Vigilância

Jameson Derryl era jovem, tinha 25 anos, um capanga qualquer da gangue do Maroni. Não tinha expectativa de melhorar na hierarquia, tampouco queria saber de se tornar um rei do crime, ele só queria sustentar seus filhos, e matar era a única coisa que ele sabia fazer. 

Mas o trabalho foi diferente hoje, ele estava inspecionando uma carga misteriosa, algo encomendado de fora da cidade. Parecia algo grande e perigoso, os maiorais não estavam confortáveis perto do container verde-musgo que enfeitava o porto. 

Eram onze horas da noite, ele percebeu o olhar apreensivo dos outros capangas, até mesmo do esquadrão de elite contratado pelo mafioso. Essa cidade tinha uma lenda, uma história sobrenatural, porém real… O símbolo dele estava em riste no céu, olhando sobre ele como um falcão olha um camundongo. 

Não sabia se aquele homem estava por perto, nem mesmo se viria atrás dele. Essa incerteza o deixou morrendo de medo. 

Tomou um gole de whisky barato para se esquentar na noite fria de Gotham, e ajeitou o seu fuzil no corpo. Se esse filho da puta aparecesse, iria tomar bala. 

Mas ele não apareceu durante duas horas, Jameson já estava mais relaxado, e até um pouco embriagado. O suficiente que demorou para perceber que estava sozinho.

A falta de conversa paralela o havia incomodado, mas mais ainda, havia-o incomodado a falta dos passos no chão de concreto acinzentado. Ninguém se movia… 

Tremendo, ele liga a lanterna e aponta para a direção do container: cinco guardas estavam no chão, havia um cheiro suave de sangue saindo deles. 

Um vulto passa acima de si, e ele mira o fuzil com a lanterna, agitado. 

— Quem está aí? 

Viu passar apenas um gato de rua manco, pulando por cima dos apetrechos do porto. 

Suspirou, aliviado, em saber que não era o Morcego. 

E esse foi seu fim: assim que relaxou a guarda, uma mão o puxou para trás de um container vazio. 

O primeiro soco quebrou-lhe os dentes e fraturou seu nariz, já torto pela genética. Tentou pegar o fuzil, mas uma força descomunal havia tirado-o de suas mãos. 

Tomou mais um soco, dessa vez na barriga, o que o fez vomitar o pouco que havia comido desde o almoço. 

— Por favor… 

Antes que pudesse terminar a frase, sentiu seu pulso sendo torcido. 

— Diga, onde está Maroni? – uma voz gutural disse, meio abafada – você tem 10 dedos e 10 chances para falar a verdade. 

Antes que pudesse falar algo, um de seus dedos foi quebrado. Tentou gritar, mas o estranho colocou algo em sua boca, um pano molhado. 

Olhou fixamente para a máscara de morcego que o encarava, lágrimas saíam de seus olhos. 

O Morcego de Gotham quebrou mais um dedo, e tirou o pano da boca dele, como aviso. 

— Eu não… Arrrg! 

Mais um dedo, como iria convencê-lo que não sabia onde estava Maroni? 

Tomou mais um soco, e esse foi o erro do Morcego… 

Não pôde interrogar mais Jameson, pois o impacto acertou diretamente sua têmpora e o fez revirar os olhos, e então apagou.

    Jameson acordou horas depois com a visão alaranjada causada pelo sol do início da manhã. Os trabalhadores do porto não tinham chegado ainda. O suave aroma da praia o deu uma forte energia de viver, mas então notou um cheiro pútrido vindo de trás: cinco corpos jaziam no chão vermelho sangue que emanava um odor metálico. Não os conhecia, e logo os esqueceu completamente apático.

    O cinismo durou pouco, pois, tentando se levantar, a dor latente o recordou dos episódios da noite passada: 3 dedos quebrados e cortes no queixo e nas têmporas. Apesar da dor, levantou-se e andou cansadamente, já sem a energia do aroma do litoral. Para onde iria? Não tinha para onde ir. Maroni não permitia falhas nas empreitadas, aqueles que falhassem pagariam um preço alto, e no caso dele, como não tinha uma posse sequer, perderia a própria vida ou a de sua família. 

      Não poderia, de modo algum, viver sem um dos dois. Com alguns dolorosos passos caminhou até o cais do porto, onde alguns pescadores já trabalhavam para sustentar lenta e honestamente suas famílias. 

    Porque não fora um homem honesto? Perguntou-se.

  Taciturno e levemente resignado, amarrou uma pesada corrente em sua própria perna e com dois passos caiu na água salgada e fria. O mar fazia seus dedos e cortes arderem: uma morte dolorosa pondo fim a uma vida dolorosa, nem na morte havia piedade!

   Após alguns segundos submerso, sentiu que uma mão o puxava. Não sabia se ficava alegre ou arrasado por estar sendo salvo. Dependia de quem o salvava, imaginou. Já na superfície, enxugou os olhos antes de abri-los e deparou-se com o homem morcego que lhe atacara noite passada. Preferia a morte!

     Não teve chance de reagir porque foi desacordado novamente, dessa vez, em vez de um soco, o morcego usou um sonífero. Não demorou muito para que acordasse deitado em um leito de hospital. Estava recebendo soro, com curativos em todos os cortes e com os dedos quebrados já enfaixados. Mas não estava em um hospital! Tratava-se, na verdade, de um quarto muito requintado. Estaria em uma mansão? Olhou cautelosamente ao redor e se deparou com o seu agressor, agora em uma posição frágil, com a cabeça apoiada entre suas mãos. Os olhos dele estavam fechados como se o seu dono estivesse morbidamente cansado. Mas havia algo estranho! Não nos olhos, abaixo deles: lágrimas, escorriam lentas e desapareciam atrás da máscara preta. 

As lágrimas, de um homem tão grande e forte, eram o suficiente para assustar qualquer um: elas não demonstravam fragilidade, muito pelo contrário, mostravam que algo dentro do Morcego havia se quebrado.

O vigilante noturno, a imagem da justiça de Gotham, estava destruída. O choro do homem à frente de Jameson, representava o nojo do morcego por ele mesmo. O morcego, que tinha como lei não matar, obcecado pelos Maroni, matou cinco guardas.

Numa tentativa de recuperar seus princípios, o guardião de Gotham salvou o capanga, mas quem garantiria que Derryl não seria o próximo a morrer, afinal, dificilmente um princípio quebrado pode ser recuperado.

— Me mate, morcego! — O capanga suplicou ao morcego a sua frente. Jameson sabia que não tinha escolha: se sua vida fosse poupada, a de sua família seria tomada no lugar.

— Apenas me diga… onde está Maroni? — respondeu o Morcego, enquanto levantava seu rosto em direção ao capanga, deitado na cama. O jovem sabia que precisava provocar a fúria do morcego, não se preocupava com os princípios do morcego, o mais importante era garantir sua morte.

— Ele… vai explodir essa cidade! — disse Derryl, enquanto o rosto do morcego se fechava — E você, perde tempo comigo enquanto isso… a lei da cidade, o protetor de Gotham, na verdade não passa de um assassino que ao menos é capaz de salvar sua cidade.

O Morcego, com a mão em seu rosto, estava confuso: ele sabia que já havia perdido sua honra, e que precisava fazer o que fosse preciso para encontrar Maroni, ele já havia cruzado a linha, não havia motivo para continuar a hesitar.

— Não me faça repetir, onde está Maroni? Me diga! — gritava o guardião de Gotham, enquanto batia no rosto do jovem Jameson. O capanga sabia que estava criando um monstro, mas ele precisava disso para que sua família ficasse segura.

— Vá a merda! — disse Derryl, enquanto o morcego pressionava o seu pescoço. Enquanto sua visão escurecia, a imagem de sua família surgia em sua visão. O capanga sabia que não era nenhum santo, e este era o preço que pagava para que sua esposa e filho não se responsabilizassem pelos atos de um bandido.

A troca havia sido feita. Jameson escolheu salvar a vida de sua família em troca da sua, mas não percebeu o custo adicional de tal escolha: o guardião de Gotham se tornara um assassino cruel, um justiceiro, ele havia eliminado qualquer chance de redenção do monstro ao fazê-lo tirar sua vida.

Texto feito em colaboração com o autor:

. Omlesna Ziur

https://instagram.com/anselmo_rl?utm_medium=copy_link

Mais um desabafo sem sentido

Como explicar a que ponto cheguei?
Me sinto forçado a chorar por palavras
Pois não sei como fazer lágrimas descerem
Obtuso ao fato que não mereça
Um alívio que me faça esquecer
Que o mundo não é como gostaria

Que merda,
Por que teve que ser assim?
Apaixonar-se de primeira, sem ao menos provar?
De seus doces lábios cor de cerejeira?
A que me tornei?
Um desesperado que tenta não se afogar?

Se eu pudesse...
Arrancaria meu coração
E o jogaria aos vermes
Que é onde deveria ser consumido
Infantil, tolo, sem noção
Sabia que era tudo isso, mas não quanto

Apesar de me ver em realidade
Acredito que ninguém mais consegue me ver
Ver que sou, de fato, a melhor opção
Para quem deseja desesperadamente amar
Será?
Posso estar enganado

Talvez não sirva para isso
Não seria a primeira vez
Que acredito ter valor maior que sou visto
Em minha soberba acreditei
Que ao futuro e destino poderia mudar

Mas ainda estou preso ao passado que não posso fugir
As coisas são como ciclos
Sempre se repetem
Corrente do Devir me prende
Vou quebrá-las um dia?

Achei que fosse com você que as quebraria
Ainda que a vontade não se apague em mim
As chamas, antes ardentes, agora parecem brasa
Abraço-me a elas evitando que apaguem
Me queimando com meu próprio fogo

Derrotado fui mais uma vez
O destino é implacável
Mas não se preocupe
Que não morrerei nem mesmo morto
Viverei enquanto existir a vontade

De corrigir essa injustiça

Que injustiça?
Não sei dizer,
Mas espero que seja de fato injusto
Ou não terei motivos para tentar
Convencê-la de me amar
Assim como
Ao destino que nos uniu, amei

Uma gota, uma vez…

Mais uma gota…

No receptáculo infinito de possibilidades

Co(r)po meu cheio de água

Ainda que procure apenas a gota específica

Que me faça sorrir genuinamente


Pela primeira vez…


Julgo que meu cerne não é o suficiente

Ou que não transpareço o que quero que vejam

Ou simplesmente não veem por que não querem

Queria ser a primeira opção dessa gota


Pela primeira vez


Gostaria de ser alvo de seus sentimentos

Recipiente de sentimentos verdadeiros

Quero ser o co(r)po que se procura por vontade

E não aquele por desespero sedento


Um dia, pela primeira vez…


Quero que a resposta da gota d’água seja diferente

Quero que ela seja a que me preencha

Mesmo que por instantes, aceite minha disposição

Aceite meu amor e seja recíproco


Além do mais, se fosse pedir mais algo…

Gostaria que fosse a última vez

Que essa gota me diga, em forte tom de pena

Que um dia, uma gota me preencherá


E mais uma vez, pela primeira vez

Gostaria que, nessa goteira interminável

Me dissessem apenas uma vez

“Posso ser a gota que você tanto quis”

Dicas de Narrativa do Zyzz

Muitos de vocês já devem estar familiarizados com conceito de A Jornada do Herói, ou o “Monomito”. Utilizando dela, se tem uma base de criação de qualquer narrativa clássica.

Mas vocês sabem como utilizá-la e quando quebrá-la? Muito provável que tenha algumas ideias, mas organizar elas em uma história de narrativa coesa e sólida é complicado.

Após acessar o link acima, venha comigo para eu te mostrar como organizar suas ideias em uma história envolvente e consistente:

Em resumo, você pode resumir suas ideias em seis tópicos principais:

  1. A ideia em si
  2. Objetivo
  3. Ambientação
  4. Personagens
  5. Percurso/Empecilhos
  6. Desfecho

A Ideia em Si

Sobre o que é sua história? Qual o tema principal? Sua ideia inicial?

Utilizando como exemplo o meu livro: “A Jornada do Legista”, você pode resumir o tema principal como: “Garoto com problemas familiares tenta conquistar seu lugar em um mundo que nem mesmo as leis da natureza funcionam como deveriam”

Meio clichê? Provável que sim, mas não é a ideia principal que deve chamar a atenção do leitor, é um guia para você basear sua escrita. Não importa o quanto você floreie a sua história, o tema principal deve continuar o mesmo.

Objetivo

No caso, o que sua história tem a contar? Onde ela quer chegar? Qual a mensagem por trás da obra?

Usando novamente “A Jornada do Legista” como exemplo (pois tenho mais autoridade no assunto). O objetivo é contar 3 coisas diferentes: Como Kasias se tornou “o matador da besta”; como ele se sente sobre seu passado traumático e o que ele fará para se compreender como ser humano?; e por último, a jornada da comitiva do Elixir da Vida.

Ambientação

Onde sua história se passa? Em uma utopia socialista? No reino das fadas? Em meio ao apocalipse zumbi?

Não considere apenas os fatores espaciais, como a localidade geográfica de sua história (onde ela se passa), mas também considere quando ela se passa (eixo espaço-temporal).

Não se esqueça de demonstrar a cultura do local onde se passa sua história, e desdobre o como isso afeta sua narrativa, seja positivamente ou negativamente.

No caso de A Jornada do Legista, a história se passa em Faradin, passa por Camllan, vai à Nan’Deru e termina na fronteira de Vkstri. E quando isso se passa? Cerca de 1000 anos após a conjugação e após a desmantelação do Império Thenkar.

Para quem não leu o livro, essas informações não fazem sentido, e é seu papel como autor de organizar e detalhar tudo isso.

Personagens

Quem vai ser seu protagonista? Os secundários?  O antagonista?

Considere todas as facetas de seus personagens, tanto a parte física quanto mental quanto cultural/moral deles.

Tente não mantê-los unidimensionais demais, dê a eles facetas que fazem com que o leitor saiba que não são apenas estereótipos vívidos, e sim pessoas que, por acaso, existem somente em ideia.

Percurso/Empecilhos

Mostre o que os personagens estão fazendo para conquistar seu objetivo, seja ele um MacGuffin ou algo que aborda a psiquê e o passado de seus personagens.

Uma história altamente linear não gera empolgação no leitor, acelere e desacelere como quiser, volte algumas casas e ande de novo, o objetivo tem que estar claro, mas nem sempre visível.

Desfecho

Tenha em mente como terminará sua história. Abra possibilidades desde o começo e as amarre narrativamente ao longo de sua escrita, volte e releia trechos e sempre confira se não deixou pontas soltas.

Por fim, deixo aqui o que considero “Os 10 mandamentos do novo escritor”

  1. Evite olhar para a tela em branco. Escreva qualquer coisa e desenvolva a partir daí, não precisa fazer sentido de início, uma hora engata;
  2. Evite excesso de autocrítica, nenhum texto é perfeito e nem vai entregar 100% do que você deseja para o leitor. Acostume-se que tem pessoas melhores e mais experientes, evite perfeccionismo.
  3. Todas as situações e objetos que você colocar em sua história devem possuir objetivo prévio. Mesmo que o objetivo seja mostrar que não existe objetivo algum.
  4. Para resolver um problema que colocou na sua obra, não procure soluções fora dela, tampouco crie novas “regras” que facilitem a sua resolução. Não aceite de primeira a primeira ideia que teve, para não se tornar óbvia, chegue a pelo menos 5 resultados diferentes e escolha o mais interessante para a narrativa.
  5. Não mate personagens sem objetivos maiores, evite o choque pelo choque. Utilize esses eventos para desenvolver novas facetas na sua história.
  6. Clichês são bem vindos, até porque são exemplos de técnicas que deram certo. Mas evite exagerar: subverta-os de vez em quando para causar conflito e evitar que sua obra seja semelhante às demais. Procure originalidade!
  7. Plot-twists são interessantes, mas se utilizar de mais, sua história ficará previsível e chata.
  8. A pessoa que mais deve se agradar com sua obra não é a crítica, leitores ou amigos. Agrade primeiro à você mesmo! Criar algo que não lhe apetece ou lhe atrai nem lhe dá prazer é criar algo sem vida.
  9. Ao fazer personagens, pense primeiro em seus conceitos primordiais, depois abra eles e tente dar profundidade (se preciso), mas o principal é torná-los únicos na trama, cada um deve agir de maneira minimamente diferente dos demais.
  10. Saiba lidar com críticas construtivas, às vezes as pessoas possuem algo a acrescentar em sua obra, então sempre peça ajuda a quem você confia e tente escutar e considerar a opinião alheia.

Tubarão da Groelândia

Minha musa Inspiradora

Imortandade sem igual

Envelhecimento sem precedentes

Um animal sensacional

Mais velho que, da sua vó, os pretendentes

Sim meus amigos…


Esse fudido tem mais de 400 anos

Produtos Jequiti envelhecem antes de ti

Ainda que seja sozinho, sem manos

Continua nadando sem olhar para ti

Ótimo carro, por sinal


Não sei porque estou enaltecendo

Tal animal incomum e rústico

Com tudo que está acontecendo

É fácil esquecermos desse ser fantástico

Tubarão da Groelândia


Aproveite que reza pelos vizinhos

Ora para sua família

E lembre-se nos seus caminhos,

De enaltecer aquele, que como estrela brilha

Ó tubarão da Groelândia


Peça por esse ser submisso

Uma duradoura felicidade

Não seja omisso…

Mesmo que não tenha utilidade

Ele é um glorioso peixe

Salgueiro

Na porta da casa dela havia
Um pacato e repleto de apatia
Salgueiro que me dizia
Quanta falta eu sentia
Do momento em que os lábios meus
Encostaram nos lábios dela

Oh, doce mulher
Lembro de tê-la comigo
Olhar uma flor e a colher
Sorrindo como um grande amigo
Amigos, amantes
Talvez perpétuos namorados

Se a eternidade fosse assim
Efêmera como um toque do destino
Queria que tu fosse, sim,
Pertence meu em doce atino
Mas o que restou de nós
Além de uma breve lembrança
Foi o Salgueiro

Passo por ele todos os dias úteis
Folhas úmidas e caídas
Repleto de observações fúteis
E de reclamações saídas
De meu passado infeliz
Que não pode te ter novamente
Ó solidão…

Por que quando vejo as madeixas
Do Salgueiro verde
Vejo seus cabelos como ameixas
Cujo senso de beleza se perde
Em comparação ao seu louvor?
Tão belo o Salgueiro pacato
Pois agora vejo
Que ele é ti, amor
Então viajo em seu olhar,
Imaginando tu
No final das raízes
Que se aprofundam no mar

Na Minha Sombra

Não sei qual foi a primeira vez que as vi, mas sei que a aparição delas não me causava qualquer conforto. 

Lembro-me delas desde que me entendo por gente, elas estão sempre lá, quando olho em cantos escuros do meu quarto, quando fecho os olhos, quando estou sozinho. A maioria das pessoas não parece percebê-las, mas eu sempre as vejo.

Seu sorriso rasgado, como se por faca fosse aberto...

Seus olhos enevoados, como se em transe estivessem...

E,nelas havia principalmente sangue, muito sangue.

Ninguém nunca soube que eu podia vê-las, não tinha necessidade de contá-los, afinal, elas não me faziam nada. Isso até meu aniversário de 13 anos.

Acordei feliz esse dia, obviamente por que era meu aniversário, e por que
naquele dia em especifico, não havia sonhado com elas. Abri os olhos e olhei para um canto da parede, esperando que alguém me olhasse de volta. Nada...

Sorri para mim mesmo, teriam elas ido embora? Abri a porta do quarto, ainda eram seis da manhã, mas o café estava posto na mesa: pão de queijo, café, bolo de mandioca e goiabada. Meu café da manhã preferido (à exceção de pizza gelada do dia anterior).

Minha mãe havia adivinhado o que eu queria comer, então eu não hesitei em me deleitar com o que havia sido me ofertado.

A casa estava estranhamente silenciosa, minha mãe deve ter ido dormir após fazer o café, meu pai foi trabalhar hoje?

Estranho, era um domingo, e meu aniversário, meu pai geralmente não trabalha em nenhum desses dias.

E o que acontecera com Maria? Minha irmã mais nova geralmente era a primeira a me dar os parabéns.

Depois de tomar café, percebi que havia uma espécie de rastro feito com faca no chão de madeira. Com certeza era coisa da minha mãe, ela gosta de fazer pegadinhas comigo só por que meu aniversário era 31 de outubro, mas nunca funcionava, eu já tinha outras coisas que me assustassem.

Ela foi longe dessa vez, então decidi cair na dela, ao menos uma única vez.

Segui os rastros cautelosamente para fora da cozinha, eles estavam indo em direção a sala comum, olhei ao redor e reparei alguns cortes irregulares nas paredes. Morfeu, meu cachorro Yorkshire estava dormindo profundamente, mas a ração dele estava vazia, ele deve ter comido tudo e apagado, como sempre.

Parei a busca pelos rastros momentaneamente e fui no “quartinho da
bagunça” pegar a ração de Morfeu. Era um local que me assustava bastante, mas meu cachorro precisava de mim, então fui valente e subi as escadas carcomidas por cupins e percevejos e me deparei com a
escuridão total.

Segurei a respiração, esperando vê-las, mas elas não estavam lá. Isso quase me desapontou, estava acostumado com a aparição delas.
Segui diante do quartinho e tirei o pano que cobria a a ração do cachorro, dei um berro quando saiu um rato enorme de lá, mas logo me recuperei:
não tenho medo de ratos.

Abri a ração e percebi que ela estava, em parte, roída pelo gatuno que se alojara ali, praguejando contra a praga, retirei um pouco da ração intacta que restara e a coloquei em uma bandeja de plástico.

Desci rapidamente as escadas e voltei para a sala comum: as marcas no chão estavam mais profundas, como se alguém tivesse passado uma
segunda mão nelas. Estranhei o fato, mas coloquei a comida para Morfeu mesmo assim.

Segui as marcas um pouco mais, e em determinado momento, uma
ansiedade intensa tomou conta de meu coração, me impedindo de ir além.

Mas as marcas estavam me levando para o quarto dos meus pais.

Será se havia acontecido algo? Ou a pegadinha da minha mãe estava realmente me afetando?
Respirei fundo e abri a porta, esperando ver algo, mas o quarto estava arrumado e impecável.

Olhei para trás e as marcas não estavam mais lá também..., o que estava acontecendo? Voltando os olhos para frente, percebo algo em minha visão periférica, olho com um sobressalto para atrás da porta: uma delas estava lá, sorrindo como sempre sorriu, dessa vez um pouco maior, como se tivesse crescido comigo.

Gelei, não esperava que ela estivesse aqui. Pela primeira vez tomo coragem e pergunto:

— Quem é você?

Ela simplesmente bota o dedo indicador nos lábios e sorri. A outra mão encarquilhada aponta em direção à cozinha.

— É para eu voltar para lá?
Ela faz que sim com a cabeça, um pedido maroto.

Volto para a cozinha e está tudo da mesma forma que deixei. A outra delas estava escondida atrás da geladeira, e saiu se contorcendo por dentre o vão.

Ela apontou para cima, para uma das gavetas da cozinha, e eu peguei uma cadeira e subi lá, para minha surpresa, achei meus pais dentro da gaveta, e minha irmã também.

Estavam enfiados com muita força dentro das gavetas, e eu não havia reparado no sangue que pingava dentro da pia.

— Ah... vocês estão aqui, estava procurando faz tempo.

Com uma espátula, raspei eles dos cantos da gaveta e amontoei o que restou nas cadeiras, com a ajuda de minhas amigas.

Tentei puxar assunto, mas eles não me responderam, afinal, estavam mortos...

Mas minhas amigas conversavam comigo, me contavam sobre diversas coisas até terminar de comer.

Terminei o café da manhã com eles na mesa, meu aniversário foi um dos melhores da minha vida. Eu tinha o silêncio que sempre quis, e agora
entendia o que minhas amigas queriam.

Agarro a mãozinha de uma delas e vou me deitar, elas se abraçam comigo na cama e ficamos conversando até a hora do almoço.

Meus pais ficaram felizes também, até por que ouvi os seus passos indo em direção ao quarto deles, minha irmã ficou me observando do lado de fora do quarto, com um sorriso torto. Acho que ela tinha inveja de minhas novas amigas.

Fecho os olhos, feliz, senti aconchegado por elas, tanto que mataria alguém por elas.

Dou uma risada da brincadeira que passa por minha mente e vou finalmente dormir, não estava com sono, mas chegou a minha hora. Vou sonhar para sempre no mundo dos sonhos.

Uma Declaração de Amor



Enquanto sou o começo
Vejo a ti como o final da jornada
Enquanto sinto que meu sentimento não passa
Tenho orgulho de te ter como amada
Ainda que não a tenha para mim

Pois nos completamos
Tudo que há de existir
Há de perecer enquanto nos amamos
Assim que tu permitir
Que os sinos da derradeira hora toquem

Tudo que um dia passa por mim
Conhece sob teu olho frio
Um ultimato do fim
Assim que algo crio
Você está aí para destruir.

Harmônico, simples e belo
Um ciclo do Samsara
Seguido pela linha do meu cabelo
Os nós que atam o destino que a tudo previra

Me prolongo demais...
O objetivo desse lamento
É que apenas nós encontramos uma vez verdadeira
Um instante que, em olhar desatento
Não dura nem mesmo uma troca de olhares inteira
Sentimento de impotência...

Desesperadamente crio,
Para que tu venhas e destrua
Nada existe para sempre neste mundo arredio
Por mais que algum ser longevo destoa
Ele sabe que tu virá buscá-lo

No momento da busca
O momento do encontro marcado
O momento que espero com angústia
Decidido por um rolar de dado
O momento do falecimento

Queda e Consulta Comum ao Psiquiatra

Contos meus lidos por um podcast: Sarau do Conto Surreal.

https://open.spotify.com/episode/2d7Ebm2BP1kzNbEYN8vQjf?si=c6kfLJlgSd-mMpSR3f2jdQ&utm_source=copy-link



Me vejo caindo em meio ao céu escuro, vários dos meus irmãos, que um dia foram parte de mim, estão caindo ao meu redor...

Deixa eu explicar desde o inicio: eu era feliz vivendo nas profundezas da terra, até que me acharam e me expuseram ao sol; na presença da superfície virei um lago, e do lago virei nuvem, cresci, minha pressão aumentou, e me dispersei em milhares.

Enquanto caio, vários pensamentos surgem pela minha mente:

-Por que sei que existo?

-Por que existo?

-Desde quando existo?

-Até quando existo?

Esses questionamentos passam rápido pela minha consciência enquanto observo meus irmãos inertes, por algum motivo, apenas eu parecia ter ciência do que estava acontecendo, o resto apenas cumpria o que acreditavam ser seu propósito maior.

Ao mesmo tempo...

Me questiono se há realmente um propósito, e se tem como saber qual seria ele.

Qual meu propósito? Bom...

Gostaria de responder essa pergunta, mas é algo que está além do alcance, pois precisaria de ter uma visão de fora para compreender meu interior como algo Uno.

Além do mais, o chão se aproxima, não tenho tempo para fazer mais nada.

Ah... se eu tivesse vivido ao invés de pensar...

Ps: Perdi a transcrição do outro conto (🤦) mas aproveitem o podcast!

O Boneco

O Boneco 

Cheguei em casa exausta após mais um dia cansativo,estacionei o carro na garagem e fui me banhar e relaxar um pouco.

Esfreguei por um tempo os hematomas que ele me fizera, em vão... não saiam de jeito nenhum, mas já passou, o passado é passado, não adiante se remoer e se apegar à ele.

As manchas de sangue escorrem pelo ralo do banheiro enquanto um sorriso de alívio se desenha pelo meu rosto.

Após o banho, começo a confeccionar minha nova boneca, dessa vez era um boneco, tinha a aparência de um menino: seus lábios costurados em seda rosa e um vestidinho azul quase me enganaram, mas as feições eram claramente masculinas.

O boneco tinha... A presença de um homem, se me permite dizer isso. Cantarolava enquanto deixava-o mais agradável ao meu olhar: seus olhos castanhos me incomodavam, então retirei-os com uma tesoura e os substitui com pedras brilhantes que refletiam as luzes da sala; suas orelhas eram assimétricas, então as retirei, quem que confeccionou esse boneco? Não tinha harmonia alguma.

Continuei fazendo minhas alterações, colocando nele um pequeno terninho azul feito dos restos da cortina de casa, e o assentei sob um banquinho para tirar umas fotos.

Já eram 2 da manhã, precisava dormir... coloquei ele junto do resto da coleção e fui me deitar, amanhã seria um longo dia.

Trecho retirado do diário de Diane Scheferowitz, a açougueira de Praga, responsável pela morte de 23 adolescentes.
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