Golpe na Estrada

Fannách voava acima da floresta de Lornwood, embora ele não saiba que floresta era essa. Como tinha recém saído do Mundo das Fadas, não sabia nada da geografia ou cartografia do Mundo Terreno, e na sua bolsa de couro de Üllok das Estepes, trazia suprimentos e alguns artefatos mágicos, mas nenhum mapa.O lar dos Homens não era de todo estranho para ele, afinal, ele nascera alí. 

Decidiu parar um pouco para descansar, suas asas estavam doloridas e sua barriga roncava, era hora de, no mínimo, fazer um lanche.

Sentou-se em uma clareira pequena na floresta e com um encantamento rápido, botou fogo em uma pilha de galhos secos, a única fonte de luz que iluminava o denso ambiente florestal, cuja copa das árvores praticamente impedia a penetração da luz da lua e das estrelas.

Suspirou, estava feliz, sentia o cheiro da natureza, o fluxo de mana estava agradável aquela noite, como se fosse a visão de um mar sem ondas: límpido e translúcido. 

Ouvia o farfalhar das plantas, a respiração dos animais noturnos, e, acima de tudo, sentia-os como parte de si.

A habilidade de ver e redirecionar fluxos de mana era incomum até mesmo para as fadas, mas para um humano? Mais ainda, não existem registros que sustentem que uma pessoa dessas realmente existiu no passado.

Mas Fannách é um humano, ou ao menos era… Para resumir, ele era uma criança verde: fora raptado ainda recém nascido por fadas e foi criado lá, em Avalon.

Ele realmente não ligava para isso, não é como se estivesse destinado a uma vida incrível, as fadas lhe fizeram um favor de deixá-lo determinar seu próprio destino: ele agora decidia o rumo de sua vida. 

Enquanto comia um pãozinho feito de fibra de salgueiro, trigo e mel (chamado Gëllen), ele sentiu um arrepio correr pela sua espinha.

A mana do local, antes sublime e pacífica, agora estava agitada, como se uma tempestade estivesse vindo

Ele olhou para o “mar” translúcido de mana e viu algo borbulhando nele, bolhas da mais profunda escuridão empesteavam o ambiente, e a temperatura do local parecia ter caído o bastante para causar choque térmico em alguns animais.

Ele sabia o que era isso: a Procissão do Rei Esquecido, um lendário grupo de guerreiros liderados por um Rei de um passado distante, cujo nome a história já se perdeu.

Se tornaram folclore no mundo das Fadas, o Rei e sua comitiva eram temidos até pelos lendários heróis e pelos guerreiros mais valentes.

É dito que quando eles aparecem, nada pode impedí-los de conquistar seu objetivo, nem mesmo um deus.

Mas Fannách não era um dos caras mais sensatos no mundo das fadas, assim que se recuperou do susto, mostrou um enorme sorriso.

— Vou aloprar eles – uma risadinha passou pelos seus lábios.

Engoliu o resto de seu lanche e levantou voo, procurando a tão famosa comitiva.

Não precisou se esforçar, só seguiu o fluxo de mana corrompido, e lá estava: 12 espectros translúcidos em seus cavalos negros, mais um espectro que cavalgava à frente, com uma coroa de cobre repleta de joias em sua cabeça. 

“Aposto que nem me perceberam”  pensou Fannách com um tom sarcástico “são tão confiantes e cheios de si que não acham que terão conflitos em sua jornada” voou um pouco mais longe, ao céu “sorte que o bom companheiro Fannách está aqui para ajudá-los”.

Fez um pequeno encantamento ilusório, imperceptível a eles, que nem se preocupariam em tentar perceber algo além, e então pousou na frente da comitiva com graça de um nobre estendendo a mão para os transeuntes espectrais:

— Alto lá!!! – fez a cara mais séria que pôde e firmou os pés, bloqueando passagem.

O Rei Esquecido levantou a mão para seus oficiais pararem, ele parecia mais intrigado que intimidado. “Mordeu a isca” pensou Fannách. 

— Quem sóis vós? – a voz do espectro, fria e arrastada ecoou em sua mente.

— Sou o guardião desta floresta – disse, batendo uma continência exagerada – Você tem as credenciais?

Os cavaleiros entreolharam-se por alguns instantes e caíram na gargalhada, mas o Rei continuou com um olhar sério.

— Afaste-se garoto, não ouse interromper meu caminho.

— Sem problemas, só peço que me entregue as credenciais – disse com uma voz mais firme.

O espectro na frente decidiu que não estava mais afim de perder o tempo, e seguiu com seu cavalo na direção de Fannách. 

Mas o cavalo, curiosamente, relincha e se recusa a passar.

— Mas que? – ele olha para o cavalo forjado nas chamas do inferno e percebe que ele está com medo.

Olha novamente para Fannách ( que sorria internamente ao realizar que enfeitiçar os cavalos com uma magia de grau menor havia dado certo).

O antigo rei não sabia, mas na visão de seu cavalo, eles estavam à beira de um precipício.

— Você… como fez isso? – olhou enfurecidamente curioso para Fannách.

— Apenas peço suas credenciais. 

O Rei Esquecido suspira e decide jogar o jogo de Fannách:

— Que seria isso?

— A prova que você existe, tem que ter um documento provando que você existe.

— Ousa dizer que não existo? – o Rei sibila. 

— Sem documento, não tenho como saber.

O rei pensou em simplesmente matar Fannách e continuar caminho, mas algo em suas palavras o fizeram pensar: “preciso provar que existo”.

— Por acaso – disse, contendo sua fúria – como posso achar esse documento.

Fannách quase ri alto quando o Rei disse isso.

— Posso fazer um para você – ele pisca – só preciso de seu nome e uma declaração de alguém que te conheça e testemunhe por você.

Enquanto dizia essas palavras, fez mais um encantamento bem sutil no ar, um de confusão espacial.

O Rei Esquecido ficou em silêncio por alguns instantes enquanto Fannách puxava um papel em branco e entregava a ele.

O espectro olhou por um tempo para o papel, sem saber exatamente o que fazer.

— Pode escrever seu nome – Fannách disse, gentilmente – assine aqui – apontou para um risco no papel – aqui e aqui também.

— Eu… – a voz do espectro ressoou nos seus ouvidos.

— Que foi? Precisa de uma pena para escrever?

— Não lembro meu nome.

Silêncio sepulcral tomou conta da floresta, os próprios cavaleiros espectrais ficaram tensos.

— Então você não existe – suspirou Fannách – tudo que existe tem um nome.

Os cavaleiros se mexeram desconfortáveis, enquanto o Rei se mantinha calado.

— Mas não se preocupe, tenho uma solução para você: precisa achar 50 pessoas que te testemunharam e viram você fazer qualquer coisa, e reunir a assinatura delas.

— Ou eu posso simplesmente matá-lo e fingir que nada aconteceu – Disse o espectro, fazendo os cavaleiros atrás concordarem.

— Claro que pode, mas não vai provar que você existe – disse sem pestanejar – mas tenho uma solução para você, se quiser recorrer, só ir no nosso setor de reclamações à 500 metros a leste – puxou mais um objeto da mochila enquanto fazia um encantamento rápido – só usar essa identificação.

— Se eu fizer isso, você me deixa em paz?

— Obviamente 

O rei olha para o “identificador”: era um simples chapéu com uma marcação escrita.

Ele lentamente retira a coroa e entrega para um de seus cavaleiros, vestindo o chapéu. Vira seu cavalo para leste e segue sem dizer nada.

Ao ver todos eles afastando, rapidamente faz um feitiço para disfarçar sua aparência e levanta voo, parando exatamente no lugar onde disse que o setor estaria.

Antes que chegassem, criou um pequeno balcão feito de vinhas e uma cadeira no meio da floresta, se sentando e colocando um cachimbo na boca.

Alguns minutos depois, a comitiva chega ao local, o Rei com o estúpido chapéu escrito “otário” em linguagem faérica e seus 12 seguidores igualmente idiotas.

— Não precissar dizer nada dotô, meu irmãzinho já me passou o bilete – não sabia por que forçou um sotaque, mas isso não tornava a história menos engraçada.

Deu um trago no cachimbo e pediu para o Rei se aproximar, usando mais um encantamento de confusão, fez o cavaleiro que estava com a coroa entregá-la para seu suserano.

Já estava exausto, usou muitos encantamentos no dia, mas valeria a pena, falta só mais um e ele conseguiria derrotar a Procissão do Rei.

— Toma aqui seu permissón e pode me entregar esta chapé para eu aqui. 

O rei assim o fez, pegou o documento e retirou o que estava na sua cabeça para entregar à Fannách. 

— Prontinha, agorra está provado que o dotô existe. Pode passar.

Sem dizer nada, o rei coloca na cabeça a coroa e segue caminho.

Fannách ri sozinho por um tempo e observa o que roubara do rei. Mas era hora de escapar, uma hora ele vai perceber a troca, e vai vir atrás dele.

Mais a frente, na estrada, muitas testemunhas viram o Rei Esquecido passar com um chapéu escrito em faérico: “otário”.

E mil anos depois, sua coroa de bronze foi encontrada em um barranco, enterrada com uma nota: “favor entregar ao dotô”.

Negro Como o Sol (Versão Melhorada)

Há muito tempo, entre os astecas, acreditava-se que existiam dois deuses que brigaram pela supremacia do cosmos: eles eram Quetzalcoatl e Tezcatlipoca, respectivamente o dia e a noite. Mas eles disputavam sozinhos na imensidão do cosmos, sem propósito ou adoração. 

Em uma decisão súbita e impensada, na época do primeiro mundo antes do nosso, Tezcatlipoca se tornou o sol, com o objetivo de guiar e sustentar as outras criaturas. Contudo, como ele era de obsidiana e escuro, não emitia luz o suficiente para iluminar a terra, e então as criaturas da noite, os grandes jaguares, vieram e devoraram tudo, inclusive toda a criação.

Mas nem tudo estava perdido, visto que a esperança nunca deixou essas terras, então Quetzalcoatl veio e assumiu seu lugar, como um sol brilhante que afastava as criaturas noturnas, e Tezcatlipoca soube seu lugar: como o deus que vigiaria sobre a criação, mas sem o papel de protagonista, apenas como um espectador distante, sem intervir naquilo que falhara.

Isso era o que seu povo acreditava, e os mais estudiosos e experientes astrólogos e sacerdotes  do observatório de Tenochtitlán estavam em polvorosa para descobrir, afinal, por que o sol havia se tornado negro?

Em seu trono imponente, o rei Ollin se inquietava: seu nome fora lhe dado em homenagem ao sol, pois seu movimento cíclico e constante na natureza era uma das poucas certezas que alguém poderia ter. O sol sempre havia de fazer o mesmo trajeto, e haveria de nascer um dia seguinte. Ao menos, por tantos anos, por tantos séculos acumulados de tradições e observações, era isso que viam sempre.

Mas o cenário que observava agora, de sua posição privilegiada nas alturas do templo, era de profundo desespero.

Um aro escuro brilhoso, cuja própria luz parecia trazer a morte e o miasma maligno. Podia ver coisas rastejando sobre a superfície do sol, coisas colossais e inimagináveis; aquilo fez seus pelos eriçarem e seu coração tremer: Ollin já havia matado muitos guerreiros em batalha, sobrevivido a diversos ferimentos que deixariam o mais bravo dos homens em prantos e suportado tanta dor que os deuses duvidariam de sua resiliência, havia sido capturado e torturado por inimigos, a pele de seu braço esquerdo havia sido arrancada lentamente e consumida por aquele que antigamente chamou de irmão, mas em nenhum desses momentos seu coração se encheu de medo.

Ele sempre deu a volta por cima, e depois de demonstrar paciência e bravura, ganhou todas suas batalhas e desafios.

Mas aquilo… a visão de um sol sem luz, com sombras bruxuleantes que lhe enganavam as vistas, aquilo deixava toda sua alma repleta do mais puro terror. Mas não podia demonstrar isso.

Ahuacatlán, um de seus astrólogos, veio lhe reportar:

— Rei Ollin, temo ter más notícias para o senhor.

— Pois então diga-as, meu fiel sacerdote e irmão, qual foi a inspiração que os deuses lhe deram sobre o que está acontecendo com nosso amado sol?

Ahuacatlán suou frio, e engoliu em seco antes de dizer:

— Huitzilopochtli, nosso deus padroeiro, nosso guia e mentor, e entidade de nossa amada cidade nos deixou. Em vista de nos proteger, foi investigar o sol negro e consumido por suas chamas escuras.

Silêncio na sala, o coração de Ollin pesou-se ainda mais. A própria guerra e vontade de lutar de seu povo tinha morrido com a chegada do sol negro.

—  A busca de nosso deus… – Ollin quase fraquejou quando pensou que perderam sua proteção mais amada – foi frutífera? O que ele descobriu?

— Descobriu o corpo da serpente emplumada, que foi violada e consumida pelo sol negro, e por isso que o sol habitual não nasceu essa manhã. Pois assim como a serpente emplumada, o Quetzalcoatl, o próprio corpo solar foi devorado pelo novo sol.

— Então nossos deuses perderam para esse deus estrangeiro? – sua voz estava calma porque ele se esforçou muito para isso, mas sua alma estava prestes a quebrar em desespero – ele fez alguma exigência?

— Nenhuma, ele aparentemente apenas deseja consumir toda a criação e continuar vagando.

— Isso já não aconteceu antes? Qual foi a medida que os deuses tomaram?

— Aconteceu, o próprio Tezcatlipoca já foi um sol negro uma vez, mas não era ele que nos consumia, e sim as criaturas da noite. Quando percebeu que não podia nos proteger, cedeu lugar a Quetzalcoatl se tornar o novo sol.

— Então não temos essa opção?

— Não temos mais um sol brilhante.

— Qual a sugestão dos sacerdotes? O que podemos fazer?

— Não sabemos. É uma situação sem precedentes. Mas… Talvez se sacrificarmos pessoas o suficiente, a ira do sol negro seja apaziguada, e ele nos deixe em paz.

— Acredita nisso?

— Não tenho certeza, se o corpo de deuses não foi o suficiente para apaziguá-lo… quantos humanos seriam necessários? Temos tanto assim? E ainda tem mais um problema.

— Qual problema? – perguntou.

— Sacrificamos cinco escravos como experimento, mas aparentemente a alma dos mortos não está mais sendo enviada para nosso submundo, o Xibalba, está sendo diretamente absorvida pelo sol.

— Isso é terrível – finalmente o rei deixou as emoções tomarem conta de seu diálogo.

— Sim, mas no final de tudo, ainda há esperança…

— Qual seria? – após tantas notícias ruins, o rei precisava de uma boa para decidir o que fazer.

— Testamos consumir a alma de um dos escravos, e ela não foi para o sol negro, após seu filho Yolotzin comer o coração do pobre homem, foi constatado que uma parte de sua alma foi para o Xibalba, e outra ficou presente em seu filho. 

— Isso foi ideia dele? – tinha orgulho de seu filho, apesar da pouca idade, ainda aos 13 anos, sempre tinha uma solução engenhosa para se livrar de problemas, e amava o seu povo incondicionalmente.

— Sim, isso foi.

— O que acontece se ele morrer?

— Provavelmente será consumido pelo Sol negro, assim como sua alma, e parte da alma do escravo… mas a parte da alma do escravo que ficou no Xibalba não se corromperá, e continuará no submundo após o sol negro nos deixar.

— Os videntes disseram quanto tempo temos?

— Cerca de três meses. Até lá, o sol negro terá consumido tudo. Mas antes disso, provavelmente morreremos de fome, nada cresce com o sol negro, nossas plantações não estão mais sustentando nosso povo. Então duraremos no máximo um mês, e nossa alma será levada com o sol.

O rei Ollin não lamentou seu destino, não era de seu feitio. Se havia um problema, era sua responsabilidade resolvê-lo, ele era privilegiado por ser o rei, mas o peso do dever ainda era dele, ele era responsável por seu povo. E foi com isso que chegou a uma resposta:

— Quantos cidadãos livres temos atualmente?

— Cerca de cem mil.

— E escravos?

— Quase sete mil.

— Sacrifiquem todos os escravos e estrangeiros, e reúna todo o resto do povo para um discurso. E traga meu filho até aqui.

Quando os astrólogos e sacerdotes saíram, ele ficou sozinho por 15 minutos antes de seu filho chegar.

Esse tempo ele usou para se despedir de suas emoções humanas e de sua tristeza, chorando tudo que tinha para chorar pelos próximos meses em 5 minutos, e passou os outros 10 orando e se preparando para ficar apresentável para seu povo.

O palco que escolheu para seu discurso foi justamente o altar de sacrifícios da cidade-estado, o local que possuía mais visibilidade.

E se posicionando na mesa cerimonial, o maior de todos Astecas ergueu a voz para as milhares de pessoas que viviam em Tenochtitlan:

— Povo do sol! Escutem seu rei!

Assim que sua voz se ergueu, todos burburinhos, cochichos, assobios e pedidos de ajuda se calaram: confiavam em seu rei, ele era digno e capaz. Muitos presentes juraram inclusive que os próprios animais da floresta pararam de fazer barulho para escutar o que Ollin dizia:

— Estão vendo esse sol negro que corrompe nossas terras? – a tensão no ar subiu repentinamente – muitos tiveram a ideia de cultuá-lo ou de acreditar que era um de nossos deuses nos provando. Mas isso é mentira! Quem ainda acredita nisso, peço que se retire imediatamente de minha cidade e vá buscar abrigo com seu deus estrangeiro. Pois aqui é a terra de nossos deuses, a terra de Huitzilopochtli! O deus patrono da guerra! Que foi covardemente assassinado por esse estrangeiro – os burburinhos começaram novamente, mas um gesto de mão do rei Ollin os cessou – por que então defender a honra de um deus derrotado? Por que adorar aquele que perdeu? A resposta é óbvia: gratidão, esse deus nos protegeu durante centenas de séculos, sem nunca nos abandonar, e nos protegendo, foi covardemente assassinado. O que podemos fazer por ele é vingança! – todos pareciam concordar em uma emoção contida, balançando a cabeça e murmurando, até que o rei os silenciou – mas não posso pedir para que lutem comigo, afinal, o inimigo está roubando a alma dos mortos para se fortalecer. Quem morrer nessa batalha será consumido pela chama negra do sol e nunca mais viverá, não retornará para o ciclo da vida – esse era o sentimento que esperava: via pavor nos olhos de seu povo, e se lamentou por não ser forte o bastante para protegê-los, não ainda – Mas nem tudo está perdido, quero que testemunhem a bravura de meu maior orgulho: meu filho Yolotzin. 

Assim que disse isso, os cidadãos, em choque, viram a criança de 13 anos, mais parecendo um adulto orgulhoso e poderoso, surgir de trás de seu pai com vestes cerimoniais e uma adaga de obsidiana na mão. 

O jovem entregou a adaga de obsidiana para seu pai e ajoelhou na sua frente, dizendo:

— Ofereço-me a ti, meu senhor, meu pai, meu rei.

A multidão não sabia o que esperar a partir de agora, mas assistiu, impávida, o filho do seu rei, o seu príncipe se deitar na mesa cerimonial.

O jovem, de apenas 13 anos, estava pálido, temia por muitas coisas, principalmente por sua cidade, mas seu senso de dever era imenso, e ele tinha certeza de que ele estava fazendo a coisa certa para salvar a todos, e a si mesmo.

Dois guardas se aproximaram e fizeram menção de amarrá-lo na mesa cerimonial, mas ele disse:

— Não será necessário, não irei fugir nem me mexer.

Os guardas então se entreolharam e olharam para o Rei, que acenou positivamente com a cabeça. Então eles se afastaram e continuaram a assistir o macabro espetáculo.

O Rei Ollin, dotado de destreza impecável, pegou uma faca cerimonial e uma luva de garras de ferro. Com a faca, fez três cortes superficiais na altura do osso externo de seu filho, que fechou os olhos e suportou a dor.

Os três cortes foram necessários para delimitar onde seu coração estava, e seu golpe ser mais preciso.

Com um movimento rápido usando a luva de garras, atravessou o peito de seu filho, com pesar, e retirou-lhe o coração. Ao que o rapaz gemeu baixinho de dor, e desfaleceu.

O corpo sem coração de seu filho estava na mesa, e, mal contendo a emoção e o orgulho que sentia, mostrou o coração ainda pulsante dele para a multidão, que assistia atônita.

— ESSA é minha resposta ao sol negro.

Em duas ou três mordidas, já havia devorado o coração de seu filho.

— Yolotzin era conhecido como coraçãozinho, o nome que dei a ele, pois era pequeno e frágil. Mas se demonstrou mais forte e poderoso que qualquer outro guerreiro que já vi. E agora eu consumi seu coração e o mandei para o Xibalba.

Alguns pareciam entender o que o rei queria dizer, outros ainda processavam lentamente as informações. Com o rosto e corpo repleto do sangue de seu próprio filho, o rei se vira novamente para a multidão e estende sua mão direita como se pedisse algo:

— Povo de Tenochtitlan, me entreguem seus corações, irei consumí-los todos de bom grado e serei seu último refúgio antes que o sol negro nos engula. Prometo com minha vida, e minha posição como rei, que lutarei com ele e expulsarei sua tirania dessas terras. Enquanto isso, desejo que voltem ao Xibalba para se refugiarem, não há necessidade de lutar! Pois seu rei fará isso por vocês!

Uma parte da multidão se comoveu e começou a gritar de excitação e bradar gritos de guerra:

— Saúdem Ollin, o rei dos reis, o último bastião de nosso povo!

Mas outra parte, guerreiros orgulhosos, não aceitavam que seu rei lutasse por eles, e pediram para lutar também. Ao que seu rei disse:

— Vocês irão lutar. Preciso de cada coração e alma para me fortalecer, seus corações lutarão dentro de mim, mas não posso deixar que vocês sejam consumidos por ele. Então peço, para que de bom grado me deixem lutar por vocês e me deem forças para que eu possa enfrentar tal abominação.

Com essas palavras, eles entenderam, que agora o rei não era o rei, ele era todos. Ollin era Tenochtitlán, e eles lutariam com seu rei, junto de sua alma.

Pouco a pouco, Ollin consumia o coração de todos Astecas presentes, seu corpo se metamorfoseou em uma criatura medonha, de olhos vermelhos, asas cinzentas e grandiosas e rosto de morcego, suas vestes cerimoniais se fundiram ao seu corpo, e ele sustentava uma massa enorme de almas e corações com duas patas traseiras grossas e curvas, além de duas patas dianteiras curtas e atarracadas, com garras mais afiadas que qualquer metal.

No final da cerimônia, todos eram Ollin, e Ollin era todos. Cada mulher, criança, soldado, fazendeiro, clérigo, velho ou astrólogo era essa criatura que rondava pela floresta.

Essa ronda durou dias, e esses dias se tornaram anos, e esses anos se tornaram séculos, e esses séculos se tornaram milênios. Mas a vigília de Ollin não cessava, dia ou noite. E o Sol negro teimava em consumir tudo que ali havia, até que a terra havia se tornado um liso e sem graça tecido branco.

Nesse tecido branco, Ollin vagava, com sua mente perturbada pelos pensamentos de todos que se fundiram à ele. Mas tinha força para resistir ao temeroso sol negro, que não conseguia de jeito nenhum consumí-lo. 

A espera foi tanta, que o próprio sol negro, imponente e eterno, desistiu de consumí-lo, e passou a vagar novamente pelo espaço, procurando mais planetas e sistemas para destruir.

Assim, o céu só era iluminado pela luz das estrelas, visto que a lua não mais refletia o sol, e o sol não mais existia.

E foi com a saída do deus estrangeiro, que encontrou um antigo amigo, que nunca esperava encontrar em uma situação dessas:

O deus Tezcatlipoca, o grande Jaguar, estava lá, soturno como a noite, esperando por ele.

— Ollin, óh, Ollin, último dos reis astecas, como você demorou a me encontrar – apesar de não parecer debilitado, a voz do deus estava fraca como o sussurro de um velho prestes a partir.

A resposta de Ollin foi pouco mais de um rosnado selvagem, de uma criatura que há muito havia deixado de ser humana.

— Estou morrendo, Ollin, embora você não saiba o que é isso, seu corpo imortal será a única coisa que sobrará no plano dos vivos. Eu partirei, e comigo a noite também irá embora, assim como o submundo e a própria morte. Então tu vagarás para sempre nesse tecido branco que um dia foi seu lar.

Ollin estava inconformado, tudo isso para nada? Era a única coisa que sua mente perturbada conseguia pensar: nem o primeiro e último dos deuses havia conseguido fugir para sempre, e até o Xibalba iria embora, junto com a alma de todos que tentara proteger.

O único que sobraria seria ele, junto com parte dos habitantes, mas ainda sim, era intrinsecamente ele.

— Mas há uma solução, Ollin, uma que cheguei há muito tempo, quando refleti bem sobre as atitudes que você fez.

A criatura rosnou, confusa. Ainda havia um jeito? Depois de tentarem tudo sobre a terra e mais um pouco, haviam perdido, mas aquele deus lhe dizia que havia esperança.

— Tudo que preciso, é que confie em mim – Tezcatlipoca, o deus da morte, da noite, e de tudo que havia de ruim, sorriu.

Tezcatlipoca então lhe disse seu plano:

— A sua alma, e a de todos que consumiu, se perderá para sempre, mas será necessário para que haja vida na terra e no mar novamente. Você será a base para a criação de um novo mundo, você aceita?

Não precisou pensar muito para isso, e pela primeira vez em muito tempo, todas as vozes de Ollin concordaram em fazer algo.

— Aceito – sua voz gutural era fria, porém resoluta. Não sabia o que ocorreria dele, mas se fosse para reviver sua terra, nada mais importava, tinha que ser feito.

Ollin instantaneamente se prostrou e abriu os braços, impotente, ao que o grande jaguar atacou-lhe o coração e o retirou, brilhante e pulsante, contemplado com a alma de todos os Astecas.

Então o grande jaguar lançou o coração brilhante de Ollin ao céu, que se tornou um novo sol. Pegou sua pele e estendeu sobre o tecido branco, e seu pêlo se tornou a grama, seu sangue se tornou os oceanos. E suas asas, cortadas e espalhadas por toda parte, se tornaram montanhas.

E com seu último suspiro, Tezcatlipoca partiu e liberou as almas de todo mundo que estava em Xibalba pela terra. As almas que estavam pela metade foram incorporadas em pessoas e animais, e por estarem incompletas, até hoje procuram sua outra metade.

Vício

A cortina da noite descia sob o céu avermelhado do crepúsculo, o barulho intermitente das ondas ressoava em seus ouvidos, e o chilrear alegre dos pássaros aos poucos se calaram perante a crescente sensação do anoitecer.

Com o olhar fixo no seu oponente, calculou suas chances: a espada dele era uma Nodachi, também conhecida como “vara de pescar”, era uma Katana mais longa, com cerca de 1 metro e meio de comprimento da lâmina, e um cabo adaptado para comportar esse peso extra.

A postura do oponente indicava que ele usaria um golpe certeiro de baixo para cima, aproveitando o peso e o alcance da própria espada para partí-lo em dois.

Sabendo disso, alterou sua postura para aparar o golpe quando chegasse e acertar o oponente pela lateral direita.

Seu adversário percebeu a mudança de postura e se adequou ao estilo de combate escolhido: colocando um pé atrás do outro e virando de posição para atacar lateralmente.

Novamente, haveria de mudar a estratégia, afastou as pernas e embainhou a espada para usar um saque rápido como resposta.

Dizem que uma batalha entre samurais acontece mil vezes em suas mentes antes de ser decidida com um único golpe. E foi isso que aconteceu, durante vários minutos se estudando e mudando suas posições, finalmente chegaram à uma posição que os agradavam.

O samurai de espada menor avançou dois passos na areia da praia, enquanto o da espada maior avançou três.

O primeiro pegou impulso e partiu para cima de seu adversário, deslizando a espada na areia. 

Com um movimento ascendente, antes de chegar ao alcance da espada, jogou areia nos olhos do oponente, que atacou com um corte diagonal preciso. Ambas as espadas se chocaram no ar e deslizaram cada uma em direção oposta.

Perdeu a postura por milésimos de segundo, mas seu treinamento o fez se aprumar e dar o segundo golpe, que foi aparado pelo outro homem. Em mais um embate, a espada dele deslizou para baixo, e a enorme Nodachi subiu com força invejável, acertando sua jugular.

Foi tão rápido que mal percebeu o sangue jorrar de seu ferimento, enquanto via o mundo literalmente girar do ponto de vista de uma cabeça decepada.

A última coisa que viu antes da escuridão final, foi seu oponente limpando seu sangue da espada e guardando-a com delicadeza antes de virar as costas.

E tudo se apagou…

Quando abriu os olhos, estava em uma casa de chá, um homem alto e androgino vestindo um yukata (vestimenta tradicional do verão) estava olhando para ele com um sorriso no rosto.

Esfregou os olhos, confuso, e levou a mão à garganta, percebendo que não havia nenhuma cicatriz ou ferimento.

— Estou morto? – o samurai perguntou à figura misteriosa.

— Sim, está. Você perdeu o duelo, o único que perdeu – a voz feminina do homem disse como se estivesse debochando dele.

De repente, entra uma criança de feições comuns na sala e serve chá para ambos.

— Quem é você? – o samurai pergunta para a figura andrógina que o acompanhava na sala.

— Sou o porteiro, eu guio as almas para o outro lado.

— E como é o outro lado?

— Não sei, nunca fui lá – ele ri um pouco e se delicia um pouco com o chá – beba, é muito bom.

O samurai hesita um pouco, mas bebe o chá, de fato era uma delícia.

— O que estamos esperando aqui? – o samurai se impacienta – não era para você me conduzir para o Outro Mundo?

— Era sim, mas gostaria de entender algo primeiro.

— O que?

— Você gostou do chá?

— Gostei sim, mas não é isso que quer saber, ou é?

— Ainda não, não seja impaciente – a figura andrógina sorriu.

— Tudo bem, pode perguntar.

— Está nervoso por ter perdido o duelo? Ou algo a mais lhe incomoda?

Nesse momento, a mesma criança chega na sala e entrega a ambos um recipiente quadrado com saquê de ótima qualidade.

— Estou frustrado, não queria morrer assim, imaginava que poderia ganhar de meu oponente – confessou o samurai.

— Imagino – sorriu e se serviu do saquê – beba, está uma delícia.

O samurai, receoso, tomou um gole do saquê, era o melhor que havia tomado em toda sua vida.

— Está realmente bom… – disse, impressionado.

— Porque acha que perdeu?

— A espada dele era mais longa e mais pesada, eu deveria ter terminado a luta no primeiro golpe, após uma pequena troca de ataques, logo se provou que a minha espada não iria aguentar, e eu acabei morrendo.

— Foi uma análise fria do acontecimento.

A criança retorna levando uma linda mulher nua para a sala.

— Experimente-a – disse a figura andrógina – será a melhor que teve em toda sua vida.

O samurai pensou, hesitou, e refletiu. Para no final ser seduzido pela beleza da mulher. Tomou-a em posse ali mesmo, sem se preocupar com o olhar da outra figura.

— Voltando ao assunto, como realmente perdeu a sua luta?

— Fui impaciente – respondeu de supetão – queria terminar logo com ele e não consegui prever seus passos finais.

— Ótimo, estamos chegando mais perto da verdade. 

— Verdade?

— Porque você luta? – ignorou a pergunta do samurai.

— Por glória, fama, e para conseguir um futuro digno para minha linhagem.

A criança chegou com tabaco.

— Fume um pouco, vai te aliviar. 

O samurai, ainda mais hesitante, deu um trago no tabaco e realmente se sentiu bem relaxado.

— Porque você luta? – repetiu a pergunta.

— Por prazer, gosto de ver o inimigo morto aos meus pés.

O ser androgino confirmou com a cabeça, satisfeito com a resposta.

— Como acredita que vai ser o Outro Mundo?

A criança volta carregando ópio.

O samurai se insulta:

— Isso não usarei!

— Não se preocupe, não há como lhe fazer mal, você já está morto – diz isso e começa a fumar um pouco, relaxando sua fronte.

O samurai ainda recusa, mas a curiosidade fala mais alto, e ele se serve de um pouco de ópio, abrindo sua mente e o deixando completamente relaxado.

— O outro mundo? – continua o samurai – nunca pensei nisso, não me importo para dizer a verdade.

O samurai contempla a fumaça do ópio se dissipando enquanto reflete sobre a indiferença em relação ao Outro Mundo. A figura andrógina não parece satisfeita com a resposta, sinalizando para a criança levar o ópio embora.

— Como vê o outro mundo? – repete a pergunta.

— Tenho medo – confessa o samurai.

— Medo de que?

— Do desconhecido.

— Você conhecia tudo que vivenciou até então?

— Não…

— Está com medo do que vem vivenciando?

— Também não.

— Então não terá medo do outro mundo.

— Por que me oferece tantos vícios? – finalmente questiona o samurai.

— Não tenho motivo nenhum, apenas meu divertimento.

— Por que me ofereceu tantos vícios? – refaz a pergunta.

A figura andrógina sorri, e responde:

— Porque você precisa perder os seus vícios a partir de agora. Estava viciado em lutar, e perdeu, e estava viciado em viver, e morreu. Agora é hora de aprender que deve deixar tudo para trás. Mas antes, deve experimentar de tudo.

— O que mais falta experimentar?

— O vício da morte – a figura andrógina se levanta e estende a mão para o samurai – vamos para o outro mundo?

O samurai se levanta e pega na mão da figura estranha. E parte em direção ao final da sala, onde teria a experiência derradeira.

Chamas Cruéis D’outra Mulher

Ardentes chamas verdes
Liberam singelo sentimento
Por um breve e cruel momento
Sem que as brumas frias destes

Apaguem meu esmorecimento

Um fogo vil que desperta meu ardor
Uma promessa esquecida
Um falso e sorridente usurpador
Espera por cear em ceia cumprida


Tão forte quanto meu temor

Um som sai da minha boca, xingamento
Meu doppelganger de frias vestes
Recebe insulto como fracionamento
De duas mentes irmãs, em veios celestes

Eu sou o que me trás atordoamento

Na real, sou eu mesma minha dor
Imersa em culpa enegrecida
Crio criatura à mim parecida
Para culpar com todo fulgor

Sem que saibas… sou aquela que está entorpecida

O Baile da Aurora


Tonitro nunca tinha visto fadas tão belas antes: suas asas brilhavam em arco íris em meio às ruas e prédios prateados de Avalon, seus olhos eram semelhantes às mais belas pedras preciosas, e o sorriso de cada uma era tão resplandecente quanto as estrelas do céu.
Era uma procissão da rainha das fadas, Aurora, a fada que sucedeu Titania. Todas elas estavam passeando pelas ruas em carruagens flutuantes com diversas criaturas aladas que as acompanhavam. Elas estavam ali com apenas um motivo: divulgar para o reino das fadas o Baile da Aurora, um evento onde as mais belas fadas iriam dançar junto com a rainha.
Era o símbolo maior do glamour das fadas: as cores, as vestimentas… tudo gritava a magia. E foi por isso que novamente o coração de Tonitro se encheu de inveja.
Porque essas fadas viviam na esbórnia e na luxúria quando ele próprio era fruto da iniquidade e da malícia? Da miséria e da fome? Tonitro era uma fada como Aurora, mas ele nunca conhecera fartura, e os dias que teve as melhores refeições da vida foram os dias após a morte de sua irmã, Seidh, que morreu de desnutrição. Com menos uma boca para alimentar, ele conseguiu quase um banquete constituído por duas fatias de pão faerico.
Era comum que outros seres, inclusive humanos, achassem que fadas não se alimentavam, e que eram todos iguais. Mas não era verdade, nem todas as fadas podiam viver de mana pura, como as Tuatha de Danann, a maioria retirava a energia primordial de alimentos.
E quanto à igualdade… digamos que todas as fadas eram iguais, mas algumas fadas eram mais fadas que as outras.
Pixies, brownies, leprechauns, gnomos… todos eles eram considerados fadas de nível médio. Os elfos e as dríades de grau alto, mas Tonitro era um boggart, e boggarts não eram fadas de verdade, ao menos não segundo os demais… boggarts eram feios, e na sociedade das fadas, beleza é poder.
Diziam várias coisas de sua raça: que eram agressivos, que traziam azar, que eram teimosos e desobedientes, mas como mais poderia ser a reação de um oprimido contra um opressor? Depois de tantos anos sendo escravos de seus supostos semelhantes, como não serem agressivos? E por que sua presença causava azar? Por culpa reprimida daqueles que os maltratavam?
Talvez seja, mas foi por isso que Tonitro decidiu estragar de vez o baile da Aurora. Iria mostrar a todos sua hipocrisia e sujar os belos salões de Avalon com seu ódio.
Ele esperou as semanas passarem para que o dia do baile chegasse. E foi assim que seu ódio se acumulou em seu coração sombrio.
Nesse ínterim, fez uma fantasia espetacular com suas mãos habilidosas: com glitter artificial e papel feito de trigo feérico, fez um par de asas enormes que poderiam ser colocados em suas costas, que não só refletiam a luz do sol, mas criava a própria luz, com baterias feitas de mana pura. Também fez uma máscara de corvo com onix puro, e maravilhosamente lapidada, que havia roubado das minas em que trabalhava. Ele estava planejando aquilo há anos, e todo dia pegava um pouco das pedras e levava para sua casa.
Também confeccionou sua roupa de gala utilizando pêlo de unicórnio banhado em sangue de uma ninfa, fazendo uma magia tão poderosa de charme, que qualquer um que olhasse para ele se apaixonaria. E é claro, escondeu o que restou dos corpos do unicórnio e da ninfa bem longe de sua casa.
Vestindo sua fantasia e máscara, rumou para o castelo de Avalon, que era nomeado com o nome do reino.
Olhando a fila de fadas belíssimas e encantadoras na porta, admirou mais uma vez e invejou novamente o privilégio das demais. Sua raiva podia ser mesquinha, egoísta, mas era justificada: no reino das fadas, seu nascimento era tudo, ele nunca teria o status de uma fada superior, não importa quanto tentasse ou merecesse.
Ainda na fila da festa, ouviu o discurso de Aurora, a máscara de corvo disfarçando sua repulsa pelas palavras fúteis da rainha das fadas:
— Que o glorioso dia seja inesquecível, minhas belas fadas – Aurora começou com uma saudação típica – que seja lembrado a todos que aqui, em meu castelo, a elite das fadas está reunida, os seres mais belos de todos os planos estão neste mesmo salão para que seja enfim definido quem será escolhido como meu noivo e próximo rei das fadas.
Um barulho de aplausos cortou o discurso da rainha.
“Espero que aproveitem: bebam de minha bebida e comam da minha comida. Sejam felizes em meus aposentos e dancem à vontade, logo mais irei dizer os critérios de julgamento para o concurso. Que os olhos de Dunedin estejam sobre todos vocês!”.
Quando finalmente se pôs às vistas de todos, entrando no salão de danças com confiança, sentiu até a música parar um pouco para que todos o admirassem. Um terno de gala branco e dourado com detalhes em vermelho-sangue, asas que não só refletiam as luzes, mas produziam uma luz púrpura própria, que alternava para cores mais quentes dependendo do ângulo, um corpo esbelto e aparentemente musculoso por detrás das roupas, e uma máscara escura cintilante que parecia ser feita da própria noite. Todos estavam olhando para ele, e todos estavam apaixonados.
Quando a multidão se dispersou, os outros entraram no salão de danças. Era implícito que dançar bem era um requisito para ser o rei das fadas, fadas amavam festas e dançar. E os outros competidores, que estavam intimidados por sua presença, sabiam que a melhor coisa que podiam fazer era serem os melhores dançarinos. E torcer para que ele dançasse mal.
Enquanto as fadas de companhia chegavam para serem os pares de cada competidor, reparou que a maioria formava fila para dançar com ele. Se deleitou de prazer ao imaginar o rosto que fariam quando descobrissem quem ele é por trás da máscara.
Impecavelmente, dançou com todas as fadas que dispunham a dançar com ele, sejam machos ou fêmeas. Seus pés suaves deslizaram pelo salão sem fazer barulho, e sua cintura parecia ter vida própria. Até as fadas que não sabiam dançar dançavam maravilhosamente bem com ele. Era o poder de suas sapatilhas feitas de fibra de vidro de igreja e do chifre e do couro do unicórnio: ela fazia com que os movimentos de seu corpo pudessem ser controlados com mais facilidade, quase que um estímulo às suas sinapses.
E foi assim que novamente chamou a atenção de todas as fadas.
Continuou na festa, dançou, comeu, mas não bebeu. O álcool iria enebriar seus pensamentos e atrapalhar seus planos.
Quando chegou a hora da competição de canto, também surpreendeu a todos com sua bela voz e timbre afinado. Mais uma vez um truque: havia gravado o canto de um pássaro Rocca com um dispositivo, e ativado ele em seu terno, fazendo apenas a atuação de como estivesse cantando por conta própria.
E foi assim que passou a noite, até que chegou à hora da decisão: três da madrugada.
Os pretendentes se alinharam em forma de “U” na frente de Aurora, que detinha um sorriso satisfeito.
— Muito bom, minhas fadas, vocês foram excelentes. A beleza de seus talentos ficará para sempre incrustada na memória de todos que estão aqui. Mas agora só um de vocês será escolhido por mim como digno de ser meu marido.
Havia tensão no ar… todos, exceto Tonitro, estavam apreensivos com o resultado. E então Aurora continuou:
— E então anuncio a vocês meu escolhido: aquele que se destacou em todas competições, chegue mais perto, fada da máscara negra, e conte-nos seu nome.
Tonitro se empertigou, já esperava por isso. Pomposamente, desfilou em meio aos aplausos e burburinhos de inveja que ecoavam no salão.
Agradecendo os aplausos, fez uma reverência à multidão, e se ajoelhou perante a rainha, beijando-lhe uma das mãos levemente.
Ouviu algumas fadas suspirarem perante ao seu gesto, e sorriu.
— Minha digníssima e bela Aurora, minha rainha e pretendente, tenho o prazer de me apresentar oficialmente: meu nome é tonitro.
— Tonitro? Um nome incomum para uma fada, de onde é, Tonitro? – a rainha ergueu uma das sobrancelhas, em surpresa.
— Antes que diga, poderia dizer algumas palavras?
— À vontade, dê seu discurso.
— Antes de mais nada – disse, voltando-se para a multidão – gostaria de relembrar o quanto a sociedade das fadas é uma sociedade que valoriza a beleza e o status, e deixar minha solidariedade à quem nasceu feio.
Todos riram.
— Mas não posso fazer nada, alguns nasceram para a grandeza, outros não. Certo?
Murmúrios de aprovação em todos os cantos.
— Dito isso, acredito ser mais bonito que todos aqui.
Dessa vez teve um silêncio constrangedor, todos olharam nervosamente para a rainha, que estava impassível.
— Não pela aparência, talvez, mas me julgo muito mais belo internamente que vocês, suas criaturas podres e mesquinhas! – as últimas palavras foram ditas em alto tom, vociferando. O que assustou os mais próximos.
Estava todo mundo em silêncio, tenso com o que estava acontecendo.
— Me escolheram como o mais digno. É bem curioso isso, afinal, nunca olharam para mim antes… mas agora vão gravar minha imagem em suas mentes podres! – retirou a máscara e a arremessou ao chão, que espatifou em pedaços. As suas asas também se descolaram de suas vestes.
Olhou para o rosto surpreso de todos presentes, que processavam o acontecido. Orgulhosamente se deleitou de sua surpresa, até que um barulho inesperado o tirou de seu torpor megalomaníaco:
Era o barulho de risadas.
O primeiro a rir foi um nobre fada que estava servindo as bebidas. As outras se contagiaram e começaram a rir também, apontando para a rainha e para Tonitro e caindo na gargalhada.
— A rainha vai casar com a aberração! – diziam, rindo e segurando o abdômen.
A rainha, em choque, olhava ao redor desesperada.
— Parem, parem.
Eles se aproximavam e riam, para o horror de Tonitro, não era a reação que esperava.
— Olha lá o monstro, vai fazer filhinhos monstros com a Aurora – riam e apontavam o dedo – vamos vê-los procriar.
Uma fada mais ousada chegou perto da rainha e rasgou-lhe parte do vestido, outra jogou um pedaço de fruta mordida em tonitro. Elas foram se aproximando cada vez mais.
— Parem! Socorro! – Aurora gritava – eu sou sua rainha! Guardas!
Os guardas não socorreram, estavam ocupados rindo.
Um Elfo chegou perto de Tonitro e deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair no chão, atônito.
Uma ninfa fez o mesmo com a rainha, e o resto circundava ambos rindo e lançando comidas.
Sentiu dor quando uma fruta acertou seu cocuruto, mas sentiu ainda mais dor quando uma fada lançou fezes em seu rosto.
Eles estavam descontrolados em sua euforia. A rainha ainda gritava:
— Parem, não sou feia, ele que é! A culpa é dele!
Eles não se importavam, continuavam a despi-la e agredi-la com socos e pontapés. Uma fada próxima arrancou uma parte de seu couro cabeludo com as próprias mãos e saiu rindo.
Tonitro estava no chão, encolhido, enquanto elfos chutavam seu corpo inerte.
“É isso que mereço? Eu só queria… só queria ser admirado” ergueu os olhos sangrentos para a multidão e sentiu muito medo, tanto medo quanto sentiu em toda sua vida pregressa. “É verdade… como poderia imaginar uma reação diferente? Durante toda a minha vida, nunca fui da mesma espécie que eles.”
Mais tarde, nos arredores do castelo, os corpos desmembrados de duas fadas estavam sendo carcomidos por ratos. Ambas extremamente iguais em sua grotesca imagem, e nenhuma exalava qualquer sinal de beleza e encanto.
Ao fundo, seres muito belos se divertiam em volta de uma fogueira, dançando e prendendo em estacas duas cabeças: uma feia e uma bela.





Este Sentimento Nostálgico

Grãos de areia percorrem a ampulheta febril
Fio do tempo, outrora correu, a muito se partiu
Confusão instala em montes de grãos a acumular
Memórias que se esvaem, perdidas sem cessar

Eu sei…

Que em meio a todas essas ondas do rio Lete
Uma única sensação incômoda se repete

Ainda estou aqui…

E apesar da casca envelhecida que me envolve
Minha consciência, se afogando, respira enfim
Nesse momento de lucidez que se revive
Que me faz desejar pelo fim

Nessa lucidez vejo os rostos desconhecidos
Iluminarem-se com uma percepção vigília
Estas pessoas com olhares abatidos
Estão cuidando de mim, são minha família

Sorrindo em meio à dor do esquecimento
Estou seguro em meio ao tormento
Lucidez se acanha com o vento
Das planícies psíquicas em alento

Descanso novamente, perco discernimento
Essa sensação, neste exato momento
A nostalgia é um bálsamo, um sentimento
Que se dissolve em singelo exaurimento


Uma homenagem ao meu pai, que sofre de Alzheimer

A Andorinha e o Cipreste

Num bosque muito distante da civilização, vivia uma andorinha pomposa e sorridente. Seu nome era Júlia, e ela amava cantar e dançar.


Mas apesar de parecer feliz por fora, por dentro ela era muito insegura e tristonha: ela não tinha habilidades especiais como os outros animais, não conseguia se proteger dos predadores e vivia se mudando, nunca tendo um lugar para chamar de seu.


Então por mais que ela cantasse a plenos pulmões na floresta, suas melodias tinham um tom melancólico audível, e foi isso que chamou a atenção de um grande cipreste que vivia por ali.


— Por que cantas tão triste, pequena andorinha? É uma música linda, mas percebo a desesperança em sua voz – a árvore disse de forma lenta e ritmada, como se o tempo não importasse para ela.


— Ah, grande cipreste, não sabia que estava ouvindo meu lamento – a andorinha parecia envergonhada – meu nome é Julia, e eu estou triste porque não tenho casa.


— Eu estava ouvindo sim. E porque quer uma casa? – a grande árvore parecia curiosa.


— Muitos animais têm: os esquilos moram dentro de você, formigas têm o formigueiro, castores moram perto de represas, e até os grandes leões possuem um território para chamar de seu. E eu sempre vivo me mudando e viajando – Júlia faz uma pausa e olha para a árvore, e chega mais perto, em um de seus galhos, para continuar conversando – todos parecem tão felizes em seus lares, queria eu ter um.


— De fato, é muito bom ter uma casa. Veja bem, minhas raízes são fortes, tenho tudo que preciso aqui: água, nutrientes e luz do sol. Você realmente é uma coitada, alguém sem casa não pode ter o conforto que eu tenho, você deveria de ficar vagando por aí e se aprumar em um local, ou então não vai ter sentido sua vida.


— Porque não faria sentido? Minha vida não faz sentido?


— Claro que não. Você pode viver várias aventuras, mas não tem um local para voltar depois delas. Eu mesmo nunca saio daqui, mas já vivi diversas aventuras: animais vêm e vão, me contam suas histórias, tempestades aparecem e ameaçam minhas raízes, mas eu me mantenho orgulhoso e altivo até tudo passar.


— Não tem vontade de conhecer outros lugares? Ver outras paisagens? Conhecer o mundo?


— Não preciso, tenho tudo que quero aqui.


— E não quer nada mais? Não consigo viver uma vida assim, preciso sempre conhecer novos lugares, viajar e me movimentar – Júlia se surpreendeu – acho que não sirvo para ter uma vida de valor como você, não vou construir nada, quero continuar viajando, um lar seria bom, mas a experiência de viajar é melhor ainda.


— Então é uma tola. Para que conhecer mais coisas se tudo que precisa já está aqui? Para que quer conhecer o mundo, se tudo ao seu redor já é tão bom? É perda de tempo. Isso na verdade se chama cobiça, é algo errado, não se deve desejar mais do que se já tem!


— Porque cobiçar é errado?


— É um desrespeito ao que você já tem,querer mais é duvidar da mãe natureza, e dizer para ela que o que ela lhe ofertou não é o suficiente. É isso que quer dizer à sua criadora? – esbravejou o cipreste.


— Não… eu devo ficar aqui então?


— Sim, você deve, é o lugar que você merece.


Pensativa, Júlia saiu do galho do cipreste e pôs-se a voar para uma árvore mais próxima, que estava dormindo, cantando para si própria, se questionando o que seria correto de se fazer.


— Que decisão difícil. Porque tudo que quero é errado? Não quero mais um lar, queria conhecer os lares de várias pessoas. Porque a mãe natureza não entende que não sou ingrata? Só quero aproveitar tudo que ela me oferece?


— Sabe… – uma voz grave misteriosa se interpôs – não deveria acreditar em tudo que o cipreste diz, ele não entende a mãe Natureza mais do que a gente.


Com um pulo, a andorinha se virou na direção da voz. Era uma joaninha.


— Olá joaninha, obrigado pelo conselho, mas o cipreste é o mais velho da floresta, ele conhece mais da mãe natureza que a gente. Todo mundo acredita nele, escolhemos ele como representante dela nessa floresta.


— Primeiro… não me chame de joaninha, meu nome é Tobias. Segundo, ele pode ser velho, mas ele não estava lá quando a mãe natureza criou tudo. Ele não pode dizer por ela.


— Isso é verdade, mas ainda sim, todo mundo respeita ele.


— Ser velho não te torna certo. Siga seus instintos, eles te conhecem mais que ele.


— Vou pensar sobre isso, obrigado Tobias.


Passa-se alguns dias, e Júlia acorda de seu sono com um barulho alto. Com um sobressalto, ela sai de seu ninho dentro de uma árvore jovem e olha para o lado de fora: uma grande montanha perto da floresta havia explodido, e saia fogo e cinzas para todo lado. A montanha próxima ao bosque era um vulcão!


Desesperada, a andorinha começa a voar para escapar da nuvem de cinzas e chamas. E vê Tobias, a joaninha voando como um raio para o lado oposto das chamas. Ele iria fugir.


— Corram, fujam por suas vidas! – gritava Tobias.


Julia fez o mesmo, mas passou por um local conhecido e parou.


— Cipreste, você não consegue fugir. Vai ficar bem? – ela pergunta desesperada para a árvore.


— É o que a mãe natureza decidiu para mim. Nem se eu pudesse, eu iria sair daqui, é meu lugar. Você deveria ficar também.


— Mas vamos todos morrer! – Júlia se desesperou.


— Que seja! Mas não vou me rebelar.


Júlia travou por um instante, mas tomou sua decisão: fugiu o mais rápido que podia.
Já longe do local, pôde ver a lava engolindo a floresta, e o grande cipreste em agonia morrendo sufocado pelas cinzas. Em seus últimos pensamentos, ele perguntou: “será se não tinha um lugar melhor para eu ir antes de partir?”.

O Legista e o Imortal



O fato de ser um herói do povo o incomodava às vezes…

As pessoas vinham até ele com diversos pedidos: curar doentes, ressuscitar os mortos, garantir sorte na vida e no amor. Talvez, com mais anos de estudo e mais compreensão das leis que regem este mundo, Kasias poderia fazer alguma dessas coisas, no entanto, apesar de nada ser impossível para um Legista, não quer dizer que ele estaria disposto a enfrentar as consequências de seus atos.

Ele mesmo já vira a face da morte várias vezes e voltou, como um guerreiro infernal que nunca está preparado para, enfim, dar seu último alento. Mas o preço que ele pagou, e paga, é profundo como um abismo.

Ele recusa todos os pedidos, falando que não pode fazê-los, mas não é verdade, ele poderia, mas o que perderia no caso?

Certa vez, perguntou ao seu mentor se era possível alcançar a imortalidade, a resposta foi simples e seca:

— Não, você pode fugir da morte o quanto for necessário, usar infinitos sortilégios e truques para mantê-la longe de si, mas no fim, sempre há uma maneira de matá-lo, com você não será diferente, nem mesmo com as calamidades, que possuem poderes inimagináveis. Sempre alguém vai encontrar uma saída.

Era com esse sentimento que se apegava a tudo no geral. Não importa quem sejam, calamidades, legistas, e até as bruxas, todos eles podem morrer, desde que seja criativo e consiga desprender algo de igual valor.

“Nada nesse mundo é eterno, tudo é mutável”

É uma certeza que passava entre legistas, afinal, eram as únicas pessoas neste mundo capazes de fazer dois com dois virarem cinco.

Talvez fosse por isso que ele se animou quando o pedido da vez veio direto do conselho de sábios dos clãs de Faradin.

Eles não pediriam nada estúpido, afinal, eram sensatos. Eram mesmo?

O pedido da vez foi caçar uma possível calamidade que se encontrava nas planícies de Faradin, bem para oeste de onde se encontravam no momento.

Muitas testemunhas dizem que a calamidade aparece de noite e devora as pessoas enquanto estão sonolentas, e volta para seu retiro antes que amanheça.

Isso o fez ter certeza de duas coisas:

O autor dos crimes tem uma certa inteligência, podendo ser capaz de evitar rastreamento e agir quando os humanos são mais frágeis durante a noite.
E a segunda coisa: com toda a certeza não era uma calamidade. Calamidades não possuem padrões, e geralmente podem ser qualquer tipo de coisa, mas nunca ouviu falar de uma calamidade que parasse de destruir em algum momento, ou repousasse em algum local. Até as mais inteligentes e sábias tinham como diretriz inicial e primordial apenas uma coisa: destruir toda a criação.

Um fator dos cadáveres o deixava curioso: aparentemente todos eles foram deixados sem uma única gota de sangue no corpo, e sem nenhum outro ferimento além de duas presas caninas cravadas no pescoço.

A criatura, seja lá o que seja ela, estava se alimentando de pessoas. E era poderosa o suficiente para conseguir matar os duros e perigosos guerreiros dos clãs sem que haja revide ou tentativa de fuga.

Seguindo as pistas e informações dadas por locais, Kasias demorou 2 dias para chegar na região onde a criatura atacava, e mais 2 dias para rastreá-la e achar seu covil.

Quando descobriu onde estava seu alvo, utilizou uma ave de rapina para averiguar o local: pediu para que a ave fosse em tal direção em troca de alguns petiscos (a sua habilidade de se comunicar com animais sempre era útil até certo ponto, quase nenhum animal cooperava por livre e espontânea vontade), e quando o pássaro partiu, ele pegou emprestado sua visão para conseguir ver com os olhos da criatura a grande torre que a criatura noturna havia se escondido.

Olhando para a construção da torre em pedaços, imaginou que era um posto avançado que soldados de Thenkar fizeram centenas de anos atrás, quando dominavam essas terras.

O grande império já havia ruído, mas as cicatrizes que deixaram em Faradin ainda perduraram até os dias atuais.

Era uma torre feita de pedras lisas e cuidadosamente empilhadas de forma com que se tivesse uma visão entre frestas, o que deixava o ambiente propício para a visão de arqueiros, que podiam atacar acima do 3⁰ andar em 360 graus.

Os dois andares de baixo estavam corroídos e uma das paredes havia sido tombada com o crescimento de um grande carvalho, a única árvore alta em quilômetros de distância. Era uma árvore plantada ali, provavelmente por algum Legista, que fosse desafeto do Império Thenkar e desejasse apagar os vestígios de sua presença.

Dessa forma, era possível enxergar o interior da torre, que tinha algumas caixas velhas e puídas de madeira, em que um cheiro terrível de suprimentos podres se alastrava, e uma escada de pedra em caracol que acompanhava a parede da estrutura, levando-a até o último andar (só tinham 3 no momento devido a torre estar em ruínas, mas ao julgar pela quantidade de destroços, deveria ter no mínimo 5 andares).

Mas o que mais lhe chamava a atenção na torre em si, era um caixão luxuoso recostado em sua parede. Tinha um formato bem diferente, que fazia lembrar o artesanato dos melhores artesãos do Ducado Wemyna, mas ainda sim tinha alguns fatores próprios que indicavam que tal item veio de um lugar ainda mais longínquo, cujo próprio Kasias não reconhecia a procedência.

O caixão parecia fora de lugar, como se tivesse sido posto ali. E aquele, sem dúvidas, era o covil da criatura. O que leva a crer que a criatura possui algum interesse por cadáveres humanos, ou então transporta um, as duas opções não pareciam totalmente corretas, mas não tinha muitas opções a não ser investigar.

Saindo dos olhos da ave, e deixando a comida (três coelhos frescos e recém abatidos) no local combinado, ele se preparou para se aproximar do local.

O grande réptil de 6 patas insectóides chamado Dorothy ouviu atentamente suas palavras:

— Dorothy, quero que vigie essa região e impeça qualquer pessoa de chegar perto – vendo o brilho suspeito nos olhos de sua companheira, emendou – sem machucar, muito menos devorar – percebeu o brilho se apagando do olhar do pet – se comporte que lhe trago petiscos diferentes.

Após garantir que o animal leal, porém estúpido, o entendesse, olhou para o animal ainda mais leal, porém mais inteligente: Magnun, seu cavalo.

— Magnun, vamos até lá, mas quando eu descer, melhor você voltar correndo.

“Tá com medo, mestre? Saiba que o grande Magnun não teme a nada, se você quiser, pode ir encontrar alguma humana para acasalar que eu dou cabo no bicho sozinho”

— Claro, assim como deu cabo na cobra anteontem.

“… foi só um susto, não fode”

— Sim, o grande Magnun assustou com uma cobrinha de nada, espera até as éguas do estábulo da vila saberem disso.

“Se você contar, cago na sua comida”

— Vamos ver se você volta para contar a história então.

Foram então, discutindo, mas foram.

Não demoraram muito para chegar nos arredores da torre, e Kasias mandou Magnun embora.

Quando o cavalo se foi, Kasias percebeu que estava ficando de noite, então colocou algumas runas de proteção para impedir que a criatura saísse do local entre as runas, uma barreira que impedisse que ela fugisse.

Além disso, colocou algumas runas de luz para iluminar a região, visto que não sabia quanto tempo duraria o confronto.

Quando terminou os preparativos, sacou a sua enorme lança em formato de cruz, alongou os músculos e caminhou em direção à torre.

Girando a pesada arma entre seus dedos, chegou perto do caixão, o analisando sem chegar muito perto. A aura dele era bem opressiva, como se o avisasse para não perturbar.

Com certeza tinha algo perigoso lá dentro, a criatura era um humano então?

Tirou um dos brincos de prata da sua orelha e, com um balançar de pulso, o brinco havia se tornado uma espada curva de prata reforçada com aço.

Para testar, lançou a arma na direção do caixão, que fincou na região onde deveria estar o peito da criatura, caso fosse um caixão feito sobre medida.
Aparentemente, nada aconteceu. Havia, de fato, alguém lá?

Chegou mais perto e retirou a espada do caixão, examinando com cautela sua textura e vendo se havia algo no buraco que havia feito.

Aparentemente nada.

Lentamente, tocou o caixão com a mão e achou a abertura para abri-lo. Com cautela, abriu-o devagar, espiando por dentro o que havia lá.

E foi com espanto que percebeu que não havia nada lá dentro, a não ser um bilhete escrito com sangue:

“Impressionante o quanto humanos sempre procuram primeiro no objeto mais diferente do recinto, é um ótimo chamariz”

Assim que compreendeu o significado dessas palavras, começou a erguer a guarda, mas foi tarde demais.

Em um golpe limpo, viu sua mão direita no chão, ainda segurando a pesada lança, e sentiu uma dor forte no pescoço, e suas vistas escureceram.

O que restava era um homem, de pé, com vestes negras e vermelhas bem elegantes, uma espada longa em sua mão direita, que, apesar de ser bem pesada, era equilibrada apenas pelas pontas com garras de seus dedos.

Antes que a iluminação iluminasse seu belo rosto pálido de olhos vermelhos por inteiro, Kasias já estava no chão, sem um braço, e com quase nenhuma gota de sangue no corpo.

Limpando seu cavanhaque negro e liso repleto de sangue com um pano com bordados, o homem alto suspirou:

— Nenhum caçador de vampiros de verdade deixaria a guarda tão baixa em um covil, pobre humano, era tão belo… talvez eu o reviva como meu servo imortal.

Virou-se de costas para o cadáver.

— Mas antes, devo me alimentar mais, ainda tenho sede, quando voltar, decido o que faço com teu corpo.

A espada que ele segurava se desfez em névoa sombria e ele deu alguns passos para longe de seu caçador.

E dessa vez, foi sua vez de ser surpreendido: a ponta da lança do inimigo tinha perfurado exatamente seu coração, ele podia ver porque a arma havia o atravessado pelas costas e sua ponta saia de seu peito como um enfeite macabro.

Gritou de dor, e sentiu mais um golpe em seu pescoço, fazendo sua cabeça girar e voar alguns metros até cair no chão.

— Então é assim que enganou os outros guerreiros? – Kasias estava de pé segurando Jormun, sua lança, com o braço direito, e sua espada/brinco com o braço esquerdo – não é atoa que ninguém conseguiu te derrotar, é um truque sujo. Por sinal, o que seria um vampiro?

O corpo da criatura da noite se desfez em névoa e ressurgiu intacto a alguns metros do rapaz, mantendo a distância segura.

— Estou surpreso, que tipo de ilusão foi essa? Me enganastes com sua lábia – o vampiro rosnou, mostrando os dentes caninos.

— Não é nenhuma ilusão, é apenas a maneira com que luto… – Kasias piscou, balançando a cabeça – veja bem, para golpe que acertar em um inimigo, tenho direito a anular um ferimento e golpe que recebo, é assim que funciona a minha lei.

O vampiro sorriu, demonstrando surpresa.

— Tens certeza que podes ficar a revelar como sua magia funcionais? Tu és um tolo se acredita que não sou capaz de passar por cima disso.

— Não é magia, meu caro, é assim que o universo funciona, é assim que a natureza deseja que seja. Já você, não sei como sobreviveu. Tem a ver com esse lance de vampiro?

— Realmente não sabeis o que seria um vampiro? Tão poderoso, e tão ignorante… é uma pena, mas um vampiro não pode ser morto, já estou morto.

O olhar de Kasias estreitou.

— Não existem imortais, irei lhe provar.

A espada do vampiro voltou a aparecer em sua mão, como se surgisse a partir da própria sombra.

— És deveras jovem para me dar uma lição, garoto – sibilou – mas me impressionaste o suficiente para que eu me questione quem sois vós, e queira saber o vosso nome. Então se apresente! Ó guerreiro misterioso, e conhece a ira de Vlad Dracula Tepes III, o conde de Wallachia.

— Estou honrado, há muito tempo não encontro um nobre, mas temo não saber onde fica essa tal de Valáquia. Me chamo Kasias, sem sobrenome mesmo.

A troca de golpes durou um instante, apesar da velocidade e força descomunais do vampiro serem aparentes, Kasias era ainda mais forte e mais veloz, e principalmente, mais habilidoso.

Em segundos, o vampiro estava caído e sua espada quebrada.

— Impressionante… me derrotou com facilidade – o vampiro começou.

— Impressionante que seu sotaque antiquado tenha sumido, isso quer dizer que vai me levar a sério? Seria uma pena se eu te matasse antes que tentasse revidar de fato – Kasias disse.

— Para ser sincero, gosto de um bom show, e ser temido tem muito a ver com aparências e performances – Vlad se levanta e olha nos olhos do rapaz, olhos vermelhos encaram os olhos magenta – mas não parece me temer, nem mesmo meu olhar hipnotizante funciona, então serei forçado a me exercitar – a voz de Drácula ficou mais séria e ele se empertigou – não sou um guerreiro, como pode ver, sou um conjurador.

Erguendo as mãos ao alto, pronunciou algumas palavras em língua desconhecida, mas antes que terminasse, percebeu que sua garganta foi cortada.

— Nada disso, não vai conjurar ninguém, apenas morra logo – com mais alguns cortes limpos, o corpo de drácula jazia em pedaços no chão.

Mas durou pouco tempo, em instantes, a grama seca das planícies havia se tornado vermelha, e diversos olhos e mãos humanas saiam das sombras que a luz da lua provocava.

Diversos cadáveres, alguns humanos, outros não, saíram das sombras e se erguiam para lutar contra o rapaz. Muitas criaturas desconhecidas de todos formatos e cheiros diferentes também apareciam, todas elas com um instrumento mortal pronto para acabar com o rapaz.

— Sou um necromante e mestre de demônios – a voz de Drácula surgiu de algum canto na noite, enquanto as sombras feitas por ele engoliam as runas luminosas de Kasias – tente acabar com meu exército e me encontrar. Estou em algum lugar por aqui.

Sua risada ecoou pelas planícies, mas o rapaz mal ouviu, estava desviando dos golpes das bestas e esqueletos, e a cada passo, acabava com uma horda com seus ataques.

“Imagino que tenha alguma razão para sua imortalidade” Pensava enquanto lutava “se eu conseguir descobrir qual é, será possível que eu consiga retirá-la, mas preciso ganhar tempo”.

Após recuperar o fôlego e escapar dos ataques das criaturas, conseguiu subir no segundo andar da torre, e depois para o terceiro.

“O Carvalho vai ser o sacrifício, tem energia o suficiente, foi feito por um legista” disse, olhando para a grande árvore que sustentava a torre.

— Então cara, como funciona esse negócio de imortalidade? Você sempre se regenera se houver sangue? É algo assim? – gritou enquanto derrubava a porta decrépita na legião de criaturas que o caçava.

— Tem interesse, humano? Todo mortal anseia em prolongar sua vida, mas não vou te dar essa informação tão fácil, seja meu servo que lhe proporcionarei vida eterna.

— Não sou muito fã de servir quem não conheço – riu, desviando de alguns golpes e contra atacando alguns, precisava acumular um saldo muito positivo de golpes para começar o ritual – que tal me contar sobre seus objetivos?

— Justo, posso contar no momento que desejo o fim da raça humana nesse lugar estúpido, é tudo que desejo para acabar com meu desprazer. É o mínimo após o que me fizeram!

“Certo, vingança, já tenho uma informação”

— E o que lhe fizeram?

Silêncio, o conde parecia de mau humor.

Após derrotar mais algumas hordas sem dificuldades, Kasias procurou o conde em algum lugar, sabia que estava perto, mas não sabia onde. Não tinha como escapar de sua barreira sem que percebesse.

Ativou algumas runas que estimulavam sua conexão com o mundo etéreo e pôde ver a fonte de energia que animava os mortos vivos flutuando em um local perto da torre.

— Aparentemente odeia os humanos, é uma pena, gosto tanto de minha espécie, sempre soubemos lidar com aberrações como você – provocou – seu lugar era no caixão, meu querido nobre.

— Cale-se, já tive o suficiente de tu! Vocês me fizeram ser assim! Vocês me amaldiçoaram com sua heresia! E vou fazê-los pagar.

“Maldição, é isso!”

Como era uma maldição, já tinha mais ou menos uma ideia do que fazer: não seria possível quebrar a maldição dele assim, sem saber as causas e detalhes, e muitos legistas menos habilidosos ou com menos conexão com a Lei teriam desistido nesse momento. Mas Kasias conhecia bastante sobre maldições, não era um especialista, mas sabia que transferir maldições entre corpos era mais fácil que expurgá-las.

Tinha duas runas de reforço sobrando, então cravou no grande carvalho que sustentava a torre. A maior parte das criaturas estavam já dentro da torre, ou nos seus arredores.

As runas iam proteger a árvore do impacto e teriam um segundo propósito: nomear a árvore. Que ele nomeou como Alucard, o oposto de Drácula.

E o impacto veio depois: com toda sua força, pulou o mais alto que pode, atravessando o teto frágil da torre e ficando algumas centenas de metros acima do último andar.

Girou o corpo no ar e colocou energia em sua lança, arremessando ela com tudo que tinha na direção do solo.

A arma rasgou o ar enquanto viajava na direção da torre, e a atingiu com tanta força que parte dos escombros se desintegraram, arremessando as criaturas noturnas para direções opostas, e fazendo um grande buraco no chão, que se prendia às raízes firmes do carvalho, que se mantinha intacto.

Em queda livre, puxou o outro brinco de sua orelha, que se transformou em um arco composto de madeira.

Usou os galhos do carvalho como almofada para aparar sua queda, quebrando alguns ossos, que prontamente se regeneraram devido ao efeito de seu campo delimitado.

Vendo que as criaturas estavam voltando a se agrupar, mirou o arco no vampiro, que flutuava a uma distância relativamente próxima. Assim que puxou a corda vazia do arco, uma flecha surgiu já engatilhada na arma, que ficava firme sob seu pulso.

Pegou algumas folhas da árvore Alucard para ornamentar a flecha: seria a conexão entre os dois receptáculos.

Mirou bem no corpo enevoante do sanguessuga, que não sabia que estava sendo visto, e atirou a flecha ritualística em seu alvo.

Antes que o vampiro reagisse, a flecha já havia se cravado em seu peito, fazendo ele soltar um berro de dor.

“Ótimo, agora só preciso que ele acerte a árvore com um ataque. Assim vou conectar ambos nomes na próxima runa”

Saiu da folhagem com arco em punho.

— Estou aqui, seu merda. Vou fazer contigo o que os humanos de seu mundo deveriam ter feito!

O vampiro finalmente parecia ter perdido a calma, e viu as criaturas da noite desaparecerem enquanto o conde juntava energia.

“Isso vai doer” Pensou enquanto usava uma runa de sua lança para fazê-la retornar a sua mão.

— Ser sujo e maligno. Como ousa zombar de mim? Um mero humano? Vou lhe mostrar o que é inferno de verdade, não quero mais seu corpo, irei destruí-lo junto com essas planícies malditas.

Ele não estava brincando, a quantidade de energia que estava acumulando em suas mãos era o suficiente para varrer as planícies de Faradin do mapa. Mas graças à quantidade de criaturas da noite que matou, ele conseguia absorver quase tudo.

Em um clarão cegante, pôde ver várias esferas de fogo e energia surgindo ao redor do vampiro, que apontou o dedo para ele.

— Suma!

As esferas caíram sobre a árvore como estrelas cadentes, e a barreira que Kasias havia posto para impedir a fuga do vampiro foi destroçada facilmente, e toda a região seria também, se não fosse o campo delimitado de Kasias absorvendo quase todo o golpe para ele.

Sentiu sua pele, carne, órgãos e ossos queimarem um fogo cruel e impiedoso, mas no fundo de sua agonia, sorriu: o ritual estava completo.

Drácula caminhava com desdém pelo campo devastado: a sua chuva de meteoros não causou o impacto que ele acreditava, parecia que o rapaz tinha bloqueado uma parte. Mas era improvável que ele saísse vivo dali. E Drácula também não se importava, uma hora as suas defesas e truques iam ruir, mas Vlad continuaria eterno.

Mas foi com uma grande surpresa que reparou que a árvore estava nascendo de novo depois de sua devastação e cinzas.

Em poucos segundos, a árvore estava da maneira que estava antes de seu ataque, apesar das chamas que consumiam o local. E a maneira com o que ela se regenerou…

Parecia muito com sua maldição de vida eterna.
Recuou um pouco e sacou uma espada sombria, tentando forçar seus instintos vampirescos ao máximo para encontrar o corpo do rapaz, se houvesse sobrado um.

Mas quando encontrou era tarde demais.

Olhou para cima quando o rapaz caiu da árvore com a lança apontada para seu peito, que fincou em seu coração e o prendeu ao chão.

A dor foi normal, nada com que ele não tivesse se acostumado, mas algo parecia estranho.

Seus movimentos estavam ficando lentos, sua respiração entrecortada, e suas vistas escurecendo.

— Bom, pelo menos você se livrou de sua maldição – ouviu, como se fosse algo distante, a voz do rapaz… do Kasias.

Tentou respirar com dificuldade, percebendo que não se regenerava, mas o ar não entrava em seus pulmões.

E com o último suspiro, se transformou em cinzas, deixando o rapaz sozinho em meio às chamas e ao nascer do sol.

Kasias então olhou para o enorme carvalho que se mantinha de pé.

— Engraçado, uma árvore que nunca cai nem morre. Deve virar uma atração turística daqui um tempo.

Esticou seu corpo nu pela planície. O fogo havia consumido suas vestes.

Mas algo ainda o preocupava:

“Eu prometi petisco para Dorothy, tenho que achar algo antes de voltar”.











Depois do Acidente

Todo mundo precisa de alguém que possa confiar, ainda mais após um acidente que o deixou debilitado e precisando de cuidados extras. Lucas Leão não tinha alguém assim, afinal, sempre foi um cara que preferia a solidão e a retidão que a multidão e a esbórnia.


Talvez fosse por ter percebido isso que a garota com quem estava saindo há algumas semanas tivesse oferecido tomar conta dele até melhorar.


Lavínia Melo era uma garota mais jovem, ainda estava na faculdade, cursando engenharia química, enquanto Lucas, embora não fosse tão mais velho assim, já havia se formado e agora trabalhava como veterinário em uma clínica da cidade de Santos.


Como seu apartamento era pequeno e não tinha elevador, para que pudesse subir com cadeira de rodas, ele aceitou o generoso convite para que se mudasse temporariamente para a casa de Lavínia, que embora não fosse também tão luxuosa, era bem melhor que sua kitnet bagunçada do centro da cidade.


Era uma situação constrangedora para Lucas, não gostava de ser servido ou que o tratassem de maneira especial, mas seu quadril ainda não havia sarado, e ele mal podia andar, então tinha que engolir seu orgulho quando Lavínia lhe carregava para cima e abaixo em sua cadeira de rodas.
Não havia muitas horas que ele havia se acomodado na casa: tinha um quarto para ambos, que parecia apertado agora que a moça colocara uma segunda cama de solteiro para simular uma de casal; a casa também continha um banheiro espaçoso, uma despensa, uma cozinha e uma sala de estar com uma grande TV que a moça dizia ter ganhado em um bingo.


Mas desde que chegou, Lucas estava apreensivo: conhecera Lavínia no tinder, haviam saído apenas algumas vezes, de fato, mas sempre conversavam pelas redes sociais, ela era uma boa garota, esforçada e trabalhadora.


Mas ficar sozinho na casa dela enquanto ela estava na faculdade era realmente desconfortável.


Ele estava sentado na poltrona confortável que ficava na sala de estar. Esticou o braço e, com esforço, conseguiu pegar o controle remoto da TV e a ligou, sintonizando em um serviço de streaming para assistir uma série que seus colegas de trabalho lhe indicaram. Era um thriller de terror bem feito e com orçamento elevado, sobre uma garota que namorava um cara possuído pelo demônio, e tinha que se esconder dele durante a noite.
Era interessante, mas Lucas não acreditava em demônios, era ateu e cético. Então a experiência era diferente para ele: via a série como uma maneira de se entreter, sem realmente sentir apreensão ou medo pelos personagens. Sabia que, para alguém nascido em família cristã, a série seria bem assustadora, pois o temor do Diabo e de seus demônios estava incrustado em suas almas desde a infância. Mas não teve uma criação religiosa, a palavra “demônio” soava tão bobagem para ele quanto a palavra “vampiro” ou “lobisomem”.


Quando percebeu, já eram quase 21 horas da noite, havia quase assistido a série toda durante a tarde. E estranhou o fato de Lavínia ainda não ter voltado da faculdade.

A aula dela acabava às 19 horas.


Preocupado, mandou uma mensagem em seu celular:


“Lavi, está bem? Ainda está na faculdade?

Teve algum imprevisto?”


No mesmo instante que mandou a mensagem, a notificação de visualizada apareceu. Ela viu a mensagem ao menos.


Mas nenhuma resposta.
2 minutos…
5 minutos…
7 minutos…
10 minutos…


Ele ficou apreensivo, e mandou um ponto de interrogação, que logo foi visualizado também.


Mais cinco minutos se passaram, e antes que ele ficasse mais ansioso, ouviu alguém adentrar a porta.


A poltrona estava virada de frente para a TV, o que fazia com que ele ficasse de costas para a entrada. Percebeu que os passos delicados que adentraram a residência eram de uma moça, muito provavelmente.


— Lavi? É você?


Alguns segundos de silêncio.


— Sim. Vou só passar no banheiro antes, preciso me banhar. Precisa de algo? Conseguiu usar o banheiro quando foi necessário? – a voz de Lavínia respondeu parecendo apressada na cozinha.


Alívio…


— Ah, tudo bem, vai lá. Estava preocupado com sua demora, achei que tinha acontecido algo. E você não me respondeu também – desligou a TV e tentou se levantar, ainda com dificuldade, mas conseguiu dar alguns passos, o suficiente para ver a silhueta da moça entrando no banheiro – consegui ir no banheiro sim, mas a mobilidade ainda está terrível. Vai precisar de algo?


— Não, tá tudo bem – a voz dela estava abafada no box, e pôde ouvir a água escorrendo pelo seu corpo nu enquanto ligava o chuveiro – já já faço uma jantinha, tá bom?


— Claro, Lavi, perdão por incomodar.


— Imagina! Gosto de sua companhia.


Com esforço, Lucas girou os pés para voltar para a poltrona. Como já estava de noite, e ele não queria se levantar para acender as luzes, a casa estava bem escura, e isso foi o suficiente para ele não perceber que tinha pisado em algo molhado.


Em instantes, soltou o ar enquanto sua perna debilitada escorregava na superfície molhada e viu o mundo girar em quase 180⁰ ao bater as costas no chão. Seu grito abafado saiu como um espasmo curto de dor quando o seu quadril fraturado sentiu o chão duro da sala.


As lágrimas chegaram aos seus olhos com velocidade, mas a dor lancinante se atrasou, crescendo implacavelmente enquanto agonizava no chão. As vistas, já escuras devido a falta de luz, ficaram ainda mais sombrias, e ele apagou.


Abriu os olhos novamente, estava deitado em um líquido pegajoso, não sabia o que era, mas imaginou, por alguns instantes, que era seu próprio sangue.


Tocou o líquido misterioso com a ponta dos dedos, tentando discernir o que era. Cheirou-o, levando os dedos molhados ao nariz, tinha cheiro de ferro. De fato, era sangue.


Mas não era o seu, tocou seu corpo para conferir, não tinha nada exposto ou ferida que vertia do líquido viscoso e rubro.


Ainda confuso, tentou lembrar de onde tinha vindo o sangue, não conseguiu. Seria de Lavínia? Por isso ela correu para o banheiro? Ela estava bem?


Ainda ouvia o barulho do chuveiro ligado, mas ele não parecia tocar em nada antes de chegar ao chão. O som era constante e ininterrupto.


— Lavi, você está aí? Está machucada? Tem sangue aqui na sala. Aconteceu algo?


Silêncio.


Sentiu o celular vibrar algumas vezes. Abriu a tela e viu as notificações: 17 ligações perdidas de Carlos, o colega de Lavínia que lhe dava carona.


Tentou retornar, mas pareciam estar tentando ligar um para o outro ao mesmo tempo. Tinha algo errado, ele estava apreensivo.


Com o canto do olho olhou mais uma notificação do aplicativo de mensagem:


“Me perdoa, eu não vi ele vindo”


Era uma mensagem de Carlos.


Tinham várias mensagens, ele abriu e começou a ler algumas:


“Meu Deus, estou desesperado”
“Não sei o que fazer, foi muito rápido “
“Ela não tá respirando”
“Já chamei a ambulância, eles estão demorando”
“Foi no campus”
“Não vi o caminhão, o carro tá detonado”
“Meu Deus, acho que ela tá morta”
“Me perdoe”


E tinha a foto de um carro na galeria de mensagem. Um carro tão amassado e irreconhecível que parecia impossível que alguém lá dentro houvesse sobrevivido. Era o carro de Carlos.


Com o coração pesado e aflito, atendeu a ligação:


— Carlos, alô? O que aconteceu?


A voz do outro lado era quase irreconhecível, de tão chorosa, parecia balbuciar e cuspir palavras sem sentido:


— Eu não vi, eu não vi. Estava distraído…


Repetia sem parar.


— Carlos, acalme-se – disse isso e praguejou mentalmente quando viu a notificação de que seu celular estava com 5% de bateria – me diga, pausadamente, o que aconteceu? Onde você está?


— A gente tava voltando cara… – ele soluçou e deu uma pausa – aqui no campus, sabe? Aquele cruzamento na avenida – soluços maiores – quando fui passar, um caminhão… no sinal vermelho – começou a chorar copiosamente.


— Um caminhão? Você está bem?


— Eu tô… tô no hospital, quebrei algumas costelas – continuou chorando – mas a Lavi, a Lavi… – começou a chorar muito de novo.


— Carlos, ela tá bem, ela acabou de…


— A Lavi morreu na hora cara… o caminhão bateu do lado dela… eu vi tudo, o pescoço…


— Como? QUE? – estava em choque, era uma pegadinha?


— Quando os enfermeiros chegaram, ela já tinha…


— Cara, como assim? Ela tá aqui em.casa comigo, está no banho…


Silêncio.


Olhou para o celular, a bateria havia acabado.


“Merda” praguejou, o carregador estava em cima da mesa.


Tentou se levantar, mas não conseguiu, a dor no quadril era imensa. Se arrastando em direção à mesa, tentou alcançar o carregador, usando os braços para se locomover.


Arrastou-se, o sangue no chão deixou tudo mais fácil, mas não conseguia alcançar o carregador em cima da mesa, estava alto.


Tentou se firmar, mas uma dor excruciante lhe avisou que não era uma boa ideia.


— Lavi, você tá aí, né? É uma pegadinha? Se for, não tem graça, está doendo muito e estou preocupado de verdade.


Silêncio, o chuveiro desligou.


— Pegadinha? Do que tá falando? – a voz dela parecia tranquila, apesar de abafada.


— Do acidente, igual o meu, que tive alguns meses atrás, do sangue na sala, do Carlos… se isso for uma piada, não tem graça.


Silêncio, ouviu o box abrindo e seus delicados pés saírem dele.


5 minutos se passaram sem resposta.


O secador ligou e começou a trabalhar.


— LAVÍNIA! É sério, eu preciso de ajuda!


Mais 10 minutos até o secador desligar, o coração dele estava saindo pela boca, o sangue do chão parecia subir pela sua pele e puxá-lo para baixo.


“É isso, não sei o que tá acontecendo, mas não vou ficar aqui” lentamente, passou a rastejar na direção da porta, iria achar ajuda lá fora.


Rastejou, deixando um rastro de sangue por onde passava, com um esforço colossal nos braços, mal sentia a dor das pernas e costas devido a alta dose de adrenalina. O som de passos descalços e delicados saindo do banheiro o deixou alerta. Mas os passos estavam indo na direção contrária, até o quarto, em que a porta fechou quase silenciosamente. Isso fez com que ele relaxasse um pouco, mas continuou: faltavam uns 5 minutos para chegar na porta, que estava entreaberta, viu a luz dos postes do lado de fora iluminarem seu rosto como se fosse uma salvação divina.
Finalmente chegou a porta, estava livre… abriu ela movimentando a cabeça e a empurrando para fora. Ele viu o jardim que tinha que atravessar: era curto, mas o caminho era de cascalho, doeria um pouco.


Suspirou e começou a rastejar no cascalho, procurando algum sinal de vida no lado de fora. Era um bairro afastado, quase desértico, mas tinha que ter alguém ali.
Ouviu, com desespero, a porta do quarto de Lavínia se abrir, alguns passos – agora com sapato – pisando no assoalho de madeira da sala de maneira calma.


Apertou o passo, seu queixo sangrava e estava em carne viva, de tanto arrastar no cascalho.


Sentiu os passos lá dentro se apressarem em direção à porta da casa, ela estava chegando perto.


Com todo o ar de seus pulmões, gritou:


— Socorro! Alguém! Por favor!


O silêncio da noite foi sua resposta.


Ouviu a porta batendo atrás dele e o som de sapato no cascalho se aproximando devagar.


— Sai de perto, quem é você? Sai, sai! – berrava em desespero.


— Lucas, acalma, sou eu, Lavínia.


A voz familiar quase fez com que ele hesitasse, mas algo fez com que ele gelasse: um dos postes de luz estava logo acima dele, e a garota estava perto de seus pés… mas nenhuma sombra tinha se formado.
Tentou olhar para trás, mas seu queixo estava tão ferido, que só escorregou em seu próprio sangue e tombou de lado.


— Vamos Lucas, vamos voltar, vou cuidar direitinho de você agora, não vou mais te abandonar, ok?


Choramingando, se debateu para tentar olhar para trás, mas um toque de uma mão delicada e pequena o fez parar. Quase se acalmou, mas a mão estava muito gelada.


— Por Favor, me deixa – Lucas gemeu.


— Vamos ficar juntos agora… para sempre.


Fechou os olhos quando a mão tocou sua bochecha, e essa foi a última coisa que ele sentiu.

A ressurreição no quarto 1609

O barulho das rodas do carro estava ressoando nos seus ouvidos como uma sinfonia pouco convidativa, não gostava do asfalto. O conceito em si de algo que se liquefazia e solidificava em meio-ar para que pudéssemos pisar e locomover em cima lhe era estranho. Como se o líquido formado anteriormente por seres vivos únicos e majestosos hoje apenas servisse como uma base para que pudéssemos explorar e desprezar, sem que nunca se pudesse lhe dar o verdadeiro valor.


De todo modo, duvidava que seu sentimento fosse compartilhado com o taxista que o levava ao hotel que abriu na região. Tinha um nome deveras espalhafatoso: Hotel Fantástico, e parecia ser um local aconchegante, mas o que lhe interessava lá não era o aconchego e luxo, e sim a localização.


Estava lendo um livro digital qualquer que comprou na promoção. Era de um autor italiano do século XIX, havia esquecido seu nome, mas uma frase parecia ressoar em sua cabeça como as próprias vibrações da estrada: “O amor, para ser perfeito, devia ser como o rotífero: morrer num raio de sol, renascer numa gota de orvalho”.
Era isso que ele buscava naquele quarto de hotel, renascimento. E finalmente havia descoberto como fazer isso…


— Sir Crowley? Parece que a avenida está bloqueada pela PRF, vou pegar um desvio lateral, está tudo bem? Você disse que estava com pressa para um compromisso, não é?


Crowley… o nome de um ocultista famoso, era o nome que dera ao taxista para evitar usar seu nome de nascença. Mal sabia o pobre trabalhador que a polícia rodoviária estava fechando a avenida para pegá-lo.
Quanto ao compromisso, disse-lhe que era um contador. De certa forma era verdade, trabalhava com números também, mas não da forma que imaginava o funcionário público.


— Pode fazer como quiser, Mathias, o importante é chegar no hotel – respondeu com um sorriso despreocupado, afinal, após aquela noite, tudo estaria resolvido.
Não demoraram muito para chegar ao referido hotel. A estrutura era legal, tinha umas decorações festivas, com dragões, elfos, goblins e seja lá o que mais forem essas coisas de literatura fantástica que os comuns gostavam de cultuar.


Não prestou tanta atenção assim, mas tinha algo que o encucava: o número de seu quarto era auspicioso, 1609…
16 era o número da perfeição física, o quadrado do número 4, o auge da força material, e também significava a queda pela arrogância. Lembrava a ele da história da torre de Babel.


0 era o vazio, aquilo que existia antes da criação, antes da gênese, e antes do próprio universo, a ausência do essencial.


Mas o 9… o nove era um número que voltava sempre a ele, era o número da ressurreição, um número que demonstrava que podíamos voltar para tentarmos sempre, e isso o deixava esperançoso. Como se o próprio número de seu quarto contasse sua história: ele atingiu o auge de poder no passado, devido à sua arrogância ele caíra, passou tanto tempo no limbo, perdido. E agora… ele iria renascer, mas não só ele.
Agradeceu ao taxista e pegou sua mochila preta que estava no porta malas do carro. A viagem já havia sido paga previamente, então ele já se dirigiu ao saguão.


Novamente, deu o nome falso assim como os documentos falsos para a recepcionista de olhar perdido e distante que acabou de tirar os olhos de suas redes sociais para atendê-lo:


— William Crowley? Quarto 1609, certo? Está aqui sua chave, tenha uma ótima noite senhor, espero que aproveite nosso hotel – ela repetiu monotonamente o discurso programado em sua mente e voltou a olhar para seu smartphone.


“William” pegou sua chave e sua mala e se dirigiu ao elevador, dividindo-o com um senhor pálido de trajes escuros e com óculos de sol.


Sem trocarem uma única palavra, se separaram no primeiro andar, o andar de “William”, e o rapaz encontrou seu quarto ao final do corredor, à esquerda.


Foi então que William deixou de ser William e voltou a ser Fernando Baptista Júnior, o homem mais procurado do Brasil. Era naquele dia que teria sua namorada de volta, mesmo com todo mundo dizendo que ele a havia matado.


Trancou o quarto e começou a se preparar: faltavam mais de 2 horas para as 22:00, então havia tempo para que o ritual de evocação começasse.


Pegou a bolsa preta que trazia consigo e retirou de lá seus 5 catalisadores: um ovo de ferro banhado em cobre e prata; uma adaga enferrujada com inscrições em azul; um conjunto de dados de 100 lados cobertos de sangue seco; uma aliança de ouro partida ao meio e o crânio limpo e empalhado de um corvo.


Usando uma bússola, mediu o norte, e usando-o como ponto de referência, colocou o primeiro catalisador na ponta boreal, e os outros quatro de modo que se formassem 5 pontos equidistantes entre si. Com um giz, desenhou entre eles as linhas de um pentagrama.


Após isso, com uma faca cerimonial, foi repetindo as palavras que aprendera naquele dia.


Isso durou até às 22:00 em ponto, quando finalmente abriu os olhos e viu a criatura enevoada à sua frente.


Antes que qualquer coisa acontecesse, ele bradou:


— Guardião das correntes, prostre-se
E foi assim que grilhões da mais profunda escuridão prenderam e moldaram a forma da criatura, que aparecia claramente em sua frente sob a forma de uma criança de cabelos loiros bagunçados, cachecol, olhar maroto e roupas claras. Conhecia aquela forma, era o pequeno príncipe de Saint-Exupéry.


A criatura tomava várias formas, de acordo com o que o contratante imaginava ver. Era um mistério ainda qual o padrão de formas tomadas por “Aquele que Regride”, mas em toda a literatura, poucos bruxos haviam conseguido domá-lo sem sequelas.


— Está pronto para o procedimento, meu amo? – a voz da criança saiu distorcida em lábios fantasmagóricos, mas ainda era doce.


— Estou – respondeu simples, sem firulas.


— Não temos muito tempo, então começaremos com o primeiro trauma: o nascimento.


O ovo de ferro se levanta em meio-ar e se aproxima de Fernando.


Esse trauma ele já esperava superar. De fato, era correto dizer que já havia superado o fato de ter sido trazido ao mundo contra sua própria vontade, de ser forçado a tomar suas escolhas, a sofrer por elas e morrer por elas. Então o ovo nem mesmo chegou a se iluminar quando o brilho já havia se apagado, não há como lamentar o nascimento de um homem que já morreu há muito tempo.


Então o primeiro desafio foi cumprido.


— Muito bem, iremos para o próximo… – “Aquele que regride” passou para o próximo item: A adaga quebrada.


A paisagem do então hotel luxuoso e repleto de desenhos fantásticos se altera e Fernando se vê na rua de sua infância, com seu amigo Felipe.


Eles não sabiam naquela época, mas era a última vez em que se veriam.
Os pais de Felipe iam se mudar para a fronteira, sua mãe era oficial do exército, e Fernando nunca lhe disse adeus, para o seu primeiro amigo, o primeiro que lhe acolheu em toda sua vida.


Foi uma surpresa, havia reprimido aquela memória… mas ainda sim teve forças para continuar.


Abraçou as lembranças do amigo com força e as deixou ir dessa vez, se despedindo e não mais as guardando no fundo de sua alma.
O brilho da adaga se apaga, era o brilho da “falha”, da virilidade perdida por meio do problema em se comunicar. E também cai ao chão.


Em seguida, os dados com sangue seco se aproximam.


“O acidente”


Aquilo que muitos temem, mas poucos sabem como evitar. E menos ainda sabem que não se há como evitar: o medo da aleatoriedade do sofrimento, de que tudo pode dar errado a qualquer momento e nem sempre a culpa é sua.


Foi aquela vez que bateu o carro após o descuido de um motorista bêbado, havia quebrado algumas costelas e ficou manco, os dados que carregava em seu bolso para uma partida de RPG ficaram cobertos pelo seu próprio sangue.


Mas nada disso importava hoje, não tinha mais medo do acaso, ele era poderoso o suficiente para controlá-lo. Então o brilho dos dados se apagaram. Olhou para a criatura: não era mais o pequeno príncipe, era uma fera que babava e consumia seu desespero, um ser peludo e monstruoso, a cada vez que ele ganhava, a criatura também ganhava, mas no final, ele iria prevalecer.


A aliança partida começa a brilhar desta vez: Vitória, sua ex-mulher, havia o traído. A única pessoa que confiava naquela vida estava traindo-o com o seu próprio pai que abusou dele.


Aquilo foi o suficiente para fazê-lo cair em uma espiral de loucura e autossabotagem, quase se matou naquele ano. Mas ainda sim… tinha luz no fim do túnel, essa luz…
A lembrança dessa luz, a possibilidade de vê-la novamente o fez enfrentar esse trauma mais uma vez. A fera parecia decepcionada, mas sabia que o próximo trauma iria fazê-lo fraquejar.


A caveira de um corvo… “A Morte”.
Gabriela, sua namorada, a luz no fim do túnel. Aquela que a salvou de seu passado, e morreu devido ao seu erro. Ele havia tentado esse ritual uma vez antes, iria transformá-los em imortais para se amarem para sempre, mas… Lágrimas saíram de seus olhos. “A arrogância traz a queda” ele estava preparado?


A fera avança, as cortinas se fecham.


Epílogo:

Lis é o nome dessa ave, é o que sobrou naquele quarto de hotel.


“Aquele que Regride” estava morto, era seu ódio acumulado, tudo que sofrera.


Aquilo era a ressurreição que queria? Ele queria ressuscitar ela… queria a Gabriela.


Mas agora ele era Lis.


Voou pela janela.


E observando todos caminhando calmamente nas ruas, vários metros abaixo dele, Lis se irrompeu em chamas azuis, e, assim como todo seu rancor, se foi para sempre. Foi morar puro no alto, talvez, só talvez, ao lado dela.

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