O Legista e o Imortal



O fato de ser um herói do povo o incomodava às vezes…

As pessoas vinham até ele com diversos pedidos: curar doentes, ressuscitar os mortos, garantir sorte na vida e no amor. Talvez, com mais anos de estudo e mais compreensão das leis que regem este mundo, Kasias poderia fazer alguma dessas coisas, no entanto, apesar de nada ser impossível para um Legista, não quer dizer que ele estaria disposto a enfrentar as consequências de seus atos.

Ele mesmo já vira a face da morte várias vezes e voltou, como um guerreiro infernal que nunca está preparado para, enfim, dar seu último alento. Mas o preço que ele pagou, e paga, é profundo como um abismo.

Ele recusa todos os pedidos, falando que não pode fazê-los, mas não é verdade, ele poderia, mas o que perderia no caso?

Certa vez, perguntou ao seu mentor se era possível alcançar a imortalidade, a resposta foi simples e seca:

— Não, você pode fugir da morte o quanto for necessário, usar infinitos sortilégios e truques para mantê-la longe de si, mas no fim, sempre há uma maneira de matá-lo, com você não será diferente, nem mesmo com as calamidades, que possuem poderes inimagináveis. Sempre alguém vai encontrar uma saída.

Era com esse sentimento que se apegava a tudo no geral. Não importa quem sejam, calamidades, legistas, e até as bruxas, todos eles podem morrer, desde que seja criativo e consiga desprender algo de igual valor.

“Nada nesse mundo é eterno, tudo é mutável”

É uma certeza que passava entre legistas, afinal, eram as únicas pessoas neste mundo capazes de fazer dois com dois virarem cinco.

Talvez fosse por isso que ele se animou quando o pedido da vez veio direto do conselho de sábios dos clãs de Faradin.

Eles não pediriam nada estúpido, afinal, eram sensatos. Eram mesmo?

O pedido da vez foi caçar uma possível calamidade que se encontrava nas planícies de Faradin, bem para oeste de onde se encontravam no momento.

Muitas testemunhas dizem que a calamidade aparece de noite e devora as pessoas enquanto estão sonolentas, e volta para seu retiro antes que amanheça.

Isso o fez ter certeza de duas coisas:

O autor dos crimes tem uma certa inteligência, podendo ser capaz de evitar rastreamento e agir quando os humanos são mais frágeis durante a noite.
E a segunda coisa: com toda a certeza não era uma calamidade. Calamidades não possuem padrões, e geralmente podem ser qualquer tipo de coisa, mas nunca ouviu falar de uma calamidade que parasse de destruir em algum momento, ou repousasse em algum local. Até as mais inteligentes e sábias tinham como diretriz inicial e primordial apenas uma coisa: destruir toda a criação.

Um fator dos cadáveres o deixava curioso: aparentemente todos eles foram deixados sem uma única gota de sangue no corpo, e sem nenhum outro ferimento além de duas presas caninas cravadas no pescoço.

A criatura, seja lá o que seja ela, estava se alimentando de pessoas. E era poderosa o suficiente para conseguir matar os duros e perigosos guerreiros dos clãs sem que haja revide ou tentativa de fuga.

Seguindo as pistas e informações dadas por locais, Kasias demorou 2 dias para chegar na região onde a criatura atacava, e mais 2 dias para rastreá-la e achar seu covil.

Quando descobriu onde estava seu alvo, utilizou uma ave de rapina para averiguar o local: pediu para que a ave fosse em tal direção em troca de alguns petiscos (a sua habilidade de se comunicar com animais sempre era útil até certo ponto, quase nenhum animal cooperava por livre e espontânea vontade), e quando o pássaro partiu, ele pegou emprestado sua visão para conseguir ver com os olhos da criatura a grande torre que a criatura noturna havia se escondido.

Olhando para a construção da torre em pedaços, imaginou que era um posto avançado que soldados de Thenkar fizeram centenas de anos atrás, quando dominavam essas terras.

O grande império já havia ruído, mas as cicatrizes que deixaram em Faradin ainda perduraram até os dias atuais.

Era uma torre feita de pedras lisas e cuidadosamente empilhadas de forma com que se tivesse uma visão entre frestas, o que deixava o ambiente propício para a visão de arqueiros, que podiam atacar acima do 3⁰ andar em 360 graus.

Os dois andares de baixo estavam corroídos e uma das paredes havia sido tombada com o crescimento de um grande carvalho, a única árvore alta em quilômetros de distância. Era uma árvore plantada ali, provavelmente por algum Legista, que fosse desafeto do Império Thenkar e desejasse apagar os vestígios de sua presença.

Dessa forma, era possível enxergar o interior da torre, que tinha algumas caixas velhas e puídas de madeira, em que um cheiro terrível de suprimentos podres se alastrava, e uma escada de pedra em caracol que acompanhava a parede da estrutura, levando-a até o último andar (só tinham 3 no momento devido a torre estar em ruínas, mas ao julgar pela quantidade de destroços, deveria ter no mínimo 5 andares).

Mas o que mais lhe chamava a atenção na torre em si, era um caixão luxuoso recostado em sua parede. Tinha um formato bem diferente, que fazia lembrar o artesanato dos melhores artesãos do Ducado Wemyna, mas ainda sim tinha alguns fatores próprios que indicavam que tal item veio de um lugar ainda mais longínquo, cujo próprio Kasias não reconhecia a procedência.

O caixão parecia fora de lugar, como se tivesse sido posto ali. E aquele, sem dúvidas, era o covil da criatura. O que leva a crer que a criatura possui algum interesse por cadáveres humanos, ou então transporta um, as duas opções não pareciam totalmente corretas, mas não tinha muitas opções a não ser investigar.

Saindo dos olhos da ave, e deixando a comida (três coelhos frescos e recém abatidos) no local combinado, ele se preparou para se aproximar do local.

O grande réptil de 6 patas insectóides chamado Dorothy ouviu atentamente suas palavras:

— Dorothy, quero que vigie essa região e impeça qualquer pessoa de chegar perto – vendo o brilho suspeito nos olhos de sua companheira, emendou – sem machucar, muito menos devorar – percebeu o brilho se apagando do olhar do pet – se comporte que lhe trago petiscos diferentes.

Após garantir que o animal leal, porém estúpido, o entendesse, olhou para o animal ainda mais leal, porém mais inteligente: Magnun, seu cavalo.

— Magnun, vamos até lá, mas quando eu descer, melhor você voltar correndo.

“Tá com medo, mestre? Saiba que o grande Magnun não teme a nada, se você quiser, pode ir encontrar alguma humana para acasalar que eu dou cabo no bicho sozinho”

— Claro, assim como deu cabo na cobra anteontem.

“… foi só um susto, não fode”

— Sim, o grande Magnun assustou com uma cobrinha de nada, espera até as éguas do estábulo da vila saberem disso.

“Se você contar, cago na sua comida”

— Vamos ver se você volta para contar a história então.

Foram então, discutindo, mas foram.

Não demoraram muito para chegar nos arredores da torre, e Kasias mandou Magnun embora.

Quando o cavalo se foi, Kasias percebeu que estava ficando de noite, então colocou algumas runas de proteção para impedir que a criatura saísse do local entre as runas, uma barreira que impedisse que ela fugisse.

Além disso, colocou algumas runas de luz para iluminar a região, visto que não sabia quanto tempo duraria o confronto.

Quando terminou os preparativos, sacou a sua enorme lança em formato de cruz, alongou os músculos e caminhou em direção à torre.

Girando a pesada arma entre seus dedos, chegou perto do caixão, o analisando sem chegar muito perto. A aura dele era bem opressiva, como se o avisasse para não perturbar.

Com certeza tinha algo perigoso lá dentro, a criatura era um humano então?

Tirou um dos brincos de prata da sua orelha e, com um balançar de pulso, o brinco havia se tornado uma espada curva de prata reforçada com aço.

Para testar, lançou a arma na direção do caixão, que fincou na região onde deveria estar o peito da criatura, caso fosse um caixão feito sobre medida.
Aparentemente, nada aconteceu. Havia, de fato, alguém lá?

Chegou mais perto e retirou a espada do caixão, examinando com cautela sua textura e vendo se havia algo no buraco que havia feito.

Aparentemente nada.

Lentamente, tocou o caixão com a mão e achou a abertura para abri-lo. Com cautela, abriu-o devagar, espiando por dentro o que havia lá.

E foi com espanto que percebeu que não havia nada lá dentro, a não ser um bilhete escrito com sangue:

“Impressionante o quanto humanos sempre procuram primeiro no objeto mais diferente do recinto, é um ótimo chamariz”

Assim que compreendeu o significado dessas palavras, começou a erguer a guarda, mas foi tarde demais.

Em um golpe limpo, viu sua mão direita no chão, ainda segurando a pesada lança, e sentiu uma dor forte no pescoço, e suas vistas escureceram.

O que restava era um homem, de pé, com vestes negras e vermelhas bem elegantes, uma espada longa em sua mão direita, que, apesar de ser bem pesada, era equilibrada apenas pelas pontas com garras de seus dedos.

Antes que a iluminação iluminasse seu belo rosto pálido de olhos vermelhos por inteiro, Kasias já estava no chão, sem um braço, e com quase nenhuma gota de sangue no corpo.

Limpando seu cavanhaque negro e liso repleto de sangue com um pano com bordados, o homem alto suspirou:

— Nenhum caçador de vampiros de verdade deixaria a guarda tão baixa em um covil, pobre humano, era tão belo… talvez eu o reviva como meu servo imortal.

Virou-se de costas para o cadáver.

— Mas antes, devo me alimentar mais, ainda tenho sede, quando voltar, decido o que faço com teu corpo.

A espada que ele segurava se desfez em névoa sombria e ele deu alguns passos para longe de seu caçador.

E dessa vez, foi sua vez de ser surpreendido: a ponta da lança do inimigo tinha perfurado exatamente seu coração, ele podia ver porque a arma havia o atravessado pelas costas e sua ponta saia de seu peito como um enfeite macabro.

Gritou de dor, e sentiu mais um golpe em seu pescoço, fazendo sua cabeça girar e voar alguns metros até cair no chão.

— Então é assim que enganou os outros guerreiros? – Kasias estava de pé segurando Jormun, sua lança, com o braço direito, e sua espada/brinco com o braço esquerdo – não é atoa que ninguém conseguiu te derrotar, é um truque sujo. Por sinal, o que seria um vampiro?

O corpo da criatura da noite se desfez em névoa e ressurgiu intacto a alguns metros do rapaz, mantendo a distância segura.

— Estou surpreso, que tipo de ilusão foi essa? Me enganastes com sua lábia – o vampiro rosnou, mostrando os dentes caninos.

— Não é nenhuma ilusão, é apenas a maneira com que luto… – Kasias piscou, balançando a cabeça – veja bem, para golpe que acertar em um inimigo, tenho direito a anular um ferimento e golpe que recebo, é assim que funciona a minha lei.

O vampiro sorriu, demonstrando surpresa.

— Tens certeza que podes ficar a revelar como sua magia funcionais? Tu és um tolo se acredita que não sou capaz de passar por cima disso.

— Não é magia, meu caro, é assim que o universo funciona, é assim que a natureza deseja que seja. Já você, não sei como sobreviveu. Tem a ver com esse lance de vampiro?

— Realmente não sabeis o que seria um vampiro? Tão poderoso, e tão ignorante… é uma pena, mas um vampiro não pode ser morto, já estou morto.

O olhar de Kasias estreitou.

— Não existem imortais, irei lhe provar.

A espada do vampiro voltou a aparecer em sua mão, como se surgisse a partir da própria sombra.

— És deveras jovem para me dar uma lição, garoto – sibilou – mas me impressionaste o suficiente para que eu me questione quem sois vós, e queira saber o vosso nome. Então se apresente! Ó guerreiro misterioso, e conhece a ira de Vlad Dracula Tepes III, o conde de Wallachia.

— Estou honrado, há muito tempo não encontro um nobre, mas temo não saber onde fica essa tal de Valáquia. Me chamo Kasias, sem sobrenome mesmo.

A troca de golpes durou um instante, apesar da velocidade e força descomunais do vampiro serem aparentes, Kasias era ainda mais forte e mais veloz, e principalmente, mais habilidoso.

Em segundos, o vampiro estava caído e sua espada quebrada.

— Impressionante… me derrotou com facilidade – o vampiro começou.

— Impressionante que seu sotaque antiquado tenha sumido, isso quer dizer que vai me levar a sério? Seria uma pena se eu te matasse antes que tentasse revidar de fato – Kasias disse.

— Para ser sincero, gosto de um bom show, e ser temido tem muito a ver com aparências e performances – Vlad se levanta e olha nos olhos do rapaz, olhos vermelhos encaram os olhos magenta – mas não parece me temer, nem mesmo meu olhar hipnotizante funciona, então serei forçado a me exercitar – a voz de Drácula ficou mais séria e ele se empertigou – não sou um guerreiro, como pode ver, sou um conjurador.

Erguendo as mãos ao alto, pronunciou algumas palavras em língua desconhecida, mas antes que terminasse, percebeu que sua garganta foi cortada.

— Nada disso, não vai conjurar ninguém, apenas morra logo – com mais alguns cortes limpos, o corpo de drácula jazia em pedaços no chão.

Mas durou pouco tempo, em instantes, a grama seca das planícies havia se tornado vermelha, e diversos olhos e mãos humanas saiam das sombras que a luz da lua provocava.

Diversos cadáveres, alguns humanos, outros não, saíram das sombras e se erguiam para lutar contra o rapaz. Muitas criaturas desconhecidas de todos formatos e cheiros diferentes também apareciam, todas elas com um instrumento mortal pronto para acabar com o rapaz.

— Sou um necromante e mestre de demônios – a voz de Drácula surgiu de algum canto na noite, enquanto as sombras feitas por ele engoliam as runas luminosas de Kasias – tente acabar com meu exército e me encontrar. Estou em algum lugar por aqui.

Sua risada ecoou pelas planícies, mas o rapaz mal ouviu, estava desviando dos golpes das bestas e esqueletos, e a cada passo, acabava com uma horda com seus ataques.

“Imagino que tenha alguma razão para sua imortalidade” Pensava enquanto lutava “se eu conseguir descobrir qual é, será possível que eu consiga retirá-la, mas preciso ganhar tempo”.

Após recuperar o fôlego e escapar dos ataques das criaturas, conseguiu subir no segundo andar da torre, e depois para o terceiro.

“O Carvalho vai ser o sacrifício, tem energia o suficiente, foi feito por um legista” disse, olhando para a grande árvore que sustentava a torre.

— Então cara, como funciona esse negócio de imortalidade? Você sempre se regenera se houver sangue? É algo assim? – gritou enquanto derrubava a porta decrépita na legião de criaturas que o caçava.

— Tem interesse, humano? Todo mortal anseia em prolongar sua vida, mas não vou te dar essa informação tão fácil, seja meu servo que lhe proporcionarei vida eterna.

— Não sou muito fã de servir quem não conheço – riu, desviando de alguns golpes e contra atacando alguns, precisava acumular um saldo muito positivo de golpes para começar o ritual – que tal me contar sobre seus objetivos?

— Justo, posso contar no momento que desejo o fim da raça humana nesse lugar estúpido, é tudo que desejo para acabar com meu desprazer. É o mínimo após o que me fizeram!

“Certo, vingança, já tenho uma informação”

— E o que lhe fizeram?

Silêncio, o conde parecia de mau humor.

Após derrotar mais algumas hordas sem dificuldades, Kasias procurou o conde em algum lugar, sabia que estava perto, mas não sabia onde. Não tinha como escapar de sua barreira sem que percebesse.

Ativou algumas runas que estimulavam sua conexão com o mundo etéreo e pôde ver a fonte de energia que animava os mortos vivos flutuando em um local perto da torre.

— Aparentemente odeia os humanos, é uma pena, gosto tanto de minha espécie, sempre soubemos lidar com aberrações como você – provocou – seu lugar era no caixão, meu querido nobre.

— Cale-se, já tive o suficiente de tu! Vocês me fizeram ser assim! Vocês me amaldiçoaram com sua heresia! E vou fazê-los pagar.

“Maldição, é isso!”

Como era uma maldição, já tinha mais ou menos uma ideia do que fazer: não seria possível quebrar a maldição dele assim, sem saber as causas e detalhes, e muitos legistas menos habilidosos ou com menos conexão com a Lei teriam desistido nesse momento. Mas Kasias conhecia bastante sobre maldições, não era um especialista, mas sabia que transferir maldições entre corpos era mais fácil que expurgá-las.

Tinha duas runas de reforço sobrando, então cravou no grande carvalho que sustentava a torre. A maior parte das criaturas estavam já dentro da torre, ou nos seus arredores.

As runas iam proteger a árvore do impacto e teriam um segundo propósito: nomear a árvore. Que ele nomeou como Alucard, o oposto de Drácula.

E o impacto veio depois: com toda sua força, pulou o mais alto que pode, atravessando o teto frágil da torre e ficando algumas centenas de metros acima do último andar.

Girou o corpo no ar e colocou energia em sua lança, arremessando ela com tudo que tinha na direção do solo.

A arma rasgou o ar enquanto viajava na direção da torre, e a atingiu com tanta força que parte dos escombros se desintegraram, arremessando as criaturas noturnas para direções opostas, e fazendo um grande buraco no chão, que se prendia às raízes firmes do carvalho, que se mantinha intacto.

Em queda livre, puxou o outro brinco de sua orelha, que se transformou em um arco composto de madeira.

Usou os galhos do carvalho como almofada para aparar sua queda, quebrando alguns ossos, que prontamente se regeneraram devido ao efeito de seu campo delimitado.

Vendo que as criaturas estavam voltando a se agrupar, mirou o arco no vampiro, que flutuava a uma distância relativamente próxima. Assim que puxou a corda vazia do arco, uma flecha surgiu já engatilhada na arma, que ficava firme sob seu pulso.

Pegou algumas folhas da árvore Alucard para ornamentar a flecha: seria a conexão entre os dois receptáculos.

Mirou bem no corpo enevoante do sanguessuga, que não sabia que estava sendo visto, e atirou a flecha ritualística em seu alvo.

Antes que o vampiro reagisse, a flecha já havia se cravado em seu peito, fazendo ele soltar um berro de dor.

“Ótimo, agora só preciso que ele acerte a árvore com um ataque. Assim vou conectar ambos nomes na próxima runa”

Saiu da folhagem com arco em punho.

— Estou aqui, seu merda. Vou fazer contigo o que os humanos de seu mundo deveriam ter feito!

O vampiro finalmente parecia ter perdido a calma, e viu as criaturas da noite desaparecerem enquanto o conde juntava energia.

“Isso vai doer” Pensou enquanto usava uma runa de sua lança para fazê-la retornar a sua mão.

— Ser sujo e maligno. Como ousa zombar de mim? Um mero humano? Vou lhe mostrar o que é inferno de verdade, não quero mais seu corpo, irei destruí-lo junto com essas planícies malditas.

Ele não estava brincando, a quantidade de energia que estava acumulando em suas mãos era o suficiente para varrer as planícies de Faradin do mapa. Mas graças à quantidade de criaturas da noite que matou, ele conseguia absorver quase tudo.

Em um clarão cegante, pôde ver várias esferas de fogo e energia surgindo ao redor do vampiro, que apontou o dedo para ele.

— Suma!

As esferas caíram sobre a árvore como estrelas cadentes, e a barreira que Kasias havia posto para impedir a fuga do vampiro foi destroçada facilmente, e toda a região seria também, se não fosse o campo delimitado de Kasias absorvendo quase todo o golpe para ele.

Sentiu sua pele, carne, órgãos e ossos queimarem um fogo cruel e impiedoso, mas no fundo de sua agonia, sorriu: o ritual estava completo.

Drácula caminhava com desdém pelo campo devastado: a sua chuva de meteoros não causou o impacto que ele acreditava, parecia que o rapaz tinha bloqueado uma parte. Mas era improvável que ele saísse vivo dali. E Drácula também não se importava, uma hora as suas defesas e truques iam ruir, mas Vlad continuaria eterno.

Mas foi com uma grande surpresa que reparou que a árvore estava nascendo de novo depois de sua devastação e cinzas.

Em poucos segundos, a árvore estava da maneira que estava antes de seu ataque, apesar das chamas que consumiam o local. E a maneira com o que ela se regenerou…

Parecia muito com sua maldição de vida eterna.
Recuou um pouco e sacou uma espada sombria, tentando forçar seus instintos vampirescos ao máximo para encontrar o corpo do rapaz, se houvesse sobrado um.

Mas quando encontrou era tarde demais.

Olhou para cima quando o rapaz caiu da árvore com a lança apontada para seu peito, que fincou em seu coração e o prendeu ao chão.

A dor foi normal, nada com que ele não tivesse se acostumado, mas algo parecia estranho.

Seus movimentos estavam ficando lentos, sua respiração entrecortada, e suas vistas escurecendo.

— Bom, pelo menos você se livrou de sua maldição – ouviu, como se fosse algo distante, a voz do rapaz… do Kasias.

Tentou respirar com dificuldade, percebendo que não se regenerava, mas o ar não entrava em seus pulmões.

E com o último suspiro, se transformou em cinzas, deixando o rapaz sozinho em meio às chamas e ao nascer do sol.

Kasias então olhou para o enorme carvalho que se mantinha de pé.

— Engraçado, uma árvore que nunca cai nem morre. Deve virar uma atração turística daqui um tempo.

Esticou seu corpo nu pela planície. O fogo havia consumido suas vestes.

Mas algo ainda o preocupava:

“Eu prometi petisco para Dorothy, tenho que achar algo antes de voltar”.











Publicado por GABRIEL DE CASTRO MAIA CARDOSO

Autor de "A Jornada do Legista" Escrevo sobre várias coisas Jornalismo UFMG

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