Não sei se vocês conhecem o conto da princesa Orihime, mas acredito que seria ideal começar a minha história mencionando ela. Afinal, nada acontece sem razão, e às vezes, as coisas que queremos acontecem com um encontro inoportuno, ou como o pendular de um relógio que marca o tempo perdido.
Além do mais, que graça nossas vidas teriam se as estrelas estivessem sempre alinhadas? Na verdade, acredito que a felicidade só existe por ser efêmera.
Divago bastante enquanto observo a Via Láctea lá no fundo do céu, a poluição das fábricas e os gases de escapamento deveriam impedir que eu observasse além, e de fato não enxergo… mas ainda vejo como se fosse ao alcance da minha mão, mas nunca poderei tocar.
Tudo começou com minha caminhada matinal: era o ano de 2087, e eu tinha 16 anos.
Sempre caminhava pelo bairro que morava e depois iria dar uma corrida no lago.
Há muito tempo, o lago foi batizado como Lago dos Escritores, não sei bem o porquê, mas é provável que algum escritor famoso tenha vivido por aqui, ou quem sabe, se inspirado nele.
O clima estava quente, como era de se esperar por aqui. Mas eu não ligava para o calor, estava apenas pensando no meu futuro: estava entrando no terceiro ano do ensino médio, em breve, iria ter que decidir meu futuro… pensei em trabalhar em algo relacionado à Internet, mas não sou excepcionalmente carismático nem nada do tipo.
Desde 2047, os E-Sports haviam ultrapassado a audiência dos Esportes Físicos, mas não era excepcionalmente bom em nenhum jogo (era levemente acima da média em FIFA 88).
Sobram poucos empregos fora dos virtuais, e nem a pau iria virar streamer com esse meu olhar de peixe morto.
Quem sabe… auxiliar de psicólogo de I.A? Algo do tipo…
Olhei para o lago… será se sou um bom escritor? Poderia tentar, afinal, poucos robôs escrevem igual humanos, ainda é uma das profissões do mundo antigo que sobreviviam, mas eu sei que não duraria muito tempo até as máquinas nos superarem nisso também.
Enquanto olhava para o lago, fui diminuindo o ritmo da caminhada, até que decidi que iria dar uma pausa na corrida.
Estava escutando em meu Airpod aquela cantora antigassa, Billie Eilish, por algum motivo, meu avô havia me doutrinado a ser um fã dela. Na época dele, ela foi uma das maiores.
Sento-me ao banco de frente ao local, respirando pausadamente e olho para o lago:
Apesar do calor, uma neblina pairava sobre ele, estava começando a ficar nublado, e eu não queria tomar chuva.
— Isso que você está escutando, quem é a cantora?
A voz veio do meu lado.
Com um sobressalto, percebi que havia uma pessoa sentada no banco também, e era uma das pessoas mais bonitas que vi em toda minha vida.
— Perdão, te assustei? – disse, com um sorriso que misturava a vista do pôr do sol após um dia longo com a música de anjos em um dia inspirado em louvor ao Senhor.
Eu devia estar com uma cara bem engraçada, pois esta pessoa estava rindo enquanto eu gaguejava.
— Ah, sem problemas… – estava um pouco sem graça – é uma música de velho, tem certeza que quer saber?
— Claro, se importa em streamar a música para mim? – mostrou o QR Code de seu aparelho.
Assim o fiz, enquanto a pessoa escutava, decidi puxar assunto.
— Desculpe por perguntar, mas quer que eu lhe trate com quais pronomes? E qual seu nome?
— Ela/Dela, meu nome é Halley – sorriu mais uma vez, mostrando os dentes brancos que contrastavam com o tom avermelhado de sua cabeleira – e tenho 18 anos, caso esteja se perguntando. Quais os seus pronomes?
— Bonito nome – disse, o que fez com que ela sorrisse ainda mais, e minha vergonha aumentasse em proporção – pode usar qualquer pronome comigo, e me chame de Max, tenho 16 anos.
— Max? Que nome diferente, acho que minha bisavó chamava assim.
— Sim – dei uma risada sem graça – meus pais são bem old school.
— Por isso essas músicas de velho?
— Também – dessa vez a risada foi sincera – mas acaba que eu gosto bastante dessas coisas. Por exemplo, você sabia que em pleno 2025 ainda haviam pessoas que acreditavam que a Terra era plana e que vacinas não funcionam?
— Bom… não duvido, tem gente hoje que acredita que I.As são criações do Diabo.
Rimos em uníssono desta vez. Era fato que a ignorância humana não tinha limites.
— Bom, foi ótimo passar um tempo contigo, mas minha aula vai começar agora – Halley se levantou rapidamente, deixando um leve aroma de perfume doce no ar – até mais Max, coisa fofa.
Dito isso, antes que eu processasse o que foi dito e ficasse em bastante constrangimento, ela tomou rumo em direção a um lugar, que provavelmente nunca saberia onde era e nunca mais nos encontraríamos novamente.
Dito isso, o meu palpite fora, até então, certeiro: haviam se passado dois longos anos que eu fazia esse mesmo trajeto buscando encontrá-la novamente, sem sucesso.
Antes que me pergunte, “ah… mas você não procurou redes sociais ou conhecidos em comum?”, claro que fiz isso, mas era um mistério: Halley parecia não existir fora daquele ambiente que encontramos, muito menos conhecia alguém que eu conheço… e acredite, eu tentei, oh se tentei…
Eu já havia terminado o Ensino Médio, e, para a surpresa do rapaz de dois anos atrás que eu era, eu trabalhava como desenvolvedor de jogos.
Pulei a fase da faculdade, nunca foi minha praia. Apesar disso, queria ter tido a oportunidade de fazer mais amigos pessoalmente e, quem sabe, participar de mais festas e calouradas.
Mas não era meu foco, desde aquele dia, eu só pensava em Halley.
Era 7 de Julho novamente, dois anos exatos após o dia em que nos vimos e, mesmo assim, não nos encontramos novamente.
Fiquei com vontade de chorar, então sentei em um banco, talvez o mesmo que havia sentado há dois anos atrás.
— Max?
Quase tive um infarto, meu coração parecia sair pela boca, eu conhecia aquela voz.
Olhei, com os olhos marejados, na direção da voz, e lá ela estava… ainda mais bonita do que no dia que nós conhecemos, sentada ao meu lado.
Com a garganta seca, engoli um pouco de saliva.
— Halley? Há quanto tempo! – pude conter minha felicidade exultante, acredito, pois ela não se mostrou assustada com meus sentimentos – como vai a vida?
— Vai bem, eu tô quase terminando a faculdade dessa vez – ela sorriu e senti meu coração derreter por completo.
— Pois eu acabei que não fui para a faculdade – era estranho como a conversa fluía naturalmente apesar de minhas emoções à flor da pele – estou trabalhando como desenvolvedor de jogos.
— Que legal!!! Tá trabalhando em algum jogo em específico que queira contar?
— Sim, tô trabalhando em um remake/continuação daquele jogo antigo: Bloodborne. Seria mais uma sequência espiritual da obra, ele…
Assim continuamos falando por um bom tempo, a conversa fluía como um beijo longo: por vezes, ela tomava a iniciativa, por vezes eu, mas sempre nos entrelaçávamos em uma harmonia tão profunda que era como se fôssemos conhecidos de longa data.
Mas tudo que é bom dura pouco, já era hora do almoço e ela teve que partir.
Assim que vi sua silhueta sumir no horizonte, praguejei: havia esquecido de pegar algum contato ou rede social.
Levantei-me do banco com um pulo e parti em disparada em direção ao lugar onde ela havia ido. Me deparei com um beco sem saída em meio a floresta que circundava o lago.
Confuso, girei o pescoço, procurando-a, mas não a vi em qualquer lugar. Frustrado, voltei para casa e decidi esquecê-la.
E assim se passaram mais dois anos…
Levei a vida como pude, era difícil pensar que o suposto amor da minha vida aparecia e reaparecia sem que pudesse fazer nada a respeito.
Até que acabei adoecendo de amor.
Não foi isso que os médicos disseram, mas eu acredito que tenha sido esse o motivo do meu mal-súbito.
Então, no dia 7 de julho de 2091, eu passei na cama de um hospital na cidade vizinha. Não foi uma boa experiência, pois acreditava que era somente nesses dias que poderia encontrar Halley.
Pensando bem, lembro-me que diziam que, na época em que podíamos observar o céu mais claramente, podíamos ver um cometa passando a cada 75 anos, o cometa Halley.
Seria coincidência? Ao menos podia ver a minha Halley a cada dois anos, e não 75. Era bom pensar no lado positivo da vida.
Mas foi no hospital que conheci minha esposa: Mercedes, era a enfermeira que cuidou de mim junto com os enfermeiros robôs.
Ela era linda também, mas um tipo de beleza diferente, mais “recatada”, uma beleza mais “fofa”. Não sei se minhas palavras fazem sentido, mas a beleza de Halley era mais… “resplandecente”.
Após sair do hospital, acabei pegando o contato de Mercedes, e acabamos saindo algumas vezes no ano. Ela me pediu em namoro no ano seguinte, e como já havia desistido de encontrar com Halley novamente, acabei aceitando.
Não sei por que fiz isso, mas aceitei o pedido, por que não? Ela era legal, simpática e bonita, e era infantilidade esperar por uma menina que não conhecia direito.
E foi assim que passei por 2093, sem vê-la novamente. O tempo passado junto com Mercedes me fez admirá-la cada vez mais: era um pouco mais velha que eu, mas ainda sim sua maturidade parecia estar a anos-luz de distância, além do mais, ela cozinhava muito bem e era uma ótima conselheira.
Nunca contei para ela sobre meu amor platônico pela garota misteriosa, não sei se fiz certo, mas achei na época.
2095 foi o ano de meu casamento, e 2097 foi o ano que Mercedes faleceu devido a um acidente na cozinha: uma das I.As que cuidavam da temperatura do fogão foi mal-configurada e acabou jogando muito CO2 na cozinha fechada. Eu estava no meu quarto, programando um jogo, então não consegui socorrê-la a tempo.
Foi uma morte causada tanto pela negligência dos produtores da I.A quanto pela minha negligência.
2098 foi o ano de meu luto, e das minhas tentativas com outras mulheres (não obtive sucesso com nenhuma).
Mas lembrei de Halley em 2099, então fiquei o ano todo esperando por 7 de julho.
Devido às mudanças climáticas, estava nevando no dia 7 de Julho, era uma nevasca intensa, mas ainda sim saí de casa e fui passear no lago congelado.
Foi um erro estúpido.
Escorreguei no gelo como um imbecil e cai, torcendo o tornozelo. Foi uma dor insuportável, mas consegui me arrastar para o banco, onde me sentei e senti as lágrimas escorrerem pelo rosto. Naquele mesmo banco, eu dormi, não importei com a dor ou o frio.
Acordei pouco tempo depois, era mais como se eu estivesse desmaiado que dormido, mas acordei com um cobertor quentinho me cobrindo, uma garrafa de café e uma fogueirinha perto do banco.
Não tinha ninguém comigo, mas sabia quem tinha feito isso. Sorri, apesar da dor e frio, e consegui voltar para casa.
Chegando lá, o termostato me recebeu como o abraço de um anjo, me senti quente. Por algum milagre, não tive hipotermia, e meu tornozelo não havia torcido tão feio assim.
Fui tomar um banho.
No banheiro, quando tirei minha roupa, dei uma última conferida no meu pé, não estava tão ruim… então olhei para as roupas molhadas que havia deixado no chão.
Um bilhete pequeno saiu de um dos bolsos, então o peguei e abri com cuidado. Tinha o cheiro do perfume dela…
A mensagem era simples e sucinta:
Lago dos Escritores, 7 de julho de 2101
Festival de Tanabata
18:30
Eu entendi o recado, então sorri e fui banhar tranquilo.
Seria mentira se eu dissesse que fiquei ansioso o tempo todo durante esses dois anos, mas também seria mentira se eu dissesse que, em algum momento desses dois anos, eu tivesse parado de pensar nela.
Havia chegado o esperado dia e, contrário a todas expectativas, eu estava sereno como o próprio lago em que nos encontramos.
Nos últimos anos, uma comunidade japonesa na cidade estava fazendo, todo 7 de julho, um festival para comemorar o Tanabata Matsuri (lembra do conto da princesa Orihime?).
Era coincidência ou destino que nossas histórias se entrelaçassem dessa maneira? Parecia que era uma piada do devir, ou ao menos um capricho divino, mas eu me sentia como Hikoboshi, esperando por minha amada por uma eternidade, só podendo vê-la no dia 7 de julho.
O barulho de fogos e pólvora inundaram meu nariz e ouvidos enquanto caminhava para o lago.
Quando cheguei, o clima estava limpo, mas não havia ninguém.
Não me desesperei, sabia que ela viria, então me sentei no banco e passei a olhar as estrelas.
Alguns fogos estouraram ao longe, e novamente pude observar a Via Láctea.
De fato, não a observei, mas a vi…
Fechei os olhos e comecei a cantarolar uma música qualquer.
Foi então que outra voz se juntou a mim na música, uma voz que nunca saiu da minha mente, uma voz que sempre me acompanhava nos sonhos e nos meus devaneios.
Cantamos por algum tempo, sem que nada nem ninguém estragasse nosso momento. Nem mesmo os fogos do festival nos interromperam.
Abri os olhos lentamente, enquanto sentia sua aproximação, meus lábios tocaram os seus, e meu mundo se tornou alegre e colorido.
Não trocamos uma única palavra naquela noite, não era necessário, pois sabíamos o que cada um estava pensando.
Nossos corpos entrelaçam pela noite, uma dança que faria as próprias estrelas empalidecerem em comparação, naquele momento não havia tempo, espaço, dor ou sentimentos, havia principalmente vazio e tudo, acariciamo-nos diante da Via Láctea, enquanto a princesa tecelã moldava os astros celestiais.
Naquele momento, éramos um com os fogos que zuniam no céu.
Em meio ao êxtase, pude pensar que nosso amor era comparável aos fogos que explodiam de ano em ano: vivemos guiados com esse propósito, de explodir em uma única vez efêmera após tanto tempo de espera e expectativas.
Não sei porque pensei nisso, mas descobriria ainda essa noite.
Estávamos agarrados um ao outro, ainda em silêncio. Mas meu espírito impetuoso e ansioso falou mais alto para que ela escutasse:
— Por que não fizemos isso antes?
— Não havia chegado a hora.
— Quem é você? De verdade?
Mais silêncio, apenas interrompido pelos barulhentos fogos no horizonte.
Sabia a resposta no fundo do meu coração, mas não conseguia verbalizá-la.
Lentamente, me levantei e fui embora.
Passaram-se mais dois anos, fizemos a mesma coisa.
Mais dois anos, e o mesmo aconteceu.
Mais dois anos, e eu decidi não ir.
Mais dois anos e, no dia 7 de julho, eu decidi ir ao festival.
Em meio aos transeuntes que ali passavam, pude vê-la, em contraste com a luz forte que estava nos céus, a luz forte que vinha de seu sorriso me encontrou.
Meu coração se acelerou como se fosse a primeira vez que nos vemos.
Lentamente, caminhamos em direção um ao outro, enquanto os fogos no céu estrelado faziam seu caminho em busca do êxtase final.
E quando estávamos a uma distância de centímetros um do outro, seguimos reto…
Não havia mais necessidade de nada, apenas seguir em frente.
Pois as coisas só são verdadeiramente belas quando acabam em uma explosão, como os belos fogos do Tanabata.