamente curioso para Fannách.
— Apenas peço suas credenciais.
O Rei Esquecido suspira e decide jogar o jogo de Fannách:
— Que seria isso?
— A prova que você existe, tem que ter um documento provando que você existe.
— Ousa dizer que não existo? – o Rei sibila.
— Sem documento, não tenho como saber.
O rei pensou em simplesmente matar Fannách e continuar caminho, mas algo em suas palavras o fizeram pensar: “preciso provar que existo”.
— Por acaso – disse, contendo sua fúria – como posso achar esse documento.
Fannách quase ri alto quando o Rei disse isso.
— Posso fazer um para você – ele pisca – só preciso de seu nome e uma declaração de alguém que te conheça e testemunhe por você.
Enquanto dizia essas palavras, fez mais um encantamento bem sutil no ar, um de confusão espacial.
O Rei Esquecido ficou em silêncio por alguns instantes enquanto Fannách puxava um papel em branco e entregava a ele.
O espectro olhou por um tempo para o papel, sem saber exatamente o que fazer.
— Pode escrever seu nome – Fannách disse, gentilmente – assine aqui – apontou para um risco no papel – aqui e aqui também.
— Eu… – a voz do espectro ressoou nos seus ouvidos.
— Que foi? Precisa de uma pena para escrever?
— Não lembro meu nome.
Silêncio sepulcral tomou conta da floresta, os próprios cavaleiros espectrais ficaram tensos.
— Então você não existe – suspirou Fannách – tudo que existe tem um nome.
Os cavaleiros se mexeram desconfortáveis, enquanto o Rei se mantinha calado.
— Mas não se preocupe, tenho uma solução para você: precisa achar 50 pessoas que te testemunharam e viram você fazer qualquer coisa, e reunir a assinatura delas.
— Ou eu posso simplesmente matá-lo e fingir que nada aconteceu – Disse o espectro, fazendo os cavaleiros atrás concordarem.
— Claro que pode, mas não vai provar que você existe – disse sem pestanejar – mas tenho uma solução para você, se quiser recorrer, só ir no nosso setor de reclamações à 500 metros a leste – puxou mais um objeto da mochila enquanto fazia um encantamento rápido – só usar essa identificação.
— Se eu fizer isso, você me deixa em paz?
— Obviamente
O rei olha para o “identificador”: era um simples chapéu com uma marcação escrita.
Ele lentamente retira a coroa e entrega para um de seus cavaleiros, vestindo o chapéu. Vira seu cavalo para leste e segue sem dizer nada.
Ao ver todos eles afastando, rapidamente faz um feitiço para disfarçar sua aparência e levanta voo, parando exatamente no lugar onde disse que o setor estaria.
Antes que chegassem, criou um pequeno balcão feito de vinhas e uma cadeira no meio da floresta, se sentando e colocando um cachimbo na boca.
Alguns minutos depois, a comitiva chega ao local, o Rei com o estúpido chapéu escrito “otário” em linguagem faérica e seus 12 seguidores igualmente idiotas.
— Não precissar dizer nada dotô, meu irmãzinho já me passou o bilete – não sabia por que forçou um sotaque, mas isso não tornava a história menos engraçada.
Deu um trago no cachimbo e pediu para o Rei se aproximar, usando mais um encantamento de confusão, fez o cavaleiro que estava com a coroa entregá-la para seu suserano.
Já estava exausto, usou muitos encantamentos no dia, mas valeria a pena, falta só mais um e ele conseguiria derrotar a Procissão do Rei.
— Toma aqui seu permissón e pode me entregar esta chapé para eu aqui.
O rei assim o fez, pegou o documento e retirou o que estava na sua cabeça para entregar à Fannách.
— Prontinha, agorra está provado que o dotô existe. Pode passar.
Sem dizer nada, o rei coloca na cabeça a coroa e segue caminho.
Fannách ri sozinho por um tempo e observa o que roubara do rei. Mas era hora de escapar, uma hora ele vai perceber a troca, e vai vir atrás dele.
Mais a frente, na estrada, muitas testemunhas viram o Rei Esquecido passar com um chapéu escrito em faérico: “otário”.
E mil anos depois, sua coroa de bronze foi encontrada em um barranco, enterrada com uma nota: “favor entregar ao dotô”.
Há muito tempo, entre os astecas, acreditava-se que existiam dois deuses que brigaram pela supremacia do cosmos: eles eram Quetzalcoatl e Tezcatlipoca, respectivamente o dia e a noite. Mas eles disputavam sozinhos na imensidão do cosmos, sem propósito ou adoração.
Em uma decisão súbita e impensada, na época do primeiro mundo antes do nosso, Tezcatlipoca se tornou o sol, com o objetivo de guiar e sustentar as outras criaturas. Contudo, como ele era de obsidiana e escuro, não emitia luz o suficiente para iluminar a terra, e então as criaturas da noite, os grandes jaguares, vieram e devoraram tudo, inclusive toda a criação.
Mas nem tudo estava perdido, visto que a esperança nunca deixou essas terras, então Quetzalcoatl veio e assumiu seu lugar, como um sol brilhante que afastava as criaturas noturnas, e Tezcatlipoca soube seu lugar: como o deus que vigiaria sobre a criação, mas sem o papel de protagonista, apenas como um espectador distante, sem intervir naquilo que falhara.
Isso era o que seu povo acreditava, e os mais estudiosos e experientes astrólogos e sacerdotes do observatório de Tenochtitlán estavam em polvorosa para descobrir, afinal, por que o sol havia se tornado negro?
Em seu trono imponente, o rei Ollin se inquietava: seu nome fora lhe dado em homenagem ao sol, pois seu movimento cíclico e constante na natureza era uma das poucas certezas que alguém poderia ter. O sol sempre havia de fazer o mesmo trajeto, e haveria de nascer um dia seguinte. Ao menos, por tantos anos, por tantos séculos acumulados de tradições e observações, era isso que viam sempre.
Mas o cenário que observava agora, de sua posição privilegiada nas alturas do templo, era de profundo desespero.
Um aro escuro brilhoso, cuja própria luz parecia trazer a morte e o miasma maligno. Podia ver coisas rastejando sobre a superfície do sol, coisas colossais e inimagináveis; aquilo fez seus pelos eriçarem e seu coração tremer: Ollin já havia matado muitos guerreiros em batalha, sobrevivido a diversos ferimentos que deixariam o mais bravo dos homens em prantos e suportado tanta dor que os deuses duvidariam de sua resiliência, havia sido capturado e torturado por inimigos, a pele de seu braço esquerdo havia sido arrancada lentamente e consumida por aquele que antigamente chamou de irmão, mas em nenhum desses momentos seu coração se encheu de medo.
Ele sempre deu a volta por cima, e depois de demonstrar paciência e bravura, ganhou todas suas batalhas e desafios.
Mas aquilo… a visão de um sol sem luz, com sombras bruxuleantes que lhe enganavam as vistas, aquilo deixava toda sua alma repleta do mais puro terror. Mas não podia demonstrar isso.
Ahuacatlán, um de seus astrólogos, veio lhe reportar:
— Rei Ollin, temo ter más notícias para o senhor.
— Pois então diga-as, meu fiel sacerdote e irmão, qual foi a inspiração que os deuses lhe deram sobre o que está acontecendo com nosso amado sol?
Ahuacatlán suou frio, e engoliu em seco antes de dizer:
— Huitzilopochtli, nosso deus padroeiro, nosso guia e mentor, e entidade de nossa amada cidade nos deixou. Em vista de nos proteger, foi investigar o sol negro e consumido por suas chamas escuras.
Silêncio na sala, o coração de Ollin pesou-se ainda mais. A própria guerra e vontade de lutar de seu povo tinha morrido com a chegada do sol negro.
— A busca de nosso deus… – Ollin quase fraquejou quando pensou que perderam sua proteção mais amada – foi frutífera? O que ele descobriu?
— Descobriu o corpo da serpente emplumada, que foi violada e consumida pelo sol negro, e por isso que o sol habitual não nasceu essa manhã. Pois assim como a serpente emplumada, o Quetzalcoatl, o próprio corpo solar foi devorado pelo novo sol.
— Então nossos deuses perderam para esse deus estrangeiro? – sua voz estava calma porque ele se esforçou muito para isso, mas sua alma estava prestes a quebrar em desespero – ele fez alguma exigência?
— Nenhuma, ele aparentemente apenas deseja consumir toda a criação e continuar vagando.
— Isso já não aconteceu antes? Qual foi a medida que os deuses tomaram?
— Aconteceu, o próprio Tezcatlipoca já foi um sol negro uma vez, mas não era ele que nos consumia, e sim as criaturas da noite. Quando percebeu que não podia nos proteger, cedeu lugar a Quetzalcoatl se tornar o novo sol.
— Então não temos essa opção?
— Não temos mais um sol brilhante.
— Qual a sugestão dos sacerdotes? O que podemos fazer?
— Não sabemos. É uma situação sem precedentes. Mas… Talvez se sacrificarmos pessoas o suficiente, a ira do sol negro seja apaziguada, e ele nos deixe em paz.
— Acredita nisso?
— Não tenho certeza, se o corpo de deuses não foi o suficiente para apaziguá-lo… quantos humanos seriam necessários? Temos tanto assim? E ainda tem mais um problema.
— Qual problema? – perguntou.
— Sacrificamos cinco escravos como experimento, mas aparentemente a alma dos mortos não está mais sendo enviada para nosso submundo, o Xibalba, está sendo diretamente absorvida pelo sol.
— Isso é terrível – finalmente o rei deixou as emoções tomarem conta de seu diálogo.
— Sim, mas no final de tudo, ainda há esperança…
— Qual seria? – após tantas notícias ruins, o rei precisava de uma boa para decidir o que fazer.
— Testamos consumir a alma de um dos escravos, e ela não foi para o sol negro, após seu filho Yolotzin comer o coração do pobre homem, foi constatado que uma parte de sua alma foi para o Xibalba, e outra ficou presente em seu filho.
— Isso foi ideia dele? – tinha orgulho de seu filho, apesar da pouca idade, ainda aos 13 anos, sempre tinha uma solução engenhosa para se livrar de problemas, e amava o seu povo incondicionalmente.
— Sim, isso foi.
— O que acontece se ele morrer?
— Provavelmente será consumido pelo Sol negro, assim como sua alma, e parte da alma do escravo… mas a parte da alma do escravo que ficou no Xibalba não se corromperá, e continuará no submundo após o sol negro nos deixar.
— Os videntes disseram quanto tempo temos?
— Cerca de três meses. Até lá, o sol negro terá consumido tudo. Mas antes disso, provavelmente morreremos de fome, nada cresce com o sol negro, nossas plantações não estão mais sustentando nosso povo. Então duraremos no máximo um mês, e nossa alma será levada com o sol.
O rei Ollin não lamentou seu destino, não era de seu feitio. Se havia um problema, era sua responsabilidade resolvê-lo, ele era privilegiado por ser o rei, mas o peso do dever ainda era dele, ele era responsável por seu povo. E foi com isso que chegou a uma resposta:
— Quantos cidadãos livres temos atualmente?
— Cerca de cem mil.
— E escravos?
— Quase sete mil.
— Sacrifiquem todos os escravos e estrangeiros, e reúna todo o resto do povo para um discurso. E traga meu filho até aqui.
Quando os astrólogos e sacerdotes saíram, ele ficou sozinho por 15 minutos antes de seu filho chegar.
Esse tempo ele usou para se despedir de suas emoções humanas e de sua tristeza, chorando tudo que tinha para chorar pelos próximos meses em 5 minutos, e passou os outros 10 orando e se preparando para ficar apresentável para seu povo.
O palco que escolheu para seu discurso foi justamente o altar de sacrifícios da cidade-estado, o local que possuía mais visibilidade.
E se posicionando na mesa cerimonial, o maior de todos Astecas ergueu a voz para as milhares de pessoas que viviam em Tenochtitlan:
— Povo do sol! Escutem seu rei!
Assim que sua voz se ergueu, todos burburinhos, cochichos, assobios e pedidos de ajuda se calaram: confiavam em seu rei, ele era digno e capaz. Muitos presentes juraram inclusive que os próprios animais da floresta pararam de fazer barulho para escutar o que Ollin dizia:
— Estão vendo esse sol negro que corrompe nossas terras? – a tensão no ar subiu repentinamente – muitos tiveram a ideia de cultuá-lo ou de acreditar que era um de nossos deuses nos provando. Mas isso é mentira! Quem ainda acredita nisso, peço que se retire imediatamente de minha cidade e vá buscar abrigo com seu deus estrangeiro. Pois aqui é a terra de nossos deuses, a terra de Huitzilopochtli! O deus patrono da guerra! Que foi covardemente assassinado por esse estrangeiro – os burburinhos começaram novamente, mas um gesto de mão do rei Ollin os cessou – por que então defender a honra de um deus derrotado? Por que adorar aquele que perdeu? A resposta é óbvia: gratidão, esse deus nos protegeu durante centenas de séculos, sem nunca nos abandonar, e nos protegendo, foi covardemente assassinado. O que podemos fazer por ele é vingança! – todos pareciam concordar em uma emoção contida, balançando a cabeça e murmurando, até que o rei os silenciou – mas não posso pedir para que lutem comigo, afinal, o inimigo está roubando a alma dos mortos para se fortalecer. Quem morrer nessa batalha será consumido pela chama negra do sol e nunca mais viverá, não retornará para o ciclo da vida – esse era o sentimento que esperava: via pavor nos olhos de seu povo, e se lamentou por não ser forte o bastante para protegê-los, não ainda – Mas nem tudo está perdido, quero que testemunhem a bravura de meu maior orgulho: meu filho Yolotzin.
Assim que disse isso, os cidadãos, em choque, viram a criança de 13 anos, mais parecendo um adulto orgulhoso e poderoso, surgir de trás de seu pai com vestes cerimoniais e uma adaga de obsidiana na mão.
O jovem entregou a adaga de obsidiana para seu pai e ajoelhou na sua frente, dizendo:
— Ofereço-me a ti, meu senhor, meu pai, meu rei.
A multidão não sabia o que esperar a partir de agora, mas assistiu, impávida, o filho do seu rei, o seu príncipe se deitar na mesa cerimonial.
O jovem, de apenas 13 anos, estava pálido, temia por muitas coisas, principalmente por sua cidade, mas seu senso de dever era imenso, e ele tinha certeza de que ele estava fazendo a coisa certa para salvar a todos, e a si mesmo.
Dois guardas se aproximaram e fizeram menção de amarrá-lo na mesa cerimonial, mas ele disse:
— Não será necessário, não irei fugir nem me mexer.
Os guardas então se entreolharam e olharam para o Rei, que acenou positivamente com a cabeça. Então eles se afastaram e continuaram a assistir o macabro espetáculo.
O Rei Ollin, dotado de destreza impecável, pegou uma faca cerimonial e uma luva de garras de ferro. Com a faca, fez três cortes superficiais na altura do osso externo de seu filho, que fechou os olhos e suportou a dor.
Os três cortes foram necessários para delimitar onde seu coração estava, e seu golpe ser mais preciso.
Com um movimento rápido usando a luva de garras, atravessou o peito de seu filho, com pesar, e retirou-lhe o coração. Ao que o rapaz gemeu baixinho de dor, e desfaleceu.
O corpo sem coração de seu filho estava na mesa, e, mal contendo a emoção e o orgulho que sentia, mostrou o coração ainda pulsante dele para a multidão, que assistia atônita.
— ESSA é minha resposta ao sol negro.
Em duas ou três mordidas, já havia devorado o coração de seu filho.
— Yolotzin era conhecido como coraçãozinho, o nome que dei a ele, pois era pequeno e frágil. Mas se demonstrou mais forte e poderoso que qualquer outro guerreiro que já vi. E agora eu consumi seu coração e o mandei para o Xibalba.
Alguns pareciam entender o que o rei queria dizer, outros ainda processavam lentamente as informações. Com o rosto e corpo repleto do sangue de seu próprio filho, o rei se vira novamente para a multidão e estende sua mão direita como se pedisse algo:
— Povo de Tenochtitlan, me entreguem seus corações, irei consumí-los todos de bom grado e serei seu último refúgio antes que o sol negro nos engula. Prometo com minha vida, e minha posição como rei, que lutarei com ele e expulsarei sua tirania dessas terras. Enquanto isso, desejo que voltem ao Xibalba para se refugiarem, não há necessidade de lutar! Pois seu rei fará isso por vocês!
Uma parte da multidão se comoveu e começou a gritar de excitação e bradar gritos de guerra:
— Saúdem Ollin, o rei dos reis, o último bastião de nosso povo!
Mas outra parte, guerreiros orgulhosos, não aceitavam que seu rei lutasse por eles, e pediram para lutar também. Ao que seu rei disse:
— Vocês irão lutar. Preciso de cada coração e alma para me fortalecer, seus corações lutarão dentro de mim, mas não posso deixar que vocês sejam consumidos por ele. Então peço, para que de bom grado me deixem lutar por vocês e me deem forças para que eu possa enfrentar tal abominação.
Com essas palavras, eles entenderam, que agora o rei não era o rei, ele era todos. Ollin era Tenochtitlán, e eles lutariam com seu rei, junto de sua alma.
Pouco a pouco, Ollin consumia o coração de todos Astecas presentes, seu corpo se metamorfoseou em uma criatura medonha, de olhos vermelhos, asas cinzentas e grandiosas e rosto de morcego, suas vestes cerimoniais se fundiram ao seu corpo, e ele sustentava uma massa enorme de almas e corações com duas patas traseiras grossas e curvas, além de duas patas dianteiras curtas e atarracadas, com garras mais afiadas que qualquer metal.
No final da cerimônia, todos eram Ollin, e Ollin era todos. Cada mulher, criança, soldado, fazendeiro, clérigo, velho ou astrólogo era essa criatura que rondava pela floresta.
Essa ronda durou dias, e esses dias se tornaram anos, e esses anos se tornaram séculos, e esses séculos se tornaram milênios. Mas a vigília de Ollin não cessava, dia ou noite. E o Sol negro teimava em consumir tudo que ali havia, até que a terra havia se tornado um liso e sem graça tecido branco.
Nesse tecido branco, Ollin vagava, com sua mente perturbada pelos pensamentos de todos que se fundiram à ele. Mas tinha força para resistir ao temeroso sol negro, que não conseguia de jeito nenhum consumí-lo.
A espera foi tanta, que o próprio sol negro, imponente e eterno, desistiu de consumí-lo, e passou a vagar novamente pelo espaço, procurando mais planetas e sistemas para destruir.
Assim, o céu só era iluminado pela luz das estrelas, visto que a lua não mais refletia o sol, e o sol não mais existia.
E foi com a saída do deus estrangeiro, que encontrou um antigo amigo, que nunca esperava encontrar em uma situação dessas:
O deus Tezcatlipoca, o grande Jaguar, estava lá, soturno como a noite, esperando por ele.
— Ollin, óh, Ollin, último dos reis astecas, como você demorou a me encontrar – apesar de não parecer debilitado, a voz do deus estava fraca como o sussurro de um velho prestes a partir.
A resposta de Ollin foi pouco mais de um rosnado selvagem, de uma criatura que há muito havia deixado de ser humana.
— Estou morrendo, Ollin, embora você não saiba o que é isso, seu corpo imortal será a única coisa que sobrará no plano dos vivos. Eu partirei, e comigo a noite também irá embora, assim como o submundo e a própria morte. Então tu vagarás para sempre nesse tecido branco que um dia foi seu lar.
Ollin estava inconformado, tudo isso para nada? Era a única coisa que sua mente perturbada conseguia pensar: nem o primeiro e último dos deuses havia conseguido fugir para sempre, e até o Xibalba iria embora, junto com a alma de todos que tentara proteger.
O único que sobraria seria ele, junto com parte dos habitantes, mas ainda sim, era intrinsecamente ele.
— Mas há uma solução, Ollin, uma que cheguei há muito tempo, quando refleti bem sobre as atitudes que você fez.
A criatura rosnou, confusa. Ainda havia um jeito? Depois de tentarem tudo sobre a terra e mais um pouco, haviam perdido, mas aquele deus lhe dizia que havia esperança.
— Tudo que preciso, é que confie em mim – Tezcatlipoca, o deus da morte, da noite, e de tudo que havia de ruim, sorriu.
Tezcatlipoca então lhe disse seu plano:
— A sua alma, e a de todos que consumiu, se perderá para sempre, mas será necessário para que haja vida na terra e no mar novamente. Você será a base para a criação de um novo mundo, você aceita?
Não precisou pensar muito para isso, e pela primeira vez em muito tempo, todas as vozes de Ollin concordaram em fazer algo.
— Aceito – sua voz gutural era fria, porém resoluta. Não sabia o que ocorreria dele, mas se fosse para reviver sua terra, nada mais importava, tinha que ser feito.
Ollin instantaneamente se prostrou e abriu os braços, impotente, ao que o grande jaguar atacou-lhe o coração e o retirou, brilhante e pulsante, contemplado com a alma de todos os Astecas.
Então o grande jaguar lançou o coração brilhante de Ollin ao céu, que se tornou um novo sol. Pegou sua pele e estendeu sobre o tecido branco, e seu pêlo se tornou a grama, seu sangue se tornou os oceanos. E suas asas, cortadas e espalhadas por toda parte, se tornaram montanhas.
E com seu último suspiro, Tezcatlipoca partiu e liberou as almas de todo mundo que estava em Xibalba pela terra. As almas que estavam pela metade foram incorporadas em pessoas e animais, e por estarem incompletas, até hoje procuram sua outra metade.