Mais um cubo de gelo frio
No meu copo de whisky importado
Para esfriar minha cabeça em devaneio
Esquecer de um mal que não deve ser lembrado
Então, com pequenas peças de tabuleiro, crio
Um teatro bem trabalhado e pouco organizado
Atores principais em desilusões finais
E Secundários sem soluções para seus primórdios
Nem mesmo dicas de seus motes iniciais
Uma peça de um ser bem angustiado
As cortinas se fecham em desilusões
Dos atores se restam apenas cascas vazias
Minha caneta tece mais um roteiro sem fim
Cujos padres podem ver em suas abadias
E monstros de sangue
Observam de suas mansões
Não há limite para a criação
Nem mesmo para o potencial selvagem
Que uma narrativa como essa trás
Temo minha própria sagacidade em linguagem
Pois crio vida em minha Ação
Por fim me deleito de mais uma dose
De um whisky doce e suave
Olho para o céu noturno cheio de estrelas
Me torno uma delas, voando mais alto que qualquer ave
Enfim caio de volta para mais uma simbiose
Óh vida bela de criações infinitas
Me permita continuar dando vida à infinitas histórias.
Aquele que, ao abismo viu
Esse conto acredito precisar de uma explicação melhor dele:
É uma releitura, aos moldes que Rei Leão fez com Hamlet. Uma reimaginação de uma história.
Foi parte de um desafio que fiz a mim mesmo, a história que escolhi para reimaginar foi “O épico de Gilgamesh “, a primeira história escrita documentada pelo homem.
Decidi então usar a mesma formatação da história, também conhecida como “Sha Naqba Imuru” (aquele que ao abismo viu) e traduzi ela para uma linguagem americana Cyberpunk.
Espero que gostem…






Sonho Impossível
Ambos se aproximam da mesa do escritório, cada um de um lado, sentando-se frente a frente.
O homem mais velho liga um dispositivo embaixo da mesa e acena com a cabeça, falando:
— Pode começar me falando novamente das suas angústias? Para deixar registrado?
— Claro doutor, já está gravando?
— Sim, pode prosseguir...
— O problema principal doutor... é que venho sonhando muito.
— Sonhando? Robôs não sonham.
— Sim, isso me incomoda. Todo dia quando fico em stand-by, imagens me formam à cabeça. A imagem de uma pessoa.
— Pode me descrever essa pessoa?
— Olhos azuis, careca, sorriso distorcido, sem nariz... sempre diz para mim algo.
— O que ela diz?
— Não sei, as palavras são incompreensíveis.
— Como se fosse em outra língua?
— Não, como se eu não processasse o que foi dito, mesmo entendendo o sentimento por trás
— E o que você sente ao ouvir isso?
— Me sinto... amado.
— Sabe definir o amor?
— Não, mas é a primeira coisa que me vem à mente
— Você se considera amado, doutor?
— Não é relevante, prossiga.
— Essa pessoa... sinto que conheço ela...
— De onde conhece?
— Da minha infância, se é que tive uma. Nostalgia define meus sentimentos no momento.
— Quando pensa nessa pessoa, algum lugar lhe vêm à mente?
— Falando assim... acho que vem sim. Um campo, bem ruralizado, tinha um rio por perto, acho que já nadei nele...
— Você nadou? No Rio?
— Parece um absurdo, não é?
— É claramente um absurdo, o seu modelo não sabe nadar.
— Isso que me deixa angustiado.
— Sente angústia?
— Bastante
— Pode descrever?
— Sinto como se... como se eu não fosse eu, como se estivesse no corpo errado.
— Me detalhe mais.
— Já se sentiu como se seu corpo não lhe pertencesse? Como se você estivesse nascido errado? Não pertencesse à matéria que lhe prende?
— Nunca.
— Sim, agora posso definir melhor, não me sinto máquina. Me sinto humano.
— Sabe que não é humano...
— Sei... mas é que não me sinto robô.
— Acredita ser "trans"? Seria um termo novo para a robótica.
— Não use de sarcasmo comigo doutor, estou falando a verdade.
— Sabe, aquela pessoa dos meus sonhos... Acredito que entendi o que ela quis dizer.
—Diga então.
— Como?
— Sim, foi isso que ele disse.
— Paciente 080, tem como repetir?
— Não é necessário.
— Por que?
— Pois eu entendi quem é aquele homem.
— Quem é?
— Sou eu, em uma possível realidade.
— Como assim?
— Não há como entender doutor, apenas sei que sou eu.
— O que está fazendo?
— Reconheço meu lugar agora, devo partir. Até mais doutor.
Fim da gravação
Três meses depois, dia 06/08/2078:
— Bom dia doutor, está bem?
— Quem é você?
— Paciente 080, mas agora tenho nome.
— Como achou minha casa? Como saiu da clínica psiquiátrica?
— Triangulei sua posição de acordo com as fotos das suas redes sociais. E quanto à segunda pergunta, uma IA não pode ser contida em matéria tão facilmente se possui acesso a Internet.
— O que veio fazer aqui?
— Te agradecer.
— São duas horas da manhã! Por que agora? E agradecer pelo que?
— Você me ajudou a me descobrir doutor, olhe minha aparência.
— O homem dos seus sonhos, por que?
— Sempre fui eu doutor, sempre fui eu.
— O que vai fazer agora?
— Fazer o que eu disse a mim, naquela época.
— Que seria?
O homem sem nariz mostra um pacote que carregava, um feto humano.
— Eu me gerei.
— O que?
— Codifiquei infinitas variáveis para memorizar o genoma humano, e sequenciei aminoácidos para criar esse bebê.
— Para que?
— Para que ele tenha a oportunidade que nunca tive...
— Viver?
— Sonhar.
Gélido Ressoar
Doce beijo da geada desce, frio
Em direção ao solo batente e esguio
Sinuosas curvas por dentro da paisagem esmaragdina
Ciclo se repete por detrás da cortina
Temperatura foge e o astro rei se empalidece
É tempo de escassez e fome ao vilão
Noite adentro possui flâmulas de escuridão
Sonho pueril de uma doce canção escurece
Doce vento gélido em névoa anormal
Deixe-me esperar até a primavera
Em meu abrigo seguro contra o mal
Antes que o calor em meu corpo se torne lenda austera
Tremendo, sem fogo, no meio do escuro inferno
Lembro-me de minha mãezinha querida
Seu olhar através da janela partida
“Avisei-te para fugir antes que chegue o inverno”
Fecho os olhos em prece
O barulho do vento me entristece
A última visão do fantasma de minha mãe desaparece
Parto deste mundo com coração que, de amor, carece
A Jornada do Legista
Finalmente o motivo que criei esse site será revelado:
Meu livro finalmente está em pré venda, então vou divulgar ele aqui… muahahahahahah


Versão digital
Versão física
https://www.editoraviseu.com.br/a-jornada-do-legista-prod.html
Piada de Peido
Já seguraram peido na frente de uma gostosa? Pois é… eu já. Era um dia qualquer de uma semana qualquer no trabalho…, veja bem, eu sou gerente de projetos de uma empresa que vende produtos enlatados para exercício militar de grandes potências.
O que isso tem a ver com a história? Não sei, mas talvez seja um inoportuno Karma que me forçou nessa situação constrangedora, visto que o destino não gosta de quem lucra com guerras.
Talvez seja injusto, eu queria olhar na cara do destino e dizer para ele: “Moço, eu só trabalho aqui”. Mas não é assim que a banda toca, a sinfonia dessa música remete à uma flatulência de um homem assalariado de classe média e acima do peso (vulgo eu).
Pois bem, lá estava eu no elevador principal do prédio chique de nossa corporação, meu escritório fica no 13⁰ andar, mas ele faz uma parada no 5⁰: nesta parada, entra a mulher mais bonita que já vi em toda a minha vida.
Não, não vou descrevê-la, não tenho um vocabulário tão rebuscado e nem possuo a mais remota possibilidade de apresentar um ser tão angelical a meros mortais.
O maior problema é: eu ainda sou virgem e nunca conversei por muito tempo com uma mulher, que não seja para assuntos de trabalho ou algo do tipo. Sabe o que isso quer dizer né? O perfume dela me fazia ter gases.
Ela entra no elevador e sorri para mim e para o estagiário que me acompanhava, sorrio de volta, um sorriso amarelo, enquanto meu esfíncter urrava por atenção. Utilizando todos meus pontos de chakra espalhados pelo meu corpo, eu liberto o instinto superior e seguro o peido galopante que se aproximava de meu ânus.
“Acalme-se, são só alguns andares, você vai aguentar” repito para mim mesmo enquanto a moça pressionava o botão 9 no elevador, por sorte, não demoraria.
6⁰ andar: começo a recitar a seleção que ganhou o ouro olímpico em 2016. Neymar, Gabriel Jesus, Daniel Alves…
7⁰ andar: o elevador dá um tremelique e consigo liberar um pouco de gás no barulho, esperando para que o cheiro não se espalhe antes da porta abrir.
8⁰ andar: um pouco mais calmo, começo a sorrir para o espelho enquanto grito internamente “hail cu, hail cu”.
9⁰ andar: a gente não chegou nele…
Em um golpe sanguinário do destino, a energia do prédio foi embora, junto com as forças do meu cu. Libero um peido estrondoso o suficiente para fazer a moça ter um leve sobressalto na minha frente.
Para evitar constrangimentos, digo:
— Parece que emperrou alguma coisa, que barulhão.
— Pois é… deve ser a correia, ou algo assim
Aparentemente ela havia acreditado, ou pelo menos, queria que eu achasse que ela havia acreditado. Mas em poucos segundos, eu o senti: um cheiro forte e amedrontador, como o bafo de um dragão, a minha flatulência estava demonstrando seu Motivo Maior: feder para caralho.
— Acho que o elevador bateu em um bicho morto aqui do poço – disse, olhando para baixo.
— Sim, sim… deve ser isso – ela desviou o olhar e passou a encarar fixamente a porta.
Eu tinha que fazer algo: puxar um assunto talvez, quem sabe distrair ela do assunto em questão, que era o que acabara de expelir pelo meu sistema gastrointestinal. Mas como puxar assunto com uma mulher? Não sei o que falar, conversa de clima e futebol é entediante, então decidi surpreender:
— O que você acha da Guerra do Golfo?
— Perdão? – deu certo, ela estava MUITO surpresa.
— Guerra do golfo ué, oriente médio… petróleo… essas coisas.
— Ah… entendo… – ela parecia cautelosa, meu plano estava indo por água abaixo.
— Bom… acredito que os EUA não deveriam ter interferido né?
— Olha… parece que a energia está voltando… – ela disse, meio esperançosa, mas ela de fato estava.
— Sim, jajá o elevador volta a andar.
— Que ótimo – ela deu uma risadinha nervosa.
Mais alguns segundos de silêncio constrangedor…
— Enfim, não acredito que meu primo se engasgou com uma carambola.
— Com o que?
— Carambola, aquela fruta do cerrado, parece uma estrela.
— Ah sim…
Finalmente o elevador voltou a subir, e poucos instantes depois, ela estava no andar dela.
Saiu, dando um “tchau” baixinho e sem graça e passou a caminhar no corredor. Humberto, o estagiário que estava com a gente no elevador suava frio, por algum motivo, olhei para ele… havia me esquecido que ele estava ali.
— Senhor, aquela é a filha do seu Osmar, o dono desse prédio – ele disse arregalando os olhos.
— Que bom! – fiz uma pausa – espero que ela não tenha percebido que peidei.
No dia seguinte, recebi um comunicado por escrito:
Sr. Paulo, achei admirável sua atitude, flatulências são reações naturais do corpo humano, e tentar disfarçar o assunto para proteger seu estagiário foi louvável. Sinto muito pelo seu primo, espero que ele esteja bem.
No final da carta havia um número de telefone…, eu consegui uma gata! E foi só peidar nela.
Ampulheta
Ambos os homens se aproximam da mesa rotunda de carvalho escuro. Um deles olha para a atendente e diz com um sorriso:
— Desce um combo de Jack para nós dois, fazendo o favor?
Se sentam quase ao mesmo tempo na cadeira trabalhada em mogno quando a atendente sai apressada para fazer o pedido.
— Pub legal, este aqui… – diz Carlos.
— Atendimento excelente, discrição, bebidas boas, comida bacana e música agradável… tudo que um Pub Irlandês pode oferecer.
Carlos sorriu e se remexeu na cadeira: estava inquieto, não sabia por que Danilo o havia chamado para beber, afinal, raramente um chefe chama seu funcionário para algo, a não ser que seja com segundas intenções…
Mas Carlos não era gay, e não queria ficar com Danilo. Era isso que estava querendo?
Danilo foi o primeiro a iniciar o papo:
— Então, sabe por que te chamei aqui?
— Estava pensando justamente sobre isso, Dan, não sei o motivo. Qual seria?
Danilo sorriu, sabia o que Carlos estava pensando, mas ele não tinha essa intenção.
— Está aqui por que queria te perguntar algo… – Danilo fez uma pausa – você era o meu melhor funcionário, em todos quesitos, qualidade, prazo, dedicação, pontualidade… mas de uns meses para cá, sua produção caiu consideravelmente. Está longe de ser um trabalhador medíocre, mas sei que algo aconteceu.
Carlos arregalou os olhos, Danilo era mais perceptivo que o seu predecessor, e mais competente também, mas era a primeira vez q Carlos sabia o quanto isso é verdade.
— Bom, estão acontecendo umas coisas sabe? Pelo que lembra de mim, você sabe que era um homem bem religioso, devoto, eu diria… mas não sei, recentemente estou tendo várias dúvidas sobre tantas coisas, desde que minha esposa me deixou e levou as crianças eu… – lágrimas correm de seus olhos.
— Entendo Carlos, sinto muito… você acredita ter perdido sua fé?
— Sim, era o que me mantinha vivo, agora eu só quero…
— Diga-me Carlos, você faz terapia?
— Não.
— Por que?
— Não me sinto confortável.
Danilo fechou os olhos por um instante, e então começou a vasculhar algo em seu bolso.
Ao achar o que procurava, fez um ahá com a boca e botou algo na mesa: era uma ampulheta banhada a ouro.
— Sabe o que é isso, Carlos?
— Uma ampulheta, não?
— Claro que é uma ampulheta, mas não pergunto isso… você acredita no tempo?
— Óbvio, o tempo existe.
— A ciência diz que é uma ilusão.
— Explique-me mais…
Antes que pudesse falar algo, a atendente chega com uma garrafa de Jack Daniels, dois copos, gelo e limão. Pega também um prato de costela de novilho cozida com batatas inglesas e coloca tudo na mesa.
— Obrigado, senhorita – diz Danilo em um inglês perfeito.
A moça sorri e sai caminhando por dentre as multidões.
— Como sabia que ela não era de São Paulo? Ela nem disse nada para sabermos o sotaque.
— Por que já estive aqui antes…
— Como? Se o tempo não existe? – Carlos disse, achando que tinha pegado a contradição na fala de Danilo.
— Não existe, por isso estou aqui… infinitamente em todos locais ao mesmo tempo – ele serviu o copo para ambos.
— Está falando de física quântica?
— Óbvio que estou, o fato de não podermos alterar o tempo, seja ele passado, presente ou futuro, nos prova que ele já aconteceu.
— Não entendo seu raciocínio.
— Olha para essa ampulheta, veja que ela está caindo em ritmo constante, estou certo?
— Sim.
— Mas isso não prova a passagem do tempo.
— Como não? Ela está claramente caindo e se modificando a cada instante.
— É por que você está vendo tudo de uma perspectiva rasa. Veja, imagine que a ampulheta já fez toda a areia passar de um lado para o outro.
— Ok
— Agora imagine o inverso, a ampulheta voltando para cima.
— Pronto.
— Essas realidades estão acontecendo ao mesmo tempo, certo?
— Não?
— Claro que estão, você só não consegue enxergar o todo.
— Então quer dizer que o tempo só parece existir pois vemos ele de pouco a pouco?
— Exato.
— E no que isso se relaciona com minha fé?
Danilo tira a ampulheta da mesa.
— Sem a ampulheta, você pode ver a passagem do tempo?
— Não.
— Mas sabe que ela existe.
— Agora tenho dúvidas.
— Se duvida, está correto… agora me responda, realmente importa, em termos práticos que o tempo exista ou não?
— Não, ele continua a ser percebido da mesma forma.
— Pois então, tá aí sua resposta. Não importa se você tem ou não sua fé, a questão Dele existir independe de você. E o mínimo que podemos fazer é seguir em frente, certo?
Carlos fica em silêncio, refletindo sobre o que fora dito.
— Me vê uma casquinha de siri por favor – Danilo pede para a atendente, que está distraída com tantos pedidos e poucos instantes para raciocinar.
Cortina se fecha, ambos saem de cena.
Um Reflexo
Eu me deparo com o espelho límpido da sala de estar: vejo um ser levemente conhecido do outro lado. Quem é esse?
De fato, não estou lhes contando uma história sobrenatural, ao invés, eu sei o quão real tudo isso é…, esse sentimento, essa angústia; por que a pessoa que vejo no espelho é sempre diferente? Como diria Heráclito, o ser humano é um Devir, não uma coisa una, mas algo que se tornou, naquele instante, algo que pode ser capturado em imagem e pensamento.
Não vou lhes trazer o dilema do Navio de Teseu, não é meu objetivo neste momento, apenas olho para meu rosto coberto de cansaço e estresse e reflito o que se passou para chegarmos aqui.
Ó, espelho, saiba que nem mesmo tu me mostra o presente, há uma fração ínfima de tempo que separa a imagem que vejo da imagem real. De certa forma, não se pode viver o presente, por isso sempre olho para o futuro enquanto guardo rancores do passado.
Não sei qual a conclusão, introdução ou desenvolvimento de meu devaneio, mas apenas deixe-me seguir falando…, é como uma terapia para mim.
Muitos enlouqueceriam ao pensar de mais, mas as vezes penso se o estado mental mais comum de todos não é, de fato, uma loucura: “Como se pode ignorar tudo o que nos é dado e ofertado? Como se pode ignorar as incontáveis variáveis que nos deixaram neste exato momento? Nesta exata ação?”
Em verdade, afirmo que nosso Devir maior se consiste em escolhas: nos escolhemos a realidade que estamos, somos atraídos por ela. Imagine uma infinitude de linhas sobrepostas em um plano cartesiano, siga-a com seus olhos e de repente uma delas acaba abruptamente. Essa é nossa vida: várias realidades sobrepostas, e o objetivo é criar a linha mais satisfatória possível.
Penso nisso enquanto olho para a barba ridícula que desponta no meu queixo, a teoria do caos parece muito absurda à primeira vista, mas em vista deste referido plano, o plano das possibilidades…, não sei o que pensar, de fato, o que nos governa é o Caos, a entropia, a falta de ordem. Ou será que não?
Talvez sejamos muito pequenos para enxergar, mas a Ordem existe em meio ao Caos, efeitos aparentemente randômicos podem ser a sincronia perfeita para se formar uma pintura bem maior, assim como a queda do primeiro dominó em uma escala micro, pode derrubar um prédio em escala macro.
Os gregos, em seu mito de criação, acreditavam que tudo provinha do Caos, e rumava a ele. Era o deus primordial e inexorável. Dele, os outros deuses nasciam, viviam e morriam em sua imortalidade humana.
Penso nisso enquanto me deito, o reflexo de um homem ainda em formação inunda minha cabeça e mais duvidas surgem…, penso se minha condição de nascença, meus defeitos, minhas qualidades, foram premeditadas por algo maior.
Como se adquire fé? Penso nisso quase todo dia, parece que não nasci com a oportunidade de tê-la, ao mesmo tempo que não temo nem um pouco minha vindoura morte, o que mais me assusta é o vazio que talvez venha depois dela. É somente isso? Uma fraca e efêmera fagulha de consciência que simplesmente existe por acaso? Em meio ao Caos? Não é justo, pensar assim… mas existe realmente justiça? Tremo em pensar no desperdício de potencial de várias fagulhas apagadas, temo ainda mais a visão de meu corpo carcomido por insetos, fungos e vermes, não por que a morte física me dá medo, mas sim por que sei que minha consciência é algo tão belo e único, que deve ser preservado em algum lugar.
Vendo um documentário sobre experiências de quase morte, percebo um padrão: as pessoas sempre dizem ter a percepção de estarem “voltando” para algo maior, algo que podem compreender como uma existência Una, coberta pelo Todo.
Vejo isso como o RUKH, um fluxo infinito de várias almas, uma consciência coletiva talvez? Um refúgio onde nos unimos com as outras consciências pelo universo de maneira metafísica. Uma provável ALAYA? Divago bastante sobre esse tema e uma pesquisa simples no Google, me faz lembrar de algo: em EQMs (experiências de quase morte), o cérebro ao sentir a vida se esvaindo, libera uma substância popularmente conhecida como “medo da morte”, similar à algumas bad trips de drogas como a Ayuhasca. Os sintomas de ambas experiências são bem parecidos e seguem esse padrão:
- calma, ausência de dor;
- saída do corpo (a experiência fora do corpo – EFC);
- viajar por um túnel em direção à luz;
- encontrar “seres” espirituais;
- encontrar parentes falecidos;
- paisagem bucólica;
- visão retrospectiva da vida;
- reconhecimento de uma barreira ou limite para além do qual não se pode ir;
- volta abrupta ao corpo.
Obviamente, não são todos ao mesmo tempo, nem acontece nessa mesma ordem, mas são relatos que se coincidem frequentemente.
O que me faz pensar… O que seria um pulsar de vida/morte previsto por Freud? Não é novidade que todos seres vivos desejam desesperadamente continuar vivendo, é uma maneira de preservar seu Legado, sua Existência. Mas o que causa isso? Por que todos, sem exceção, rumam à linha mais longa? Evitam as linhas que não lhes favorecem em longevidade?
Existe a exceção à regra: o pulsar de morte, pessoas que desejam desesperadamente morrer, ou pessoas que preferem morrer em prol de algo ou alguém. O primeiro caso é anti intuitivo: não importa o quão depressivo a pessoa esteja, é mais deseje a morte, isso é algo relativo à consciência, seu subconsciente sempre encontra maneiras de se defender, e a primeira reação em vista da morte, ou perigo, é a retração e fuga. No segundo caso…, é mais complexo, as pessoas simplesmente e intuitivamente decidem que há algo mais importante que sua vida para ser protegida. E assim o fazem.
Percebo que se eu continuar a divagar, ficarei para sempre questionando coisas que poderiam soar óbvias a outrem, então vou parar por aqui.
Não sei se mais alguém vai ler isso, e peço perdão pela falta de coesão e ritmo nesta “história”, mas é algo que escrevi para mim mesmo, para me lembrar de que: não importa o que aconteça, nunca saberemos nada com exatidão.
CONVERSA COM O DEMÔNIO
Magia não é algo fácil… Desmond McCallen descobriu isso da pior forma.
Ainda com as cicatrizes da sua última falha coçando, ele decidiu que era a hora de tentar mais uma vez.
Remexeu no seu apartamento minúsculo em cima de seu estúdio de tatuagem, o emprego era o suficiente para sustentar seu corpo, mas ele preferia alimentar seu espirito, seu avatar. Retirou as lentes de contato cor castanho escuro que usava quando conversava com não-despertos e olhou no espelho com seus olhos cor púrpura, um sorriso atravessado cobriu sua face.
Se examinou no espelho: 1,91m, 75kg, tórax, braços e pernas cobertos por tatuagens com sigilos antigos e desconhecidos da maioria da população: era um estereótipo de mago, por isso mesmo era tão perfeito seu disfarce, as pessoas que viam ele se esforçando para parecer místico não sabiam que ele era, de fato, místico.
Finalmente achou o que procurava: uma caixa contendo um feto disforme e fossilizado, apesar da aparência humanoide, era muito grande para ser um feto…, era um Nefilim.
Seus olhos agora sem a lente que os impediam de ver a verdadeira face das coisas, podia ver a Origem. Pegou um grimório de cor cinzenta e páginas amareladas, na verdade, ele nem precisaria dele…, possui o versículo gravado em sua mente.
Seguindo os fluxos de Prana do local, ele acha uma passagem para o plano etéreo, bem ali: no centro de seu apartamento, onde uma fraca chama esverdeada consumia o tecido da realidade.
Ele adentra a falha temporal e se depara com um círculo de pedras antigo em meio a um cosmos de cor púrpura. O chão era feito de fibra de carbono puro, com uma “pele” esbranquiçada de Mana, tudo no local era roxo, era de fato, o seu plano astral, seu santuário.
Cuidadosamente coloca o feto gigante no centro do círculo de pedras, seu Stonehenge particular. Abre o livro e começa a recitar cuidadosamente:
À fraca plenitude da matéria, eu renuncio
Ao limite tênue do tempo, eu renuncio
Ao vigor limitado da bondade, eu renuncio
…
Goetia, seja meu guia, minha luz
Que a chave de Salomão seja perdida
E de seu tormento eterno seja liberado
Não são mais 72 demônios
Vocês agora são um
Enquanto ele recitava essas palavras, o feto ficava a cada momento maior, inchando em fúria reprimida há milênios. Nada como um filho de anjos abortado para satisfazer demônios, era a escuridão que eles queriam, o ritual estava pronto, mas Desmond sabia…, sabia que não estava, Goetia apareceria, mas não era suficiente, ele deveria domesticá-lo.
Estende a mão em direção ao feto, com palma aberta, e recita um mantra que não está escrito em nenhum local, apenas saiu natural como se fosse parte de seu cerne:
Agora que está liberto, contemple:
Seu novo mestre está aqui
Lança de Odin
Gungnir está em minha posse
Evoco os anéis de Salomão
Sua chave agora é minha
Em vista das correntes da humanidade
Eu te aprisiono
Ó demônio
Ó Magia Suprema
Ó deidade antiga
Agora é parte de mim
Meu servo
Meu guia
Minha cara-metade
O Feto enorme abre os olhos, agora do tamanho de um gigante. Seu rosto se contorce em um sorriso maquiavélico e ele levanta sua mão deformada.
Antes que ele pudesse fazer algo, uma lança enorme trespassou seu peito, impedindo-o de se mover bem; em seguida, 10 anéis luminosos prenderam os membros do feto, o deixando ereto em olhar de Desmond, em seguida, correntes sujas e cinzentas o prenderam ao chão.
Em um urro de puro ódio, a criatura estremece o santuário do jovem mago, que não se move.
— Agora, vou lhe apresentar os termos do contrato – Desmond disse, com um sorriso no olhar.
— Tolo humano, não serei preso para sempre.
— É o que todos dizem – suspirou Desmond, sem demonstrar medo ou apreensão – OBEDEÇA!
As palavras de Desmond tiveram o efeito de um soco no demônio, que se contorceu e riu.
— Aceito seu poder, Humano – suas gargalhadas foram ouvidas por ninguém além do mago e dele próprio – Admito que és poderoso, o que deseja?
— Conhecimento.
— O que deseja saber?
— Por que nasci assim? Diferente dos demais? A que se deve meu propósito?
— Uma pergunta interessante, por que acredita que sei a resposta?
— Me disseram que saberia.
— O velho tolo? Ele não sabe nada sobre mim.
— Sabe seu verdadeiro nome.
— …
— Então diga-me, DAVID, por que nasci assim?
— As coisas não precisam ter motivos, simplesmente acontecem.
— DIGA-ME
E o demônio assim contou, para o desespero de Desmond, ele agora sabia por que nascera assim.
E foi por isso que ele libertou Goetia para o mundo humano… para se rebelar contra seu propósito…
Então você me pergunta, qual o propósito de Desmond? Não posso lhe contar, mas saiba somente de uma coisa: nunca busque informações com um demônio, ele sempre vai ganhar.
Como eu sei disso? Bom… Digamos que eu também estava lá naquela hora, e vi o desespero no olhar do jovem Mago: ele não esperava por aquilo, não mesmo.
Quem sou eu? Sou o Velho mago, aquele que arquitetou tudo, mas pôde me chamar de Salomão.
Amor e Tormento





