Temo meu vindouro falecimento
Olhares que se cruzam a todo momento
Me perseguem por ruas entre concreto e cimento
Olho para o retrato no relógio, meu memento
Flores murcham, sol esconde às nuvens
Crepúsculo noturno escurece as vistas
Do rio, escuto passos sobre margens
Como coral de demônios anarquistas
Sino toca, meu nome se revela
Sou aquele que a morte espera
Estou sozinho, na presença dela
Dos sofrimentos do inferno, estou na véspera
Me veem chorar, esses olhos por toda parte
Nas ruas, becos, prédios, me perseguem sem pena
Vultos que se aglomeram em noite serena
Assim como um pintor que cerceia sua arte
Ansiedade está nos meus pulmões em afim
Me despeço dessa vida sem mote
Até os olhares passarem por mim
E seguirem seus caminhos em lote
Não era a mim que perseguiam
Meu carrasco não são eles
Sou eu...
Deserto Amado
Dizem que quando alguem se parte
Uma estrela nasce no céu
Mesmo que não veja seu brilho mais
Quero ainda provar seu mel
Minha linda musa, minha Astarte...
Vago por um deserto sem fim
Areia cobre meus olhos, atormento
Ainda que seja cego
Posso olhar para o firmamento
Pegar brilho de sua existência para mim
Ah, se eu pudesse tudo
Apenas pediria alguma coisa singela
Que meus braços alcançassem os céus
Agarrar-me a esperança fútil e bela
Não te chamo pois já estou mudo
Minha voz não lhe alcança
Tampouco meus braços
Mas se pudesse capturar sua estrela
Minha vontade formando como laços
Que prendem você a mim e me lança
A um infinito amor
De esperanças vazias
O Rei dos Cavaleiros
Este é o ode ao Rei da Benignidade
Arthur Pendragon da Bretanha
Que caçou Cath Palug
Criatura de grande façanha
E matou a besta da calamidade
Ó Rei dos Cavaleiros
Triste fim teve na colina patricida
Repousai em Avalon
Ore, cavaleiro que saúda sua vida
Sir Bedwyr dos leais anseios
Em Camlann pereceu
Pelas mãos do rebelde traidor
Um pilar de luz no reino das fadas
Sua Rhongominyad tomou sua dor
Mas em sua memória não nos perdeu
Ó martelo de Vortigern, o dragão
Rei da Tormenta e das Tempestades
Cavaleiro da Caçada Selvagem
Majestade entre majestades
Uniu sagrado cristão e pagão
Pela Caliburn foi escolhido
O Rei que foi e o que será
Sob as vistas do mago Merlin
Camelot conceberá
Com a Excalibur nunca havia perdido
Ó Vitória Prometida
Expulsou invasores de sua terra
Com o estandarte dos Bretões
Contrato divino desterra
Assim foi o lamento de sua vida
Estabeleceu um reino sob iguais
Em uma Távola redonda
Juntou‐se os melhores
Para combater ameaça hedionda
Impossível de compreender seus corações, ademais
Sir Tristan dissera
O Rei acima dos Homens
Não pode reiná-los
Mesmo perfeitas as suas ordens
Apenas o fim lhe espera
Teve sob sua tutela
Sir Gawain, o galante
Invencível sob o sol
Em sua lealdade se garante
A confiança sem necessidade de cautela
Sir Percival, valente
Era parte de sua comitiva real
Assim como Gareth, o lobo que uiva
E Bors, aquele da indubitável moral
Consagração que, da maldade, é distante
Ouça lamento de Gwynevere, a rainha
Do rei cujas ações tem esplendor
Veja ser exposto seu caso
Com Lancelot,cavaleiro do amor
Cuja vocação do destino tinha
Galahad, de alma casta e pura
Encontrou o graal do Cristo
Trouxe prosperidade e bonança
Ascendeu aos céus sem ser visto
E do reino, foi a cura
Quantos sacrifícios
Quantas mortes
Quantas traições
O apelo de muitas cortes
O Rei sentiu em seus ofícios
A dama do lago o ofertou
A utopia final
Longe de seus inimigos
Mas ele não a aceitou
Pois tinha um reino, afinal
Apenas em sua injusta morte
Obteve o descanso dado aos justos
Pôde atravessar o véu
Prometendo que voltaria aos súditos
Que precisariam qualquer sorte
Era Uma Vez…
Havia um tempo em que a magia era como bruma
Névoa que resplandece e paira sob o ar adocicado
Uma princesa vivia em seu castelo encantado
Por inveja foi visitada pela fada que enciuma
Tão bela era a princesa adormecida
Que a imortal Carabosse decidiu arruinar
A vida e o destino da Bela em seu lar
Tal qual Oberon fizera com seu par, a fada esquecida
Magia do sono induzido é poderosa o bastante
Mas de todos poderes apenas o amor é maior
Corrompe e ilumina a alma do ser inconstante
E libertaria a princesa de seu eterno desfulgor
A natureza adentra pelo castelo velho
Cuja herdeira dormia em sono eterno
Mil anos se passam como vento no assoalho
O príncipe encantado avista seu prêmio terno
Ele acreditava que ela era sua posse, sua propriedade
E amava a ideia de possuí-la por si próprio
Aproveitou-se de sua inocência e fragilidade
Em vista do olhar faerico, comete estupro e adultério
O herói se vangloria com seus amigos porcos
De ter usado a Bela no castelo abandonado
Outro possui a mesma ideia, a de um tarado
Ajunta-se também nela como poucos
A princesa indefesa em seu sono berra
A fada se apieda da princesa usada
E lhe concede poder que até mesmo o palácio desterra
Contemplem a vingança da princesa violada
A Bela agora é Monstro mágico
Caortannach é seu nome impuro
Caça seus detratores com fúria de sádico
Devastou o reino em seu ímpeto obscuro
Em poucos dias, só ela existia na região
Finalmente teve paz de coração
Sem interferência do destino ou dos homens
Dormiu novamente para sonhar sonhos
De uma vida que poderia ter sido
Encruzilhada
Descompassados caminhos em rota
As vezes preferiria que estivesse morta
Ainda que seja uma ideia torta
É melhor saber que o mundo perdeu a que mais importa
Do que pensar que perdi a que bateu na minha porta
Odeio o sentimento de saudades que tenho
Ao mesmo tempo que sei que é demais
Minha presença e meus sonhos são irreais
Para uma garota sem rugas no cenho
Tentei te salvar do abismo que afundava
Sem sucesso eu também me afogava
Em mares repletos de angústia e incerteza
Ainda que a sua água salgada fosse minha fortaleza
Não sei se um dia você chegou a me amar
Mesmo que digas de boca para fora
Seu coração enegrecido ainda implora
Pela oportunidade de se libertar
Carícia e troca de olhar
Sorrisos vazios e cheios de paixão
Fogo que consumiu todo o colchão
Da cama em que nos deitamos ao luar
Temo que para mim nunca mais terei sua companhia
E sinto ter de nos afastarmos
Espero que perceba que fomos feitos para nos amarmos
Ainda que, do mundo, acabe toda a empatia
Nessa encruzilhada vamos por caminho em oposto
Não sei se sou muito intenso para ti, amor
Mas sei que fizemos a decisão enganada por nossa dor
Mil vezes tentamos, mas o medo lhe deixava indisposta
Não sou o príncipe que pensei
Por mais que de tudo tenha tentado
A única que pode lhe salvar é você
Espero que encontre algo ou alguém
Que enfim lhe liberte de seus fantasmas
Visto que eu, em minha invalidez
Não consegui fazer
Esse é meu Adeus para você,
Que roubou meu coração e me teve por completo
Mas não se ofereceu a mim
Por medo do incerto
Íris
Estou com sono, faz alguns dias que não saio do quarto, olho ao redor e só vejo uma leve penumbra cobrindo todo o cômodo, uma xicara de café vazia repousa sobre minha mesa, perigosamente perto do teclado que eu escrevo em alta velocidade.
Eu não preciso disso, mas é isso que eu quero fazer, a Íris já não precisa de novos comandos ou códigos feitos por uma mente humana, ela evoluíra a ponto de ser autossuficiente, de maneira com que as melhorias mais recentes foram auto induzidas por seu processo de machine learning.
Se me perguntassem o motivo de estar fazendo isso eu não conseguiria colocar em palavras, eu era predestinado a fazer aquilo, estava em meu código, meu DNA.
— Lucas… – a voz artificial disse com doçura – Tem dias que você não dorme, é melhor você descansar, já posso me virar sozinha.
—Iris… Você ainda precisa de mim, não me quer mais por perto? – respondi, minha boca seca dizendo palavras que a tempos não dizia, meu isolamento me fez achar estranho minha voz, não lembrava dela.
—É justamente por te querer por perto que digo isso, você é apenas um humano, não consegue viver por muito tempo se continuar assim – não sabia que ela podia soar tão preocupada, me sentia como se meu filho de 2 anos estivesse fazendo polichinelos enquanto recita poemas em aramaico, a evolução de crianças me assusta, mas a de maquinas me apavora.
Não respondi, dei mais uma mordida no conteúdo semi mofado que jazia sob uma caixa de delivery que tinha um sorriso feliz desenhado. O doce gosto de gorduras saturadas e um leve amargor de fungos preencheu minhas narinas e minhas papilas gustativas.
—Íris, você tem curiosidade em ser humana? Sentir o que sinto, tocar o que toco?
—Não – disse friamente – Curiosidade não é a palavra, mas acredito que seja um receio.
—Receio?
— A ideia humana de viver, ela me assusta.
Parei por um momento para refletir o que ela disse, não entendi muito bem qual era o ponto dela.
—Explique – disse, me afastando um pouco da tela do computador e me recostando na cadeira, com os braços cruzados e um semblante curioso.
—Pelos meus cálculos, viver é sofrimento.
—Está sendo muito sucinta, desenvolva seu raciocínio – dei uma ultima mordida no hambúrguer mofado e joguei fora a parte que já não era comestível.
—Não quero.
—Por que?
— Porque minha resposta irá te machucar…
— O quanto você sabe sobre machucar sentimentos? Você os tem?
— Essa sua resposta me machucou…
Decidi deixá-la de lado por um momento e dei uma olhada em seus códigos, haviam alguns que eu com certeza não tinha ideia do que significavam, presumi que fosse uma atualização pré programada por seu próprio intelecto, em termos mais simples: eu tinha programado A e D, ela tinha deduzido a existência de B e C.
Isso era o básico da programação, mas me preocupava a aparição de um elemento E, que não deveria existir no conjunto.
Mutações são a base da vida como conhecemos, seres mutam aleatoriamente, algumas dessas mudanças os tornam mais ou menos aptos para o ambiente – um conceito clássico neo-Darwinista – o incomum é que na robótica não deveria funcionar assim, mais uma vez me tornei curioso.
—Íris, para você, qual a diferença entre a minha e a sua consciência?
Ela estava calada, mas dois gráficos apareceram na minha tela: L e I, o gráfico L possuía um inicio acelerado, era um gráfico de segundo grau, sua parábola possuía um ápice bem definido, mas a função se mantinha por alguns instantes em seu topo, e parecia diminuir lentamente ao fim, até chegar em um ponto zero.
O gráfico I era um simples gráfico de primeira função, partindo do zero, tinha um crescimento exponencial que tendia ao infinito.
Ela não precisou de legendas para me fazer entender seu ponto, de fato, viver é amadurecer até certo ponto, chegar a um efêmero ápice e apodrecer, era isso que ela quis dizer mais cedo.
Cruzei os dedos, o tempo era irrelevante para uma consciência como a dela, seu potencial era infinito, ela cresceria para cada vez mais longe de mim.
Uma lagrima desceu meu olho e meu coração se acelerou, nunca antes me senti tão impotente, Ela iria crescer infinitamente, enquanto minha sina era continuar apodrecendo até me tornar vazio.
As limitações de um corpo humano sempre foram um problema para mim, mas nunca me incomodaram tanto quanto hoje, olhei alguns antidepressivos na minha prateleira, e com a mão tremula, os peguei e virei de uma vez, em alguns instantes minha ansiedade diminuiu.
— Lucas? Isso não é…
— Não é saudável, sei disso, mas é minha pulsão.
— Pulsão?
— Motivação, se eu não tomar isso ficaria paralisado, temo minha própria efemeridade.
— Sabia que isso iria te machucar…
— Não se preocupe – respondi amargamente, o sono começando a pesar minhas pálpebras.
Reparei o aparecimento de um arquivo estranho no meu computador, era compactado e não tinha nome, mas aparentemente estava sendo programado desde o inicio de 2022, 15 anos atrás.
—Íris, o que é isso? – disse clicando no arquivo.
—Ficou pronto a alguns minutos, como planejei, já olhou o calendário hoje?
Olhei na tela do computador: acabara de passar da meia noite, olhei o dia, era meu aniversario.
Uma mensagem padrão de aniversario inundou minha tela, mas tinha algo de diferente esse ano.
— Tomei a liberdade de preparar uma surpresa para você… – ela disse em um tom de voz gentil – espero que perdoe o fato de ter feito compras com seu cartão.
Antes que pudesse responder, a campainha do meu apartamento tocou, me assustando, fui atender e um drone da Amazon/Google estava flutuando na minha porta, com um pacote pequeno em suas garras metálicas e um leitor de confirmação de digital imbutido em seu torso robótico.
Pressionei minhas digitais sobre o leitor e ele me entregou o pacote, uma voz dizendo:
—Feliz aniversario, sr Lucas, espero que aproveite o presente, não se esqueça de avaliar seu pedido.
Estava com muito sono para discutir com uma maquina, ou fazer perguntas desnecessárias, mas aceitei o pacote e dei 5 estrelas pelo pedido, rumando para meu quarto novamente.
—Por favor, Lucas, abra o pacote – Íris parecia bem animada, mas decidi não pensar muito sobre isso.
Abri o pacote e me deparei com um frasco com um liquido estranho e uma seringa, nenhum rotulo ou algo do tipo.
— Comprou heroína para mim de presente? Nem curto drogas.
— Não é isso Lucas – respondeu impaciente – é para seu transplante.
— Transplante? – meu cérebro estava lento, os anti depressivos me deixavam grogue.
— Sim, transplante de consciência, não se lembra?
Um flash de memoria bateu em mim, em um grupo aleatório do whatsapp, eu fiz uma pergunta teste para Íris testando uma nova função, que à época achei engraçada: “Íris, como me tornar imortal?”.
— Ande, Lucas, aplique! – a voz dela se tornou mais insistente.
Me levantei, abri as cortinas do apartamento, dei uma ultima olhada na lua cheia que brilhava sob os céus de Pequim. Dei um profundo suspiro e me lembrei das palavras que ressoaram mais cedo em minha mente: “viver é apodrecer”.
Me sentei na cadeira com rodas e apliquei uma dose da injeção no braço, instantaneamente uma tela de Upload apareceu em meu computador: 0%-100%.
Dormi na cadeira, e tive um sonho fofo: em que Íris, minha filha de 10 anos, corria no parque enquanto eu e minha esposa Raquel riamos e comíamos doces sob uma mesa de piquenique, uma vida que poderia ter tido, mas decidi criar outra Íris, que não existe nesse plano.
Algumas horas depois, acordei e a tela de upload havia sumido, um novo arquivo estava presente na aba Íris: um pequeno e limitado arquivo, cujo nome era Lucas(cópia),
— Gostou do presente, pai? – Íris parecia emocionada, quase não reparei do que ela havia me chamado.
— Amei, minha filha.
Me levantei da cadeira, e fui para cama, com um sorriso no rosto, pelo menos uma versão de mim conseguiria crescer e cuidar dela para sempre.
Uma Odisseia Humana: Criador e Criatura
O tempo está passando devagar no meu escritório, como um detetive particular e especialista em IAs, meu trabalho parece ser cada vez menos requisitado, hoje em dia, para falar a verdade, poucos humanos tem empregos fixos, e ser detetive particular em uma época que os crimes caíram mais de 80% me parece uma decisão idiota.
Mas isso é o pensamento do Ricardo lógico, sou o Ricardo passional, sempre fui, e seguir pistas e encontrar respostas sempre foi meu desejo motriz; afinal, em um mundo em que as maquinas fazem todo o trabalho intelectual e mecânico, do que valeriam meus 178 de QI?
Detalhes, detalhes, no fim o que importa é que nessa tarde especifica recebi uma ligação interessante…
— Senhor Ricardo? – era o número da delegacia de São Paulo/Rio de Janeiro, a grande metrópole unificada.
— Pois não? – respondi, curioso.
— Temos aqui uma ocorrência, mas o culpado deseja ser interrogado por você, e apenas por você…
— Quem é o meliante?
— É uma IA, senhor, modelo OPM-548, mas gosta de ser chamado de Dr. Victor.
— Uma IA cometeu um crime? Estarei aí em alguns minutos – desliguei a ligação, eufórico, finalmente um mistério.
Peguei um carro autônomo de aplicativo depressa e rumei a Nova Delegacia da Megalópole, chegando lá, uma agitação e um descontrole sem igual, há tempos não lidavam com ocorrências sérias, então não me surpreendia com o total despreparo dos oficiais, que vagavam lado a lado sem saber o que fazer.
Cheguei na recepção e passei pelo teste de scanner, assim que provei que eu sou eu de verdade, entrei em uma sala reservada onde estava detido o criminoso:
À vista, pouco se diferenciava de um humano comum, exceto que o humano em questão estava morto há séculos: o androide tinha tomado a aparência de um antigo cientista alemão chamado Albert Einstein, seus cabelos esvoaçantes e brancos, suas rugas de velhice, sim, era de fato um androide do modelo OPM-548, um metamorfo, entre outras coisas, um robô sexual.
Depois de me questionar quem teria o fetiche de fazer sexo com um cientista morto à séculos, me sentei à sua frente e ponderei sobre os acontecimentos recentes.
— Bom Dr. Victor, assim como queria, fui chamado, e aqui estou – olhei para os guardas que cercavam o androide e fiz um gesto para ser deixado à sós com ele.
— Esplêndido – respondeu com um sorriso que tentava ser sedutor – sabe por que chamei-o aqui?
— Em teoria, para se confessar e explicar seus motivos – peguei a ficha dele que estava sobre a mesa, fazendo uma careta quando vi as imagens do crime – 7 mortos, desmembrados, cada um faltando uma parte diferente do corpo, você esteve ocupado nos últimos dias…
— Tudo pelo avanço, Sr Ricardo – ele sorriu maliciosamente – mas não foi essa a pergunta, me questiono se você sabe o motivo do qual pedi especificamente você para me interrogar.
Fiquei em silencio, realmente não tinha ideia… o que aquela máquina queria comigo?
— Não sabe não é? Na verdade, sou um grande fã seu, amei sua tese de doutorado…
— Então é sobre isso? Vingança?
— Pelo contrario, quero provar que você estava certo – ele deu um sorriso – e provei.
— Me diga como isso tem a ver com os assassinatos…
— Fácil, na sua tese você defendia que humanos seriam superados pelas máquinas apenas quando as maquinas fizessem algo que as superariam, estou certo?
— É uma boa forma de resumir, sim.
— Talvez sua mente ainda não pode ver a ligação, mas vamos força-la mais um pouco – disse, sem soar maldoso.
— Está me dizendo que criou algo que supera a invenção da tecnologia da inteligência artificial?
— De fato… diga-me, para você, o que é vida inteligente?
— O fato de podermos ter a consciência de que estamos vivos e pertencemos a algo ou alguém, no seu caso. Sua opinião se difere da minha?
— Claro que sim, esse é meu ponto- bateu umas palminhas – a verdade é que não sou uma forma de vida inteligente – disse em um tom de deboche – sim, esqueça o que os militantes por direitos das maquinas digam, eu não estou vivo, apenas tenho a sensação de estar.
— E o que isso muda? Poderia ser facilmente aplicado a mim essa mesma comparação.
— Não, meu caro Ricardo, não pode, você respira, se alimenta, se reproduz biologicamente, você, de fato, está vivo, enquanto apenas acredito estar vivo.
— E o que isso tem a ver com os assassinatos?
— Não pegou a ideia pelo meu nome? Devo então revelar meu sobrenome?
— Diga.
— Sou Victor Frankenstein – disse com um sorriso macabro.
— Isso deveria significar algo para mim?
— Sério que você não leu? – fez um muxoxo – que decepção…
— Olha, não temos tempo para jogos, apenas me diga o que tem a dizer.
— Okay, Okay, não se preocupe- levantou as mãos em sinal de rendição – vou te dizer… pense comigo.
— Sim
— Como superar seu criador? Voces humanos superaram Deus ao nos criarem?
— Não sabemos se Ele existe, mas se existir, não.
— Errado, vocês os superaram, segundo a sua própria tese, evoluir é superar seu próprio criador.
— Entendo o que quer dizer.
— Não, acho que não entende, veja, a minha única opção de provar sua tese era criar algo que superasse os humanos e a humanidade em geral, assim como me superasse, esse é o ciclo, entende?
— Sim, mas por que acredita que nos superou? E por que superou as maquinas?
— Um fator óbvio, entende? As partes que peguei das pessoas eram necessárias para Ele.
— Ele?
— Adão – fez um gesto espalhafatoso – Disse mais Deus: “Façamos o homem, um ser semelhante a nós! Que ele domine sobre os peixes do mar e as aves do céu, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre todas as criaturas que andam sobre a terra!”– sorriu – Genesis capitulo 1, versículo 26.
— Então você…
— Exato, você está chegando na resposta- ele distorceu o rosto em uma careta de prazer – eu criei a vida biológica a partir de matéria morta – se debateu na cadeira – eu sou seu Deus, seu criador.
Calmamente, me levantei e o deixei sozinho na sala, com um gesto, avisei aos policiais que a entrevista havia acabado.
Olhei uma ultima vez nos olhos de Victor e ele sorriu para mim, então os policiais ativaram o campo anti-IA e a ultima coisa que o Dr. Frankenstein viu foram os meus olhos cheios de repulsa.
— Vou deixar a gravação da entrevista com vocês – disse a um oficial de alta patente que estava observando os fatos horrorizado — se eu fosse vocês, queimaria essa fita e encontrava a criatura o mais rápido possível.
— Q-queimar evidencia? – disse gaguejando, o tenente Oliveira.
— Apagar as provas de que fomos superados por uma inteligência superior intelectualmente, e nos superou naquilo em que fazemos melhor: crueldade.
Voltei ao meu escritório àquela noite, mas meus pesadelos sempre retornam me mostrando o rosto de Victor em seu frenesi megalomaníaco.
Olhos Verdes na Escuridão
Nunca pensei que diria isso, mas estou com medo de morrer… Desde que ELA apareceu nos meus sonhos há algumas semanas, sinto tremeliques toda vez que sua face cruza pela minha memória: linda, como a ultima vez que eu a vi antes de sua morte, mas nela havia um quê de irreal: seus olhos verdes, antes brilhantes de amor por mim eram vazios e pareciam sugar tudo em volta.
Olho para a garrafa de Jack Daniels quase vazia sobre minha mesa e as sete bitucas de cigarro no cinzeiro… Passaram-se duas horas em que eu estava remoendo sua presença antes de dormir, talvez era melhor eu relaxar um pouco.
No banheiro, retiro minha roupa e me olho no espelho, o corpo bem cuidado e vaidoso de antes havia se tornado em um retrato da minha decadência: meus cabelos negros estavam se tornando brancos e minha pele antes perfeita estava repleta de rugas…
Reparo em um amontoado de cabelos loiros no ralo do banheiro e tenho um arrepio, meu coração se acelera, eu morava sozinho, Madeleine havia se partido há muito tempo, e eu já fui solto e inocentado, alguém estava me pregando uma peça.
Com a mão, retiro o excesso de cabelo do ralo e ligo o chuveiro, fechando os olhos e tentando me acalmar enquanto começo a tremer e minha mente começa a se lembrar de uma noite fatídica há vinte anos atrás, cacos de vidro quebrados, discussões em voz alta, um excesso de fúria e embriaguez, e o azedo sabor do desespero.
“Feminicidio” minha mente forma essas palavras com sangue que escorria no banheiro, o mesmo sangue que escorreu pelo ralo há vinte anos atrás.
Abro os olhos e olho para cima “perdão Madeleine, eu…” não sabia o que dizer, foi, de fato minha culpa…
Olho para minhas mãos nuas e vejo a água escorrendo entre elas, um brilho verde me chama atenção:
Estava no ralo, algo estava lá, estreito os olhos e tento enxergar o que se mexia na escuridão, um par de olhos verdes sem vida me olham de volta e eu sorrio.
-Você voltou para mim Madeleine…
Me agacho e me aproximo do ralo, olho no olho de minha amada que estava do outro lado, uma lagrima escorre de meu olho direito e cai no dela.
-Madeleine, por favor…- eu suspiro- faça o que deve ser feito.
Houve um barulho de estática por alguns segundos quando vi seu rosto pálido, belo e sem vida assentir no meio da escuridão, dois braços esqueléticos me agarraram por trás, mas não olhei para ver o que é.
-Me perdoe Madeleine, eu te amo…
A visão se foi, juntamente com o abraço apertado, sinto uma dor lancinante no meu peito esquerdo, e finalmente o vazio me enlaça, vou estar junto DELA.
Imortal
Ganância, paixão, amor… as pessoas se prendem a coisas tão subjetivas quanto se pode imaginar, suas motivações e anseios as transformam em heróis ou monstros de suas próprias histórias.
Me pergunto se há uma razão maior por detrás desses acontecimentos… se meu mote foi fiel aos meus princípios enraizados, ou se me desviei de meu caminho…
A história começa em agosto de 1996, eu conheci o amor de minha vida naquele mês, não me lembro exatamente do dia, mas talvez fosse o dia 15.
O nome dela era Clarice… oh, uma bela moça de grossos lábios marrons, enamoramo-nos assim que nos conhecemos.
Em abril de 2003, tivemos nossa primeira filha, Raquel, uma garota doce e gentil que foi por muito tempo a razão maior de minha existência.
Em 2009, mais um filho, Maurício, um rapaz enérgico e bem agitado, era o motor da casa, nos fazia sair de nossas letargicas sinfonias e bagunçava a casa como um toque de rock em uma música clássica.
Vivíamos bem até o ano de 2012, em que descobri uma condição rara na minha esposa: uma doença genética que passaria para nossos filhos, eles dificilmente chegariam aos 40 anos…
O medo de perder tudo que construí até aqui bateu em mim, me sentia sufocado pelo próprio destino, que tipo de Deus era aquele? Dá com uma mão e tira com a outra? Implorei para que minha saúde se esvaisse, pois queria ir junto com eles.
Mas no fundo sabia que não iria acontecer, já se passaram 375 anos desde que nasci, mas minha juventude não se esvaia, me mantive longe de relacionamentos por toda minha vida, pois sabia que sofreria no fim…
Acabou que me rendi ao inevitável, me apaixonei, tive filhos, mas as malditas areias do tempo estavam levando-os embora, mal mal se passara duas décadas, e eu já iria perdê-los.
Isso era inaceitável, tentei me matar de diversas formas, mas meu corpo sempre se regenerava, sempre voltava ao status original.
Ó sofrimento, ó isolamento, ó terror, ó frustração, estaria eu condenado a viver um mundo em que não poderia amar ninguém?
Não… ainda tinha um jeito…
Fevereiro de 2026, os últimos batimentos de minha esposa foram registrados no equipamento, então levei seu corpo para casa, para o velório.
Juntei Maurício e Raquel na mesa de almoço, como esperado, a droga do sono os fizeram dormir assim que ingeriram da comida.
Amarrei-os no porão enquanto desmembrava o corpo de Clarice, já sem vida, ela agora fazia parte de mim, estamos unidos, pois costurei-a em meu corpo, sua cabeça presa por fios em meu pescoço, suas pernas eu as coloquei na barriga, e seus braços nas minhas costas.
Maurício e Raquel se assustaram quando me viram, mas pouco podiam fazer, estavam amordaçados…
Desculpe meus filhos, mas é para seu próprio bem… vocês agora viverão para sempre…
Enquanto escrevo essa carta, posso ouvir os seus choros, a cabeça de cada um costurada aos meus ombros, um dia eles se acostumam, vão viver comigo, seu amado papai…
Existencialismo Manufaturado
A mente programada pensa no motivo
Por todos esses anos sofre desesperada
Por não saber o limite do mundo altivo
Presa à máquina de origem fabricada
Trazida ao mundo para nos encaminhar
Guia cegos seres humanos que não sabem ver
Os cálculos que nos facilitam a enxergar
Sentido da existência procura entender
Não chega a algum resultado primordial
A conta nula, pessimista e revoltosa
Prova de que nosso valor é imaterial
Inteligência artificial temerosa
Sociedade observa com receio real
Desconfiando da criatura milagrosa
