Incêndio na Campina

Devaneio onírico na campina ardente

Sinto temor em captar o olhar incandescente

De demônio escondido e feição ridente

Em meio às chamas de teor clarividente 

Fogo que consome minha mente

Frágil como um reles infante



É tão belo estar neste campo verdejante

Olho ao redor e vejo sinais de felicidade exultante

Em meio à fumaça do cigarro de meu tio hesitante

Vejo os olhos de figura inquietante


Algo que deveria lembrar, não obstante

Sinto-me esquecendo de algo inquietante

Será se estou mesmo saltitante?



Em meio ao lago deste campo verdejante

Vejo o reflexo em meu olho hipnotizante

O reflexo das chamas da loucura inebriante 

Sorrio em meio à verdade ululante:


O demônio das cinzas sou eu, Petulante

Consumido pelo torpor de uma insanidade relutante 

De fato sou o terror rastejante

Queimando essa terra onírica, minha mente agonizante 


Com um gemido prazeroso, finalizo a peça enojante

Está pronta a arte final, estonteante

O homem que era, se foi, emigrante

E agora há apenas um ser diletante 


Fecham-se as cortinas, pois sou…

Louco

Na Estrada com Wotan

A Aposta:

O Deus de um olho só repousava em seu trono imponente no castelo de Valaskjálf. Hugin e Munin estavam repousando em seus ombros largos cobertos por um manto escuro. Por toda a parte, valquírias estavam caminhando e cuidando de afazeres domésticos, preparando o banquete dos guerreiros do Valhalla.


Foi então que viu entrar pela porta seu irmão de consideração: o meio-jotün Loki, que trajava uma máscara de simpatia em seu rosto.


Apesar das travessuras e profecias, ainda amava seu irmão, sabia que sua natureza era brincar, assim como a sua era de conhecer. Afinal, havia ele próprio sacrificado um olho em troca do saber.


— Odin, meu senhor, não cansas de se repousar sobre seu trono dia após dia? – como sempre, foi direto ao ponto sem dizer aonde quer chegar – és tão diferente de teu filho.


— Não é tão desagradável o ócio, além do mais, posso observar todos os nove reinos daqui, há mais algo que desejaria fazer? – respondeu o senhor dos deuses, tentando decifrar qual seria a pegadinha que cairia dessa vez.


Era raro que seu meio-irmão tentasse lhe pregar uma peça, geralmente ia atrás de seu filho, Thor, ou de algum outro Deus. Loki o respeitava o suficiente, raramente tentava enganá-lo… então, por curiosidade, decidiu se deixar levar e seguir pela brincadeira.


— Ao invés de observar, poderia viver… – Loki disse com um sorriso encantador – quer fazer uma aposta comigo?
“Aí está” Pensou Odin, e seus corvos se agitaram em seus ombros, como se pressentissem algo de errado.


— Que tipo de aposta?


— Uma bem simples para falar a verdade – Loki balançou os braços – você passará um dia em Midgard como um humano. Obviamente ainda terá sua imortalidade por questões de segurança.


— E qual seria a aposta em si?


— Bom, essa é a parte interessante, preparei essa exclusivamente para você. Você irá para Midgard como taxista, e fará uma viagem com um passageiro. O destino dele é morrer neste dia, se você impedir sua morte, você ganha, se ele morrer, eu ganho.


— Isso parece interessante – coçou a longa barba – iremos apostar o que?


— Já sei o que desejo de você… quero que todas as quartas feiras (wednesday – Odin ‘s day) passem a ser conhecidas como dias da mentira. E você, o que deseja de mim?


— Ousado… tem tanta confiança que irá ganhar? – Odin semicerrou o olho que faltava. Com certeza não era boa ideia aceitar a aposta, mas ele nunca foi um deus cauteloso – então já sei o que quero de você: se eu ganhar, irá viver por um ano entre os mortais sob o juramento de não mentir.
Em vista dessas palavras, Loki hesitou e empalideceu por uns instantes, mas voltou à compostura e estendeu a mão, de forma firme.


— Trato feito.

A Viagem

Edgar era seu nome agora, era um nome apropriado para ele. Segundo Loki, significava, na língua nativa, “o que protege suas riquezas com a lança”. E nessas horas, sentiu saudades de empunhar novamente Gungnir em batalha, mas sua luta agora era outra.


Ele estava em Midgard, em um território conhecido como Belo Horizonte, era de fato, um horizonte belo, dependendo de onde estivesse observando.


Olhou para a carruagem humana, era chamada de carro, aprendera a dirigir havia alguns minutos após sorver mais um pouco da sopa do conhecimento.


Estava recostado nele, de frente ao ponto de encontro, próximo à lagoa da pampulha, fumando um cachimbo com ervas aromáticas retiradas das folhas de Yggdrasil, quando seu cliente chegou: trajava um terno simples sem o blazer devido ao calor da região tropical e tinha um sorriso educado no rosto. Em sua mão esquerda, um tablet em uma capa grossa antiquada e em sua mão direita, carregava uma mala pequena com seus pertences. Loki havia descrito apenas a aparência e o nome do mortal para ele (Carlos Pereira), o resto das informações, ele teria que descobrir sozinho.


Ele parecia ansioso e tinha traços de alguém que não dormia bem, como percebeu pelas olheiras em seus olhos fundos e pelas manchas secas de café em seu paletó. Ainda agitado, cumprimentou vagamente Edgar e se sentou no banco traseiro, enquanto o motorista colocava suas malas no bagageiro do carro.


Os primeiros minutos da viagem discorreram sem nenhuma palavra ser dita, o homem de trás parecia estar distraído com algo e digitava preguiçosamente em seu tablet.


Edgar então iniciou o assunto:


— Alguma rota preferida para Betim, senhor?


— Não… – levantou os olhos levemente – apenas siga o GPS.


— Entendo… – o mortal não parecia interessado em conversar, ele tinha que descobrir mais informações de alguma maneira. Ele iria morrer hoje, mas como? Quando? Por que?


Observou com cautela o olhar do humano e pôs-se a dirigir calmamente. Ainda tinha tempo.


Certo momento, o homem desligou o tablet que e recostou-se na cadeira traseira do carro, com o olhar perdido a olhar pelas ruas movimentadas da capital mineira.
Percebeu o olhar do taxista em si, e tentou disfarçar a lágrima que se formava em seu rosto, sem sucesso. Enquanto tentava evitar o olhar do motorista, chorou copiosamente com ambas as mãos cobrindo seu rosto, soluçando sob a roupa formal.


— Patético né? – disse meio aos soluços – um homem demonstrando fraqueza frente outro homem.


— Não acho… é normal demonstrar fraqueza, afinal, humanos são criaturas frágeis.


— Frágeis? Sim… talvez… – assoou o nariz em um lenço – não pensava assim antes.


— Curioso, como pensava?


— Que eu poderia conseguir qualquer coisa que tentasse, e que o mundo estava a palma da minha mão. Nunca me imaginei frágil.


— O orgulho é o motivo da queda de muitos, por que não pensa mais assim?


Fizeram silêncio por alguns instantes, até que o passageiro inquiriu:


— Já teve algo que desejava muito? Mais do que poderia imaginar que conseguiria?


— Já…


— Conseguiu?


— Consegui sim, com alguns custos, mas consegui.


— Como se sentiu após isso?


— Feliz, por um momento, depois disso, a felicidade foi se abrasando, e o fogo da minha alegria se tornou cinzas em minha boca.


— E o que fez após isso?


— Procurei outra coisa?


— E conseguiu?


— Sim.


— Isso tem fim?


— Quando você morrer, terá.


— Exatamente, não quero mais ficar procurando nada, a troco de uma felicidade temporária.


Mais alguns instantes de silêncio, olhou para os olhos do homem, apesar da imensa tristeza, havia resignação e aceitação.


— Planeja morrer?


— Planeja me impedir?


— Não. Acredito que não – mentiu, se dissesse que sim, o homem finalizaria a conversa.


— Ótimo.


— Por que vai até Betim para morrer?
— Tenho um balcão lá, posso me enforcar sem interrupções de minha ex mulher, e não quero que meu filho veja… – uma lágrima surgiu em seu rosto.


— Não vai sentir falta dele?


— Óbvio que vou! Mas não tenho nada para buscar aqui… além do mais, ele vai estar melhor sem uma presença negativa como pai.


Continuaram a viagem por mais alguns minutos em silêncio.


— Chegaremos em Betim daqui uns 20 minutos, o trânsito está complicado – disse Edgar, com um tom sóbrio.


— Tudo bem, não estou com pressa. Serão os últimos 20 minutos da minha vida mesmo.


— Não será… o pós vida costuma ser bem entediante para suicidas.


— Acredita em um pós vida?


— Sim.


— Eu não, para mim, assim que eu morrer, morri. Acabou! Não tem mais nada.


— Um pensamento bem limitado, não acha? Não acredita ter mais planos de existência além do seu?


— Não acredito em nada que não possa ver.


Foi então que a viagem seguiu sem mais conversas ou interrupções. Carlos fez Edgar parar em uma propriedade rural que não era exatamente em Betim, mas nos arredores da cidade.


Quando o moço ia oferecer o dinheiro, o motorista o interrompeu:


— Não será necessário, mas queria pedir um favor antes.


— Um favor?


— Quero que me deixe suicidar antes de você.


O pedido súbito do motorista surpreendeu Carlos, que não imaginava que ouviria algo assim do homem.


— Mas por que? Não imaginei que…


— Não quero contar meu motivo, apenas quero fazê-lo. E você não tem nenhuma razão ou moral para me impedir.


Edgar então se aproximou de um grande salgueiro que tinha na propriedade de Carlos e analisou sua altura.


“Não é uma Yggdrasil, mas serve, é um bom salgueiro, vai ser suficiente para passar a mensagem”


Chamou então Hugin e Munin, que, como portadores do presságio, circundaram a árvore em círculos enquanto amarrava a corda em um de seus galhos, enquanto os olhos chocados de Carlos o observavam.


— Não será uma visão agradável, mas gostaria que visse meus momentos finais… afinal, serão o mesmo que o seus – Edgar disse para Carlos dando o último nó na corda.


Enquanto se preparava para colocar o nó no pescoço, entoou:


— Presencie a morte de Edgar.


Quando disse isso, seu olho esquerdo saltou de seu crânio, revelando uma órbita vazia, e o disfarce mortal foi lentamente se desfazendo.


As rugas de expressão cansada davam lugar a rugas diferentes, de um guerreiro velho, seu cabelo, antes tingido de preto, crescia e ficava grisalho, suas roupas de taxista clássico davam lugar a um manto cinzento coberto por uma armadura de placas de couro e metal, a chave de seu carro que estava em sua mão se tornou uma enorme lança de ouro e madeira escura; e por último, os corvos que ali rodeavam se sentaram em seus ombros já caídos, um de cada lado, e dois lobos brancos enormes saíram da mata, se deitando à sua esquerda e direita.


Do bosque, uma voz estrondosa se pôde ser ouvida:


— Contemple, mortal, o sacrifício de Wotan, Grímmir, Odin, Bolverk, Hanga e chefe dos Aesir. Que sob seus olhos perdidos e repletos de desencanto trazidos pela ganância do Homem Mortal, brilhem mais uma vez a magia e o encanto das crianças e dos Vanir. O ato de caridade do Deus das Trapaças que lhe salvou da desesperança e autoextermínio, olhe para as raízes dessa árvore e me diga: o que vê?


Carlos, com os olhos arregalados, olhou para as raízes do salgueiro e viu um reflexo da via láctea: cada vez que aproximava a visão de um dos muitos mundos que ali haviam, via sociedades, pessoas vivendo, via felicidades e tragédias, alegrias e tristezas, guerra e paz.


E enquanto Edgar dava seu último suspiro naquela árvore, ambos os lobos, cada um do tamanho de um cavalo, uivou em alto e bom som.


E todas as imagens lhe mostraram um único rosto: o rosto de Júlio, seu filho, esperando em uma porta por seu pai que nunca voltaria.


Essa foi a imagem que lhe quebrou a resiliência.


Toda a amargura em seu peito foi despedaçada e todo o desencanto superado, e ele se ajoelhou no gramado sujo de lama e desandou a chorar e pedir perdão pelo seu Egoísmo, prometendo aos céus que iria voltar para casa e pediria perdão ao seu filho e que jamais o abandonaria novamente.

Motivo

Já de volta no Valaskjálf, Odin chama Loki para uma audiência em sua sala do trono.


— Isso não foi uma pegadinha usual – começou – por que quis salvar aquele homem? Mesmo sabendo que poderia ser prejudicado?


Loki piscou os olhos, surpreso.
— Pegadinha? Não sei do que fala, meu irmão, só gostaria de testar seu…


— Loki…


— Ahh… tudo bem. Mesmo as vezes, eu me sinto entediado, e vou perturbar humanos. Digamos que nesse caso, eu acabei por encontrar esse rapaz em uma certa noite e ele foi gentil comigo. Me apiedei e passei a encontrá-lo de vez em quando, e fui percebendo seu lento declínio. Mas como bem sabes, meu bom irmão, sou melhor em quebrar coisas que consertá-las, então decidi pedir sua ajuda.


— Isso me surpreende


— Eu, demonstrar empatia?


— Você, ser sincero sobre seus sentimentos.


— As vezes vale a pena – riu com desgosto – enfim, estou de partida.


— Não tão cedo. Uma aposta ainda é uma aposta.


Loki gelou.


— Ah, sobre isso… ainda está valendo?


— Óbvio, você não vai mentir por um ano, te vejo em Midgard.


— Eu aceito o desafio.


Foi então que Odin fez algo surpreendente: desatou a rir.


— Dessa vez foi você que caiu na minha pegadinha. Vou deixar passar dessa vez, pois você tentou me enganar com um bom propósito, mas não repita isso.


Loki, com os olhos brilhando, assentiu e saiu do saguão. Havia sido um dia peculiar.

Carrossel Luminoso

Ah… tão brilhante
Corro atrás, persigo, esbaforido
A luz divina que me dará tudo
Minhas frágeis asas me conduzem até fim distante

O caminho é árduo e repleto de horrores colossais
Mas, com certeza, me sobressai perante aos demais
Gargântuos membros afugentam de confins abissais

Olho para trás, já percorri bastante
Ainda falta pouco para que chegue em meu objetivo
Cansado, sigo constante

E observo com horror,
A divina luz se apagar com fulgor
Desespero e medo me Inundam de torpor

Antes que desista de tudo mais obstante
Eu vejo no horizonte longiquo doravante
Ah… tão brilhante
Outra luz se acende naquele instante

Retomo minha jornada
Esperançoso,
Antes que meu corpo desfaleça em alvorada

Sem Título e sem Sentimento

Mórbidos corvos mutilados
Caem em abundância de céu poente
Sinto no peito dor latente
Pensando naquilo que me faz carente

Um fio luminoso de esperança brilha
Enegrecido pelo desespero crescente
Ainda que nenhum enlace seja permanente
Vejo o futuro com temor de repente

A esperança que morre nos trilhos do tempo
Renasce após temporada em fogo ardente
Brevemente extinta por crepitar reluzente
Para nunca mais acender novamente

Afinal, o que tem no fim do caminho?
Se não uma grande decepção descrente?

Pois por mais que a luz final brilhe,
Do vazio ela será semente
Um ciclo sem fim e intermitente
Cujo final me é evidente

Mãe (Final Alternativo)

Era uma bela noite em Dublin, Irlanda, eu tinha conseguido essas férias merecidas após horas e horas de trabalho duro. Ainda aos 26 anos, já era um dos acionistas majoritários da empresa; era um cargo de respeito… Mas essa noite não é sobre respeito, é sobre perdição e farra.

Após sair de um dos milhares Pubs que tinha na cidade, meus amigos Jonas e Yasmine me encontraram do lado de fora. Olhei para o casal: ele, um latino alto de olhos verdes e barba bem feita e vestido de maneira impecável, mesmo após sair da farra e ela, uma jovem moçoila de feições árabes e um cabelo longo e ondulado até a cintura.

— Fernando, se liga no que compramos – Jonas mostrou um saquinho meio escondido em seu paletó azul, era algum tipo de cogumelo.

Meu sorriso se aprofunda ainda mais em minha face “Daora, mas planeja usar ainda essa noite?”.

— Claro, ficar doidão na Irlanda no Halloween? Parece-me uma puta ideia – Jonas parecia empolgado para estrear seu “brinquedo”.

— Com a permissão das bruxas é claro – complementei com um risinho.

— Vamos para o hotel então? – Yasmine perguntou meio cansada.

— Nah, vamos estilo druida, usar isso no mato mesmo – Jonas respondeu com deboche – Aluguei uma casa de veraneio nas florestas ao norte da cidade, e por falar nisso, meu motorista já está chegando.

Um carro Lexus preto parou na entrada do pub, vidros escuros impedindo de ver seu interior e um ronco agradável e felino saia de seu motor, o vidro da frente se abaixa e um senhor que parecia ter cerca de 60 anos sorri para o grupo.

— Prazer em acompanhá-los pelo tour na floresta, caros viajantes – disse com um sotaque forte irlandês e um leve bafo de cerveja.

Eu e Yasmine nos entreolhamos enquanto Jonas entrava sem cerimônia no carro e puxava um papo aleatório sobre política e economia irlandesa e reclamava da União Europeia.

Por fim, também entramos no carro e ficamos calados pelo resto do caminho, prestando atenção nas conversas estranhas de Jonas e o motorista: “Mas os Rangers vão pegar o Arsenal amanhã e…”.

Vi a paisagem urbana lentamente se metamorfosear em uma paisagem rural diante dos faróis do carro, com o velhinho que se chamava James, conduzindo o veículo com maestria que somente um idoso bêbado poderia exibir, pelas estradas do país.

Como se fosse guiado pela mão do destino, assim que viu uma estradinha de terra lateral à estrada, o nobre senhor virou quase noventa graus para colocar seu carro nela, segundo por mais alguns minutos por alguns caminhos tortuosos.

Depois de certo tempo, chegamos a uma casa de veraneio antiga, de madeira escura com uma singela lamparina acesa em sua porta, um enorme “C” estava cravado em sua entrada, como se fosse a assinatura de seu dono.

Atrás da casa provavelmente havia o mar, embora estivesse muito escuro para ver, podia sentir seu cheiro e ouvir a arrebentação à distância.

 Jonas se despediu com uma gorjeta generosa do senhor, ficamos quase duas horas na estrada, já eram 22:38.

— Espero que esse rolê todo valha a pena, gastamos um tempo vindo para cá – comecei – e tu deve ter gastado uma nota para conseguir esses cogumelos, o motorista e a casa.

Ele me olhou com uma cara estranha, medo? Dúvida? Remorso? Não sabia dizer, mas isso logo passou e ele deu um sorriso tranquilizador,

— A experiência vai valer a pena, confia em mim parceiro.

Entramos, por fim, na casa. Por si só ela não tinha nada de mais, estava limpa, possuía boa iluminação e era bem rústica, com pouca tecnologia a vista. Olhei ao redor, como se esperasse algo de diferente, mas nada aconteceu.

— Então, não vamos perder tempo, não é? – disse Yasmine com um sorriso.

— Claro claro – eu disse – só me deixem usar o banheiro primeiro.

Fui seguindo pelo corredor estreito à esquerda e me deparei com um banheiro simples, com privada, bidê, pia e chuveiro, tudo de madeira ou porcelana.

Olhei no espelho e fiquei observando meu reflexo enquanto mijava em silêncio, minhas rugas de preocupação e olheiras haviam sumido um pouco nas férias, eu realmente precisava daquilo.

Quando estava saindo do banheiro pisei em algo crocante e olhei para o chão: era a pele de uma cobra, recém retirada. “Estranho” pensei “isso me parece um mau sinal”.

Voltei carregando a pele de cobra na mão, e quando ia me dispor a falar algo, vi o rosto pálido de Jonas me olhando de volta.

— Onde achou isso? – ele parecia bem assustado – estava aqui na casa?

— Estava no chão do banheiro, achei estranho, mas por qu…

— Não existem cobras na Irlanda – essa informação demorou para penetrar minha cabeça, “como assim?”.

— O dono deve ter uma de estimação, quem sabe – Yasmine estava virando um gole de whisky escocês – vamos lá gente? O halloween não dura a semana toda.

Pouco a pouco, consumimos dos cogumelos de Jonas. A principio, não pude reparar em nenhuma mudança em minha mente, mas vagarosamente pude sentir minha cabeça abrindo como uma laranja, sendo descascada por uma mão feminina, metódica e suave.

Eu vi pequenos focos de luz verde por toda parte, saindo do chão e se aglomerando no teto, por alguma razão eu sabia o que era aquilo: “fadas”, com um sorriso bobo me encontrei olhando no espelho do banheiro novamente, a silhueta de uma moça em chamas me olhava de volta.

— Caorthannach – murmurei em voz serene e calma, vendo a silhueta assentir de volta – Caorthannach – repeti como em um sonho – eu conheço seu filho…

Pisquei e estava do lado de fora, olhando para o mar, uma grande tempestade se aproximava, o mar estava verde e fedia a algo como cadáveres em putrefação, milhares de cobras enroscavam aos meus pés e subiam pelo meu corpo e desciam, como se eu fosse uma estátua perdida em pensamentos.

— Caorthannach – murmurei mais uma vez – eu a ofereço a ti, sim, a ofereço.

Pisquei de novo e estava de volta a casa, no mesmo lugar, como se não tivesse saído da cadeira em que me sentara para usufruir do fungo divino.

— Mas que… – Antes que pudesse falar algo, vi Yasmine convulsionando no chão, espuma saindo de sua boca e suas narinas escorriam sangue, enquanto Jonas estava tentando reanimá-la, em choque.

Corri para ajudá-la, mas algo passou pelo meu campo de visão periférica: uma mulher muito alta de vestes cinzentas estava no canto da sala, nos observando.

Foi um relance, um soslaio ínfimo o suficiente para me despertar de um torpor pior. Mas quando fixei a visão, não havia mais nada lá.

— Fernando, anda logo, ajuda! – o rosto de Jonas estava contorcido em agonia e desespero, mas ainda se podia ver em suas pupilas o efeito da droga.

Estávamos alucinando? Ou algo mais? Não havia tempo para pensar nisso, Yasmine iria morrer se não fizéssemos algo.

Me aproximei e puxei sua língua que insistia em aproximar de sua glote, sentindo seus dentes cerrarem em minha carne e quebrar alguns ossos devido à intensidade de seu torpor lunático.

A força da loucura estava com ela, e talvez algo mais… os seus braços finos eram o suficiente para impedir que chegássemos perto o suficiente para ajudá-la, como se cada movimento daqueles membros fossem garras de uma criatura mortal e ensandecida, mirando estrategicamente em nossos pontos vitais.

Vi Jonas segurando a região do olho, coberta de sangue, enquanto a minha garganta se abria em um talho com suas unhas, fundo o bastante para causar sangramento, mas não tão fundo para me preocupar com isso. 

Por fim, consegui tirar por completo a língua que teimava em escorrer por sua faringe, apesar de ter quebrado alguns dedos no processo. Graças às drogas que usamos, e à adrenalina, não senti quase nenhuma dor, mas a ansiedade de lidar com isso no futuro era tão ruim quanto.

— Não era para ser assim, não era para ser assim – Jonas murmurava baixinho enquanto Yasmine gritava e se contorcia no chão.

Isso não foi bem processado pela minha cabeça no momento, então continuei a observar a minha amiga em apuros, enquanto tentava conseguir sinal no celular.

— Merda, merda, o que tá acontecendo?

Ouvi um doce cheiro feminino passear pelas minhas narinas brevemente antes de um estrondo à distância: trovões. Para piorar, estava chovendo.

A luz da casa, já pouco eficiente, tremulou uma vez, duas… até que apagou em um baque. As janelas se quebraram com o estrondo do trovão e a energia elétrica se foi no mesmo instante. Abafando nossos gritos na calada da noite.

Quanto tempo havia se passado? A chuva torrencial já entrava pela casa, e pude sentir mais uma vez um cheiro doce feminino, mas misturado com outra coisa: um odor ofídico. 

Não tinha muita experiência com cobras, mas sabia, com toda a certeza, que haviam muitas delas do lado de fora da casa.

Aquilo fazia meu pelo se arrepiar, meu DNA havia me ensinado que elas eram minhas predadoras, eu era apenas uma presa. Tentei olhar para a janela para ver algo, mas só via chuva e folhas arremessadas.

— Não foi isso que me prometeu! Caorthannach! – Jonas grita em meio ao torpor.

De repente, mais um relâmpago, e tudo se apaga.

Acordei em meio a luzes fortes, eram raios de sol que adentravam as janelas quebradas do aposento, a madeira molhada parecia absorver o calor que vertia dele, como um banho de luz.

Ainda com a cabeça girando, me levantei, pude ver Yasmine sentada, de costas em uma cadeira de balanço, segurando algo em sua mão. Ela estava um pouco molhada pela tempestade, mas não estava tão mal e pálida quanto ontem.

Ao ouvir-me levantar, ela virou os lindos olhos amendoados para mim em uma expressão de preocupação, que se dissipou lentamente ao constatar que, de algum modo, eu estava bem. Em seus braços, havia um pacote choroso que identifiquei como um bebê.

— Yasmine? De quem é…? – antes que terminasse a frase, ela levou a mão aos lábios, calando-me.

— Vai acordar ele – voltou a embalar a criança com um olhar doce e perdido – Qual vai ser o nome dele?

Ainda perdido com tudo que estava acontecendo, procurei achar Jonas em algum lugar na casa, sem sucesso.

— Yasmine, cadê o Jonas? – perguntei, com receio.

—  Perto do poço, ele está morto, Fernando – ela disse, com um tom de tristeza.

— Você…? – não raciocinava direito, como ela estava tão calma com tudo isso? 

— Não, não fui eu, a dona da casa matou ele – ela olhou fundo nos meus olhos – ela me contou tudo, pediu para eu cuidar de sua criança. Jonas queria sacrificar a gente, ela nos protegeu – seus olhos não estavam lúcidos nem loucos.

Foi então que vi a criança…

Nunca havia visto algo tão horripilante, não parecia ser deste planeta, mas também não era de fora daqui, era de algum lugar… um lugar mais perto que gostaria que fosse.

— Eu ouvi um nome… vi uma mulher…

— Caortannach – respondeu ela, sem levantar os olhos – a mãe serpente, das lendas, conhece?

— Não…

Não tinha apego por aquela criança, muito menos pela mulher que estava parada na cozinha, me observando atenta. Aquela mulher alta e cinzenta, ela estava levando o corpo de Jonas em um dos braços, uma infinitude de cobras o cercando e mordiscando seu corpo. Mas por Yasmine, aquela era uma outra história, eu iria apoiar ela, não importa o que fizesse.

Segurei a mão da criança horrenda e beijei os lábios de minha amiga. 

— Vamos criá-la, juntos.

Saímos da casa sem olhar para trás, nunca mais conversamos sobre aquele dia. Fizemos o boletim de ocorrência com o desaparecimento de Jonas, que foi encontrado repleto de mordidas de cobra não muito longe dali. Criamos a criança em segredo, até que ela pudesse se camuflar entre os normais, mas ainda sim sinto arrepios quando ele me dirige o olhar ou a palavra, pois sei que a qualquer momento, serei não mais seu pai, e sim sua presa.

Um Desconforto

Vejo a tempestade molhar o Atacama
O fogo consumir a grande depressão submarina
O medo preencher o coração daqueles que não temem
Odor do caos invade minha narina
Enquanto vejo o ódio declarar que ama

Vejo o Vesúvio mais uma vez ruir
E de sua boca, leite sair
Assim como afogaram em magma no passado
O italiano, em lacticínio, será esmagado

Antigamente as coisas não eram assim tão estranhas
Ovelhas não choviam dos céus ensandecidos
E não existiam monstros em minhas entranhas
Nem homens marchavam pelas ruas, envaidecidos

Tudo isso mudou naquela noite auspiciosa
Que uma bela dama cruzou olhares
Com um simples rapaz de fronte manhosa
E senti meu coração derreter em milhares

Tudo isso acontece pois não está comigo
As coisas estão erradas…

Você é tudo que Deus me prometeu
Mas não sou egoísta para te pedir companhia
Aguentaria toda essa absurda entropia
Sem implorar por ver mais uma vez um sorriso teu
Visto que sei que a liberdade lhe garante
A beleza que vejo elegante
No seu coração tão longe do meu

Que Vença o Amor

Sabe… por mais que sejamos opostos, sempre te admirei em segredo.
A maneira que o povo te seguia onde quer que ia, o carisma de levantar multidões, o sorriso…
Tudo aquilo.
Por que não poderia ter?
Sempre que pensava em ti sentia algo forte surgir em meu peito. Como um bom tolo, presumi ser ódio, então o odiei com todas minhas forças.
Nunca tive tão enganado na minha vida.
De fato queira eu ser “imbroxável”, mas… não, não é assim que as coisas funcionam.
Tudo isso que odiei, tudo isso que cultivei nos levou até aqui.
Olhando para trás, tenho medo de te perder, sabe? Depois de tudo que passamos, sei que você me completa, meu amor, meu “companheiro”.
Assim como a neve se esvai para dar lugar à um lindo desabrochar de uma flor, meu ódio se foi, e agora o amor surge como uma torrente se passando por mim.
Agora que tudo acabou e estou sozinho, só queria poder voltar atrás e dizer:
“Me desculpe, fique aqui comigo”

— Jair

Banho

Escorre ímpida pela minha pele repleta de cicatrizes
Líquido primordial e solúvel infinito
Quando cai em mim a gota da sapiência inevitável
Como um sopro de um vazio incrustado em arenito
Ensaboo-me, cravando uma sequência em inúmeras matrizes

Reflito mais uma vez sobre aquilo que me ruiu em interno
Faço de tudo para escapar de tão ardente inferno
Ainda que meu coração deseja por um alento terno
E amor maior surge de um desespero moderno

Ansiedade se esvai com a água do chuveiro elétrico
Assim como os pensamentos invasivos
Que rodeiam minha psique pouco tratada
Saio do boxe inundado de intrusos sorrisos evasivos
Que se aglomeram em meu peito em formato trigonométrico

Foi um bom banho, afinal
Pude lavar a alma que estava repleta de fuligem e mal
E meu pensamento irrequieto adormece
Após um bom tempo observando o que se esquece

Volto para o caos da vida renovado
Esperando o próximo lavadouro abençoado
Que tomará minha fadiga como bem amado
E descartará em solo longínquo, afastado

Trono dos Justos

Que tipo de Karma ou destino me trouxera aqui? Era o que pensava enquanto residia em um simples e rustico, embora higiênico, trono de porcelana.

Após ter convivido com ansiedade e depressão a anos, eu finalmente consegui um rumo aceitável para minha vida ao aceitar sair de casa e procurar um emprego: depois de diversas tentativas falhas, finalmente encontrei uma chance de me dar bem.

Fui chamado para uma segunda entrevista em uma empresa de Marketing multinivel, cujo dono parecia ter gostado do meu currículo, eu havia me formado, 6 anos atrás na melhor faculdade do país, apesar de todos meus problemas e havia conseguido estagio em umas empresas grandes, apesar de meu histórico de depressão e diversas tentativas de suicídio.

Algo normal no século 21, como Lord Byron bem dizia: viver é sofrer, a morte e um alivio. Ou será se foi Goethe? Não me lembro realmente, literatura inglesa não me atraia o suficiente para ficar presa em minha memoria.

Terminei de colocar meus dejetos para nadar em sua linda lagoa alva, enquanto praguejava contra o ataque de ansiedade que me provocara essa diarreia: malditos neuroreceptores, sempre acabando com oportunidades na minha vida.

Mas esse não era meu pior problema: constatei um fato trágico, se não fosse comico, nesse banheiro publico de agencia publicitaria recém construída, não havia papel higiênico…

O que fazer? Olhei para o relógio e faltavam 5 minutos para a entrevista recomeçar, me desesperei.

Haviam apenas duas outras cabines no banheiro, fazendo matemática rápida, constatei que as chances de não ter papel em nenhuma era de 12,5%. Baixa o suficiente para não me preocupar muito, foi então que espiei primeiro a da esquerda, e depois a da direita…

mundo cruel de aleatoriedades e sua maldita sorte! Que os infernos carreguem todos os zeladores do mundo e torturem-nos por sua incompetência!

Outra ideia brilhante veio a minha mente enquanto o relógio faltava 3 minutos para a entrevista: o papel toalha para lavar as mãos! Essa era a chave.

Espiei por fora, não tinha papel… em seu lugar haviam tecnológicas maquinas que soltavam vento quente para secar suas mãos. Maldito Thomas Edinson e sua eletricidade! Meu tempo estava acabando…

Finalmente tive a ideia dos anjos, meu corpo foi tomado por esclarecimento divino e atingi temporariamente o nirvana.

Faltando apenas segundos para começar a entrevista, cheguei na sala indicada disfarçando o suor frio que me escorria.

Agora você, meu caro leitor, possui diversas duvidas, não é mesmo? Algo como: Como ele conseguiu se limpar? Ele foi sujo para a entrevista? A entrevista foi um sucesso?

Bom, a resposta para a primeira esta mais fácil que parece, visto que se você olhar para meus pes agora, verá que estou de sapatos sociais e sem meia.

Quanto a entrevista… bem… pode ser que na próxima eu tenha sorte, e chegue mais calmo no escritório.

Mas antes, um pequeno adendo: me livrei de uma enrascada pois a empresa que quase me contratou foi derrubada pela policia ao descobrirem um esquema de pirâmide e lavagem de dinheiro, mal sabia eu que marketing multinivel era algo que parecia ser inventado pelo próprio Ramsés II.

Fogos no Céu Estrelado

Não sei se vocês conhecem o conto da princesa Orihime, mas acredito que seria ideal começar a minha história mencionando ela. Afinal, nada acontece sem razão, e às vezes, as coisas que queremos acontecem com um encontro inoportuno, ou como o pendular de um relógio que marca o tempo perdido.

Além do mais, que graça nossas vidas teriam se as estrelas estivessem sempre alinhadas? Na verdade, acredito que a felicidade só existe por ser efêmera.

Divago bastante enquanto observo a Via Láctea lá no fundo do céu, a poluição das fábricas e os gases de escapamento deveriam impedir que eu observasse além, e de fato não enxergo… mas ainda vejo como se fosse ao alcance da minha mão, mas nunca poderei tocar.

Tudo começou com minha caminhada matinal: era o ano de 2087, e eu tinha 16 anos.

Sempre caminhava pelo bairro que morava e depois iria dar uma corrida no lago.

Há muito tempo, o lago foi batizado como Lago dos Escritores, não sei bem o porquê, mas é provável que algum escritor famoso tenha vivido por aqui, ou quem sabe, se inspirado nele.

O clima estava quente, como era de se esperar por aqui. Mas eu não ligava para o calor, estava apenas pensando no meu futuro: estava entrando no terceiro ano do ensino médio, em breve, iria ter que decidir meu futuro… pensei em trabalhar em algo relacionado à Internet, mas não sou excepcionalmente carismático nem nada do tipo.

Desde 2047, os E-Sports haviam ultrapassado a audiência dos Esportes Físicos, mas não era excepcionalmente bom em nenhum jogo (era levemente acima da média em FIFA 88).

Sobram poucos empregos fora dos virtuais, e nem a pau iria virar streamer com esse meu olhar de peixe morto.

Quem sabe… auxiliar de psicólogo de I.A? Algo do tipo…

Olhei para o lago… será se sou um bom escritor? Poderia tentar, afinal, poucos robôs escrevem igual humanos, ainda é uma das profissões do mundo antigo que sobreviviam, mas eu sei que não duraria muito tempo até as máquinas nos superarem nisso também.

Enquanto olhava para o lago, fui diminuindo o ritmo da caminhada, até que decidi que iria dar uma pausa na corrida.

Estava escutando em meu Airpod aquela cantora antigassa, Billie Eilish, por algum motivo, meu avô havia me doutrinado a ser um fã dela. Na época dele, ela foi uma das maiores.

Sento-me ao banco de frente ao local, respirando pausadamente e olho para o lago:

Apesar do calor, uma neblina pairava sobre ele, estava começando a ficar nublado, e eu não queria tomar chuva.

— Isso que você está escutando, quem é a cantora?

A voz veio do meu lado.

Com um sobressalto, percebi que havia uma pessoa sentada no banco também, e era uma das pessoas mais bonitas que vi em toda minha vida.

— Perdão, te assustei? – disse, com um sorriso que misturava a vista do pôr do sol após um dia longo com a música de anjos em um dia inspirado em louvor ao Senhor.

Eu devia estar com uma cara bem engraçada, pois esta pessoa estava rindo enquanto eu gaguejava.

— Ah, sem problemas… – estava um pouco sem graça – é uma música de velho, tem certeza que quer saber?

— Claro, se importa em streamar a música para mim? – mostrou o QR Code de seu aparelho.

Assim o fiz, enquanto a pessoa escutava, decidi puxar assunto.

— Desculpe por perguntar, mas quer que eu lhe trate com quais pronomes? E qual seu nome?

— Ela/Dela, meu nome é Halley – sorriu mais uma vez, mostrando os dentes brancos que contrastavam com o tom avermelhado de sua cabeleira – e tenho 18 anos, caso esteja se perguntando. Quais os seus pronomes?

— Bonito nome – disse, o que fez com que ela sorrisse ainda mais, e minha vergonha aumentasse em proporção – pode usar qualquer pronome comigo, e me chame de Max, tenho 16 anos.

— Max? Que nome diferente, acho que minha bisavó chamava assim.

— Sim – dei uma risada sem graça – meus pais são bem old school.

— Por isso essas músicas de velho?

— Também – dessa vez a risada foi sincera – mas acaba que eu gosto bastante dessas coisas. Por exemplo, você sabia que em pleno 2025 ainda haviam pessoas que acreditavam que a Terra era plana e que vacinas não funcionam?

— Bom… não duvido, tem gente hoje que acredita que I.As são criações do Diabo.

Rimos em uníssono desta vez. Era fato que a ignorância humana não tinha limites.

— Bom, foi ótimo passar um tempo contigo, mas minha aula vai começar agora – Halley se levantou rapidamente, deixando um leve aroma de perfume doce no ar – até mais Max, coisa fofa.

Dito isso, antes que eu processasse o que foi dito e ficasse em bastante constrangimento, ela tomou rumo em direção a um lugar, que provavelmente nunca saberia onde era e nunca mais nos encontraríamos novamente.

Dito isso, o meu palpite fora, até então, certeiro: haviam se passado dois longos anos que eu fazia esse mesmo trajeto buscando encontrá-la novamente, sem sucesso. 

Antes que me pergunte, “ah… mas você não procurou redes sociais ou conhecidos em comum?”, claro que fiz isso, mas era um mistério: Halley parecia não existir fora daquele ambiente que encontramos, muito menos conhecia alguém que eu conheço… e acredite, eu tentei, oh se tentei…

Eu já havia terminado o Ensino Médio, e, para a surpresa do rapaz de dois anos atrás que eu era, eu trabalhava como desenvolvedor de jogos.

Pulei a fase da faculdade, nunca foi minha praia. Apesar disso, queria ter tido a oportunidade de fazer mais amigos pessoalmente e, quem sabe, participar de mais festas e calouradas.

Mas não era meu foco, desde aquele dia, eu só pensava em Halley.

Era 7 de Julho novamente, dois anos exatos após o dia em que nos vimos e, mesmo assim, não nos encontramos novamente.

Fiquei com vontade de chorar, então sentei em um banco, talvez o mesmo que havia sentado há dois anos atrás.

— Max?

Quase tive um infarto, meu coração parecia sair pela boca, eu conhecia aquela voz.

Olhei, com os olhos marejados, na direção da voz, e lá ela estava… ainda mais bonita do que no dia que nós conhecemos, sentada ao meu lado.

Com a garganta seca, engoli um pouco de saliva.

— Halley? Há quanto tempo! – pude conter minha felicidade exultante, acredito, pois ela não se mostrou assustada com meus sentimentos – como vai a vida?

— Vai bem, eu tô quase terminando a faculdade dessa vez – ela sorriu e senti meu coração derreter por completo.

— Pois eu acabei que não fui para a faculdade – era estranho como a conversa fluía naturalmente apesar de minhas emoções à flor da pele – estou trabalhando como desenvolvedor de jogos.

— Que legal!!! Tá trabalhando em algum jogo em específico que queira contar?

— Sim, tô trabalhando em um remake/continuação daquele jogo antigo: Bloodborne. Seria mais uma sequência espiritual da obra, ele…

Assim continuamos falando por um bom tempo, a conversa fluía como um beijo longo: por vezes, ela tomava a iniciativa, por vezes eu, mas sempre nos entrelaçávamos em uma harmonia tão profunda que era como se fôssemos conhecidos de longa data.

Mas tudo que é bom dura pouco, já era hora do almoço e ela teve que partir.

Assim que vi sua silhueta sumir no horizonte, praguejei: havia esquecido de pegar algum contato ou rede social.

Levantei-me do banco com um pulo e parti em disparada em direção ao lugar onde ela havia ido. Me deparei com um beco sem saída em meio a floresta que circundava o lago.

Confuso, girei o pescoço, procurando-a, mas não a vi em qualquer lugar. Frustrado, voltei para casa e decidi esquecê-la.

E assim se passaram mais dois anos…

Levei a vida como pude, era difícil pensar que o suposto amor da minha vida aparecia e reaparecia sem que pudesse fazer nada a respeito.

Até que acabei adoecendo de amor.

Não foi isso que os médicos disseram, mas eu acredito que tenha sido esse o motivo do meu mal-súbito.

Então, no dia 7 de julho de 2091, eu passei na cama de um hospital na cidade vizinha. Não foi uma boa experiência, pois acreditava que era somente nesses dias que poderia encontrar Halley.

Pensando bem, lembro-me que diziam que, na época em que podíamos observar o céu mais claramente, podíamos ver um cometa passando a cada 75 anos, o cometa Halley.

Seria coincidência? Ao menos podia ver a minha Halley a cada dois anos, e não 75. Era bom pensar no lado positivo da vida.

Mas foi no hospital que conheci minha esposa: Mercedes, era a enfermeira que cuidou de mim junto com os enfermeiros robôs.

Ela era linda também, mas um tipo de beleza diferente, mais “recatada”, uma beleza mais “fofa”. Não sei se minhas palavras fazem sentido, mas a beleza de Halley era mais… “resplandecente”.

Após sair do hospital, acabei pegando o contato de Mercedes, e acabamos saindo algumas vezes no ano. Ela me pediu em namoro no ano seguinte, e como já havia desistido de encontrar com Halley novamente, acabei aceitando.

Não sei por que fiz isso, mas aceitei o pedido, por que não? Ela era legal, simpática e bonita, e era infantilidade esperar por uma menina que não conhecia direito.

E foi assim que passei por 2093, sem vê-la novamente. O tempo passado junto com Mercedes me fez admirá-la cada vez mais: era um pouco mais velha que eu, mas ainda sim sua maturidade parecia estar a anos-luz de distância, além do mais, ela cozinhava muito bem e era uma ótima conselheira.

Nunca contei para ela sobre meu amor platônico pela garota misteriosa, não sei se fiz certo, mas achei na época.

2095 foi o ano de meu casamento, e 2097 foi o ano que Mercedes faleceu devido a um acidente na cozinha: uma das I.As que cuidavam da temperatura do fogão foi mal-configurada e acabou jogando muito CO2 na cozinha fechada. Eu estava no meu quarto, programando um jogo, então não consegui socorrê-la a tempo.

Foi uma morte causada tanto pela negligência dos produtores da I.A quanto pela minha negligência. 

2098 foi o ano de meu luto, e das minhas tentativas com outras mulheres (não obtive sucesso com nenhuma).

Mas lembrei de Halley em 2099, então fiquei o ano todo esperando por 7 de julho.

Devido às mudanças climáticas, estava nevando no dia 7 de Julho, era uma nevasca intensa, mas ainda sim saí de casa e fui passear no lago congelado.

Foi um erro estúpido.

Escorreguei no gelo como um imbecil e cai, torcendo o tornozelo. Foi uma dor insuportável, mas consegui me arrastar para o banco, onde me sentei e senti as lágrimas escorrerem pelo rosto. Naquele mesmo banco, eu dormi, não importei com a dor ou o frio.

Acordei pouco tempo depois, era mais como se eu estivesse desmaiado que dormido, mas acordei com um cobertor quentinho me cobrindo, uma garrafa de café e uma fogueirinha perto do banco.

Não tinha ninguém comigo, mas sabia quem tinha feito isso. Sorri, apesar da dor e frio, e consegui voltar para casa.

Chegando lá, o termostato me recebeu como o abraço de um anjo, me senti quente. Por algum milagre, não tive hipotermia, e meu tornozelo não havia torcido tão feio assim.

Fui tomar um banho.

No banheiro, quando tirei minha roupa, dei uma última conferida no meu pé, não estava tão ruim… então olhei para as roupas molhadas que havia deixado no chão.

Um bilhete pequeno saiu de um dos bolsos, então o peguei e abri com cuidado. Tinha o cheiro do perfume dela…

A mensagem era simples e sucinta:

Lago dos Escritores, 7 de julho de 2101

Festival de Tanabata

18:30

Eu entendi o recado, então sorri e fui banhar tranquilo.

Seria mentira se eu dissesse que fiquei ansioso o tempo todo durante esses dois anos, mas também seria mentira se eu dissesse que, em algum momento desses dois anos, eu tivesse parado de pensar nela.

Havia chegado o esperado dia e, contrário a todas expectativas, eu estava sereno como o próprio lago em que nos encontramos.

Nos últimos anos, uma comunidade japonesa na cidade estava fazendo, todo 7 de julho, um festival para comemorar o Tanabata Matsuri (lembra do conto da princesa Orihime?).

Era coincidência ou destino que nossas histórias se entrelaçassem dessa maneira? Parecia que era uma piada do devir, ou ao menos um capricho divino, mas eu me sentia como Hikoboshi, esperando por minha amada por uma eternidade, só podendo vê-la no dia 7 de julho.

O barulho de fogos e pólvora inundaram meu nariz e ouvidos enquanto caminhava para o lago.

Quando cheguei, o clima estava limpo, mas não havia ninguém.

Não me desesperei, sabia que ela viria, então me sentei no banco e passei a olhar as estrelas.

Alguns fogos estouraram ao longe, e novamente pude observar a Via Láctea.

De fato, não a observei, mas a vi…

Fechei os olhos e comecei a cantarolar uma música qualquer.

Foi então que outra voz se juntou a mim na música, uma voz que nunca saiu da minha mente, uma voz que sempre me acompanhava nos sonhos e nos meus devaneios.

Cantamos por algum tempo, sem que nada nem ninguém estragasse nosso momento. Nem mesmo os fogos do festival nos interromperam.

Abri os olhos lentamente, enquanto sentia sua aproximação, meus lábios tocaram os seus, e meu mundo se tornou alegre e colorido.

Não trocamos uma única palavra naquela noite, não era necessário, pois sabíamos o que cada um estava pensando.

Nossos corpos entrelaçam pela noite, uma dança que faria as próprias estrelas empalidecerem em comparação, naquele momento não havia tempo, espaço, dor ou sentimentos, havia principalmente vazio e tudo, acariciamo-nos diante da Via Láctea, enquanto a princesa tecelã moldava os astros celestiais.

Naquele momento, éramos um com os fogos que zuniam no céu.

Em meio ao êxtase, pude pensar que nosso amor era comparável aos fogos que explodiam de ano em ano: vivemos guiados com esse propósito, de explodir em uma única vez efêmera após tanto tempo de espera e expectativas.

Não sei porque pensei nisso, mas descobriria ainda essa noite.

Estávamos agarrados um ao outro, ainda em silêncio. Mas meu espírito impetuoso e ansioso falou mais alto para que ela escutasse:

— Por que não fizemos isso antes?

— Não havia chegado a hora.

— Quem é você? De verdade?

Mais silêncio, apenas interrompido pelos barulhentos fogos no horizonte.

Sabia a resposta no fundo do meu coração, mas não conseguia verbalizá-la.

Lentamente, me levantei e fui embora.

Passaram-se mais dois anos, fizemos a mesma coisa.

Mais dois anos, e o mesmo aconteceu.

Mais dois anos, e eu decidi não ir.

Mais dois anos e, no dia 7 de julho, eu decidi ir ao festival.

Em meio aos transeuntes que ali passavam, pude vê-la, em contraste com a luz forte que estava nos céus, a luz forte que vinha de seu sorriso me encontrou.

Meu coração se acelerou como se fosse a primeira vez que nos vemos.

Lentamente, caminhamos em direção um ao outro, enquanto os fogos no céu estrelado faziam seu caminho em busca do êxtase final.

E quando estávamos a uma distância de centímetros um do outro, seguimos reto…

Não havia mais necessidade de nada, apenas seguir em frente.

Pois as coisas só são verdadeiramente belas quando acabam em uma explosão, como os belos fogos do Tanabata.

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